A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal , por maioria, entendeu que o HC é o instrumento processual adequado para aferir a parcialidade do ex juiz Moro e, por consequência, dos membros da Força Tarefa.
É importante frisar que a Suprema Corte julgou ser o juiz Moro um juiz PARCIAL. Não validou os métodos espúrios, hoje inquestionavelmente reconhecidos, utilizados pelo juiz e pelo grupo de Curitiba.
O que se decidiu foi que neste julgamento do HC se pôde aferir , pela via escolhida, que o juiz Moro foi PARCIAL e , sem dúvida, instrumentalizou o Poder Judiciario. Ele e os Procuradores que ele coordenava.
É fundamental frisar que a investigação criminal contra o juiz Moro e os Procuradores deve e tem que continuar . O ex juiz não pode mais responder no Conselho Nacional de Justiça, pois está aposentado. Mas , à toda evidência, ele deve responder em procedimentos criminais. Ninguém está acima da lei.
Por outro lado os Procuradores, certamente, deverão responder junto ao CNMP e também nas devidas e necessárias investigações criminais.
O que é certo é que cabe ao Ministério Público, que na sua imensa maioria é séria, continuar promovendo a investigação dos ilícitos.
Cabe ao Tribunal de Contas cumprir seu papel e averiguar as condutas dos agentes públicos.
E , muito especialmente, cabe ao Poder Judiciário dar a palavra final e examinar de forma criteriosa os inúmeros abusos, ilegalidades e crimes que inegavelmente foram cometidos. O sistema de justiça foi corrompido as claras, resta uma resposta a nação como única maneira de resgatar a credibilidade do sistema.
Aquilo que defendemos nos últimos 5 anos , a parcialidade do juiz Moro e do seu bando, está agora sacramentado pela Corte Suprema. A instrumentalização e o uso político do Poder Judiciario e do Ministério Público , corrompeu o sistema de justiça. Felizmente o Supremo Tribunal resgata a dignidade do sistema.
Padre João Medeiros Filho
“Façamos o elogio de homens ilustres, nossos antepassados, através das gerações”, recomenda o Livro do Eclesiástico ou Sirácida (Sr 44, 1). A comenda é uma condecoração concedida a pessoas que se destacam em suas áreas de atuação. O Vaticano outorga esta honraria a leigos que prestam relevantes serviços à Igreja. Costuma agraciar por meio de cinco instituições. São as ordens do Santo Sepulcro, Soberana de Malta, São Pio X (Piana), São Silvestre e São Gregório Magno. Esta detém a precedência sobre as demais. Conferem quatro graus: cavaleiro, dama, oficial e comendador, sendo este o mais alto. Seus detentores desfrutam de privilégios junto à Sé Apostólica, como, trânsito livre nas dependências pontifícias e direito à saudação protocolar da Guarda Suíça. Além das insígnias próprias, são contemplados com brasão e heráldica personalizados.
No século passado, o Rio Grande do Norte foi aquinhoado com cinco comendadores pontifícios. Justas e merecidas homenagens. O primeiro é Luís da Câmara Cascudo, ícone de nossa cultura. Levantou os dados dos registros (cartas régias, decretos imperiais, leis provinciais, provisões diocesanas etc.) da criação de nossas paróquias, até os idos de 1950. O Capítulo IX de sua História do Rio Grande do Norte volta-se para a tarefa de evangelização da província. Publicou numerosos estudos sobre vultos religiosos potiguares. Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas, quando arcebispo de Natal, solicitou ao Papa condecorar o renomado pesquisador e antropólogo. Entretanto, coube a Dom Eugênio de Araújo Sales, bispo auxiliar, a entrega do galardão, que o metropolita havia pleiteado, pois, na ocasião, Dom Marcolino já padecia de cegueira total.
Otto de Brito Guerra é a expressão da liderança intelectual católica de nosso estado. Jurista e mestre de gerações, detentor de inúmeros títulos, membro de alguns movimentos e irmandades, distinguia-se também pelo elevado saber místico-teológico, especialmente no campo da Doutrina Social da Igreja. Sobre esta temática possuía, à época, a mais completa biblioteca da América Latina. Contribuiu para a organização das emissoras rurais de nossas dioceses. O Concílio Vaticano II deve-lhe muitas páginas da Constituição “Guadium et Spes”. Seus artigos em jornais e revistas revelam a profundidade de seu pensamento religioso.
Outro homem marcado pelo cristianismo é o professor Ulysses Celestino de Góis. Consagrou-se como alma das cooperativas de crédito, incentivador do ensino da contabilidade e, durante anos, dirigente da Congregação Mariana de Natal. Esta veio a ser uma grande escola de formação católica, a exemplo do Centro Dom Vital (RJ), celeiro de tantos líderes cristãos, como Tristão de Athayde, Sobral Pinto e outros. Em gratidão a seu trabalho apostólico, o Sumo Pontífice outorgou-lhe a comenda, reconhecendo igualmente sua piedade e devoção à Virgem Santíssima. Além disso, foi um mecenas para nossa arquidiocese.
Hélio Mamede de Freitas Galvão era, sem dúvida, um católico convicto e fervoroso de nossa terra. Tive a honra de ser seu aluno no Seminário de São Pedro, em Natal. Homem de sólida fé, piedoso e probo, foi o defensor ardoroso do patrimônio das paróquias, por vezes, dilapidado pela incúria ou desconhecimento dos gestores. Prestou incomensurável contributo à pacificação do RN. Seu parecer canônico-jurídico – a pedido do bispado de Caicó – em defesa da candidatura de Monsenhor Walfredo Gurgel ao governo do estado, foi técnico e convincente. Respondendo à diocese seridoense e autorizando a candidatura daquele eclesiástico, Dom Sebastião Baggio, Núncio Apostólico no Brasil, assim se expressou: “Brilhante peça jurídica. Vislumbra-se no autor a fé profunda de um autêntico cristão.”
Há poucos meses, foi juntar-se aos eleitos de Deus o último comendador pontifício norte-rio-grandense João Wilson Mendes Melo. Educador, advogado, historiador, jornalista, membro de várias irmandades e assessor do arcebispado. Dirigiu diversas instituições de ensino e tornou-se o formador de muitas consciências na Congregação Mariana de Natal, enquanto responsável pelas palestras, cursos e retiros dos congregados. A Igreja muito deve a esses filhos, voltados para assuntos eclesiais. Constituíram a vanguarda do pensamento e do laicato católico potiguar. Tal tarefa deveria ser incentivada pelas faculdades de teologia, cujo objetivo consiste também em responder ao desafio de pensar o Evangelho e sua inculturação junto ao povo. A maior recompensa desses eminentes conterrâneos é a glória celestial, pois “seus nomes estão inscritos no Livro da Vida” (Lc 10, 20).
O mercado voltou a aumentar as previsões de inflação e de juros para este ano.
Com base nos dados do Boletim Focus divulgado há pouco pelo Banco Central, a estimativa do IPCA, o índice oficial da carestia no Brasil, subiu de 4,6% para 4,71% para o fim de 2021 — o centro da meta oficial é de 3,75%.
Já a projeção para a Selic, a taxa básica de juros da economia, em dezembro aumentou de 4,5 para 5% ao ano.
Nesta semana, será divulgará a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que aumentou a Selic, na semana passada, de 2% para 2,75% ao ano. Na quinta-feira, o IBGE divulgará o IPCA-15, a prévia da inflação, referente a março. No mesmo dia, o Banco Central divulgará o relatório trimestral de inflação.
O Secretário de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Alejandro Mayorkas, disse em entrevista à rede de TV ABC no domingo (21.mar) que as fronteiras do país estão fechadas para os imigrantes: “A mensagem é clara, não venham. A fronteira está fechada, a fronteira é segura”.
A declaração vem na esteira de uma crise migratória enfrentada pelo presidente Joe Biden já nos primeiros meses de gestão. De acordo com a CNN, o secretário afirmou que a quantidade de pessoas tentando cruzar a fronteira com o México “caminha para ser a maior em 20 anos”. A situação é ainda mais preocupante porque há cerca de 4.200 crianças desacompanhadas sob custódia da polícia migratória norte-americana. O presidente também já foi à TV na 3ª (16.mar) para reforçar a mensagem: “Eu digo claramente: não venham”, declarou o democrata. “Não saiam das suas cidades”.
Depois de 4 anos de governo Trump, cuja política para barrar o fluxo de imigrantes para os EUA incluiu a construção de um muro na fronteira com o México, havia uma expectativa sobre como Biden lidaria com o tema. Uma das primeiras medidas do democrata foi interromper a construção do muro.
A cidade de São Paulo registrou pela primeira vez desde o início da pandemia falta de oxigênio medicinal em uma unidade de Saúde, publica O Globo.
Na noite desta sexta-feira, dez pacientes recebiam tratamento na UPA Ermelino Matarazzo tiveram de ser transferidos em razão da falta do insumo. As unidades de Saúde prestam o primeiro atendimento a pacientes com sintomas de Covid.
De acordo com o secretário municipal de Saúde, Edson Aparecido, o problema ocorreu porque a empresa White Martins não conseguiu oferecer o insumo a tempo.
“Em condições normais, a gente abastecia as UPAS de oxigênio uma vez por semana. Agora, precisamos abastecer três vezes ao dia por causa do aumento do número de pacientes que chegam com Covid-19”, disse Aparecido.
Padre João Medeiros Filho
Desde a infância, meus pais despertaram em mim o sentimento de gratidão. E confesso: alegra-me cultivá-lo, ao longo dos meus dias. Diariamente, agradeço ao Criador o dom da vida e por Ele me ter constituído arauto de sua ternura. Grato sou por tantas maravilhas concedidas, dentre elas, os amigos. Um poeta bíblico, há quase quatro mil anos, afirmara: “A soma de nossos anos chega a setenta ou para os mais fortes, oitenta. A maior parte deles é luta… Passa depressa. É como se voássemos” (Sl 90/89, 10). Estes versos, divinamente inspirados, encerram, além da beleza literária, uma mensagem do Eterno. Quem nos faz levantar voo é Deus. Ele torna-nos ávidos de esperança e sedentos do Infinito. Nisto consiste a realidade humana. Para quem tem fé, ela é sopro do Altíssimo (Gn 2, 7), centelha celestial, aceno da plenitude da Luz. Participa do mistério divino, latente a nossos olhos, mas perceptível à visão da fé. O que seria de nós, se a vida fosse totalmente manipulada pelos homens, seus caprichos e instabilidade?
Perguntam-me como me sinto, completando oito décadas. Continuo sendo o menino de recado de Deus, temendo esquecer a mensagem confiada, atento para transmiti-la fielmente, sem misturar minhas palavras com as Daquele que me enviou. Quantos anos você tem? Como Rubem Alves, repito: “Digo que não tenho mais oitenta”. Estes se foram na poeira dos caminhos, nas trevas da existência, atravessados com ajuda do clarão da fé e iluminados pelo brilho da graça sobrenatural.
