
Padre João Medeiros Filho
Inspirado em belíssimo poema de Alberto Caeiro (um dos heterônimos de Fernando Pessoa), Roberto Carlos nos encanta com a melodia: “Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito que eu sonhei em toda a minha vida. Sonhei que todo mundo vivia preocupado, tentando encontrar uma saída…” Sonhos são necessários. Sem eles, as pedras do caminho viram rochedos; pequenos problemas são insuperáveis; perdas tornam-se insuportáveis, decepções em golpes fatais e desafios em berço do medo. Voltaire dizia que “eles e as esperanças nos foram dados como compensação às dificuldades da vida.” Não são desejos superficiais, e sim bússolas do coração. Resistem às mais altas temperaturas dos problemas. Alimentam a esperança e a fé, quando o mundo ameaça desabar sobre nós.
É lapidar a frase de John F. Kennedy: “Necessitamos de seres humanos que sonhem o que nunca foram.” Assim abrirão as janelas da alma, oxigenando as emoções e produzindo um agradável romance com a vida. Grandes acontecimentos e decisões bíblicas nasceram de sonhos. “Se há entre vós profeta do Senhor, eu me dou a conhecer em visões e falo com ele em sonhos” (Nm 12,6). A literatura veterotestamentária é rica dessas passagens, daí a afirmativa: “E Daniel sabia interpretar todos os sonhos” (Dn 1,17). É preciso perseguir os mais belos dentre eles. Só os mortos não os têm. Persistir é uma palavra que deve ser constante no dicionário do sonhador, ainda que certas metas não consigam ser atingidas. Neste ponto, sigamos as palavras de Raul Seixas: “Tenha fé em Deus e na vida, tente outra vez. Se você sonhar, poderá sacudir o mundo, pelo menos o seu mundo.”
Se algum dia, for necessário desistir de planos sonhados, que sejam substituídos por outros. A vida sem eles é um rio sem nascente, uma praia sem ondas, uma manhã sem orvalho, um dia sem sol, uma flor sem perfume. Sem eles, os ricos ficam deprimidos, os famosos aborrecem-se, os intelectuais tornam-se estéreis, os livres escravos e os fortes tímidos. Quando não os temos, a coragem dissipa-se, a criatividade esgota-se, o sorriso vira disfarce, a emoção desfalece e a alegria se esvai.
Sonhar é preciso. Guiar-se pelas estrelas. Buscá-las para andar sem medo nos vales das frustrações e perdas. Apesar de nossos incontáveis defeitos, devemos acreditar que somos protagonistas no teatro da vida. Existem seres humanos que lutam pelos seus ideais ou desistem deles. Quem não idealiza um mundo melhor, mais justo e humano, será um miserável no território dos sentimentos, ainda que habite em mansões, possua riqueza incalculável, posições de destaque na sociedade e por ela seja aplaudido.
Sonhar pode não determinar o lugar ao qual iremos chegar, mas produz a força necessária para nos libertar da estagnação. Os bons alunos aprendem a matemática numérica, os fascinantes descobrem os cálculos da emoção que não têm conta exata e rompem a regra da lógica. Sonhar é apaixonar-se pela liberdade de criar e abrir horizontes. Conseguiremos aprender a multiplicar, se soubermos dividir. Chegaremos a ganhar, se tivermos aprendido a perder; receberemos algo, se nos ensinarem a nos doar. Quando os sonhos nos invadem, os surdos conseguirão ouvir melodias, os cegos vislumbrarão cores, os derrotados encontrarão energia para continuar a combater. Foi o que Cristo realizou com sua Palavra e pregação do Reino de Deus. Sonhar faz parte da energia divina, latente na alma humana. E dela Jesus era rico. São Jerônimo dizia que o “Sonho é filho da esperança, neto da fé. Tudo pode, pois é Deus em nós.” E para Ele “nada é impossível” (Lc 1, 37). Mas, é preciso ter em mente a advertência do hagiógrafo: “Quando há muitos sonhos, vaidades e palavras em demasia, tema sempre a Deus” (Ecl 5, 6).