MEDITAÇÕES PARA A SEMANA SANTA DE 2026

Padre João Medeiros Filho

Reflexões sobre o sofrimento de Cristo I

É preciso completar em nossa carne aquilo que faltou à cruz de Cristo (2Cor 4, 10), eis o pensamento de São Paulo a respeito de nossos sofrimentos. Assim sendo, a Semana Santa não é apenas o memorial da Paixão do Senhor. É também a celebração de nossas lágrimas, aflições, angústias e dificuldades. Vivemos ainda na Semana Santa a dor e a cruz de nossos irmãos. Cristo afirmara: o discípulo não é maior do que o Mestre (Mt 10, 24). Deste modo, estamos sujeitos a percorrer o mesmo caminho de Jesus. É nossa paixão e morte. Somos o Corpo Místico de Cristo, como afirmou Pio XII, por isso atualizamos em nossas vidas o que acontecera com Jesus.

A Semana Santa é um momento privilegiado para nos conscientizar de que Cristo não concebeu a sua existência terrena como busca do poder, corrida ao sucesso ou vontade de domínio sobre os outros. Ao contrário, Ele renunciou os privilégios da sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo tornando-se semelhante aos homens, obedeceu ao projeto do Pai até à morte na cruz. Desta forma deixou aos seus discípulos e à Igreja um ensinamento precioso: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas se morre, produz muito fruto (Jo 12, 24).

É preciso na Semana Santa refletir sobre o gesto de Cristo em sua caminhada para o Calvário. Ele carrega sobre os ombros a transgressão humana com os efeitos de nossas desobediências, da maneira mais desprezível, as quais manifestam a maldade e a gravidade do delito que nos desfigura (Rm 5,6-10; 1Pd 2,24-25; Is 53). Assim presta a Deus, no seu coração de Filho, a honra e a glória da obediência e do amor perfeitos, reparando o mal que fizemos, trocando o orgulho pela humildade, a violência pelo amor.

Na Semana Santa somos convidados a sepultar o egoísmo, a falta de solidariedade, a indiferença, a injustiça, a inveja, o orgulho, a violência, numa palavra, nossos pecados. É mister haver uma Sexta-Feira Santa para cada um de nós, onde crucificaremos tudo o que é negativo em nós, para haver Domingo de Páscoa. Mas é preciso não esquecer que a paixão e a ressurreição não são atos isolados. Eles foram precedidos da Quinta-feira Santa, que é a celebração da unidade e da fraternidade. Assim só haverá Páscoa, se houver comunhão e partilha, como fizera o Mestre. Existirá Ressurreição, somente se existir amor.

A Semana Santa é a resposta suprema de Cristo (e dos cristãos) ao desafio cotidiano e permanente do mal. É a manifestação do amor infinito de Jesus para conosco. Celebramos também, em 2026, o sofrimento de Cristo na vida de tantos irmãos exterminados por causa de sua luta pela paz, nos corpos de muitos outros agredidos em sua dignidade e excluídos do banquete da vida.

Por outro lado, a vivência desta Semana Santa deve ser nossa gratidão e nosso amor Àquele que se sacrificou por nós, ao Servo de Deus que, segundo o profeta Isaías, não opôs resistência, não se afastou para trás, mas apresentou os ombros aos flageladores e não desviou o rosto dos que o ultrajavam e lhe cuspiam (Is 50, 4-7). Cristo não se acovardou diante do sofrimento e da dor, pois sabia que o Pai não O abandonaria e sua Cruz foi o instrumento escolhido por Deus para resgatar a humanidade. Do mesmo modo, nossa cruz, nossa dor ou sofrimento são a porta de acesso à glória e à alegria de nossa libertação!      

Entretanto, ao celebrar a Semana Santa, é preciso ter diante dos olhos e na mente que não só de tragédias, fracassos, derrotas e tristezas é feita a vida humana. Nós cristãos somos portadores da esperança. Acreditamos que haverá vitória sobre a morte e a maldade. E o autor dessa vitória é Cristo, a quem devemos entregar nossa vida!

Reflexões sobre o sofrimento de Cristo II

Ao celebrarmos a Semana Santa, a semana maior da vida da Igreja, somos convidados a inundar nossa vida, que renasce pelo espírito da Ressurreição, vivendo a certeza da glória definitiva e plantando dentro de nós a semente de um mundo novo.

Nosso povo – sofrido, desgastado, desrespeitado e sem muito alento – costuma, às vezes, reduzir a Semana Santa ao sofrimento da Sexta-Feira da Paixão, contentando-se em contemplar e sepultar o Cristo morto, identificando-se com Ele, chorando sua morte, sem, porém, alegrar-se com o mesmo Cristo, Vivo e Vencedor, na sua gloriosa Ressurreição. Este é um desvio da prática cultual e da vivência de alguns cristãos, pois, sem a Ressurreição, de nada valeria o sofrimento do Filho de Deus por nós. Seria vã a nossa fé, conforme nos ensina São Paulo. Estaríamos ainda acorrentados como escravos ou caminhando errantes pelos desertos do mundo.

