Uma mulher que viu sua mãe morrer ao lado dela no hospital depois que ambas pegaram Covid-19 pede às pessoas que tomem as precauções necessárias contra a doença.
Maria Rico, de 76 anos, que vivia na Inglaterra, tirou a máscara de oxigênio para falar com as duas filhas uma última vez, mesmo sabendo que isso apressaria sua morte.
Anabel Sharma descreveu o momento como “de partir o coração”, mas disse que estava feliz por ao menos sua mãe não ter morrido sozinha.
Ela divulgou a última foto delas para aumentar a conscientização sobre o vírus.
Maria Rico, de 76 anos, que vivia na Inglaterra, tirou a máscara de oxigênio para falar com as duas filhas uma última vez, mesmo sabendo que isso apressaria sua morte – Anabel Sharma /BBC
Sharma disse que sua mãe morreu cerca de meia hora depois que a máscara foi retirada.
“Minha mãe pediu que tirassem a máscara dela e eles disseram: ‘Assim que tirarmos, você não terá muito tempo’. Ela disse, ‘sim, eu sei disso, mas já tive o suficiente'”, lembrou.
“Passamos cerca de cinco minutos com ela quando ela conseguiu falar, depois ela perdeu a consciência. Ela nos disse que não tinha medo de morrer, que estava pronta. Disse que eu precisava lutar muito porque tinha os filhos em casa.”
A irmã de Sharma, Susana, também foi autorizada a participar desse momento usando equipamento de proteção individual.
“Nós seguramos a mão dela até o último suspiro”, disse. “Tenho algum conforto ao pensar que pudemos estar com ela e sei que também trouxe conforto à minha mãe.”
Maria Rico morava na mesma casa que Sharma, o marido dela e três filhos (Noah, de 10 anos, Isaac, de 12 anos, e Jacob, de 22).
Sharma disse acreditar que um de seus filhos pegou o coronavírus na escola e que o vírus “devastou” a família em uma velocidade “assustadora”.
“Gostaria de pedir às pessoas que sigam todas as precauções e pensem nos outros”, disse ela.
Sharma e sua mãe foram admitidas no hospital Leicester Royal no mesmo dia de outubro, e Maria Rico faleceu em 1º de novembro.
O funeral foi transmitido ao vivo para Sharma, que ainda estava no hospital.
“Ela estava muito ciente do que estava para acontecer, sabia que não iria se recuperar e estava farta do tratamento”, disse Sharma, que continua a fazer tratamento com oxigênio em casa porque seus pulmões foram danificados pelo vírus.
Ela descreveu a mãe como uma “avó incrível” que era “muito, muito obstinada”.
As vacinas produzidas na Índia podem ser exportadas para todos os países, disse nesta terça-feira (5) o presidente do Serum Institute, empresa indiana que fabrica no país asiático o imunizante contra a Covid-19 desenvolvido pela AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido.
No domingo (3), ele havia dito que a exportação das vacinas estava proibida por enquanto, para priorizar o mercado interno.
Pessoa segura dose da vacina produzida pela AstraZeneca contra a Covid-19 – Reuters
“Quero esclarecer duas questões, pois há confusão no domínio público: as exportações de vacinas são permitidas para todos os países e um comunicado conjunto esclarecendo quaisquer mal-entendido com relação à Bharat Biotech será feito”, escreveu Adar Poonawalla em sua conta no Twitter. Ele se referia ao Serum e ao Bharat Biontech, laboratório que produz uma vacina indiana, a Covaxin.
O Serum fabrica a vacina da AstraZeneca, que já está sendo aplicada no Reino Unido. O governo brasileiro tem acordo de compra de doses deste imunizante, e a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) obteve autorização da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para importar 2 milhões de doses da vacina, produzida pelo instituto indiano.
O Serum, no entanto, anunciou no fim de semana que só pretendia exportar o imunizante daqui a dois meses, o que levou o governo brasileiro, por meio do ministério das Relações Internacionais, a negociar a liberação da compra das doses, disse a Fiocruz.
Já outra vacina contra a Covid-19, a Covaxin, desenvolvida pelo laboratório indiano Bharat Biotech, recebeu recebeu autorização para uso emergencial na Índia neste último sábado (2), apesar dos questionamentos da comunidade científica.
A companhia ofereceu a vacina ao Ministério da Saúde brasileiro e receberá também uma delegação de clínicas privadas de vacinação do Brasil interessada em comprar o imunizante para comercialização pelo setor privado.
No comunicado conjunto do Serum com a Bharat, mencionado por Poonawalla, as duas empresas anunciaram que pretendem fabricar e fornecer vacinas contra a Covid-19 para a Índia e para o mundo.
“Vacinas são um bem de saúde pública global e elas têm o poder de salvar vidas e acelerar o retorno à normalidade econômica o mais brevemente”, afirma o comunicado.
“As nossas duas empresas estão totalmente envolvidas nesta atividade (produção, fornecimento e distribuição das vacinas) e consideramos nosso dever com a nação e com o mundo de garantir uma disponibilização suave das vacinas. Estamos totalmente cientes da importância das vacinas para as pessoas e para os países, portanto comunicamos nossa promessa conjunta de fornecer acesso global a nossas vacinas contra Covid-19.”
