Tempos estranhos

 

Por Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay.

“Preocupa-te o futuro, eu sei! Não há futuro.”

Luís Carlos Gambogi, poema Epitáfio
A Lisboa de hoje já não é a cidade lúdica e acolhedora de antes. Sou de uma época em que, quando um português ia a Paris, ele comentava, com certo orgulho: “vou à Europa”. Depois da entrada na Comunidade Europeia, a cidade e o país se desenvolveram muito. E, com o crescimento, vieram os problemas acumulados. 

A entrada em Portugal virou um martírio com filas intermináveis. E o mito da segurança já caiu por terra faz bastante tempo. Com frequência, ouvimos falar de assaltos, e a presteza da polícia deixa muito a desejar. A par de tudo, cresce no país um determinado mau humor com os imigrantes, principalmente a partir do crescimento da extrema direita, como, aliás, ocorre em vários outros países. Mas a intolerância, constato, não ocorre só entre os simpatizantes da extrema direita. Observo, com tristeza, certa desumanização entre os defensores da esquerda que perdem parte da natural empatia que deveria caracterizar aqueles que têm uma formação mais humanista.
Estou em Lisboa para fazer uma palestra na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e participar de dois debates literários. Em poucos dias, ouvi relatos de assaltos e furtos. Não só na rua, mas também dentro do conhecido hotel Tivoli, um cinco estrelas na Avenida da Liberdade.
Com o objetivo único de alertar amigos que ainda trazem com eles a impressão de segurança absoluta por estarem na Europa, mandei mensagem para pessoas próximas. Contei, sem dizer o nome, que um querido amigo foi assaltado em frente ao Tivoli, à luz do dia, e teve seu relógio levado por dois homens em uma moto. Com a agravante de certa violência física, deixando-o com uma ferida leve no braço. Como nada entendo de relógio, falei que era um Patek Philippe, que vale alguns milhares de dólares, para alertar contra a ostentação. A reação de pessoas que eu gosto me fez refletir sobre esses tempos estranhos. 

Em resposta ao pequeno alerta, pessoas de direita mandaram mensagens solidarizando-se com meu amigo, perguntando sobre o machucado e, naturalmente, criticando a violência. Para minha surpresa, os companheiros de esquerda enviaram manifestações criticando o assaltado, comentando o preço do relógio e, por incrível que possa parecer, com certo júbilo pelo assaltante ter levado um relógio tão caro.
A responsabilidade imediata pelo assalto passou a ser do meu amigo por ostentar um Patek Philippe em um país onde a pobreza ainda impera e a desigualdade chama a atenção e incomoda.
Andando pelas ruas em qualquer lugar do mundo, neste momento tão constrangedor de guerras e de ódio, sentimos um crescente desprezo pela solidariedade. É comum o não se preocupar com a dor alheia. Se esse desprezo sempre foi uma marca da direita individualista e voltada só para sua mesquinharia, o fato de estar transbordando para todos deixa o mundo não só mais inseguro, mas também sem esperança. E a esperança era o que nos sustentava e nos alimentava.

Remeto-me a Galeano, quando escreveu sobre a utopia: “A utopia é como o horizonte, você anda dois passos e o horizonte se afasta dois passos, você anda dez passos e o horizonte se afasta dez passos. Então para que serve a utopia? Serve para caminhar
“A utopia está lá no horizonte.
Se me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançá-lo-ei.
Para que serve a utopia?
Serve para isso: para eu não deixar de caminhar.”

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Chico: o Deus do meu culto

Chico Buarque e o autor, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, em pelada realizada no Rio de Janeiro em novembro de 2017
Por Kakay
“Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu.
Chico Buarque de Holanda, Valsa Brasileira“.
São vários “Chicos”. Tem o que canta o amor, que permitiu me apropriar de muitas letras românticas para parecer inteligente e charmoso com as mulheres. Tem o que fala da mulher, com uma propriedade que só a alma feminina consegue, e que também me auxiliava nas cartas, nas serenatas e nas noites no Beirute. Tem o político, que ajudou algumas gerações a se sentirem representadas por tanta capacidade de resistência. Com, muitas vezes, uma ironia que não era captada pelos monstros da ditadura e da extrema-direita. A ironia é uma arma fortíssima contra a ignorância. E Chico é um mestre no jogo com as palavras.
Tem o Chico gozador, que sabe rir de si próprio –como quando descobriu nas redes sociais que não era unanimidade nacional. Tem o Chico que fala de detalhes da vida, embaralhando tudo e nos fazendo sonhar. O Chico do cotidiano, que nos dá a sensação de que ele é humano como qualquer um de nós. O homem do seu tempo que não tem medo de se posicionar politicamente em nenhum momento. Que põe a cara a tapa e chama para briga. O Chico apaixonado pelo Fluminense, que se permite vestir a camisa do time e ir ao Maracanã, mostrando que é quase gente como a gente. Como agradeço por ele não ser flamenguista. Se fosse, eu teria um motivo de ter alguma simpatia pelo Flamengo.

O cantor em uma de seus tradicionais peladas de final de ano com Lula

O Chico que joga bola e não sabe perder. Montou um time para poder ganhar, o Politheama, com camisa, campo e tudo. Até o juiz. Joguei contra ele; não pode nem encostar que é falta. E ninguém reclama. Como nos lembra a letra dele, na música “O Futebol”:

“Para estufar esse filó
“Como eu sonhei
“Só
“Se eu fosse o Rei
“Para tirar efeito igual ao jogador
“Qual

“Compositor”.

Todos nós, fãs apaixonados, temos alguma história com ele. Claro que ele não sabe de nenhuma, mas são lembranças importantes para cada um de nós. Recordo-me de um show na minha cidade, Patos de Minas, em que nós, para homenageá-lo, jogávamos milho no palco. A apresentação era na Festa do Milho. Anos depois, ouvi ele dizer que essa foi uma das cenas mais bizarras da sua carreira: os grãos de milho entrando no violão e atravessando o som. Fiquei calado, na minha.

Outra vez, eu havia sido nomeado pelo Conselho Federal da OAB para enfrentar os fazendeiros e grileiros de Rio Maria, no Pará. À época, com algum perigo. O padre da paróquia promoveu um grande show no Circo Voador, no Rio de Janeiro, para homenagear o Márcio Thomaz Bastos e a mim, que trabalhava na linha de frente, entre outros advogados. Todos os grandes da música brasileira estavam lá. Quando soube que o Chico iria cantar, eu, claro, fui. Para minha surpresa, no camarim, ele me agradeceu e disse que a gente fazia um trabalho relevante, por isso ele estava cantando para ajudar a “pagar os advogados”.

O padre havia mentido dizendo que a gente tinha cobrado honorários. Até nossas passagens a gente havia pago. Fiquei na dúvida entre ficar calado e apoiar a igreja, ou desmascará-lo em nome do Deus do meu culto que estava ali, ao vivo. Claro, desmascarei o padre e ainda subi no palco com o Chico. Perdi um amigo, mas ele deveria ter me perdoado. Afinal, eu só disse a verdade. Tem umas histórias engraçadas. Eu gosto de cantar imitando a voz dele. Para mim, a mais bonita e característica do meio artístico. Já cantei, atrevidamente, “Todo Sentimento“ com o maestro João Carlos Martins ao piano.

Certa vez, estava em um trem na Itália, numa cabine aberta, cantando na janela, imprudentemente, aberta. Cantando Chico, claro. Entra um norte-americano, com roupa de texano, e pergunta se eu era o Chico. Era uma época sem Google, internet, inteligência artificial ou telefone móvel. O cara achou que eu fosse o Chico! Ele disse que tinha todos os discos e que era apaixonado. Achei que seria uma mentira boa, do bem. Disse que sim. A alegria dele foi comovente. Imagino ele em casa, no Texas, depois de revelar as fotos e notar que meus olhos não são cor de ardósia.