Na teologia e na liturgia, conforme crê a Igreja, não se pode separar a cruz, da glória; a morte, da vida; o sofrimento, da plena alegria e da transfiguração final. Nos desígnios de Deus, transformados por Cristo em realidade para nós, o sofrimento torna-se meio de santificação; a morte, porta para a eternidade; a cruz, sinal de nobreza e não mais de ignomínia, como no passado. Isto, porque a luz da Ressurreição dissipou para sempre as trevas da morte e tudo o que se opõe à vida foi também, pela Cruz de Cristo, plenamente vencido. É verdade que temos ainda de sofrer, na precariedade do mundo, os efeitos negativos do mal, sem, no entanto, deixá-los de combater ou aceitá-los passivamente. Somos convidados a amar no sofrimento, como Cristo o fizera; e não a amar o sofrimento em si mesmo, como muitos pensam erroneamente.

Podemos dizer que Cristo hoje padece e morre nas vítimas da violência e no assassinato daqueles que lutam pela paz. Ele é crucificado com o aniquilamento de tantos que deram sua vida pela causa ecológica ou em prol da justiça, pelo fim da corrupção, da impunidade e dos desmandos. Cristo é sim sacrificado em tantos mártires de nossos dias e na vida de tantos que se empenham por um mundo melhor. Cristo assume nesta Semana Santa a dor e o sofrimento de índios, negros, excluídos, marginalizados, doentes e oprimidos. Em nossos irmãos, vítimas da exclusão e da humilhação, Cristo renova a sua paixão. Ele mostra a sua face no rosto sofrido do Papa, que vê algumas nações cada vez mais endurecidas e pouco dispostas à conversão, voltadas para a morte e o extermínio de tantos irmãos de diferentes culturas, raças e línguas.

O cristão não pode parar apenas na morte do Cristo e no seu sacrifício para nos resgatar. Deve buscar no brilho de sua Ressurreição a luz que renova todas as coisas. E que desta forma, nosso coração se torne também novo para o serviço fraterno, para o bem da Igreja e para a glória de Deus.

Os sofrimentos da humanidade atualizam a Paixão de Cristo. Se anteriores a sua cruz, uma paixão antecipada; se depois dela, uma paixão continuada. Cristo, pois, continuará em agonia, misticamente, até o fim dos tempos, pois sofreu, sofre e sofrerá em cada um dos filhos de Deus. Cristo, assumindo a nossa humanidade, tomou um corpo passível de dores e sofrimento, mas seu espírito aniquilou o poder da morte!     

Reflexões sobre o sofrimento de Cristo III

A Semana Santa é um apelo para a descoberta mais profunda de Cristo, vítima de uma sociedade injusta, que mata inocentes e indefesos. Jesus desconcerta-nos mais uma vez, mostrando-nos que o projeto de Deus é diferente. A uma sociedade competitiva, que privilegia a concentração de bens e poder, gerando discriminação e violência, alienando pessoas e marginalizando outras, Cristo acena com o despojamento capaz de trazer a paz para o ser humano. A um mundo que procura desconhecer os laços de nossa fraternidade, Ele aponta a força da solidariedade, que salva vidas e traz esperança, como fizera com todos, sobretudo, com os mais desprezados e despossuídos, simbolizados pelo bom ladrão ao pé da cruz.

Renova-se o mistério da dor e da vida. O Filho de Deus assume a realidade humana com tudo o que ela tem de esperança e desespero. Sua morte é a manifestação da fragilidade de nosso ser; sua Ressurreição, o sinal da dimensão infinita do homem. É nossa história presente na Semana Santa. Não celebramos apenas fatos do passado. Comemoramos tudo o que somos e Cristo encarnou, quando se fez homem e habitou entre nós (Jo 1, 14). Sofrendo, Jesus desmascara a estrutura injusta da humanidade; ressurgindo, proclama a vitória contra o pecado, simbolizado na morte e na angústia humana.

Na Semana Santa, nós cristãos revivemos este grande gesto de amor e misericórdia de Deus, manifesto na Paixão do Senhor. Somos também convidados a abraçar com coragem e confiança nossas cruzes, a assumir nossos sofrimentos e a oferecer tudo, como oferenda agradável ao Pai, a fim de que pela nossa participação na Paixão de Cristo, possamos prolongar no tempo e no espaço a sua obra salvífica.

Maria é o grande modelo de vivência da Semana Santa. Sua presença, ao pé da cruz do Filho, permanece como exemplo perfeito e perene de seguimento a Cristo. Se Jesus foi o homem das dores, sua Mãe foi a mulher das dores, pois acompanhou bem de perto cada passo do seu amado Filho. Maria é a primeira entre os poucos discípulos, que foram fiéis a Jesus até o fim. Foi a única chama de fé que permaneceu acesa naquele momento obscuro e de dura prova para os discípulos do Senhor. Foi por causa da firmeza na fé de Maria e sua incomparável fidelidade ao plano do Pai, que Jesus, já pregado na cruz e servindo-se de suas últimas forças humanas, deixa-nos a Virgem Santíssima como Mãe e modelo perfeito de todo discípulo do Senhor.