A divulgação de mais um recorde no número de novos casos de coronavírus no Reino Unido, nesta segunda (4), aumentou a pressão sobre o premiê britânico, Boris Johnson, para que decrete um confinamento nacional na Inglaterra, incluindo o fechamento das escolas.
Boris deve anunciar novas medidas em pronunciamento marcado para as 20h (horário local, 17h no Brasil) desta segunda (4).
Nas últimas 24 horas, o Reino Unido registrou 58.784 novos casos de Covid-19, maior número diário e sétimo dia consecutivo com mais de 50 mil novos doentes por dia. O número de casos vinha crescendo no último mês, mas a transmissão se acelerou levando as estatísticas da última semana a um salto de 50% em relação à semana anterior, com um número de testes equivalente.
Crianças em escola primária em Staffordshire, no Reino Unido – Jon Super – 8.jun.2020/Xinhua
Desde o começo da pandemia, já morreram no país mais de 75 mil pessoas, o que coloca os britânicos ao lado dos italianos no topo do ranking de óbitos por coronavírus na Europa. Nas últimas 24 horas, houve mais 407 mortes, e as taxas semanais têm crescido.
“Se você olhar para os números, não há dúvida de que teremos que tomar medidas mais duras e iremos anunciá-las no devido tempo”, disse Boris em entrevista pela manhã. Ele porém pediu aos pais que mandassem seus filhos às escolas nas regiões em que elas fossem reabertas.
A volta de alunos do ensino médio já havia sido adiada em duas semanas a partir desta segunda e, em Londres, por causa do aumento nos casos de Covid-19, escolas de ensino fundamental também atrasaram a reabertura. “Entendo a ansiedade das pessoas, mas não tenho dúvidas de que as escolas são seguras e que a educação é uma prioridade”, afirmou Boris.
Desde sábado, o governo inglês sofre pressão do sindicato dos professores e de políticos do Partido Trabalhista, de oposição, para não retomar as aulas presenciais por ao menos um mês. Os sindicatos dizem que “a abertura caótica” das escolas por parte do governo está “expondo os trabalhadores do setor de educação a sérios riscos de problemas de saúde e pode alimentar a pandemia”.
Nesta manhã, Matt Hancock, secretário (equivalente a ministro) da Saúde britânico, rebateu as críticas: “A proporção de professores que pegam o coronavírus não é maior do que o resto da população”, afirmou ele, argumentando que o fechamento tem sérios impactos negativos e só deve ser feito como último recurso. “A educação também é muito importante, especialmente para a saúde a longo prazo das pessoas.”
A Comissária das Crianças para a Inglaterra, Anne Longfield, sugeriu que professores sejam vacinados com prioridade para evitar a transmissão e também o fechamento das escolas. O Reino Unido foi um dos primeiros países a começar a vacinação em massa, mas tem priorizado idosos e profissionais de saúde. Segundo Longfield, a suspensão das aulas é uma ameaça à saúde mental das crianças e deve ser evitada ao máximo.
A declaração, no entanto, foi contestada por pediatras de vários hospitais. Ronny Cheung, representante de saúde infantil no Comitê Consultivo de Indicadores do Instituto Nacional de Excelência em Saúde e Cuidado, também desmentiu, em rede social, o relato da enfermeira.
“Fui o consultor de plantão em um hospital infantil de Londres esta semana, e isso simplesmente não é verdade. É irresponsável ao extremo. Assusta os pais. Covid é comum em hospitais, mas não entre crianças. Já temos o suficiente com que lidar sem mais esse lixo”, escreveu o médico.
Os dados mais recentes do sistema de saúde britânico estão atualizados só até o começo de dezembro, quando não indicavam aumento em casos infantis. Crianças de 0 a 5 anos eram apenas 0,55% dos internados com Covid-19 diariamente, mesma taxa dos de 6 a 17 anos, e a proporção vinha se mantendo nessa faixa por várias semanas.
Se as crianças são menos afetadas pela doença, porém, ainda há dúvidas sobre o papel das escolas na disseminação do coronavírus de forma mais ampla, com alunos assintomáticos transmitindo o patógeno entre si e levando a doença a seus familiares.
A Inglaterra funciona hoje com um sistema de quatro etapas de restrições: moderadas, altas, muito altas e confinamento. Nenhum deles, porém, prevê o fechamento das escolas —nem mesmo o mais alto, cuja ordem é ficar em casa.
Até a véspera do Ano Novo, 22% da população da Inglaterra ainda estava no nível 3, de restrições muito altas, não é possível receber estranhos em casa e reuniões na rua deve ter no máximo seis pessoas. Bares e restaurantes são fechados, entre outras restrições, mas a maior parte das lojas pode funcionar.
