
Monsenhor João Medeiros Filho
Dom José de Medeiros Delgado, paraibano de Pombal, foi o primeiro bispo de Caicó (RN). Pelo lado materno tinha raízes potiguares em Serra Negra do Norte. Mostrou-se sempre criativo e pioneiro. Sua despedida do Seridó, no ano de 1951, em razão da transferência para São Luís (MA) foi pranteada durante muitos dias. “Ele apascentava no poder do Senhor e na sublimidade de seu Deus” (Mq 5,4). Algo semelhante ali aconteceu vinte anos depois, no sepultamento de Monsenhor Walfredo Gurgel, na Catedral de Sant’Ana de Caicó.
No Rio de Janeiro, Dom Delgado conheceu Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima). Tornaram-se grandes amigos. O bispo do Seridó era padrinho da filha de Alceu, que se tornaria abadessa beneditina. A correspondência entre ambos integra um valioso acervo, que registra a profunda amizade entre duas expressivas lideranças do catolicismo brasileiro do século XX. Por intermédio de Tristão, Dom José privou do convívio de pensadores, intelectuais e educadores, dentre eles, Gustavo Capanema. Este teceu ingentes elogios ao projeto de criação do Ginásio Diocesano Seridoense (1942), o mais inovador da época. O MEC autorizou o Ginásio junto com a Escola Pré-vocacional de Caicó, primeira experiência de ensino profissionalizante do Nordeste. Dom Delgado fundou ainda a Escola Doméstica Darcy Vargas, dotando-a da primeira creche (Pupileira) da região, espaço de acolhimento de crianças e lugar da prática das alunas do referido educandário.
Além de Alceu Amoroso Lima e Gustavo Capanema, Dom Delgado tornou-se próximo de Dom Marcos de Araújo Barbosa, Dom Lourenço de Almeida Prado e vários membros do Centro Dom Vital. Por meio de cartas Tristão apresentou o prelado caicoense a Jacques e Raïssa Maritain, Thomas Merton, Fulton Sheen e outros autores renomados. Como arcebispo de Fortaleza, Dom Delgado recebeu todo o apoio de Tristão para a reabilitação de Padre Cícero do Juazeiro. Sua obra “Padre Cícero, mártir da disciplina” (1970) foi de suma importância para a análise do caso pelo Vaticano.
O antístite seridoense também manteve intensos laços de amizade com o escritor e político José Américo de Almeida, sobrinho de dois ilustres paraibanos: Monsenhores Walfredo Leal (pelo lado materno) e Odilon Benvindo de Almeida (lado paterno). O prelado seridoense influenciou o autor de “A Bagaceira” a escolher Tristão de Athayde para proferir o discurso de recepção na posse como novo imortal na Academia Brasileira de Letras. Enquanto Ministro da Viação e Obras Públicas, José Américo foi de fundamental importância para o início da construção da Barragem de Oiticicas (Jucurutu/RN), idealizada pelo então bispo de Caicó, hoje denominada pela Lei 12.680/2026), Complexo Hidrossocial Dom José Delgado.
Um homem além do seu tempo é como se pode definir Dom Delgado: sacerdote, educador, escritor, humanista e precursor. Muito lhe deve a Universidade Federal do Maranhão. Como arcebispo de São Luís, cedeu o Palácio Arquiepiscopal para sediar a Faculdade de Ciências Médicas. Em Fortaleza, vendeu o Paço Episcopal para sustento, formação do clero e laicato, criação de novos bispados. Homem de profundo espírito de Igreja. Tocado pelo Concílio Vaticano II assinou o “Pacto das Catacumbas”, um compromisso de despojamento e pobreza de muitos prelados do mundo inteiro. Profundamente caridoso, acolheu na sua residência em Fortaleza um sacerdote (Enemias Freire de Almada) e um bispo (Raimundo Simplício de Almeida), ex-membros da Igreja Católica Brasileira, reintegrados à Santa Sé. Padre Enemias, certa feita, viajou a Caicó para rezar no túmulo de Dom Delgado, num gesto de gratidão. Ao saudoso bispo cabem, outrossim, as palavras do apóstolo Paulo: “Para todos eu fiz-me tudo para salvar alguns” (1Cor 9, 22).