
Monsenhor João Medeiros Filho
Com tais palavras Cristo calou hipócritas e fariseus (Mt 9, 13). Alguns quedaram-se perplexos, ao saber que a compaixão é corolário da vontade divina. O cristianismo é misericordioso, coração grande, voltado para a miséria humana. Praza aos céus que seja este o sentimento predominante pós-eleitoral dos cristãos. Durante a campanha, houve insultos, desconstruções, inverdades, agressões, julgamentos levianos. Felizmente, esse período passou. Agora, é momento de diálogo, abraço fraternal, união e paz. Urge, pois, unificar o país, apagar mágoas e reconstruir a unidade, consoante os desígnios do Criador. O tecido social brasileiro foi rasgado pelo ódio e radicalismo. Mister se faz começar uma nova campanha: a da união e fraternidade. O verdadeiro espírito cristão não admite cisão por qualquer motivo. O Pai Celeste nos criou à imagem e semelhança de Deus, Uno e Trino. Em Jesus, Ele nos perfilhou.
Há de se tornar espontânea a prática da compaixão. Nossa índole leva-nos a julgar o outro, segregá-lo, classificá-lo com os rótulos de nossos parâmetros. Cristo deseja de seus discípulos atitudes de empatia, entranhas carregadas de carinho e abertura. “É preciso oferecer a outra face” (Mt 5,39), mesmo que o próximo não seja digno, segundo nossas categorias mentais. Eis o postulado a ser observado nesse tempo pós-eleitoral. Lança-se o convite à conversão e descoberta do Divino, latente no irmão. Não adotemos a postura do fariseu, comparando-se ao publicano que orava no Templo (cf. Lc 18, 9-17). Não faz sentido viver como “mestres da pureza e doutores da ascese”, ocultando farisaísmo e hipocrisia.
Somos carinhosamente chamados pelo Senhor e por sua Igreja a ser arautos da paz, procurando humildemente aprender a fazer dela razão de nossa existência. A benignidade, outro nome da misericórdia, deverá perpassar-nos de alto a baixo. É necessário sair dos círculos viciosos das condenações e vinganças, que continuam a aprisionar indivíduos e grupos. O futuro do Brasil depende de nós. O cristão é chamado a fazer crescer a fraternidade e comunhão. Oxalá a benevolência ilumine e guie nossos gestos. O vencedor estenda a mão ao vencido sem humilhação, erga o caído sem condená-lo, procure colocar-se no lugar do outro para entender sua perspectiva e aprender com ela. O Brasil só será um país verdadeiramente cristão, quando começar a libertar-se dos preconceitos ideológicos, dos juízos levianos e polarizações, da recalcitrância intelectual e sede de vingança.
Isso requer um delicado e contínuo tirocínio. Para tanto, necessitamos de espiritualidade, ascética e mística. Ao longo da Sagrada Escritura, podemos verificar Deus afastando-se dos corações carregados de radicalismo, dureza e intransigência, das vidas pontilhadas pelo egoísmo e desejo de revanche. Cristo prega união e fraternidade. Isto existirá, se nossos espíritos estiverem desarmados e nossos braços estendidos para o amplexo da paz. Esta é pascal, faz ressuscitar.
Tenhamos em mente a Parábola do Filho Pródigo (cf. Lc 15, 11-32) na qual o pai – metáfora de Deus – recebe o caçula perdulário com uma festa calorosa em sua casa. Cristo sabe incluir e abomina a exclusão. Jesus, concretude da generosidade divina, acolhe a adúltera sem uma palavra de condenação. Ele aceita a homenagem da pecadora pública, que adentra no banquete do fariseu e banha com perfume e lágrimas os pés do Mestre, cansados e cobertos da poeira dos caminhos. Cristo cura doentes, reintegra leprosos, abraça crianças, liberta cativos, faz cegos ver, surdos ouvir e aleijados andar. Olhando para Ele, aprendamos a ser clementes e altruístas. Cabe lembrar o profeta Neemias: “Pela tua misericórdia, não os destruíste nem os abandonaste. És um Deus clemente e compassivo” (Ne 9,31).