
Padre João Medeiros Filho
Dom Heitor de Araújo Sales é um dos grandes nomes da Igreja do RN. Participou de momentos significativos de sua história. Com 75 anos de sacerdócio, sendo 48 de episcopado, completa dez décadas abençoadas, com saúde, lucidez e alegria de viver. Acompanhou o pontificado de nove papas: quando jovem, Pio XI; enquanto sacerdote, Pio XII e João XXIII; como bispo, Paulo VI, João Paulo I e João Paulo II; já emérito, Bento XVI, Francisco e Leão XIV. Sua nomeação para o episcopado representa um dos marcos memoráveis de seu sacerdócio. Na diocese de Caicó, esteve por quinze anos. Na arquidiocese de Natal, um decênio de pastoreio. Tem carinho pelo Seridó, berço dos ancestrais maternos. Guarda com afeto as conexões humanas construídas como presbítero e bispo. Irmão do Cardeal Dom Eugênio de Araújo Sales, arcebispo do RJ durante trinta anos, uma das figuras mais notáveis da Igreja.
Como padre serviu abnegadamente ao Povo de Deus, desempenhando as funções de vigário paroquial em Nova Cruz, pároco de Santa Teresinha (Natal), capelão dos Colégios Marista e Nossa Senhora das Neves, vigário episcopal para os religiosos e também vigário geral do arcebispado natalense. Integrou a equipe de formação do Seminário de São Pedro, como diretor espiritual e docente. Ali, tive o privilégio de ser seu aluno. Exerceu o magistério superior na Escola de Serviço Social e Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Primeiro docente desta instituição, com o título de doutor, obtido na Pontifícia Universidade Lateranense (Roma). Pertence à Sociedade Brasileira de Canonistas e à Academia Norte-rio-grandense de Letras, nesta como sócio de honra.
Dom Heitor vivencia as palavras do Mestre: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 29). Terno e misericordioso, tratando todos com elegância e atenção, transmite a lição bíblica da simplicidade e compreensão. Em Caicó revelou-se pastor solícito e dinâmico, reorganizando a diocese, reabrindo o Seminário Cura d’Ars, restaurando o diaconato permanente. Construiu o Centro Pastoral Dom Wagner (sede dos órgãos administrativos diocesanos), o Mosteiro das Clarissas, a nova Residência Episcopal e instalou a Rádio Rural FM de Caicó. No seu pontificado no Seridó, o clero passou a dispor de um plano de saúde. A diocese caicoense lhe deve, em especial, o exemplo de desprendimento, dedicação e humildade. A riqueza interior não faz alardes. Sua capacidade de doação e caridade recorda-nos o apóstolo Paulo: “Para todos eu me fiz tudo, para salvar alguns” (1Cor 9, 22).
Na Arquidiocese de Natal, organizou o dízimo das paróquias para manter o culto divino e as obras sociais da Igreja, redimensionando o patrimônio da mitra. Deu atenção às necessidades administrativas, pastorais e espirituais do arcebispado. Trouxe o Seminário de São Pedro de volta à sua sede, na Campos Sales. Durante seu episcopado, aconteceu a beatificação dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, em 5/3/2000. Entregou a arquidiocese com as finanças saneadas a seu sucessor e ex-aluno Dom Matias Patrício de Macêdo, assim como a Rádio Rural de Natal, engajada numa profícua programação evangelizadora. Nos dois bispados ordenou quarenta e quatro padres e criou quinze paróquias. Na emeritude, edificou o Carmelo em Parnamirim (RN).
Tais feitos são centelhas da grandeza de sua alma, generosidade e capacidade de servir. Um homem escolhido por Deus e devotado à Igreja. Cultura e erudição povoam sua mente. Com cem anos goza de memória e lucidez admiráveis. Dedica-se à leitura cotidiana e mantém-se atualizado. Sempre disposto a ouvir, consolar, irradiar luz e paz aos que dele se aproximam. Sua disponibilidade toca. Sua humildade encanta, pois é a linguagem dos filhos de Deus. Poderá dizer: “A minha alma engradece o Senhor, pois Ele fez por mim grandes coisas, santo é seu nome” (Lc 1, 46;49).