
Por Dr. Marcelo Alves Dias
“Amor a Roma”, do nosso Afonso Arinos de Melo Franco, é um livro que eu já li/reli um bocado de vezes. Na edição que possuo (Nova Fronteira, 1982), “roubada” da biblioteca de meu pai, tinha registrado, até dia desses, quatro leituras: 1997, 2000, 2008 e 2013. Algumas delas propositalmente dirigidas. Antecipavam minhas estadas, como turista ou estudante, na Cidade Eterna.
Como já registrei certa vez, misto de história da cidade imperial e cristã, de crônica da “Cidade Eterna” (de seu urbanismo, sua arquitetura e sua arte) e de memórias, “Amor a Roma” é um livro de madureza, a última obra de fôlego, daquele que foi, além de escritor e acadêmico, um dos grandes vultos do nosso direito e da nossa política, um dos mais respeitados, certamente, da centúria passada. É, essencialmente, como o próprio título indica, um livro de sentimento histórico. Tomamos consciência disso – melhor, sentimos – logo nas suas primeiras páginas, quando o autor relata sua chegada a Roma, aos 19 anos, no já distante ano de 1925. Vinha, melancólico, da fria Suíça. Por intermediação do pai, Afrânio de Melo Franco, naquela Roma o esperava o poeta e diplomata Magalhães de Azeredo, seu primeiro guia naquela que já foi – e ainda é – a Urbe de Césares e de Papas. Percorrendo os séculos, como se testemunha fosse dos acontecimentos, Afonso Arinos vai topando com Césares e Augustos; com mártires e santos de uma Igreja ainda primitiva; com os gênios de Rafael, Michelangelo e Bernini; com a tenacidade de Papas, como Júlio II (Cardeal Della Rovere); com patrícios nossos, como o grande Antônio Vieira; com as rivalidades, as intrigas e os amores entre as muitas famílias principescas romanas e italianas; com os palácios da Urbe e com as suas catedrais e igrejas sem igual. “Amor a Roma” nos deleita, nas suas quase quinhentas páginas, com a sentimental história e as estórias, de mais de dois milênios, daquela que Cícero chamou a “Rainha das cidades, ornamento do Universo, asilo comum das nações”.
Ponho eu mesmo novamente os pés na Cidade Eterna, desta feita para mostrar ao meu filho João – como me mostraram um dia meus pais, como Magalhães de Azeredo mostrou ao jovem Afonso Arinos – aquela Urbe que foi outrora “caput mundi”. Mas, desta feita, quanto a “Amor a Roma”, só consegui, antes da viagem, registrar o começo da releitura. Li mesmo muito pouco. O mundo está rápido demais. Pensei até em trazer o livro na viagem. Mas, se “Amor a Roma” é um livro de sentimento, tive medo de perdê-lo, com o meu coração alvoroçado ou com a minha mente distraída, flanando pelas ruas de Roma.
De toda sorte, para esse infortúnio da não releitura, que imporia grande aprendizado, há mais de um consolo. Conforme o próprio Afonso Arinos, “há casos em que a erudição chega a dificultar a compreensão de Roma”, o sentimento de Roma, como foi o caso de Hippolyte Taine, “na parte romana da sua volumosa Viagem à Itália”. Bendigo a minha ignorância, então.
Ademais, se, como recorda Alceu Amoroso Lima (também dito Tristão de Athayde) no prefácio/apresentação de “Amor a Roma”, nunca se chega à eterna Urbe “sem ter o coração alvoroçado de alegria e os pés muito leves por pisarem o próprio centro do universo civilizado e o solo onde estão enterrados os corpos daqueles que deram suas vidas pelo Cristo Jesus, como Este a deu por todos os homens”, há, para nós, a inevitável partida. “Se ao chegar é de alegria indescritível” que se sente “o coração bater e a inteligência se abrir, é com todo um manto de saudade aos ombros” que sempre se a deixa. Por isso que o Tristão era grato a um gênio da nossa terra, Afonso Arinos, “por ter alimentado as alegrias” das suas chegadas e permitido que levasse consigo, ao partir, em formato de livro, o sentimento de Roma. Também sou grato. De volta à terrinha, a qualquer momento, emocionadamente relendo, renovarei o meu “Amor a Roma”.
Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL