Rejeição a Bolsonaro e ao governo ainda é recorde, mas taxas param de aumentar

Presidente Jair Bolsonaro durante entrevista coletiva ao sai do encontro com o presidenrte do STF, Luiz Fux, após fazer afirmações contra o ministro Roberto Barroso, presidente do TSE. Sérgio Lima/Poder360 12.07.2021

O presidente Jair Bolsonaro e a sua gestão frente ao Palácio do Planalto seguem em seu momento de maior rejeição, segundo pesquisa PoderData realizada nesta semana (19-21.jul.2021). As taxas ficaram estáveis em relação às do levantamento anterior, feito 15 dias antes, com variações dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais.

Na pesquisa divulgada nesta 4ª feira (21.jul.2021), 56% avaliam o presidente como ruim ou péssimo, uma oscilação de 1 ponto para cima em relação a duas semanas antes. Para 26%, o desempenho de Bolsonaro é bom ou ótimo; 15% o avaliam como regular.

O PoderData faz duas perguntas aos entrevistados: uma sobre a avaliação do desempenho pessoal do presidente e outra sobre seu governo. Nessa última, são dadas 3 opções: aprova, desaprova ou não sabe.

Os resultados mostram que a gestão bolsonarista é aprovada por 32% e reprovada por 62%. Outros 6% não sabem como responder. Essas taxas também variaram na margem de erro.

O PoderData vai a campo a cada 15 dias desde abril de 2020 para medir a percepção da população sobre o desempenho pessoal do presidente da República e a avaliação do governo. A frequência das pesquisas permite a captação tanto de variações repentinas na opinião pública quanto de tendências mais longas:

  • no curto prazo – o “salto” de rejeição verificado 15 dias antes dá sinal de que pode ter se esgotado ou, ao menos, desacelerado. A reprovação segue em nível recorde, mas o patamar se manteve nestas duas últimas semanas;
  • no médio prazo – Bolsonaro segue no quadro de alta rejeição registrado desde março, quando o país atravessava a 2ª onda de covid-19, a mais devastadora.

Os 15 dias que separam este levantamento do anterior foram de menor tensão política. O Congresso entrou em recesso, o que interrompeu as atividades da CPI da Covid, fonte de cobertura midiática negativa para Bolsonaro. O presidente acenou aos outros Poderes, ganhou ampla exposição no noticiário ao ser internado para uma cirurgia–que acabou descartada– e, no início desta semana, deu 3 entrevistas em 2 dias. É cedo para afirmar se o quadro estável indica uma tendência que vá se manter nas próximas pesquisas.

Esta pesquisa foi realizada no período de 19 a 21 de julho de 2021 pelo PoderData, a divisão de estudos estatísticos do Poder360. A divulgação do levantamento é feita em parceria editorial com o Grupo Bandeirantes.

Foram 2.500 entrevistas em 427 municípios nas 27 unidades da Federação. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos. Saiba mais sobre a metodologia lendo este texto.

Para chegar a 2.500 entrevistas que preencham proporcionalmente (conforme aparecem na sociedade) os grupos por sexo, idade, renda, escolaridade e localização geográfica, o PoderData faz dezenas de milhares de telefonemas. Muitas vezes, mais de 100 mil ligações até que sejam encontrados os entrevistados que representem de forma fiel o conjunto da população.

DESTAQUES DEMOGRÁFICOS: AVALIAÇÃO DO TRABALHO DE BOLSONARO

Os que têm de 25 a 44 anos (61% desse grupo), os moradores da região Nordeste (62%), os que cursaram ensino superior (66%) e os desempregados ou sem renda fixa (61%) são os estratos que mais rejeitam (“ruim”+”péssimo”) o desempenho de Bolsonaro.

Já os homens (32%), os moradores das regiões Sul (38%) e Norte (33%) e os que ganham de 5 a 10 salários mínimos (33%) são os que mais aprovam.

DESTAQUES DEMOGRÁFICOS: AVALIAÇÃO DO GOVERNO

O gráfico a seguir estratifica os votos dos entrevistados. O Poder360 destaca:

  • escolaridade – 73% dos que têm ensino superior desaprovam o governo;
  • região – 70% no Nordeste desaprovam a gestão bolsonarista; 52% no Norte aprovam –é o único dos 19 estratos em que a aprovação supera a reprovação;
  • renda – 69% dos desempregados ou sem renda fixa rejeitam o governo; 47% dos que ganham de 2 a 5 salários mínimos aprovam.

PODERDATA

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PESQUISAS MAIS FREQUENTES

O PoderData é a única empresa de pesquisas no Brasil que vai a campo a cada 15 dias desde abril de 2020. Tem coletado um minucioso acervo de dados sobre como o brasileiro está reagindo à pandemia de coronavírus.