Maria, ontem, hoje e sempre, convida-nos a renovar nosso sim a Deus, tantas vezes quantas forem necessárias, a estar ao lado de cada irmão que sofre ou se alegra, a abandonarmo-nos a Deus, ensinando-nos a abraçar com firmeza e fé nossas cruzes de cada dia, com os olhos fixos no horizonte da ressurreição.

Não podemos esquecer que a última mensagem de Cristo não foi o silêncio da morte nem seu último gesto o túmulo lacrado. A Semana Santa é o convite da Igreja a acreditar que nossa cruz é também libertadora e se Ele ressuscitou dos mortos, também nós haveremos de ressurgir de tudo aquilo que nos deixa prostrados e abatidos. É preciso ter sempre em mente que Deus levanta-nos igualmente ao alto de nossas cruzes para que possamos divisar melhor o que Ele nos reserva de belo e grandioso, capaz de nos assegurar a paz e a alegria. São Paulo já dizia que Deus confunde os fortes e poderosos com a aparente fraqueza humana. Aquilo que aos olhos do mundo parece nossa derrota, será a nossa vitória, pois é a força divina em nós!

MISSA DA CEIA DO SENHOR

A missa vespertina da Ceia do Senhor inicia a celebração da Páscoa cristã, em que Jesus inaugura a nova e eterna Aliança pelo seu sangue a ser derramado na cruz. Cristo se nos entrega como Pão partilhado na expressão do amor levado ao extremo – loucura para os gentios, no dizer de Paulo (1Cor. 1, 18) – e na manifestação plena do serviço e da humildade ao lavar os pés dos seus discípulos. Para plenificar ainda mais esse legado, o Senhor instituiu a Eucaristia como prova maior de sua doação à humanidade. Não só se fez presença, tornou-se alimento. Não apenas nos libertou, ensinou-nos a libertar os outros e o mundo. Eis a Páscoa nova, diferente e mais importante daquela que os hebreus celebraram, comemorando sua vitória da escravidão do Egito! Jesus reconquista para os que creem a liberdade da condição de filhos de Deus, dignos de seu amor e sua misericórdia. Valemos muito. Assim entendemos o canto do Exultet do Sábado Santo, ao proclamar com imensa alegria: ó pecado bem-vindo que há merecido a graça de um tão grande Salvador.

A Eucaristia é o grande gesto de Cristo, testemunha fiel do amor de Deus para conosco. Ele não tem somente palavras de conforto para cada um de nós, mas entrega sua vida para selar a união do Pai com a humanidade. Não vos deixarei órfãos (Jo 14,18). A presença diária de Jesus em nossa vida é assegurada pelo Pão, que se torna nossa força. Ele estará ao nosso lado, como outrora caminhava com os discípulos de Emaús. Ao se entregar como nosso alimento, Ele quis mostrar que tomar refeição juntos é sinal de partilha e comunhão. Convida-se à mesa quem se ama e a quem se considera. Eis o sentido da atitude do Mestre, expressão de amor que vivemos na Quinta-feira Santa.

Quem ama, serve. Esta é uma das lições do Filho de Deus, antes de dar a sua vida por nós. Na Quinta-Feira Santa, com um gesto inédito na história humana, Cristo revoluciona o conceito de “importância”. Nobre, grande, é aquele que serve. Estou no meio de vós, como quem serve (Lc 22, 27). Entendemos aqui o significado maior do Lava-Pés. Para os cristãos, Amor é serviço. Na Ceia, Jesus mostrou que quem ocupa o lugar de honra, deve descer ao nível do ser humano para mostrar-lhe a sua dignidade. O Senhor ensina através de exemplos. Eis em que consiste igualmente ser Mestre. Vós me chamais de Mestre e Senhor (Jo 13,13). O Filho de Deus inaugura uma nova ordem pelo gesto insólito do Lava-Pés.

De fato, haveremos de reconhecer que, tanto para presidir como para participar da eucaristia, são indispensáveis uma grande humildade e uma imensa disposição para o serviço fraterno. Desde o início, Jesus sempre mostrou com palavras e gestos que Ele veio para servir e não para ser servido (Mt 20, 28) e é assim que Ele deseja que façam todos os seus colaboradores e seguidores, tanto o simples batizado, como o ministro ordenado. A vida cristã é fundamentalmente serviço e amor, entrega e doação.  

Especialmente hoje, também dia em que Cristo instituiu o sacerdócio, somos convidados a elevar nossas preces a Deus por todos os ministros ordenados, particularmente aqueles que deram a vida pelos seus irmãos nesta arquidiocese de Natal para que não obstante a limitação e fragilidade humana de cada um, possam eles realizar com dignidade a missão para a qual foram escolhidos. Peçamos ao Pai que a força da nossa oração fraterna atraia sobre nossos ministros ordenados a graça e a força do Espírito que os escolheu e consagrou, de modo que todos possam servir dignamente ao Senhor e ao seu povo, não obstante sua miséria humana!  

SEXTA FEIRA-SANTA

A Sexta-Feira Santa é o memorial da solidariedade de Jesus até a morte na cruz No centro da liturgia de hoje está a cruz, erguida como sinal e prova do amor de Cristo, condenado inocente e injustamente, torturado até a morte, colocando sua vida nas mãos do Pai, confiando na justiça e na misericórdia de Deus.