Os outros 78% já estavam no nível 4, no qual são fechadas todas as lojas, cabeleireiros e locais de lazer e reuniões fora de casa se limitam a duas pessoas,
Hancock afirmou que o governo olha os números diariamente e vinha constatando aumento dos casos em áreas que ainda estavam no nível 3. Mas, segundo ele, impedir a transmissão é muito mais uma questão de atitude pessoal que de restrições do governo. “Volto a este ponto mais amplo, que é sobre todos nós: o que impede a propagação da doença é as pessoas não entrarem em contato com outras pessoas. Essa é a triste verdade.”
Segundo o secretário de Saúde, o sistema de saúde está sob pressão, mas ela não é maior que a que ocorreu no primeiro pico da doença.
No final de semana, o secretário (correspondente a ministro) da Educação, Gavin Williamson, disse que estava se preparando para a necessidade de manter o ensino online, com o projeto de entregar mais 100 mil notebooks às escolas nesta semana. A falta de acesso às aulas remotas por parte de alunos mais pobres têm sido um dos efeitos mais graves do fechamento de escolas, aumentando a desigualdade.
Em declaração oficial, o Departamento de Educação britânico afirmou que a prioridade é que “as salas de aula sejam reabertas sempre que possível no novo semestre” e a educação à distância seria usada como último recurso.
A Inglaterra tem 4,5 milhões de alunos do ensino fundamental em escolas estatais, e 2,75 milhões de estudantes na escola secundária.
A Escócia já decidiu que as escolas ficarão fechadas, com ensino remoto, até fevereiro. No País de Gales, o governo anunciou que todos os níveis de ensino terão aulas apenas online até 18 de janeiro.
Uso de máscara para proteção contra o novo coronavírus.
O balanço divulgado hoje (4) pelo Ministério da Saúde (MS) mostrou o registro de 20.006 pessoas com covid-19 em 24 horas, desde o boletim deste domingo(3). Nesse mesmo período, foram registradas 543 novas mortes. A soma de pessoas infectadas desde o início da pandemia atingiu 7.753.752 enquanto 196.561 pessoas morreram por complicações da doença.
O balanço mostra ainda que 6.813.008 pessoas se recuperaram da covid-19. Os dados divulgados pelo ministério vêm de informações levantadas pelas secretarias estaduais de Saúde de todo o país.
Em geral, os registros de casos e mortes são menores aos domingos e segundas-feiras em razão da dificuldade de alimentação dos dados pelas secretarias de Saúde aos fins de semana. Já às terças-feiras, os totais tendem a ser maiores pelo acúmulo das informações de fim de semana que são enviadas ao ministério.
Covid-19 nos estados
São Paulo chegou a 1.473.670 de pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Os outros estados com maior número de casos no país são Minas Gerais (552.104) e Santa Catarina (498.910). Já o Acre tem o menor número de casos (42.117), seguido de Amapá (68.775) e Roraima (68.947).
São Paulo também lidera o número de mortes, com 46.888. Rio de Janeiro (25.617) e Minas Gerais (12.063) aparecem na sequência. Os estados com menos mortes são Roraima (787), Acre (806) e Amapá (936).
O Brasil inicia 2021 com pelo menos 195.411 mortes por covid-19. É o número de vítimas confirmadas até as 18h30 desta 6ª feira (1º.jan.2021), de acordo com o Ministério da Saúde. São 462 mortes a mais que o total registrado no dia anterior.
Foram mais 24.605 casos em 24 horas, totalizando 7.700.578 infectados.
Reprodução/Ministério da Saúde – 1º.jan.2021
Os dados indicam que 6.756.284 pessoas estão recuperadas da doença, e 748.883 permanecem em acompanhamento.
O Brasil perdeu 21.805 vidas em dezembro. O número de vítimas é superior ao registrado em novembro (13.236) e outubro (15.932).
MORTES POR COVID-19
Só os Estados Unidos têm mais vítimas que o Brasil. Eram mais de 355 mil mortos até a publicação desta reportagem.
O número de mortos no Brasil também é elevado na comparação proporcional. São 923 mortes por milhão de habitantes segundo cruzamento de dados do Ministério da Saúde com a última estimativa populacional divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
A taxa coloca o Brasil na 21ª posição do ranking mundial. Em 31 de outubro, ocupava o 4º lugar.
A Bélgica é o país onde a covid-19 mais mata em relação ao número de habitantes. São 1.681 mortes por milhão de habitantes. Entenda aqui os motivos dos números belgas.
MÉDIA MÓVEL DA MORTES E CASOS
Os 2 gráficos a seguir mostram o número de mortes e de novos casos diários, mas também a média móvel dos últimos 7 dias. A curva matiza eventuais variações abruptas, sobretudo porque nos fins de semana há sempre menos casos relatados.
A média de mortes diárias está acima de 600 desde 8 de dezembro de 2020.
Já a média móvel de novos casos está acima de 35.000 desde 25 de novembro de 2020.
A Argentina iniciou nesta terça-feira a campanha de vacinação contra a Covid-19 com a aplicação da vacina Sputnik V e se tornou o primeiro país da América Latina a inocular sua população com o imunizante do laboratório russo Gamaleya.
A primeira etapa da campanha começou de forma simultânea em todo o país vizinho com a vacinação voluntária dos profissionais da saúde. “A ideia é começar a vacinação com os que estão mais expostos ao risco. É realmente épico fazer a maior campanha de vacinação da Argentina com igualdade de acesso”, disse o ministro da Saúde Ginés González García, ao iniciar o processo no Hospital Posadas de Buenos Aires.