Os amigos indagam-me: por que você decidiu ser padre? A resposta não está em mim, mas em Cristo. “Não fostes vós que me escolhestes. Fui eu que vos escolhi.” (Jo 15, 16). O motivo dessa escolha faz parte do mistério do ser humano. Meu pai esperava ver-me um tribuno, com discursos repletos de ideias e sonhos, talvez vazios da riqueza de Deus. Por minha mãe, teria sido médico, aliviando dores, qual seu tio Epaminondas Tito Jácome. Entretanto, os planos de Deus eram outros. Proclama o Todo-Poderoso: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e meus desígnios não são os vossos desígnios.” (Is 55, 8). Não tenho palavras para explicar porque fui tornado fagulha do Sagrado e lábil pulsação do Eterno. O Cardeal Suennes, arcebispo de Bruxelas, na homilia da ordenação de meus colegas, advertiu: “Não façam muitos planos. Vivam de acordo com a sede de Deus, manifestada pelos seus irmãos”. Adotei esta orientação para o meu ministério presbiteral.
Com o tempo e no silêncio, compreendi que falar muito de Deus pode sinalizar que Ele não está dentro de nós. A fala insistida e continuada indica ausência. Ele é como o vento. Podemos senti-lo na pele e ouvi-lo no farfalhar das folhas. Um dia, Ele colocou meu coração para além do tempo, na Eternidade. O encanto do Transcendente seduziu-me. “O zelo de tua casa me inebriou”, diz o salmista (Sl 69/68, 10). Deus é a Beleza. Segundo Helena Kolody, “as coisas belas são sua sombra no mundo”. Esplêndido é o Evangelho; extasiante, o mistério da Eucaristia; encantadoras são as Bem-aventuranças; tocante é a poesia de Maria Santíssima. Tudo isso me inspirou a ser sacerdote. E Michel Quoist (meu contemporâneo, em Louvain) marcou-me com estas palavras: “Deus não mora apenas numa casa. Se assim fosse, estaria ausente do resto do mundo. Vento engarrafado não sopra. Meu irmão, leve Deus para o meio dos homens.”
O que dizer da Igreja? É terrena e divina, sacramento temporal de Cristo, detentora de muitas virtudes e alguns pecados, pois também é humana. Respeito-a profundamente. É minha mãe na fé. Dela pode-se discordar esporadicamente, desrespeitá-la jamais. Isso me ajudou a viver em paz e feliz, ao longo destes oitenta anos, dos quais cinquenta e seis, de sacerdócio. Não sou exemplo, e sim mendigo do perdão divino. O reconhecimento de nossa miséria atrai a misericórdia de Deus. Busco viver o ensinamento do salmista: “Provai e vede como o Senhor é bom. Inefável é o seu amor, incomensurável a sua bondade.” (Sl 34/33, 8; 36/35, 8). Minha fé leva a entregar-me, cotidianamente, ao Pai Celeste.
Padre João Medeiros Filho
O Brasil contamina-se cada vez mais com polêmicas e radicalismos, acarretando desgaste emocional e desperdício de energias nos indivíduos. Desprezam-se oportunidades ricas de diálogos sensatos, capazes de ajudar na solução de vários problemas. A dificuldade em debater, de forma construtiva, tem revelado despreparo com o exercício das responsabilidades civis, profissionais e até religiosas. Isso não é novo. Na época de Jesus Cristo, seus concidadãos viviam psicologicamente armados. A animosidade reinava entre as províncias da Samaria e Judeia (cf. Lc 9, 52-53 e Jo 4, 9). As constantes diatribes com escribas, fariseus, saduceus e outras correntes eram análogas aos atuais embates ideológicos. Os evangelhos contêm várias alusões a esse tipo de comportamento.
Verifica-se um descompasso entre as possibilidades científicas ou tecnológicas do Brasil contemporâneo e as contradições da sociedade. Esta se enfraquece, ainda mais, com lutas fratricidas, impactando sobre o exercício das diferentes atividades. Disso resulta a fragilização crescente das instituições. Na ausência de equilíbrio ético, psicológico, político e social, falta clareza às pessoas. Assim, prevalecem conveniências e acordos condenáveis, dificultando soluções adequadas. Nesse contexto, a capacidade de diálogo se debilita, travando a percepção da verdade e o exercício da justiça e solidariedade. Discernimento e consenso estão praticamente ausentes da convivência hodierna. O outro passa a ser inimigo, lembrando o pensamento de Sartre: “O inferno são os outros”.
Atualmente, o país e os cidadãos vêm se nutrindo patologicamente de polêmicas. “Não se informa mais com objetividade e razoabilidade. Decide-se jogar mais lenha na fogueira”, advertiu o Papa Francisco, em uma de suas recentes audiências públicas. Hoje, as pessoas revelam-se incapazes de escutar e aceitar críticas que possam contribuir para a construção de dinâmicas renovadoras dos diferentes contextos. “Foi-se o contraditório, reina o ditatório”, desabafou o jurista Afonso Arinos, da tribuna do Senado, na década de 1970. Desprovidos de humildade, tangidos pela vaidade e empáfia, muitos se arrogam melhores do que realmente são.
Nos dias atuais, julga-se açodadamente. Há pressa na emissão de juízos. Desconsideram-se as ponderações necessárias para interpretar adequadamente falas e fatos. Geralmente, não se analisa o porquê das coisas. As sentenças são quase imediatas, impulsionadas por ódio, preconceitos ou interesses duvidosos. Por isso, opiniões e pareceres distanciam-se da realidade e prejudicam inúmeros processos importantes. Daí, surgem obscurantismos e polarizações. Deste modo, as instituições vão definhando. E, consequentemente, os acontecimentos são banalizados na velocidade da mídia, sem análise responsável dos conteúdos e seus alcances. Valoriza-se mais o frenesi abusivo e alienante das redes sociais, ameaçando a saúde mental dos indivíduos e da nação.
Entre as consequências desse cenário estão a ausência de habilidade para se relacionar e a crescente violência. O lar está deixando de ser local de diálogo, tornando-se reduto de conflitos. “Muitas famílias reduzem-se a meros pensionatos”, como afirmava Dom Nivaldo Monte. Isso concorre para o adoecimento do país, somado à pandemia, que também se tornou escudo ou álibi para inépcia, ausência de honestidade e seriedade em muitos. Em artigo anterior, afirmamos que as imunizações são urgentes, não apenas para vencer o Sars-CoV-2, mas também para superar outras enfermidades, que podem levar ao colapso nacional, inclusive pessoas capitularem da vida.
A desorientação generalizada é sinal de que a estrutura da nação está abalada. É preciso fortalecer a dinâmica da fé. Jesus tranquilizou o leproso: “A tua fé te salvou” (Lc 17, 19). A recuperação do Brasil clama igualmente por uma solidez espiritual e mística. Diante da crescente morbidade das pessoas e instituições, urge buscar o remédio da espiritualidade. Evidentemente, não se deve abrir mão de outros remédios, mas a verdadeira religiosidade integra a terapêutica capaz de restabelecer a dimensão mais essencial do ser humano. Ela colabora para que o sentido da vida seja percebido. Igrejas e religiões precisam desenvolver dinâmicas e vivências que ajudem o país a recompor sua interioridade, superar situações depauperantes e intransigências que dissipam a paz. Torna-se imprescindível abandonar o hábito de sofismas e disputas cegas ou deletérias. É preciso insistir nas palavras do Mestre à samaritana: “Ah, se conhecesses o dom de Deus!” (Jo 4, 10).
O STF (Supremo Tribunal Federal) não deve mandar prender Danilo Gentili, como requerido por uma ação proposta pela Câmara dos Deputados. O apresentador sugeriu, em 25 de fevereiro de 2021, que a população “invadisse” e “socasse os deputados”.
O Poder360 apurou que o relator do inquérito que investiga os atos contra o Congresso Nacional e o STF, Alexandre de Moraes, não vai tomar nenhuma decisão drástica, como a prisão de Gentili. A decisão mais provável será apenas remeter o caso para que o procurador-geral da República, Augusto Aras, dê um parecer.
Há também outra argumentação no STF a respeito desse caso. Danilo Gentili não tem prerrogativa de foro para ser processado na Corte. A Câmara teria se equivocado ao entrar com a ação no Supremo. Logo, nada pode ser feito.
Para ministros ouvidos pelo Poder360, os deputados estão apenas tentando criar uma cortina de fumaça em torno da proposta de emenda constitucional que reduz as chances de prisão de congressistas –a PEC da imunidade. Por essa razão, querem processar Gentili, que criticou essa iniciativa da Câmara, patrocinada pelo presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL).
O fato é que há uma animosidade latente entre Legislativo e Judiciário há algum tempo. Congressistas se sentem invadidos por decisões de magistrados do Supremo. Caso realmente Alexandre de Moraes apenas remeta o caso para a PGR, haverá grande insatisfação por parte dos deputados.
A ação foi apresentada ao STF pela Câmara, por meio dos advogados Diana Segatto e Thiago Elizio Lima. O processo foi coordenado pelo deputado Luis Tibé (Avante-MG), com a anuência de líderes partidários e de Lira. Foi protocolado no STF em 27 de fevereiro de 2021.
O pedido é para que seja dado a Gentili o mesmo tratamento que teve o congressista Daniel Silveira (PTB-RJ), preso depois de divulgar vídeos em que defendia agressões físicas contra membros da Suprema Corte. Como Silveira, Gentili defendeu a agressão física dos integrantes de um dos Três Poderes.
O texto criticado por Gentili ficou conhecido como PEC da imunidade. Isso porque dificulta a prisão de membros do Legislativo, nas esferas federal, estadual e municipal. Para Gentili, a única forma de acreditar que o Brasil tem jeito seria se houvesse a invasão à Câmara.
“Eu só acreditaria que esse País tem jeito se a população entrasse agora na câmara e socasse todo deputado que está nesse momento discutindo PEC de imunidade parlamentar”, escreveu o apresentador. A mensagem depois foi apagada.
O Poder360 teve acesso ao recibo de petição eletrônica, que é enviado aos advogados para que tenham certeza de que o pedido foi devidamente encaminhado à Corte. No documento, constam os nomes dos advogados da Câmara e do apresentador. Leia a íntegra do documento.
O objetivo explícito da Câmara é a punição ao apresentador Danilo Gentili. Na prática, entretanto, a ideia é também constranger o STF, pois a Corte terá de se manifestar a respeito do caso –que tem grande simetria com o do deputado Daniel Silveira.
No caso de Danilo Gentili, há ainda o fato de ser uma pessoa de grande presença nas redes sociais. Tem 17 milhões de seguidores no Twitter contra apenas 110 mil de Daniel Silveira no momento de sua prisão (a conta no Twitter foi, posteriormente, desativada).
No caso de Silveira, a postagem sugerindo agressão a ministro do STF foi feita no canal do deputado no YouTube, que foi notificado judicialmente e teve de retirar o vídeo do ar. O YouTube pertence ao Google.
Já Danilo Gentili fez sua postagem no Twitter, a mesma rede social que baniu o ex-presidente dos EUA Donald Trump, cujas postagens foram consideradas ofensivas à democracia. O Twitter entendeu que Trump incentivava com seus posts as ações contra o Congresso norte-americano, como a invasão em 6 de janeiro de 2021.
Durante esta 3ª feira (1º.mar.2021), sem citar se já tinha sido notificado sobre o processo, Gentili comentou que foi alvo de críticas de deputados, por causa do post no Twitter. O apresentador considerou as reclamações justas.
“Eu fiz um tuíte que foi alvo de justas críticas por alguns deputados. Quem me segue sabe que sempre defendi as instituições. Aliás, minha briga com bolsonaristas foi justamente pelo fato de eu ser contrário aos pedidos criminosos de fechamento do STF e do Congresso”, afirmou.