Poderia contar um monte enorme de histórias, até porque serão tantos artigos em sua homenagem que será impossível ler todos. Mas termino com uma que demonstra o carinho que nós todos temos com o Chico. Quando me separei da mãe dos meus primeiros filhos, ainda hoje minha grande amiga, todo o meu patrimônio era o equivalente a US$ 10.000. Ao sair de casa, um divórcio amigável, queria levar comigo apenas uma coisa: uma foto linda do Chico com seu pai. Como queria aquela foto. Mas a minha então mulher gostava tanto dela que, se eu insistisse, poderia surgir um desentendimento. Fiquei sem a foto e mantive a boa relação. Essa é a força que o Chico exerce em nós.

Agora, aos 80 anos, ele ainda se reinventa compondo, escrevendo e participando da vida política. Quando foi receber o prêmio Camões, em 25 de abril do ano passado, em Lisboa, foi uma festa da democracia. Ele se posicionou ao não aceitar receber o prêmio à época de um governo fascista e lavou nossa alma ao recebê-lo com a presença de Lula. Eu estava lá, feliz da vida. Hoje, aos 80, tem o Chico da Carol. Ele merece por tudo que fez por nós. Obrigado, Chico!

Hoje, aos 80, tem o Chico da Carol.
Ele merece por tudo que fez por nós.
Obrigado, Chico! Da letra que mais amo,
“Todo Sentimento”:
“Te encontro, com certeza
“Talvez num tempo da delicadeza “Onde não diremos nada
“Nada aconteceu
“Apenas seguirei, como encantado

“Ao lado teu”.

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Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay: Somos todos estrangeiros, sempre…

“O suficiente é para quem não ama. No amor, só existem infinitos.” Mia Couto

Saindo da Bienal de Veneza rumo a Paris, sempre fica a ilusão de que a arte vai superar o horror, a mediocridade e a guerra. Embora a gente saiba que não é verdade, sonhar é que nos sustenta. Talvez o ato de simbolismo artístico mais forte, dentre tanta beleza, tenha sido o dos artistas israelenses terem optado por manter fechado o pavilhão de Israel em um protesto contra a guerra, contra a morte e contra o genocídio. Só abrirão quando for decretado efetivamente o cessar fogo e todos os reféns forem liberados. Como a Bienal vai durar até 24 de novembro, ainda podemos manter a esperança. Foi tocante ouvir o silêncio eloquente de um povo e ver uma opção pela paz. A arte e a cultura não combinam com a opressão da guerra.
Tiveram momentos de alta indagação artística, como um ato de um grupo indígena dos EUA com uma dança estranha, que mais parecia o que restou dos aborígenos americanos, trucidados pela cavalaria ianque em uma pajelança que lembrava os índios de parque de diversão. Como tudo pode ser arte, a gente observa, constrangido, quase triste. Mas é uma representação real de um país que assusta o mundo com a volta do Trump.
Sem entender nada de arte, só observando com liberdade, foi lindo ver a força da cultura popular. Um grande espaço para a arte de representação não acadêmica. Que, talvez, seja uma expressão necessária que pode apresentar um sentimento do que a arte significa para um dado período da humanidade.
Os grandes artistas, clássicos, conseguiram, em regra, captar a essência, a alma mesmo, de momentos da história. Às vezes, muito além do momento. Criaram. Viajaram. Contaram histórias ainda não escritas. A história, não interessa se verdadeira, de Michelangelo frente a escultura de David – a mais deslumbrante do mundo – diz tudo. Indagado como conseguiu, ele teria dito: eu me sentei em frente ao bloco de mármore por meses a fio. Fui imaginando David. Um dia resolvi que tinha que criá-lo: e aí peguei o material para entalhar e foi só retirar o excesso. Quando terminei, restou David.
Por isso, acredito na arte como poder de transformação. Não tem polícia matadora de Tarcísio, sentimento racista de Bolsonaro e ignorância atávica de Zema que serão capazes de calar o clima revolucionário de uma exposição como a Bienal. Ali, no meio de tanta criatividade, a gente tem a impressão de que o mundo existe, respira e pulsa além da mediocridade castradora. Tolo de quem, como eu, não consegue enxergar só o poder libertador da arte. Que fica sempre preso à polaridade política. Afinal, a arte existe é mesmo para nos libertar.
Como nos lembrou Nietzsche:
“Temos a arte para não morrer da verdade.”
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Roseana Murray: a mão esquerda