No Domingo de Ramos, Jesus, entrando em Jerusalém, apresenta a sua mensagem religiosa, capaz de transformar a sociedade, tornar as pessoas verdadeiramente irmãs e firmar um culto em espírito e verdade. Na última ceia, partilhando o pão e rendendo graças ao Pai, Cristo mostra-nos em que consiste o milagre da partilha e a força revolucionária do serviço e da solidariedade.

Logo depois, sofre a rejeição e a condenação por causa de seu projeto em favor da vida, dos esquecidos e marginalizados. Enfrenta a morte violenta na cruz para proclamar que o Reino, a liberdade e o pão com fartura só virão dos corações de pessoas solidárias, abnegadas e consagradas. Pessoas estas capazes de viver e mostrar que o pão só tem sentido, quando partilhado.

A liturgia da Sexta-Feira Santa não é uma mera repetição do relato ou da cena evangélica, mas também um sacramental de nossa rejeição, nosso sofrimento, nossa paixão no mundo de hoje, o qual teima em não aceitar os valores pregados por Cristo, sobretudo sua mensagem profunda de paz, verdade e amor. 

Celebramos a Paixão de Jesus, do seu sofrimento assumido como expressão de compaixão pela multidão de sofridos e da nossa compaixão com todos os aflitos em sua busca de libertação.

A Cruz é um desafio e um apelo para que os cristãos assumam o projeto de vida de Jesus e promovam a luta contra a fome e a corrupção, em favor da paz, anunciando a esperança e construindo a fraternidade dos irmãos. Foi este o sentido da Cruz de Cristo.

Na Sexta-feira Santa, a Igreja celebra a Paixão e Morte do Senhor. É um dia de respeito, silêncio e simplicidade, quando é preciso recordar e compreender a dor e o sofrimento de Jesus, como também refletir sobre a profundidade de seu amor por nós, a tal ponto de dar a sua própria vida pela remissão de todos os pecados da humanidade.

A cerimônia da Sexta-Feira Santa é dividida em quatro momentos: a) a Paixão Proclamada, com a liturgia da palavra, em que conhecemos os detalhes da dor do Filho de Deus, na história passada; b) a Paixão Invocada, com a solene oração universal, realizada pela Igreja e pelas comunidades do mundo inteiro, que atualizam no tempo o sofrimento de Cristo; c) a Paixão Venerada, com a adoração da Santa Cruz, local onde se concentram as dores de Jesus e encontramos forças para carregar nossa cruz cotidiana; e d) a Paixão Comungada, com a comunhão eucarística, a qual queremos recebê-la durante toda a nossa vida. Receber sim na comunhão o Cristo total, o Crucificado e o Ressuscitado, o Cristo da Verdade e do Perdão, o Cristo da Alegria e o da Justiça.

Na Sexta-Feira Santa, em respeito e homenagem à maior de todas as missas e de todos os sacrifícios imolados sobre a face da terra: a Morte de Cristo, não se celebra a Eucaristia. Nesse dia, celebra-se o amor de Deus, que é vida e tem mais poder do que o pecado e a própria morte. Jesus mostra-nos que a realidade da morte é a passagem para a libertação plena, a Páscoa definitiva. A cruz sangrenta de Jesus, dolorosa e injusta, transforma-se em vitoriosa e resplandecente. A morte de Cristo é o símbolo do fim de uma antiga aliança, do velho homem e início de uma vida nova. Comungamos com o mistério da cruz que nos salva, com o mistério da cruz na qual sofrem muitos de nossos irmãos e com o mistério de nossa própria cruz, que unida à de Cristo, será também redentora.

MEDITAÇÃO SOBRE MARIA AO PÉ DA CRUZ

Nesta semana santa contemplemos a Cruz de Cristo, através do olhar de Maria. É muito conhecida esta estrofe de um hino da Via-Sacra: Stabat Mater dolorosa, iuxta Crucem lacrimosa, dum pendebat Filius (De pé, a mãe dolorosa junto da cruz, lacrimosa, via o filho que pendia).

Silenciosa ao pé da Cruz, com o coração retalhado de dor, Maria é figura da humanidade redimida. O evangelista João narra que, ao pé da Cruz, estavam a Mãe de Jesus, acompanhada de Maria, mulher de Cleófas e Maria de Mágdala (Jo. 19,25). Cristo fora praticamente abandonado por todos. Os discípulos dispersaram-se, restando apenas João. Os que foram curados, desapareceram. A multidão que O aclamara como Messias nas ruas de Jerusalém, terminara pedindo a sua condenação. Apenas Maria e João permaneceram fiéis. Venceram o medo, superaram a dor e não fugiram da Cruz.

Eis a primeira lição de Maria: não ter medo da Cruz, porque o crucificado é a encarnação do Amor. Não devemos temer nossa cruz, porque também nela está suspenso Alguém que nos ama infinitamente. Na Cruz de Cristo está lançado o nosso destino. Ali nascemos para uma vida nova. E Maria, que dera à luz o Verbo, surge como Mãe da nova humanidade. Jesus confirma esta outra maternidade de Maria, ao dizer-lhe, referindo-se a João: Mulher, eis o teu filho (Jo. 19, 27).

Contemplemos Maria Santíssima, no seu olhar terno e sereno, de quem abraça o mundo na pessoa do Seu Filho e aprendamos com ela a obedecer à vontade do Senhor. Este nos atrai para a sua intimidade, quando nos convida a sermos bons e justos. A Cruz de Cristo é um desafio de amor e de fé.

Fixemos nosso olhar na Cruz, através do coração de Maria. Nela está o destino da humanidade pecadora. Sem o sofrimento de Cristo e de Maria, mesmo que padecêssemos todas as dores do mundo, estas não seriam suficientes para merecer nossa redenção. Só corações semelhantes ao de Maria podem acolher o sofrimento como expressão do amor de Deus ofendido, apercebendo-lhe a grandeza de sua misericórdia.

Fitando com devoção Maria, Mãe dolorosa, percebemos a gravidade do pecado, isto é, a atitude da criatura criada à imagem de Deus, exercendo a sua liberdade de agir contra o desígnio amoroso do Pai. Ao tomar sobre eles nossos pecados, Jesus e Sua Mãe, sem nunca ter pecado, não se limitam a sofrer em lugar dos pecadores, sofrem por causa do pecado, desagravando a glória divina ofendida e conduzindo os pecadores aos braços misericordiosos de Deus.

Recomeça ali, aos pés daquela Cruz, uma outra aliança com Deus. Nasce um povo novo, gerado na Igreja, da qual Maria é Mãe e figura. Depois Jesus disse ao discípulo: eis a tua Mãe (Jo. 19, 27). Contemplando Maria, ao pé da Cruz, aprenderemos com ela a abraçar a nossa cruz, e fazer dela oferta eucarística e hóstia de louvor para a redenção do mundo.

VIGÍLIA PASCAL (SÁBADO SANTO)

Depois de seguir Jesus ao longo do caminho do Calvário e passar com Ele pela cruz, reunimo-nos, em seu nome, na Vigília Pascal para celebrar nossa esperança e a certeza da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. É a noite da ressurreição, da festa da vida. Com a Ressurreição do Senhor, iniciou-se um novo modo de ser para os cristãos e de estar no meio de nós para o próprio Deus. A tradição litúrgica ensina-nos que esta é a mãe e rainha de todas as vigílias. Nela celebramos a esperança e a certeza da Vida, bem como a derrota das forças da morte.

Esses sentimentos dão lugar ao simbolismo litúrgico da Vigília Pascal. O Sábado Santo torna-se assim a festa da luz. Benze-se o fogo novo, imagem de Cristo, que brilha para todos como novidade, luz e vida. Eu sou a luz do mundo (Jo 8, 12). Há igualmente na cerimônia dessa noite a bênção da água. Com Cristo renascemos para uma vida nova. Necessário vos é nascer de novo (Jo 3, 3), disse o Mestre a Nicodemos. Por essa razão, celebra-se o batismo no Sábado Santo.

A Ressurreição simboliza os anseios de uma vida nova, a busca da dimensão verdadeira de nossa existência. É fruto do Amor, que tudo renova e recria. Isto é a Páscoa, que é também esperança e não apenas memorial. É a certeza de um acontecimento. Ele ressuscitou e já não morre mais! Ensinou-nos que o Amor é mais forte que a morte, pois é Vida. E Jesus, sendo Filho de Deus é o Amor em plenitude; é a Força, o Espírito que restaura o mundo. Quem ama, fala muito do amado. É o testemunho. Por isso somos chamados a proclamar o Ressuscitado. Cabe-nos, pois, pregar esse Cristo a uma sociedade marcada por sinais de morte e opressão. No primeiro dia da semana (Jo 20, 1), Madalena foi à procura do corpo do Salvador. Inicia-se a nova criação, nascida da alegria e da vitória. Somos vencedores e não derrotados, esta é a mensagem central de toda a Semana Santa, especialmente do Tríduo Pascal!

Eis também o tempo do grande anúncio para todos com a Palavra e com a Vida! É preciso anunciar que existe a possibilidade de um mundo novo para aqueles que creem em Cristo e vivem Sua mensagem, mesmo talvez sem o saber ou conhecê-lo. A pedra removida do túmulo é uma lembrança de que também a nós cabe remover as pedras, que encobrem a morte, a desilusão, a vingança, a violência, a fome, a impunidade etc. para poder surgir a Vida! Temos a missão de continuar o anúncio da Vida, que vence a morte. O trabalho em nossas comunidades iluminadas por Cristo, Maria e Luzia deve nos impulsionar a uma vida nova de santidade, amor, solidariedade e paz, fruto da Ressurreição!