A reportagem do Poder360 pediu manifestação de Danilo Gentili, de Arthur Lira e do Twitter a respeito da ação no STF. Não obteve respostas até o momento.
Padre João Medeiros Filho
“Há um tempo certo para cada coisa: tempo de calar e tempo de falar” (Ecl 3, 7). O silêncio é uma riqueza incalculável que a sociedade está desperdiçando. Vive-se num mundo barulhento em vários sentidos e dimensões. Apesar do avanço tecnológico, ainda não se inventaram motores, britadeiras, liquidificadores, furadeiras e outros aparelhos silenciosos. Há ruídos em demasia, ao redor de nós. A publicidade de rua, carros de propaganda, paredões de som esgarçam a nossa paciência e prejudicam a audição. É relaxante caminhar por lugares desprovidos de “outdoors” e outros meios de poluição visual. Nossos olhos ficam aliviados, podendo apreciar o encanto e a exuberância da natureza. Sentimos paz ao contemplar o céu, o mar ou a montanha, que nos ajudam a pensar e repousar a alma. Os evangelistas narram Jesus Cristo isolando-se em lugares tranquilos e desertos, orando ao Pai. “Jesus retirava-se para lugares solitários e orava” (Lc 5, 16).
Há os que rejeitam o silêncio. Logo que entram em casa ou no carro, tratam imediatamente de ligar o celular, televisão, rádio, toca CDs etc. Não é tão fácil calar para escutar a si mesmo! Santa Teresinha confessava que incomoda a muitos permanecer em silêncio. “Este é a voz de Deus que abafa todas as vozes humanas”. E, não raro, evitamos ouvi-Lo para não sentir qualquer tipo de desaprovação dentro de nós. É calando que podemos descobrir o outro – e quem sabe – a nossa verdadeira identidade. Esse encontro solitário é importante. No mundo atual, há inúmeras pessoas que sentem dificuldade em acolher o próximo. Quem não gosta de si mesmo, apresenta resistência para aceitar os outros. Desconta neles o mal-estar íntimo, despejando a sua insatisfação interior. Quão verdadeira é a afirmação do poeta Fernando Pessoa: “No silêncio existe tão profunda sabedoria que, às vezes, se transforma na mais perfeita resposta.”
Quando pregávamos nos encontros de casais das paróquias, lançávamos alguns questionamentos: Vocês são capazes de ficar juntos, calados, por mais de meia hora, sem acusações mútuas e críticas a outrem? Às vezes, o silêncio entre um casal pesa, suscitando desconfianças e indagações. Surgem perguntas e dúvidas: o que você está pensando? Por que está tão calado? Não gosto de você assim. O que está aprontando ou se passa nessa cabeça? Isso é sinal de que a vida de ambos não vai bem. Conhecemos pessoas com mais de cinquenta anos de vida conjugal, capazes de passar horas, lado a lado, silenciosamente e de mãos dadas. É a suavidade de quem descobriu que a profundidade dos sentimentos dispensa palavras, como uma oração que agrada a Deus. “No silêncio alguma coisa irradia”, já dizia o Pequeno Príncipe.
Quando adentramos num hospital, deparamo-nos com alguns cartazes, convidando-nos ao silêncio. Este é também medicamento, alimenta o espírito, favorece o repouso e ajuda a recuperar as forças. A noite nos envolve tacitamente para preparar a paz do dia seguinte. O mosteiro, onde celebramos, permite-nos ainda mais refletir sobre a quietude dos claustros. Nos seminários e conventos, as refeições acontecem sem conversas, indicando que, ao nutrir o corpo, devemos alimentar também o espírito. Os frades e freiras caminham calados pelas clausuras, sem que ninguém os interrompa. Ficam horas nas capelas, deixando-se inebriar pelo Mistério de um Deus silente e aparentemente invisível. Atualmente, pessoas procuram frequentar “oficinas” de oração à procura do silêncio. Desejam beber da fonte da Água Viva.
Hoje, líderes religiosos queixam-se da falta de oração. Só reza quem é capaz de calar para escutar o Transcendente. As gerações hodiernas não aprendem a fechar os olhos para ver melhor. Poucos conhecem as grandes correntes espirituais. É comum ajoelhar-se, sem haver reverência interior, recolhimento, prece e contemplação. Poucos atentam para o silêncio como uma forma de diálogo e aprofundamento. Urge escutar o Mistério e auscultar o Invisível. Sem silenciar, ninguém escuta Deus. Dizem os místicos que o mundo está em crise, porque ouvimos mais as criaturas do que o Criador. Lembra-nos a Sagrada Escritura: “Deus não estava no trovão, na tempestadade, no fogo, mas no silêncio e numa brisa suave.” (1Rs 19, 10-12).
O PTB apresentou denúncia contra o STF e o ministro Alexandre de Moraes na Comissão Interamericana de Direitos Humanos por causa da prisão de Daniel Silveira (PSL-RJ), na semana passada.
O partido acusa o ministro de violar a imunidade parlamentar e de praticar abuso de poder com o ato, pelo fato de a medida ter sido decretada de ofício, sem pedido do Ministério Público, cumprida após as 18h e ainda incluir censura sobre as redes sociais do deputado.
“Não há como se falar em imparcialidade, em garantias processuais e respeito aos direitos humanos quando a suposta vítima é quem investiga e julga, sem que existam mecanismos externos de controle!”, diz a denúncia.
A peça questiona a caracterização de crime em flagrante pelo deputado, em razão do vídeo publicado nas redes sociais, e acusa Moraes de afrontar a liberdade de expressão.
“Anos após a gravação de vídeo disponibilizado no YouTube ou qualquer outra plataforma social, o autor ainda estará em situação de flagrância?”, questiona o PTB. “A prisão de parlamentares por crimes de opinião é ato típico de regimes autoritários antidemocráticos”, diz outro trecho.