Num ambiente em que a política vive em tempo real por causa da força da internet e das redes sociais, a conjuntura muda com muita velocidade. No passado, na era analógica, já era recomendado fazer pesquisas com frequência para analisar a aprovação ou desaprovação de algum governo. Agora, no século 21, passou a ser vital a repetição regular de estudos de opinião.

 

Fonte: Poder 360.

Distritão: a máquina de moer partidos, escreve Tiago Ayres

 

Plenário da Câmara – Votação e discussão das medidas contra à corrupção, no plenário da Câmara dos Deputados. Brasilia, 29-11-2016. Foto: Sérgio Lima / PODER 360.

Muito da vida está ligado a 2 elementos bem especiais, o tempo e a forma. Às vezes, agimos no tempo certo, mas da forma errada; noutros momentos, atuamos da forma certa, porém no tempo errado. E, como um evento bem mais peculiar (e, infelizmente, já não tão raro), há aqueles que conseguem agir, de uma vez só, no tempo e forma errados.

A defesa do chamado “distritão”, como novo sistema eleitoral a alterar o racional da democracia representativa brasileira, é exemplar modelo desse tipo que se pode chamar de equívoco qualificado.

No Brasil, país cujo povo não guarda qualquer relação de fidelidade com os partidos (até porque há legendas que não conseguem ser fiéis a si mesmas, ao seu conteúdo programático e princípios), sempre se defendeu, enfaticamente, o fortalecimento das agremiações partidárias, veículos, de fato, relevantíssimos em nosso modelo de representatividade.

É absolutamente correta e louvável a defesa do reforço aos partidos, à cultura da fidelidade partidária, e, por consequência, do aperfeiçoamento do nosso sistema partidário.

Mas é necessário superar o hábito da incoerência. Como já afirmou o escritor Esopo, da Grécia Antiga, “o hábito torna suportáveis coisas assustadoras”. E é de espantar que uma discussão tão relevante para a democracia brasileira, com poderosos efeitos sobre a representatividade, seja marcada por esse preocupante hábito da contradição.

Não há possibilidade de se defender, ao mesmo tempo, a tonificação dos partidos e o distritão. Essa conta não fecha. Simples assim.

O tempo e a forma não estão sendo respeitados no enfrentamento da temática. O momento é o menos recomendável possível. Está-se às portas de um ano eleitoral (que, aliás, promete ser o mais “quente” de todos os tempos) –sem falar que, por exigência constitucional, qualquer alteração nas regras eleitorais, para ser aplicada nas próximas eleições, deve ser realizada até outubro deste ano. Ou seja, está-se a discutir assunto altamente sensível, com alteração do núcleo da infraestrutura político-eleitoral, a toque de caixa. Isso não tem como resultar em boa coisa.

E o que falar da forma? Vejam, é preciso, antes de importar institutos que aparentemente funcionam bem em outras nações, fazê-los passar por nossa alfândega cultural, que, convenhamos, é bem complexa.

Já está claro que o distritão é uma espécie de reserva tática, o 1º passo rumo à introdução daquele que tem sido alardeado como o modelo ideal, o tal do distrital misto. Ora, se este funciona bem na Alemanha, por qual motivo não haveria de funcionar super bem no Brasil? É a história do respeito à alfândega cultural…

Não faz sentido querer mudar a lógica da representatividade quando, na verdade, nem bem o povo conseguiu entender o atual sistema eleitoral, embora muito melhor do que o agora proposto.

O distritão é uma verdadeira máquina de moer partidos, reduzindo-os a nada ou a muito pouco. É um indisfarçável narcisismo político que estimula cada candidato –e futuro mandatário– a ser discípulo de si mesmo.

Enquanto o atual sistema proporcional reflete as várias tendências nacionais, tão bem prestigiadas pela Constituição Federal, o distritão gera uma egolatria política, criando verdadeiros “feudos”, em que mandatários viverão uma nociva autocontemplação, e que certamente serão dominados por candidatos que já estão no poder, pelos concorrentes mais abastados ou mesmo pelas celebridades (as de verdade e as de ocasião).

O diálogo deve ser sempre estimulado e respeitado em uma democracia. Daí porque, mesmo desconfiando, fortemente, de que o distritão seja um péssimo sistema eleitoral para o nosso país, entendemos que os debates sobre ele (e outros modelos, como o distrital misto) devem ser incentivados.

Entretanto, no tempo e da forma como o tema vem sendo conduzido, é manifesto que o que menos importa é a compreensão e a concordância do povo quanto ao que está sendo discutido e que afetará diretamente as suas vidas.

O que precisa ficar claro é que a questão deveria dizer muito menos sobre o sistema que a classe política entende que deva ser adotado para melhorar a representatividade, e mais, muito mais, sobre o quanto ela deseja realmente levar a sério o direito do cidadão de ser ouvido e compreender, com precisão e transparência, o que está sendo proposto para ele, que, no final das contas, é o destinatário e a razão de ser de qualquer alteração das sensíveis regras do jogo político.

Fonte: Poder 360