Precisamos acolher e fazer nossas aquelas palavras do Cristo Ressuscitado às mulheres, que foram visitar o túmulo: Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá me verão. Ou por outra, repetir as palavras do Anjo: Não tenham medo. Sei que vocês estão procurando Jesus que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou como havia dito. Vão depressa anunciar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos e que vai à frente de vocês para a Galileia. A Ressurreição, de fato, é a maior e mais linda novidade de nossa fé. Ela é um dom grandioso oferecido por Deus em Jesus para todos os que receberam a graça do batismo. Por isto, não precisamos perder tempo nem ter medo. Cabe-nos correr – imitando o gesto das mulheres que se dirigiram ao túmulo de Jesus – ao encontro dos muitos discípulos do Senhor, espalhados pelo mundo, e levar-lhes a notícia da Ressurreição, da vitória definitiva de Jesus sobre o pecado e a morte. Devemos correr ao encontro de nossos irmãos desanimados pelo peso de suas cruzes e anunciar-lhes que Jesus está vivo. Como Ele venceu, também nós venceremos. Ele nos precedeu no caminho da vida. É preciso mostrar aos homens e ao mundo, especialmente aos que sofrem, que da cruz renasce a vida, a esperança e a certeza da ressurreição! Não podemos esquecer que toda a obra da criação foi transformada e redimida pela Páscoa de Cristo. A partir daí tudo ganha novo sentido e um valor diferente!

A PÁSCOA DO SENHOR

Comemorar a Páscoa em 2026 significa, antes de tudo, acreditar que todas as situações de morte – que vemos acontecer e nos escandalizam – têm uma resposta: a vitória da Vida sobre a morte! Sim, em meio a tantas notícias de desemprego, divisões políticas, crimes, violência, desrespeito à vida, fome, corrupção e impunidade, nós cristãos temos a felicidade, a alegria e a graça de poder anunciar o Cristo Ressuscitado.

Celebrar a Ressurreição de Cristo é sentir a presença de Deus, que veio morar conosco e desceu ao nível mais profundo das situações humanas a fim de anunciar e convencer a todos que temos a vida em abundância. Jesus veio trazer a certeza da possibilidade de viver em fraternidade, colaborando uns com os outros, sentindo o próximo como irmão.

Neste tempo de tanta violência e ódio, fartamente noticiados pela mídia, queremos anunciar que o perdão e o amor são possíveis. Aos que creem em Cristo, desejamos lembrar o compromisso de construir um mundo novo, ou seja, a civilização da Vida e do Amor. Como gostaríamos que a Boa Notícia fosse largamente anunciada, levando todos a lutar e viver tempos novos!

Mas, infelizmente, ainda hoje nos deparamos com crianças abandonadas, desnutridas ou prostituídas, filas intermináveis de pessoas à porta dos hospitais, buscando soluções para a saúde, desespero diante da falta de dignidade a que tantos são submetidos, pais aflitos perante as dificuldades de seus filhos sem comida e escola, chefes de família desempregados (pois a sociedade da produção os relega), mães que choram a violação de suas filhas ou a morte violenta e inesperada de seus entes queridos. Diante desse quadro tem-se a tentação de cruzar os braços, acostumar-se com o mal e não lutar pelo bem.

No entanto, a celebração pascal é o grande impulso para dizer aos homens que o mundo tem solução. Ela está no Amor e na fé no Ressuscitado. Sua Morte redentora e sua Ressurreição levam-nos à experiência de acreditar na possibilidade de uma nova vida. Cabe-nos a missão de trabalhar para que essa novidade possa acontecer. Cada geração tem a tarefa de atualizar a Páscoa. Eis o simbolismo dos algarismos que indicam o ano em curso no Círio Pascal! Cada um de nós é chamado a viver a atualidade da Páscoa do Senhor. Ao celebrar liturgicamente a Ressurreição de Cristo, deve renascer em nossos corações o desejo de continuar com afinco o anúncio e a luta pela vida em todas as suas dimensões, porque Cristo a trouxe e Ele está vivo entre nós. A celebração da Páscoa é um convite para transformar as opressões, que pesam sobre os ombros de nossos irmãos, em vida e esperança!

É claro que não temos esperanças ingênuas diante do pluralismo existente e das culturas de morte, espalhadas dentro e fora do ser humano! Conhecemos a realidade do chão que pisamos e somos solidários a tantos que experimentam as dores do mal em suas vidas. Neste tempo em que se duvida de tudo, há questionamentos que atingem até mesmo a existência, a missão e a Ressurreição do Filho de Deus. Mas, a experiência pascal de voltar atrás, como os discípulos de Emaús, leva-nos a anunciar, junto com os apóstolos, esta mensagem: Ele Ressuscitou e disso nós somos testemunhas.

 Celebrar a Páscoa significa não cair no desânimo de lutar pela paz, apesar da fragilidade com que a vemos existir. Consiste em dar continuidade às esperanças, mesmo se ao redor de nós muitos já tenham desistido. É acreditar na Vida porque Cristo que morreu e foi sepultado, está Vivo e Ressuscitado! Páscoa é alegria pela Vida, é compromisso do cristão com todos os seus irmãos de hoje e a esperança de ver no horizonte do mundo atual a luz do Sol da Justiça e a luz do Amor!