A peça diz que não há quem recorrer no Brasil, uma vez que a prisão foi referendada pelos outros 10 ministros e pede que a Comissão dê uma liminar recomendando ao STF soltar Silveira, suspender o bloqueio de suas redes e não prender outras pessoas por críticas à Corte.
Alunos saindo de escola na Estrutural, no Distrito Federal
Pelo ritmo da tragédia, é bem provável que o Brasil ultrapasse as 250 mil mortes por covid-19 nesta quinta (25). No mesmo dia, o Senado deve votar a PEC Emergencial, que traz o fim da exigência de gastos mínimos do poder público em saúde e educação. Nada mais justo. Vamos celebrar uma aberração com outra.
Considerando que vivemos uma pandemia que contaminou milhões e prejudicou a educação de outros milhões, precisamos mais do que nunca de serviços públicos de qualidade. Mas a proposta à mesa é uma pancada tanto no SUS (Sistema Único de Saúde) quanto no recém-renovado Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), fundamentais para retomar a vida de onde ela parou.
O fim do piso é visto como uma das “condicionantes” para a renovação do auxílio emergencial. Em outras palavras, é como se o Estado tivesse sequestrado a dignidade dos brasileiros mais pobres prometendo libertá-la mediante a ativação de uma bomba-relógio. Tic-tac.
O governo Bolsonaro e sua base no Congresso dizem que não existem condicionantes, apenas um sinal de que o país é responsável com as contas públicas. Ah, vá! Depois da mão peluda de Jair Messias na Petrobras? A população brasileira não tem “mercado financeiro” tatuado na testa para tamanho nível de engana-que-eu-gosto.
O relator da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Emergencial, senador Márcio Bittar (MDB-AC), previu o fim do piso constitucional de gastos em saúde e educação para União, estados e municípios. Ou seja, se for aprovado, presidentes, governadores, prefeitos, vereadores, deputados estaduais, federais e distritais e senadores passariam a decidir o montante para essas áreas.
Citando o filósofo Fabrício Queiroz, isso é “uma pica do tamanho de um cometa” sendo jogada no colo da população que depende de serviços públicos de saúde e educação. Como nem sempre investimentos nessas áreas chamam a atenção em ano eleitoral, a chance de lápis e esparadrapo virarem asfalto é grande.
A porcentagem do mínimo constitucional de gastos nesses dois setores pelo governo federal foi substituída, em 2018, após a Emenda do Teto de Gastos entrar em vigor, pelo total desembolsado no ano anterior corrigido pela inflação. Já Estados e municípios precisam aplicar 25%, em educação, e 12% e 15%, em saúde, respectivamente. Seguindo o roteiro do governo, vai tudo pro vinagre.
Muito antes do ministro Paulo Guedes dizer que empregadas domésticas estavam viajando demais para a Disney, reclamar que rico poupa enquanto pobre gasta tudo e alertar que ninguém se assustasse com um novo AI-5 se rolassem manifestações contra o governo, ele já defendia a desvinculação das receitas da saúde e da educação no início de 2019.
Agora, o governo e sua base têm a oportunidade de surfar sobre o desespero e a fome, que se instalaram com desemprego e o atraso no retorno do auxílio, para aprovar sua desejada agenda. O que é algo ética e esteticamente muito feio, mesmo para os novos padrões da Era Bolsonaro.
Em meio a isso, há parlamentares responsáveis se organizando no Congresso e entidades da sociedade civil se mobilizando para tentar impedir que essa tragédia aproveite a tragédia.
Se isso passar, o presidente e seus aliados serão responsáveis por aquilo que ele disse que não faria: tirar de pobres para dar a paupérrimos.
Só que pior: vai tirar muito de pobres e paupérrimos para devolver um tiquinho na forma de um auxílio emergencial mirrado e, ainda por cima, cantar de galo como “pai dos necessitados”, à espera de se vestir com glória nas eleições de 2022. Antes da bomba explodir.
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Pelo ritmo da tragédia, é bem provável que o Brasil ultrapasse as 250 mil mortes por covid-19 nesta quinta (25). No mesmo dia, o Senado deve votar a PEC Emergencial, que traz o fim da exigência de gastos mínimos do poder público em saúde e educação. Nada mais justo. Vamos celebrar uma aberração com outra.
Considerando que vivemos uma pandemia que contaminou milhões e prejudicou a educação de outros milhões, precisamos mais do que nunca de serviços públicos de qualidade. Mas a proposta à mesa é uma pancada tanto no SUS (Sistema Único de Saúde) quanto no recém-renovado Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), fundamentais para retomar a vida de onde ela parou.
O fim do piso é visto como uma das “condicionantes” para a renovação do auxílio emergencial. Em outras palavras, é como se o Estado tivesse sequestrado a dignidade dos brasileiros mais pobres prometendo libertá-la mediante a ativação de uma bomba-relógio. Tic-tac.
O governo Bolsonaro e sua base no Congresso dizem que não existem condicionantes, apenas um sinal de que o país é responsável com as contas públicas. Ah, vá! Depois da mão peluda de Jair Messias na Petrobras? A população brasileira não tem “mercado financeiro” tatuado na testa para tamanho nível de engana-que-eu-gosto.
O relator da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Emergencial, senador Márcio Bittar (MDB-AC), previu o fim do piso constitucional de gastos em saúde e educação para União, estados e municípios. Ou seja, se for aprovado, presidentes, governadores, prefeitos, vereadores, deputados estaduais, federais e distritais e senadores passariam a decidir o montante para essas áreas.
Citando o filósofo Fabrício Queiroz, isso é “uma pica do tamanho de um cometa” sendo jogada no colo da população que depende de serviços públicos de saúde e educação. Como nem sempre investimentos nessas áreas chamam a atenção em ano eleitoral, a chance de lápis e esparadrapo virarem asfalto é grande.