No Brasil, o Paraná e a Bahia firmaram acordos com o instituto russo para testes e aplicações de doses. A vacina, no entanto, ainda não foi aprovada para uso pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A agência ainda não recebeu, até o momento, pedido formal do Gamaleya para registro do imunizante no país.
A Argentina é o quarto país latino-americano que começa a vacinação contra a covid-19, depois do México, Costa Rica e Chile, que aplicam a vacina do laboratório Pfizer. O país registra desde março mais de 1,5 milhão de casos e 42.868 mortes.
A Sputnik V prevê uma segunda dose para ser aplicada 21 dias após a primeira. A primeira remessa com 300 mil doses chegou à Argentina procedente de Moscou em 24 de dezembro. O acordo com a Rússia contempla outras 19,7 milhões de doses que serão entregues entre janeiro e fevereiro, com a possibilidade de comprar mais 5 milhões.
Além deste acordo, a Argentina assinou também outros de fornecimento de vacinas com a Universidade de Oxford associada com a farmacêutica AstraZeneca e com o mecanismo Covax da Organização Mundial da Saúde (OMS). Também negocia a chegada do produto do laboratório Pfizer. O governo planeja adquirir um total de 51 milhões de doses de vacinas contra a covid-19.
Exemplo
Após ser vacinado, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, escreveu nas redes sociais que “hoje é o início do fim da pandemia na Argentina”. Ele também publicou uma foto na qual é visto usando uma máscara e recebendo a dose da Sputnik V.
A União Europeia decidiu hoje comprar mais 100 milhões de doses da vacina da Pfizer, afirmou a presidente da Comissão Europeia.
No Twitter, Ursula von der Leyen disse que, com a compra adicional, o bloco terá 300 milhões de doses do imunizante.
“Nós decidimos comprar mais 100 milhões de doses adicionais da vacina da BioNTech/Pfizer, que já é utilizada para vacina pessoas em toda a UE. Teremos, portanto, 300 milhões de doses dessa vacina, que foi avaliada como segura e eficaz. Muitas vacinas virão!”
Hoje, 26 dos 27 países que compõem o bloco já iniciaram a imunização. A Holanda, última a iniciar a vacinação, deve imunizar a população em janeiro.
No Hospital Infantil NewYork-Presbyterian Morgan Stanley, um dos mais conceituados de Nova York, espalhou-se um rumor que a fila para receber a vacina contra o coronavírus, no nono andar, não era vigiada e que qualquer pessoa podia entrar nela às escondidas e ser vacinada.
Segundo as regras, os profissionais de saúde mais expostos ao vírus deveriam ter prioridade, mas não demorou para funcionários de departamentos de risco mais baixo, incluindo alguns que passaram boa parte da pandemia trabalhando de suas casas, receberem o imunizante.
O lapso ocorreu nas primeiras 48 horas após a chegada das primeiras doses da vacina à cidade e provocou indignação entre profissionais do hospital, levando a direção a pedir desculpas.
Profisisonal de saúde de unidade especial para pacientes com Covid-19 em Nova York durante pausa – Johannes Eisele – 17.mai.20/AFP
O dr. Craig Albanese, alto executivo do NewYork-Presbyterian Morgan Stanley, escreveu em e-mail aos funcionários do hospital ao qual o New York Times teve acesso: “Estou profundamente decepcionado e entristecido por isso ter acontecido”.
A chegada de milhares de doses da vacina a hospitais de Nova York foi saudada com expressões de esperança por parte de médicos e enfermeiros que trabalharam na primeira onda devastadora de Covid em março e abril. Mas os estoques disponíveis da vacina ainda são muito limitados, e alguns hospitais parecem estar se atrapalhando com sua distribuição.
Em entrevistas concedidas para esta reportagem, mais de meia dúzia de médicos e enfermeiros em hospitais da região de Nova York se disseram indignados com o modo como a vacina está sendo distribuída em seus locais de trabalho.
Eles descreveram ao New York Times o que aconteceu, mas a maioria pediu para seu nome não ser usado, isso porque os hospitais estão se mostrando dispostos a demitir ou punir funcionários por falarem com a imprensa durante a pandemia.
Médicos e enfermeiros de alguns grandes hospitais de Manhattan contaram que, as acessarem as redes sociais, pararam diante de cada selfie postada por um de seus colegas no momento em que foram vacinados para avaliar rapidamente: será que essa pessoa mereceu ser vacinada antes de eles próprios?
“Estamos nos sentindo desrespeitados e desvalorizados por termos sido colocados como segunda prioridade de vacinação”, escreveu um grupo de anestesistas do Hospital Mount Sinai em carta aos administradores do hospital, no fim de semana.
Profissionais de saúde disseram que rumores estão se disseminando em grupos de WhatsApp e bate-papos em salas de cirurgia. Começaram a circular boatos sobre um cirurgião plástico que conseguiu ser vacinado logo no início e sobre doses da vacina que teriam sido jogadas fora em um hospital de Manhattan devido a planejamento deficiente.