Para viver o Mistério da Semana Santa

Padre João Medeiros Filho

Desde o século II, além de continuar celebrando o primeiro dia da semana, como Dia do Senhor, os cristãos procuraram solenizar o Domingo da Ressurreição. Nasce assim liturgicamente a Semana Santa. No século IV, Santo Agostinho recomendava aos fiéis de Hipona a vivência do Tríduo Pascal. Durante a Semana Santa, a Igreja celebra o mistério da reconciliação, realizado por Jesus, começando pela entrada messiânica em Jerusalém, passando pela Ceia e Cruz, culminando com sua Ressurreição. A Semana Santa convida-nos também a descobrir nos sofrimentos da humanidade a atualização da Paixão de Cristo. Segundo Pascal, “Jesus continua em agonia, misticamente, até o fim dos tempos.” Assumindo nossa condição humana, Ele revestiu-se de um corpo sujeito à dor e ao sofrimento, mas seu espírito imortal destruiu a morte.  

A Semana Santa é a celebração do Amor de Deus. E ninguém pode duvidar desse Amor pelo ser humano. Ele transcende a compreensão dos homens. Misericórdia do Pai, que se plenifica na entrega de seu Filho para nossa salvação, a fim de que ninguém se perca. Morte e Ressurreição de Cristo são a prova maior de sua doação por nós. Traduzem os sentimentos do Pai. Jesus aceitou padecer e aniquilar-se na Cruz para demonstrar nossa pobreza. Mas, Ele ressurgiu dos mortos para revelar a grandeza divina que, por gratuidade do Onipotente, existe em nós. Para os cristãos, a Cruz tornou-se símbolo de mudança de vida e redenção.

Deus ama todos indistintamente. “Deus amou tanto o mundo, que nos deu seu Filho único” (Jo 3, 16). Às vezes, somos incapazes de compreender incomensurável gesto. Quem dentre nós, está disposto a sacrificar seu filho único (ou filha) para salvar ou trazer a paz aos outros? É essa oferta gratuita de Cristo, que vivemos e celebramos na Semana Santa. Dádiva suprema de Deus, que atinge o ser humano, manifestando sua capacidade de amar. Cristo valoriza-nos, independente de nosso amor, não porque sejamos bons e justos, mas porque Ele assim o quis para nos dar “a vida em plenitude” (Jo 10,10). Nossa salvação depende de acreditar em sua bondade para conosco e aceitá-lo. “Quem n’Ele crê, não é condenado” (Jo 3, 18). Não é vontade de Deus que as pessoas se percam, tampouco sente satisfação em condenar alguém. A alegria de Cristo é salvar cada um dos irmãos, é desarmar todos com o seu perdão. “Assim haverá maior alegria nos céus por um só pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento” (Lc 15, 7).

A liturgia da Semana Santa é um convite a descobrir Cristo, nosso Salvador, que é Luz. “Eu sou a Luz do mundo. Quem me segue, não caminha na escuridão, mas terá a luz da vida” (Jo 8, 12). Durante o Tríduo Pascal, Ele deixa entrever um vislumbre do brilho divino e abre uma fresta de esperança para cada um de nós. Foi erguido no alto da Cruz, para que todos sentissem o clarão de Deus, que tem o poder de salvar, pois é benignidade e misericórdia. Eis o sentido da celebração da Semana Santa.

Cristo vence o duelo da morte. Diante dela somos impotentes. Mas, para Ele não é obstáculo, pois para isso veio ao mundo. Nasceu a fim de trazer a Vida àqueles que n’Ele creem. Ele aceitou a realidade humana para nos dar a Vida sem ocaso. A morte é ausência de Deus. Mas, Cristo tem o poder de fazer reviver, porque é o Senhor da Vida. Ele deseja nos ressuscitar com a sua Palavra. “A quem iremos, Senhor, só Tu tens palavras de vida?” (Jo 6, 68). Que não haja dúvida, medo e desespero. Jesus veio nos libertar de tudo aquilo que nos deixa adormecidos e mortos. Sua Palavra transformará em dia as trevas, em alegria nosso pranto, em certeza nossa dúvida, em paz nossa angústia! É o que vivemos na Semana Santa, mistério insondável do Amor de Deus! Feliz e Santa Páscoa para todos. Jesus vive e reina. Como Madalena e os apóstolos sejamos arautos da Ressurreição do Filho de Deus. “Ele não está aqui, ressuscitou como havia dito” (Mt 28, 6).

Por uma História da Igreja Potiguar

Padre João Medeiros Filho

O registro de nossa história eclesiástica contém poucos dados disponíveis. Em “História do Rio Grande do Norte”, Câmara Cascudo narrou os primórdios do catolicismo em solo potiguar, indicando elementos sobre as paróquias (oragos e datas de criação), até a década de 1950. Em 1937, Monsenhor Paulo Herôncio de Melo legou-nos o primeiro relato sobre o martírio de Cunhaú e Uruaçu. Dom Eliseu Simões Mendes contribuiu com anotações para a história da diocese mossoroense. Sua visão desenvolvimentista subjacente no projeto da “Missão Rural” merece estudos acurados. Dignos de encômios são os apontamentos de Monsenhor Francisco Sales Cavalcante: “A Paróquia de Santa Luzia” e o “Colégio Diocesano de Mossoró”. Em 1985 e 1987, Monsenhor Severino Bezerra lançou “Levitas do Senhor” (2vol), pequenas biografias de sacerdotes que aqui nasceram ou exerceram seu ministério, nos séculos XVIII a XX. Padre Normando Pignataro Delgado, em sua obra “Paróquias potiguares: uma história”, discorreu sobre 98 paróquias norte-rio-grandenses até os idos de 1980. Padre Francisco de Assis Costa, Diretor do Colégio Diocesano Seridoense, coligiu algumas memórias do referido educandário, no ensejo dos 80 de sua fundação, festejados em 2022. Aconselha-nos o profeta Isaías “Lembrem-se de coisas passadas e fatos antigos” (Is 46, 9).