A porcentagem do mínimo constitucional de gastos nesses dois setores pelo governo federal foi substituída, em 2018, após a Emenda do Teto de Gastos entrar em vigor, pelo total desembolsado no ano anterior corrigido pela inflação. Já Estados e municípios precisam aplicar 25%, em educação, e 12% e 15%, em saúde, respectivamente. Seguindo o roteiro do governo, vai tudo pro vinagre.
Muito antes do ministro Paulo Guedes dizer que empregadas domésticas estavam viajando demais para a Disney, reclamar que rico poupa enquanto pobre gasta tudo e alertar que ninguém se assustasse com um novo AI-5 se rolassem manifestações contra o governo, ele já defendia a desvinculação das receitas da saúde e da educação no início de 2019.
Agora, o governo e sua base têm a oportunidade de surfar sobre o desespero e a fome, que se instalaram com desemprego e o atraso no retorno do auxílio, para aprovar sua desejada agenda. O que é algo ética e esteticamente muito feio, mesmo para os novos padrões da Era Bolsonaro.
Em meio a isso, há parlamentares responsáveis se organizando no Congresso e entidades da sociedade civil se mobilizando para tentar impedir que essa tragédia aproveite a tragédia.
Se isso passar, o presidente e seus aliados serão responsáveis por aquilo que ele disse que não faria: tirar de pobres para dar a paupérrimos.
Só que pior: vai tirar muito de pobres e paupérrimos para devolver um tiquinho na forma de um auxílio emergencial mirrado e, ainda por cima, cantar de galo como “pai dos necessitados”, à espera de se vestir com glória nas eleições de 2022. Antes da bomba explodir.
Padre João Medeiros Filho
Lá se vão quase setenta anos do meu ingresso no Seminário Diocesano de Caicó. Ali, convivi com Manoel Etelvino, Rui Gomes e Laércio Segundo de Oliveira, ao qual muito deve a educação do Rio Grande do Norte. Com este último mantenho, há décadas, uma amizade sem rusgas e abalos. Após o rito litúrgico de iniciação clerical, na Sé de Olinda – antes de minha partida para a Bélgica – ele me fez a primeira tonsura. Os três jovens citados eram naturais da terra de Padre João Maria, nascido no sítio Logradouro, perto do “povoado de Jardim do Piranhas”. Assim se expressava Monsenhor Emygdio José Cardoso, pároco do município de Caicó, no início do século XX, do qual era distrito, à época, Jardim de Piranhas.
O venerando arcipreste da freguesia de Santana inspirava-se nas palavras do apóstolo Paulo: “Permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas.” (1Ts 2, 15). Como informação paralela, conta-se que Padre Emygdio sugeriu ao professor Pedro Gurgel a mudança do nome de Armando para Walfredo (nosso futuro governador). O vigário caicoense era amigo e admirador de outro Walfredo (Leal Soares), que estivera à frente do governo paraibano, tendo sido também deputado e senador da República. Pareceu uma profecia. Foi essa a mesma trajetória de nosso inolvidável ex-governante.
O historiador Monsenhor Francisco Severiano de Figueiredo, descrevendo as paróquias e comunidades da antiga diocese da Paraíba, adota a denominação: “Jardim do Piranhas, capela de Caicó”. Até hoje, a pergunta permanece: Jardim de ou do Piranhas? A denominação atual de Jardim de Piranhas leva a pensar que a localidade tinha abundância dessa espécie ictiológica. As palavras referem-se ao Rio Piranhas-Açu, que banha a cidade. Na verdade, trata-se de uma figura de sintaxe: elipse (no caso, a omissão do termo rio). No entanto, a denominação atual do município tem causado dubiedade.
Segundo o jesuíta Serafim Leite, “era tradição dos missionários nominar os lugares, anexando identificações de acidentes geográficos: rios, montanhas, serras, vales etc.” Cabe considerar a toponímia como uma das heranças culturais legadas pelos indígenas. Portanto, o jardim é do Rio Piranhas. Assim foram “batizadas” outras localidades potiguares e de outros estados: Jardim do Seridó, São João do Sabugi, São Miguel do Jucurutu (nome primitivo da paróquia e município). O costume generalizou-se. Assim, temos São Paulo do Potengi, São Bento do Trairi, Santa Cruz [do Inharé] etc. com aposição dos nomes fluviais. Da mesma forma, verifica-se a denominação de Serra de João do Vale (referência ao vale do Assú). Conceição do Piancó (PB), tendo o aposto do nome da região e do rio paraibano. O mesmo acontece com Santana do Acaraú (CE). Atualmente, alguns lugares ainda levam a designação completa do acidente geográfico, por exemplo: São João do Rio do Peixe (PB), Caiçara do Rio dos Ventos, Cachoeira do Rio dos Sapos (RN) etc.
Há de se zelar pelas primitivas denominações das localidades. O parlamento estadual e as câmaras municipais devem, quando necessário, consultar os Conselhos de Cultura ou Institutos Históricos para elucidar dúvidas e obter esclarecimentos. Por vezes, em documentos oficiais (leis decretos, portarias, resoluções, instruções normativas, pareceres etc.) soe acontecer inexatidões e erros. Também no campo educacional, não é raro o emprego de termos incorretos presentes em atos emanados dos poderes públicos, em desacordo com a Lei 9394/96 (em seus artigos 8º-11), quando trata da organização da educação nacional.