Fotógrafo relata montanha-russa de sensações na cobertura da Covid-19 para o New York Times
Em grupos, médicos discutem como tentar adiantar-se para receber a vacina e se devem ou não fazê-lo.
Alguns médicos do Hospital Mount Sinai disseram a outros que é possível “dar um jeito” de receber a vacina, simplesmente entrando na fila e dizendo que você realiza “procedimentos ligados à Covid”, contou um médico do hospital, pedindo anonimato por temer retaliações.
Um médico do Hospital Infantil Morgan Stanley comentou: “Uma coisa está clara: estamos dispostos a pisar em cima uns aos outros para conseguir a vacina primeiro”.
Muitos dos boatos que circulam já foram desmentidos. Mesmo assim, disse outro médico do Mount Sinai, eles exemplificam o clima de desconfiança crescente e uma atitude de “cada um por si”.
Profissionais de saúde, residentes e funcionários de casas de repouso para idosos formam a chamada Fase 1 do plano de distribuição da vacina anti-Covid no estado de Nova York.
Cerca de 2 milhões de pessoas estão nesse grupo, e a quantidade de doses da vacina recebida inicialmente pelo estado significa que a Fase 2, que abrange trabalhadores essenciais, não deve começar antes do final de janeiro. As autoridades já disseram que a distribuição ampla da vacina para a população não deve começar antes do verão (ou seja, por volta de julho-agosto, no hemisfério norte).
Mas o estado deixou a cargo de cada instituição como traçar seu próprio plano de vacinação na Fase 1.
Na primeira semana de vacinação, muitos hospitais escolheram uma gama grande de profissionais –enfermeiros, médicos, faxineiros— que trabalham em salas de emergência e UTIs para serem os primeiros a ser vacinados. Mas o ambiente nos hospitais mudou nos dias seguintes ao clima de festa que acompanhou as primeiras vacinações.
Questionada sobre profissionais furando a fila de vacinação no Hospital Infantil Morgan Stanley, a administração do hospital respondeu: “Temos orgulho por termos em pouco mais de uma semana vacinado milhares de funcionários que trabalham diretamente com pacientes. Vamos continuar a fazê-lo até que todos recebam a vacina. Estamos seguindo as diretrizes do Departamento de Saúde do Estado de Nova York sobre a prioridade para vacinação, enfocando inicialmente os funcionários da UTI e da sala de emergência, com acesso igual a todos.”
Ivy Vega, terapeuta ocupacional que trata pacientes com Covid em outro hospital da rede NewYork-Presbyterian, o Centro Médico Irving da Universidade Columbia, disse que ficou frustrada esperando para ser vacinada enquanto outros o eram. Ela recebeu a primeira dose da vacina na quarta-feira (23).
“Sempre houve um clima de camaradagem entre nós. Foi o que nos ajudou a continuar firmes durante a pandemia”, disse ela. “Mas agora esta coisa que deveríamos estar festejando, a chegada desta vacina tão aguardada, está criando uma rivalidade. Há um clima de competição, de ceticismo e desconfiança.”
Alguns enfermeiros do Hospital Infantil Morgan Stanley contaram que ainda não foram vacinados, uma semana depois de a vacinação ter começado.
“Acho triste que as pessoas estão começando a se digladiar”, comentou um médico que trabalha no hospital. “Você pode honestamente dizer que esse funcionário administrativo merece ser vacinado antes de mim? Não, mas o fato é que ninguém merece receber a vacina antes de ninguém.”
O processo foi concluído no sábado (26), após a Anvisa ter recebido todas as informações necessárias ao longo dos últimos meses. Das quatro empresas que participam na produção de insumos para a vacina ou em sua formulação, três já receberam a certificação. Uma ainda não enviou as informações requeridas.
A certificação de boas práticas é um dos pré-requisitos para que seja autorizado o uso da vacina no Brasil. A verificação é feita de duas formas: por meio de inspeções da Anvisa ou de relatórios de inspeção elaborados por autoridades reguladoras com equivalência regulatória à brasileira que integrem o Esquema de Cooperação de Inspeção Farmacêutica (PIC/S, na sigla em inglês).
No caso das vacinas desenvolvidas pela Astrazeneca/Oxford e Sinovac, por exemplo, técnicos da Anvisa foram à China inspecionar as instalações de fábricas envolvidas na fabricação dos imunizantes. Isso foi necessário porque o país asiático não integra o PIC/S.
O transporte das vacinas, desenvolvidas pela Pfizer em conjunto com a BioNtech contra a Covid-19 para oito países europeus, sofrerá um atraso no cronograma de entrega. A mudança de planos foi anunciada pelo Ministério da Saúde da Espanha e pelo próprio grupo farmacêutico um dia depois do início da campanha de imunização na União Europeia (UE).
