MP pede que TCU apure possível conflito de interesse de Guedes por offshore

Ministro Paulo Guedes com Ariton Antonio Soligo (Cascavel) , assessor especail do ministro da Saúide, Eduardo Pazuello, durante entrevista sobre vacina e auxílio emergencial, no Palácio do Planalto. Sérgio Lima/Poder360 08.03.2021

O procurador do Ministério Público junto ao TCU (Tribunal de Contas da União), Lucas Furtado, protocolou nesta 3ª feira (5.out.2021) uma representação na Corte pedindo a apuração de possível conflito de interesse envolvendo a atuação do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do presidente do BC (Banco Central), Roberto Campos Neto. Ambos mantiveram offshores no exterior mesmo após assumirem os cargos, em 2019.

Eis a íntegra (158 KB).

Como revelou o Poder360 em reportagem que integra a série Pandora Papers, do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, na sigla em inglês), Guedes manteve ativa a offshore Dreadnoughts International Group Limited mesmo após se tornar ministro da Economia, em 2019. A empresa do ministro foi aberta em 2014 e é estimada em US$ 9,5 milhões.

Campos Neto teria seu nome ligado à Cor Assets, criada em 2004 com aporte inicial de US$ 1,09 milhão e encerrada em agosto de 2020.

No Brasil, o arcabouço jurídico permite a criação e manutenção de offshores desde que sejam declaradas à Receita Federal e ao Banco Central e o dinheiro tenha origem lícita. Detentores de cargos e funções públicas, no entanto, estão sujeitos a normas que impeçam o autofavorecimento. Os regulamentos estão previstos no Código de Conduta da Alta Administração Federal e na Lei de Conflito de Interesses.

É justamente este ponto que Lucas Furtado levanta em sua representação. Segundo o procurador, embora seja legal manter uma offshore, os fatos revelados pelo Pandora Papers envolvendo Guedes e Campos Neto “se chocam com o Código de Conduta da Alta Administração Federal”.

Como o Sr. Paulo Guedes, Ministro de Estado da Economia, e Sr. Roberto Campos Neto, Presidente do Banco Central do Brasil, foram citados na investigação jornalística Pandora Papers, torna-se obrigatória a atuação do Tribunal de Contas da União, a fim de que seja apurado se os recursos utilizados para constituir as participações daquelas autoridades em empresas offshore tiveram, de qualquer modo, origem pública”, disse Furtado.

Nesta 3ª feira (5.out), a Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados aprovou a convocação de Guedes para explicar a situação de sua offshore. Na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o ministro da Economia foi convidado a falar no próximo dia 19 de outubro.

O czar da Economia do governo Bolsonaro também é alvo de uma apuração preliminar na PGR (Procuradoria Geral da República). Ao Poder360, o procurador-geral Augusto Aras afirmou na 2ª feira (4.out) que iria enviar um ofício a Guedes para que ele pudesse apresentar informações sobre a offshore.

Desde a revelação feita pela série Pandora Papers, Guedes evita falar com a imprensa.

A série Pandora Papers é a 8ª que o Poder360 fez em parceria com o ICIJ (leia sobre as anteriores aqui). É uma contribuição do jornalismo profissional para oferecer mais transparência à sociedade. Seguiu-se nesta reportagem e nas demais já realizadas o princípio expresso na frase cunhada pelo juiz da Suprema Corte dos EUA Louis Brandeis (1856-1941), há cerca de 1 século sobre acesso a dados que têm interesse público: “A luz do Sol é o melhor desinfetante”. O Poder360 acredita que dessa forma preenche sua missão principal como empresa de jornalismo: “Aperfeiçoar a democracia ao apurar a verdade dos fatos para informar e inspirar”.

Esta reportagem integra a série Pandora Papers, do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, na sigla em inglês). Participaram da investigação 615 jornalistas de 149 veículos em 117 países.

No Brasil, fazem parte da apuração jornalistas do Poder360 (Fernando Rodrigues, Mario Cesar Carvalho,Guilherme Waltenberg, Tiago Mali, Nicolas Iory, Marcelo Damato e Brunno Kono); da revista Piauí (José Roberto Toledo, Ana Clara Costa, Fernanda da Escóssia e Allan de Abreu); da Agência Pública (Anna Beatriz Anjos, Alice Maciel, Yolanda Pires, Raphaela Ribeiro, Ethel Rudnitzki e Natalia Viana); e do site Metrópoles (Guilherme Amado e Lucas Marchesini).
Fonte: Poder 360.

Evento com Bolsonaro tem tom pré-campanha e revista com currículo de ministros


Em tom de pré-campanha, o presidente Jair Bolsonaro e 9 ministros participaram nesta 3ª feira (5.out.2021) de encontro evangélico, em Brasília. O Simpósio Cidadania Cristã reuniu também congressistas aliados do governo. Entregue no encontro, um material impresso detalhava o currículo de ministros, ações do Executivo e continha uma frase atribuída ao presidente.

Na cartilha distribuída aos participantes do simpósio, é apresentado um resumo sobre o currículo e ações dos ministros Milton Ribeiro (Educação), Onyx Lorenzoni (Trabalho), Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional) e Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos).

Como mostrou o Poder360, ao menos 12 ministro do governo Bolsonaro devem se candidatar nas eleições do próximo ano. Dos 9 ministros presentes no evento desta 3ª feira (5.out), 6 deles podem ser candidatos em 2022: Anderson Torres, Damares Alves, Flávia Arruda, Marcelo Queiroga, Onyx Lorenzoni e Rogério Marinho.

A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e a presidente em exercício do PTB, Graciela Nienov, também participaram do encontro. O partido estuda até mesmo a expulsão de filiados, entre eles Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, para atrair a filiação do presidente Bolsonaro.

Veja a lista de ministros que compareceram:

  • Milton Ribeiro (Educação);
  • Onyx Lorenzoni (Trabalho e Previdência);
  • Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional);
  • Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos);
  • Flávia Arruda (Secretaria de Governo);
  • Marcelo Queiroga (Saúde);
  • Luiz Eduardo Ramos (Secretaria Geral);
  • Anderson Torres (Justiça e Segurança Pública);
  • Wagner Rosário (CGU).

A cartilha foi produzida pelo Concepab, Fenasp, Movimento Acorda, Apeb e Conselho Estaduais de Pastores.

Além de Bolsonaro, os ministros também discursaram no evento com os evangélicos -uma das principais bases de apoio de Bolsonaro. Damares afirmou no evento que os evangélicos ficarão “muito tempo no podere que era “melhor se acostumar”. Milton Ribeiro disse que sua “ação no MEC é muito mais espiritual do que política”.

O ministro Onyx Lorenzoni foi chamadomais de uma vez de “futuro governador do Rio Grande do Sul”. No material entregue, Onyx é apresentado como “aliado de primeira hora” de Bolsonaro.

Em um dos textos, é dito que “em 2018 a verdade surgiu como guia para a transformação do país e da vida dos brasileiros” e que “a libertação do Brasil está em andamento” Na cartilha, também é dito que o Brasil enfrentou a pandemia de forma “exemplar”.

Pastores oraram pelos ministros e também fizeram pedidos a Bolsonaro, entre eles, a promoção da educação domiciliar e da pauta pró-vida (contra a legalização do aborto).

A cartilha entregue também contém uma foto de Bolsonaro e frase atribuída ao presidente: “O Brasil tem um presidente que acredita em Deus, respeita a Constituição e valoriza a família”. Ao final do encontro, Bolsonaro ficou mais de uma hora tirando fotos com pastores e congressistas aliados.

O indicado “terrivelmente evangélico” de Bolsonaro ao STF (Supremo Tribunal Federal), o ex-ministro André Mendonça, também falou no evento. Ele aguarda sua sabatina no Senado para assumir vaga na Corte.

Em seu discurso, Bolsonaro defendeu a aprovação de Mendonça no Senado e voltou a defender o tratamento precoce contra a covid-19. Esse tipo de tratamento é rejeitado por especialistas e inclui medicamentos ainda sem qualquer comprovação científica contra o vírus.

A fala do presidente foi transmitida pela TV Brasil, rede de televisão pública do Executivo, que pertence à estatal EBC (Empresa Brasil de Comunicação).

O encontro foi realizado na Igreja Batista Central de Brasília. Na entrada do local, um grupo de 5 pessoas abordava pessoas reunindo “fichas de apoio” à criação do Aliança Pelo Brasil, partido que Bolsonaro tenta estabelecer. Para criar uma sigla é preciso reunir 491.967 assinaturas com apoio de eleitores. As assinaturas devem ser validadas pela Justiça Eleitoral.

O simpósio foi promovido pelo Concepab (Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil), pela Fenasp (Fórum Evangélico Nacional de Ação Social e Política) e pelo Movimento Acorda. O encontro teve como objetivo promover “o despertamento do segmento cristão e a participação efetiva, especialmente dos líderes eclesiásticos, na construção de um Brasil mais justo”.

Veja outras fotos do evento. As imagens foram divulgadas no Flickr do Palácio do Planalto.

Fonte: poder 360.