Kakay – Foto: divulgação
“Se eu apagasse a fina linha do horizonte será que o céu cairia no mar? E as estrelas e a lua começariam a navegar? Ou será que o mar viraria céu e os peixes apreenderiam a voar?”
Roseana Murray
Meu velho e querido amigo Presidente Sarney tem uma resposta na ponta da língua quando alguém, inadvertidamente, comenta sobre seus 94 anos: “a outra opção é bem pior”. Viver é uma arte e, muitas vezes, somos submetidos a momentos de profunda provação. Penso, com carinho, na noite em que acordei depois de um grave acidente.
Amarrado em uma cama e com a cabeça enrolada em um capacete de gazes. Achei que tinha morrido. Ninguém sabe como é a morte e, naquele momento, com a lembrança do acidente e do barulho enorme, julguei que era chegada a indesejável das horas.
Quando ouvi uma voz conhecida bem baixinha, ao fundo, percebi que tinha escapado. Na hora, quis saber como eu realmente estava. O que tinha perdido e pelo que teria que lutar. Primeiro, perguntei pelos “países baixos”. A certeza de estar bem foi tranquilizadora. Depois, quis saber da gravidade e a resposta foi seca: “você está cego de um olho e precisamos de 3 dias para avaliar seu risco de morte”. A partir daí, foi
resistir e viver.
Fiz 13 cirurgias no olho, até em Moscou, e os tais 500 pontos no rosto propiciaram muitas histórias. Terminei meu curso na UnB com um olho vendado. O que me possibilitou contar que tinha sido ferido por um tubarão na África do Sul, por uma queda de asa delta e, até, por um amante numa madrugada. Enfim, a vida como ela não é.
Acompanhei, emocionado, a tragédia que se abateu sobre a escritora Roseana Murray. A autora de livros infantis, com 73 anos, foi, covardemente, atacada na porta de sua casa por 3 pitbulls enquanto fazia uma caminhada às 6 horas da manhã. Com a violência da agressão, foi necessário amputar o braço direito e enfrentar lesões no braço esquerdo e no rosto.
A brutalidade dos cães tem que levar à discussão sobre a necessidade imperiosa de se coibir a criação dessa raça. Ela já sofre restrições em cerca de 24 países, como Reino Unido, Espanha, Rússia, Argentina e Itália. Entendo que não são suficientes apenas uma regulamentação e a tentativa de controle. O ideal é a proibição. Basta ver a agressividade com que foi atacada a escritora. É significativa a fala do filho quando foi conversar com ela, ainda em situação gravíssima e com a vida correndo sérios riscos. Ela disse, com a voz bem tênue: “eu quero viver”.
Impressiona ver a sua disposição, a sua alegria até em estar viva. Por mais que só ela saiba das dores que sente e do medo que a acompanha, disse a um programa de televisão que, como escritora, está “se preparando para aprender a ser canhota”. Falou para uma amiga: “Estou aqui, faltando um braço, mas vamos recomeçar de novo”. E agradeceu a equipe médica: “Elas fazem um trabalho de aranhas douradas sobre minha pele. Estou bem”. Anunciou, ainda, que irá fazer um sarau de poesia no hospital e que quer presentear cada um que cuidou dela com um livro que escreveu “autografado com a mão esquerda”. Parece que pensava nela própria ao escrever o poema Pedra Azul: 
“Nos dias em que acordamos
do lado do avesso 
e tudo parece que vira
abismo, basta comprar 
no Armarinho Mágico
a pedra azul de mudar pensamentos.
Segure a pedra com força
e feito um moinho moendo pedras,
tristeza vira alegria 
e dor vira poesia.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
Fonte: www.odia.ig.com.br