“Devido a um pequeno problema de logística, modificamos o cronograma de um número limitado de entregas. A questão de logística foi resolvida, e as entregas estão sendo despachadas. Não há problemas de fabricação”, disse o diretor global de comunicações da Pfizer, Andrew Widger. Um dos países mais afetados da Europa com 50.000 mortos, a Espanha deveria receber nesta segunda-feira 350.000 doses da vacina fabricada pelos laboratórios Pfizer e BioNTech. Com exceção da Espanha, ainda não foi revelado quais são os outros sete países que tiveram um atraso nas encomendas.
“A Pfizer Espanha indica que foi informada por sua fábrica de Puurs (Bélgica) sobre o atraso nos envios para oito países, incluindo a Espanha, devido a um problema no processamento de carga e envio”, afirma o Ministério em um comunicado. O próximo carregamento de vacinas chegará à Espanha na terça-feira, 29, acrescentou o órgão.
A Europa é até agora a região mais atingida pela pandemia da Covid-19 no mundo, com mais de 25,4 milhões de casos e quase 550.000 vítimas fatais. Além da vacina Pfizer/BioNTech, a UE está em vias de aprovar outros fármacos em breve, como a da AstraZeneca e Oxford, provavelmente no início de janeiro.
Sem fogos de artifício
Antes da UE, alguns países começaram campanhas de vacinação contra o coronavírus, começando pela China e depois a Rússia, o Reino Unido, os Estados Unidos, o Canadá, a Suíça, o México, a Costa Rica e o Chile. Paralelamente à imunização, no entanto, cada vez mais localidades detectam casos da nova cepa de coronavírus descoberta inicialmente no Reino Unido. Canadá, Itália, Suécia, Espanha, Portugal, Japão e Coreia do Sul estão entre os casos mais recentes de detecção da variante.
Ao longo do fim de semana, vários países voltaram a instaurar medidas de restrição, incluindo o território britânico de Gibraltar, que anunciou um toque de recolher noturno. Israel iniciou no domingo um severo terceiro confinamento. O Exército do país começou a vacinar os soldados nesta segunda-feira, com 17 tendas para a campanha em diversos pontos do território. Até o momento 380.000 pessoas receberam a primeira dose no Estado hebreu.
A Arábia Saudita, o país árabe do Golfo mais afetado pela pandemia, anunciou a prorrogação por uma semana do fechamento de suas fronteiras terrestres e marítimas e da suspensão dos voos internacionais, devido à variante britânica do coronavírus. O Brasil também suspendeu a entrada de voos do Reino Unido.
Diante da ameaça de um novo surto do vírus com a chegada do inverno, a China, onde o coronavírus foi detectado pela primeira vez no fim do ano passado, reforçou os controles médicos, com verificação da temperatura, testes e inspeções nos aeroportos.
E a despedida de um ano difícil, que acontecerá daqui a três dias, não contará com grandes celebrações. Na Austrália, os moradores de Sydney não poderão comparecer à baía da cidade para contemplar o tradicional espetáculo de fogos de artifício após o aumento de casos na cidade, a mais populosa do país.
Ele disse a apoiadores há pouco no Palácio da Alvorada, antes de viajar para Guarujá:
“O Brasil tem 210 milhões de habitantes. Um mercado consumidor, de qualquer coisa, enorme. Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente? Por que eles, então, não apresentam documentação na Anvisa? Pessoal diz que tenho que…Não, não. Quem quer vender… Se eu sou vendedor, eu quero apresentar.”
Numa disputa planetária por imunizantes efetivos, governos de todo o mundo se anteciparam em acordos que garantissem a compra da produção das farmacêuticas.
Bolsonaro passou o tempo brigando com João Doria, dizendo que a pandemia já acabou e que vacinas podem transformar as pessoas em jacarés. Agora, sentiu o bafo quente do impeachment.
O grupo farmacêutico britânico AstraZenecaafirmou que encontrou, após pesquisas adicionais, “a fórmula vencedora” para a vacina contra a covid-19 desenvolvida em parceria com a Universidade de Oxford, sobre a qual a agência reguladora britânica deve se pronunciar nos próximos dias.
“Acreditamos que encontramos a fórmula vencedora e como obter uma eficácia que, com duas doses, está à altura das demais“, afirmou o diretor executivo da empresa, Pascal Soriot, ao jornal Sunday Times.
Ele disse ainda que a vacina garante uma “proteção de 100%” contra as formas graves de covid-19.
Nos resultados provisórios de testes clínicos em larga escala no Reino Unido e Brasil, o laboratório britânico anunciou em novembro que sua vacina tinha eficácia média de 70%, contra mais de 90% dos fármacos da Pfizer/BioNTech e Moderna.
Por trás do resultado médio estão grandes diferenças entre dois protocolos: a eficácia alcança 90% para os voluntários que receberam primeiro metade da dose e uma dose completa um mês depois, mas de apenas 62% para outro grupo vacinado com duas doses completas.
Os resultados foram criticados porque aconteceu um erro na injeção de meia dose, embora um grupo relativamente pequeno tenha seguido este protocolo. A empresa anunciou mais tarde que sua vacina exigia “estudos adicionais”.
A vacina Oxford/AstraZeneca é aguardada com impaciência porque é relativamente barata e não precisa ser armazenada a uma temperatura tão fria como a da Pfizer/BioNTech, por exemplo, que deve ser mantida a -70 graus.
O fármaco da AstraZeneca pode ser armazenado em condições de refrigeração (2 a 8 graus), o que facilita a vacinação em larga escala e em casas de repouso.
O Reino Unido foi o primeiro país ocidental a iniciar a imunização com a vacina da Pfizer/BioNTech, no início de dezembro. Agora conta com a segunda vacina Oxford/AstraZeneca para ganhar impulso e cortar a curva de aumento de casos atribuídos à nova cepa do coronavírus detectada em seu território.
Diante da mutação, “pensamos no momento que a vacina deve continuar sendo eficaz”, afirmou Pascal Soriot. “Mas não podemos ter certeza e faremos alguns testes”.
Ele garantiu que novas versões foram preparadas, mas espera que não sejam necessárias: “Você tem que estar preparado”.
O governo do Reino Unido informou na quarta-feira que apresentou os dados completos da vacina Oxford/AstraZeneca à agência reguladora do Reino Unido, a MHRA (Medicines and Healthcare products Regulatory Agency).
Com 5,5 milhões de doses, o quarto lote de vacinas contra a covid-19 vindo da China chegou ao estado de São Paulo nesta quinta-feira (24). O avião com as doses de CoronaVac pousou no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, às 5h30.
A carga recebida nesta véspera de Natal é composta por 2,1 milhões de doses já prontas para aplicação e mais 2,1 mil litros de insumos, correspondentes a 3,4 milhões de doses que serão envasadas no complexo fabril do Butantan, na capital paulista.
Mais dois carregamentos devem desembarcar no país na próxima semana, nos dias 28 e 30 de dezembro, totalizando 10,8 milhões de doses em solo brasileiro ainda em 2020. O início do Plano Estadual de Imunização segue previsto para o dia 25 de janeiro.
A parceria entre o Butantan e a biofarmacêutica Sinovac Biotech foi firmada no dia 10 de junho.
As três entregas anteriores do imunizante ocorreram no Aeroporto de Cumbica, na cidade de Guarulhos, em São Paulo. O primeiro lote, com 120 mil doses, chegou ao Brasil no dia 19 de novembro. O segundo, com 600 litros a granel do insumo, correspondente a 1 milhão de doses, desembarcou em 3 de dezembro. Já a terceira remessa, com 2 milhões de doses, foi recebida no último dia 18.
O Natal este ano será triste em muitos países, com milhões de pessoas obrigadas a cancelar seus planos ou a limitar as celebrações devido às restrições impostas para lutar contra a propagação da pandemia de coronavírus.
A covid-19 provocou mais de 1,7 milhão de mortes em todo o planeta e os focos de contágios que continuam surgindo servem de recordação que, apesar da chegada das primeiras vacinas, a vida não voltará rapidamente à normalidade.
A Austrália, que chegou a ser mencionada como exemplo de boa gestão da crise sanitária, enfrenta atualmente uma nova conda de casos no norte de Sydney, cidade onde os habitantes só podem convidar a suas casas 10 adultos para as festas. E apenas cinco se moram no epicentro do foco de contágios.
Jimmy Arslan, que possui dois cafés localizados nos bairros mais afetados, registrou queda de 75% no volume de negócios. E não poderá encontrar a família, que mora em Canberra e não pode viajar para o Natal.
“É de partir o coração”, afirma. “É um final triste para um ano triste.
“Deveríamos dar as boas-vindas em 2021 e chutar 2020 no traseiro”, brinca o homem de 46 anos.
Destruir o corona
A maior parte da Europa enfrenta um de seus invernos mais tristes, com a aceleração da epidemia em vários países.
A Alemanha cancelou os famosos mercados de Natal e o papa Francisco decidiu antecipar em duas horas a Missa do Galo no Vaticano, para cumprir as restrições na Itália.
Em Belém, local de nascimento de Jesus de acordo com os cristãos, não haverá missa com público, nem a presença de dirigentes palestinos, como o presidente Mahmud Abbas, apenas uma cerimônia de Natal com a presença do clero e que será transmitida pela televisão.
Nos últimos dias antes do Natal, a Capela Santa Catarina, anexa à Basílica da Natividade, foi reaberta para a população local.
“Esperamos que o Senhor destrua o corona e que possamos recuperar nossa vida de antes”, afirmou à AFP Nicolas al Zoghbi, homem que disse ter “mais de 70 anos”.
Mas para muitos, o Natal será sinônimo de isolamento, como durante a maior parte do ano.
Nas Filipinas, alguns optaram por passar as festas sozinhos devido ao risco de contrair o vírus no transporte público.
Festas de ano novo também serão afetadas
“Vou pedir comida, assistir filmes antigos e fazer uma chamada de vídeo com a família”, afirma Kim Patria, de 31 anos, que mora sozinha em Manila.
Ao mesmo tempo, milhares de caminhoneiros europeus se preparam para passar a noite em condições precárias, bloqueados ao redor do porto de Dover, no Reino Unido, que sai lentamente do isolamento provocado pela detecção em seu território de uma nova cepa do coronavírus.
