
Por Jean Paul Prates
A fuga de Flávio Bolsonaro oferece uma saída honrosa a quem ainda permanece no bolsonarismo: abandoná-lo. A direita brasileira tem agora uma oportunidade de recuperar sua autonomia, organizar propostas e exercer oposição sem subordinar o país aos interesses de uma família.
Flávio afirmou que permaneceria no Brasil e lideraria a oposição. Pouco depois, apareceu desembarcando em Miami. A Polícia Federal informou que ele descumpriu a determinação de entregar eventuais passaportes estrangeiros e que não havia registro de sua saída pelos controles migratórios brasileiros.
A distância entre a bravata pública e a conduta pessoal ficou documentada.
Veio então a carta em que se apresentou como “presidente eleito”, expressão posteriormente substituída por “líder”. A Presidência imaginária durou menos que a repercussão do documento. Há pusilanimidade em prometer enfrentar a realidade e partir; desfaçatez em reivindicar uma vitória que as urnas negaram; e falta de inteligência estratégica em supor que uma autoproclamação no exterior substituiria legitimidade política no Brasil.
A aventura também começou a cobrar seu preço internacional. Democratas americanos criticaram o acolhimento concedido por Trump. Na Argentina, opositores exigiram explicações sobre a participação do governo Milei. Na Itália, Angelo Bonelli questionou a concessão da cidadania aos Bolsonaro.
Flávio conseguiu transformar sua conveniência pessoal em constrangimento para governos amigos.
Segundo a Reuters, Marco Rubio recomendou sua admissão nos Estados Unidos, aprovada por Trump. A mesma agência informa que Washington não planeja apoiar sua pretensão de governar o Brasil. Eis o limite de uma estratégia que entrega a terceiros a decisão sobre o próprio futuro e ainda pretende falar em soberania nacional.
Get Jean Paul Prates’s stories in your inbox
Join Medium for free to get updates from this writer.
Subscribe
Remember me for faster sign in
Conheço por dentro o trabalho de oposição. No Senado, inclusive como líder da Minoria, enfrentei o governo Bolsonaro preservando o contraditório e o diálogo entre esquerda e direita. Denunciar seus absurdos exigia estudo, presença e disposição para o confronto democrático. Também exigia reconhecer interlocutores legítimos entre aqueles que pensavam diferente.Estavam em jogo vidas durante a Covid, a proteção da Amazônia, a educação, a saúde, a segurança, a inclusão e os rumos da economia. Quando o óleo atingiu nossas praias, cobrei respostas e acompanhei o sofrimento de comunidades que dependiam do mar. A política precisava estar onde estavam os problemas.
Aprendi no Senado que liderar uma oposição é permanecer, fiscalizar, propor e responder pelo que se diz.
Por isso, a ruptura que interessa agora precisa alcançar o método bolsonarista: a fabricação permanente de inimigos, o desprezo pelo conhecimento, a intimidação institucional e a recusa em aceitar limites. Trocar de sobrenome mantendo essas práticas apenas prolongaria o mesmo impasse.
Já existem sinais de afastamento. O PL reconheceu o resultado eleitoral. Tarcísio de Freitas defendeu seu respeito, e outros aliados rejeitaram a aventura da autoproclamação. Essas manifestações ainda convivem com lealdades e ambiguidades, mas abrem espaço para uma escolha: construir uma direita democrática ou continuar prestando serviços à sobrevivência política do clã.
Conservadores, liberais e eleitores de Flávio têm todo o direito de cobrar o governo, disputar eleições e apresentar alternativas.
O país precisa dessa competição. Lula, por sua vez, terá de reconhecer a amplitude da vitória que recebeu, abrir canais de diálogo e entregar resultados. Uma vitória construída por tantos exige um governo capaz de ouvir muito além dos seus.
Flávio não enterrou sozinho o bolsonarismo. Expôs, porém, o abandono de responsabilidade que existe por trás de sua retórica de coragem. Cabe à sociedade impedir que esse tipo de política encontre apenas um novo porta-voz.
Talvez aí comece uma alvorada brasileira. Podemos chegar a 2030 com candidatos melhores, debates mais exigentes e divergências sustentadas por propostas. Podemos voltar a procurar, nas redes, nos jornais e na televisão, conteúdos densos, construtivos e inteligentes. Essa mudança dependerá também de nós: da atenção que oferecemos, das lideranças que escolhemos e da qualidade que passamos a exigir. O Brasil merece voltar a discutir o seu futuro.