Lembro-me de uma conversa entre Monsenhor Walfredo Gurgel, Osvaldo Lobo e Plínio Dantas Saldanha (Marinheiro), por ocasião de um almoço oferecido por meus pais aos amigos. O erudito presbítero potiguar corrigia com maestria e delicadeza os comensais, quando aludiam a Jardim de Piranhas. O sacerdote retrucava, afirmando que estavam incorrendo em erro histórico-cultural. Conhecedor das nossas tradições, Monsenhor Walfredo Gurgel lembra as palavras de Cristo: “Não vim abolir a Lei…, mas completá-la” (Mt 5, 17). Mostrava, há mais de sessenta anos, a necessidade de se rever a terminologia e empregar corretamente a designação do município seridoense. E arrematou, de forma lapidar: “a verdade histórica e cultural deve prevalecer sobre outros interesses!”
Os governos de estados do Nordeste passaram a montar estratégias com a perspectiva de aumento rápido de registros de covid-19 nas próximas semanas. A preocupação também aumenta com a constatação da circulação de novas variantes.
Muitas localidades começaram a apresentar tendência de alta em casos e internações, o que fez acender de vez o sinal de alerta, gerando medidas como toque de recolher e lançamento de edital para um novo hospital.
Desde novembro, nenhum estado do Nordeste enfrentou números de óbitos similares aos da primeira onda.
Esse cenário mais suave fez com que a região alcançasse a menor taxa de mortalidade do país no final de janeiro. O Sul, que antes ocupava esse lugar, registra 98 mortes por 100 mil habitantes, enquanto o Nordeste tem 95 óbitos a cada 100 mil habitantes. O Norte lidera com 138 por 100 mil. A média nacional é de 116 a cada 100 mil pessoas.
Alguns estados, porém, já sentem uma nova explosão de casos, com crescimento mais rápido que na primeira onda, motivada pelas novas cepas.
Na quarta-feira, a Bahia confirmou a transmissão comunitária da variante do Reino Unido. O estado apresenta um aumento significativo no número diário de mortes. No dia 30 de janeiro, a média móvel por 14 dias era de 32,3. Agora está em 52,8. Somente ontem foram 67 mortes —o maior número do ano. Um toque de recolher está em vigor das 22h às 5h.
Temos uma dinâmica própria da infecção: ela começa em um lugar e vai se espalhando. Há uma onda se propagando no país, só que não ao mesmo tempo. Temos picos em tamanhos diferentes. Fernanda Grassi, pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e professora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública
Grassi afirma que a tendência de aumento na Bahia pode se repetir nos demais estados da região. “A gente viu o que aconteceu em Manaus, com a chegada das variantes. É uma situação muito grave, elas têm uma capacidade de transmissão maior e é preciso redobrar cuidados, como uso de máscara e distanciamento, realizar testagem massiva e, sobretudo, vacinar. O mais rápido possível”, explica.
Mais estados acham variantes
Alagoas também anunciou ontem seus dois primeiros casos da variante P.1. Um deles não tem histórico de viagem ou contato com pessoas que passaram pelo Amazonas. “Isso indica que essa variante do coronavírus já circula aqui”, afirma o secretário estadual da Saúde, Alexandre Ayres.
Ainda não foram adotadas medidas mais rígidas porque a ocupação de leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) está em 62% do total.
No dia 10, a Paraíba também confirmou a circulação da nova variante após exame em amostras de três pacientes.
No Maranhão, onde a variante brasileira P.1 também já deve circular, também há uma tendência de alta de mortes nos últimos dias, com a média quase dobrando em uma semana. A ocupação de leitos de UTI chega a 82% em São Luís e 87% em Imperatriz.
Em Pernambuco, há dois casos confirmados da nova variante P.1 de pacientes vindo de Manaus. O crescimento de casos e óbitos ainda é lento, mas a ocupação de leitos de UTI chegou ontem a 85% do total, de 995 vagas.
“Não podemos subestimar esse número de casos e a possibilidade de saturação de redes de saúde. Os próximos dias vão ser decisivos para a pandemia. O comportamento das pessoas é que definirá o curso da doença”, afirma o secretário de Saúde pernambucano, André Longo.
O governo prorrogou por mais 30 dias a proibição de shows e festas, além da adoção de medidas de afastamento social dentro de bares e restaurantes.
A previsão do secretário é que os números cresçam e cheguem a um novo pico em algumas semanas.
“Já colocamos editais para contratação do nosso hospital de campanha. Temos expectativa que possa estar pronto até o final de março ou início de abril, período que se projeta uma maior progressão da pandemia e quando há uma maior eclosão de doenças respiratórias no estado”, diz. A unidade deve contar com 432 leitos (132 de terapia intensiva).
Rigidez no Ceará
Primeiro estado a ter pico de covid-19 na primeira onda na região, o Ceará também endureceu as medidas nesta semana e decretou toque de recolher das 22h às 5h, que vale a partir de hoje. Escolas e universidades também tiveram aulas presenciais suspensas.
O sinal de alerta da circulação de novas variantes —e crescente da transmissão do vírus— é a procura por serviços de saúde. A média de ocupação de leitos de UTI para adultos bateu em 90%, maior índice desde a passagem do pico.
Em Fortaleza, a busca pelas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) chegou a níveis inéditos. O recorde de 12.265 atendimentos em um mês havia ocorrido em abril de 2020 —ou 408 por dia. Em fevereiro, somente até o dia 15, foram 10.909 casos suspeitos —ou 727 por dia.
“Alguns pesquisadores chamam isso de ‘surto de hospitalizações’. Aliado ao deslocamento dos internamentos para faixas etárias mais jovens, o aumento dos números de reinfecções e da gravidade dos casos viram sinais de alerta para potencial circulação de novas variantes”, afirma o epidemiologista Antônio Lima Neto, que atua na Secretaria de Saúde e é professor da Unifor (Universidade de Fortaleza).
“Não acredito no impacto da vacinação nas internações e mortalidade antes de meados de abril. Não houve uma homogeneidade dos critérios. Com raras exceções, vacinaram muitos ‘profissionais de saúde’ fora da linha de frente, em detrimento dos idosos que precisavam com urgência.”