“Todos nos dizem para esperar, mas não queremos esperar”, lamentou na quarta-feira o motorista polonês Ezdrasz Szwajan no aeroporto de Manston, onde o governo britânico organizará testes de covid-19 em milhares de caminhoneiros.
“Dizem que teremos teste covid, mas não há nada. Não temos nenhuma informação, nada”, completou, emocionado. “Tenho dois filhos, uma mulher, só quero ir para a Polônia”.
As festas de Ano Novo também sofrerão as consequências.
A cidade do Rio de Janeiro vai fechar o acesso à praia de Copacabana durante a noite do último dia do ano para evitar multidões diante do novo aumento de infecções da covid-19.
A tradicional festa com shows e fogos de artifício que atrai multidões à praia de Copacabana todos os anos já havia sido descartada devido ao vírus, que já deixou quase 25 mil mortos no estado do Rio de Janeiro.
Até o momento, Sydney ainda prevê receber 2021 com o famoso espetáculo de fogos de artifício. A primeira-ministra de Nova Gales do Sul, Gladys Berejiklian, prometeu um show de sete minutos.
A ausência da apresentação de dados de eficácia sobre a vacina Coronavac nesta quarta-feira, dia 23, durante coletiva de imprensa realizada no Instituto Butantã, deixou a comunidade científica preocupada em relação à eficácia do imunizante. O governo de São Paulo já havia adiado a apresentação dos dados, programada inicialmente para o dia 15. Agora, a divulgação foi novamente postergarda. O novo anúncio do resultado dos testes está programado para daqui a duas semanas.
“O problema é que a falta de uma explicação mais consistente sobre o motivo de tantos adiamentos começa a deixar os cientistas desconfiados de que pode ter havido algum problema com a vacina”, diz Maria Amélia Veras, epidemiologista da Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo e do Observatório Covid-19 BR.
Segundo o Instituto Butantã, os dados não foram apresentados porque haveria divergências com os resultados dos testes clínicos em países como a Turquia e a Indonésia, onde as avaliações também estão sendo conduzidas.
Os cientistas brasileiros que vêm acompanhando a evolução da vacina dizem que poucos voluntários receberam a dose de imunização na Turquia e na Indonésia, o que não justifacaria um problema de divergências nos testes. “A maior parte dos testes aconteceu no Brasil mesmo”, diz Fernando Reinach, biológo, PHD em biologia celular e molecular pela Cornell University e autor do livro “A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil”.
“O novo adiamento dos resultados dos testes de fase 3 da Coronavac levantam a suspeita de que possa haver algum problema com a eficácia da vacina ou com o ensaio clínico do Butantã”, afirma Reinach.
Existe a desconfiança de que os resultados possam ter sido inconclusivos ou que a vacina teria uma baixa eficácia, já que o Instituto Butantã ainda não divulgou os dados que sobre o índice de eficiência do imunizante. “Toda a comunidade científica esperava que os resultados fossem divulgados nesta quarta, conforme o Butantã havia anunciado, e ficamos pasmos com o cancelamento da abertura das análises”, diz Veras.
Os cientistas também se revelam preocupados pelo fato de que nem mesmo a China registrou a vacina ainda. “Não sabemos muito bem o que se passa na China, por se tratar de um país fechado”, afirma Gonzalo Vecina, médico sanitarista e presidente da Anvisa entre 1999 e 2003. “Pode ser que estejam tomando um cuidado especial ou estejam envoltos em questões burocráticas, mas o fato é que sem o registro da vacina na China é impossível haver um registro pela Anvisa no Brasil”.
Vecina também alerta que o resultado dos ensaios clínicos de fase 3 ainda não foram publicados em revistas científicas, o primeiro passo de processos de comprovação da eficácia de vacinas e medicamentos. Após a publicação, a comunidade científica internacional analisa os dados do estudo e dá seu parecer.
Outro fator potencialmente preocupante é o real índice de eficácia da Coronavac. De acordo com o Butantã, os testes clínicos mostraram um índice de eficácia no limiar de 50%, embora ninguém tenha visto os dados. Outras vacinas, como as da Pfizer e Moderna, apresentam uma eficácia de 95%.
“Uma taxa de 50% significa que apenas metade da população que receber a vacina estará de fato imunizada”, explica Vecina. Caso isso aconteça, um dos problemas que é a população pode acreditar que está totalmente imunizada e descuidar de medidas essenciais como usar máscara e manter o distanciamento social, embora ao menos parte das pessoas de fato adquira anticorpos contra o coronavírus.
A comunidade científica também acredita que o calendário de vacinação proposto pelo governo de São Paulo, com início em 25 de janeiro, talvez precise ser revisto. Como a divulgação dos dados sobre os testes 3 da vacina foram postergados para 15 dias, existe uma probabilidade de não haver tempo hábil para providenciar o registro junto à Anvisa e começar a imunização em janeiro. Além disso, é preciso que antes a China registre a vacina.
Até agora, as vacinas que já obtiveram registros em órgãos internacionais são as da Pfizer e da Moderna, autorizadas nos Estados Unidos. “Em relação à Coronavac, o processo não caminhou tanto assim”, diz Vecina.