Se porventura alguém perguntar pelos renomados oradores sacros potiguares, faltam-nos fontes de pesquisa, exceto parcas anotações em alguns livros de tombo paroquiais. Caso o questionamento verse sobre abnegados educadores eclesiásticos, haverá lacunas significativas na documentação. Monsenhor Amâncio Ramalho é pouco lembrado. O eminente sacerdote dirigiu oito colégios em cinco estados brasileiros (RN, PB, PE, BA e PI). Foi o primeiro titular do Departamento de Educação, que precedeu a Secretaria Estadual de Educação (RN). É profícuo o itinerário de escolas católicas, dentre elas: Marista, Salesiano, Salesianas, Coração de Maria, Santa Teresinha, N.S. das Vitórias, Jesus Menino. Carecem de relato escrito sobre suas trajetórias. Infelizmente, são olvidadas as admiráveis realizações educacionais de Dom Delgado no Seridó. No entanto, é importante assinalar o papel da Igreja na educação no RN, inclusive no ensino superior. Luís Eduardo Suassuna, no Conselho Estadual de Educação do RN, preocupa-se em colher dados sobre os patronos das escolas de educação básica, destacando os vultos religiosos.

Figuras notáveis de nosso clero são desconhecidas. É o caso do Padre Sebastião Constantino de Medeiros, governador do bispado de Olinda, durante a prisão de Dom Vital. Tornando-se jesuíta, foi o primeiro brasileiro a lecionar na Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). Graças aos esforços do acadêmico Jurandir Navarro, dispõe-se de parte substancial da produção literária de Cônego Monte. Monsenhor Huberto Bruening (pároco da Catedral de Mossoró) deixou ricas anotações sobre a apicultura brasileira. É falha grave ignorar tantos padres escritores, como Dom Nivaldo Monte.

O Movimento de Natal foi objeto da tese doutoral de Alceu Ferrari, intitulada “Igreja e Desenvolvimento”.  Cônego Eugène Collard, em “A Igreja na encruzilhada dos caminhos”, narra para os europeus essa rica experiência pastoral. O trabalho das escolas radiofônicas tampouco merece ficar marginalizado. Precedeu Paulo Freire, contribuindo para a alfabetização e educação integral de inúmeros norte-rio-grandenses. Quanto aos meios de comunicação (rádios e periódicos), a Igreja potiguar desempenhou papel relevante. O jornal “A Ordem” foi destaque nas décadas passadas, respeitado por intelectuais. Ali, brilharam líderes católicos, que orgulham a nossa terra. As primeiras instituições de assistência à saúde e aos idosos do RN foram iniciativas da Igreja. Como esquecer o Hospital Padre João Maria (Currais Novos)? A Igreja tem deixado uma marca notável de serviço e presença junto ao Povo de Deus.

A Academia Norte-rio-grandense de Letras, por intermédio de Cônego Monte, recebeu também influência de Dom José Pereira Alves, terceiro bispo natalense, membro e presidente da Academia Pernambucana de Letras. “Ele foi um de nossos maiores oradores sacros, arrebatando palmas nas naves da antiga Catedral da Apresentação”, relata Padre José Freitas Campos, em “O Mestre da Palavra”. Além desta obra, o ilustre sacerdote legou-nos a biografia de Frei Miguelinho, História dos Primeiros Mártires do Brasil e Conexões de Memorias da Igreja do RN. Cônego José Mário de Medeiros brindou-nos com as biografias de Dom Marcolino e Dom Tavares. A Igreja potiguar deve cuidar de sua história. “Muitas vezes e de modos diversos, Deus falou outrora a nossos pais” (Hb 1, 1).

Dom João e Dom Sílvio

Padre João Medeiros Filho

A pedido de leitores, escolhi pautar este artigo. O profeta Isaías revela uma realidade teológica, exaltando a supremacia divina em relação ao ser humano: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos e vossos caminhos não são os meus caminhos” (Is 55, 8). Diga-se o mesmo da Igreja, sacramento do Filho de Deus. A lógica divina difere dos métodos e planos humanos. A vinda de Dom João Santos Cardoso para ser o nosso metropolita e posteriormente a nomeação de Dom José Sílvio de Brito (natural de Cruzeta/RN) para seu bispo auxiliar foram agradáveis surpresas. Dom João veio para o RN descalço, como um frade carmelita, despojado como um franciscano, ouvinte e questionador ao estilo jesuíta, missionário e pregador à semelhança de um dominicano ou redentorista, reflexivo e orante, inspirado em Santo Agostinho. Nosso pastor aqui chegou, revestido de sua fé, seu amor à Igreja, com seus três pets e a certeza da mão estendida d’Aquele que nos conforta. Aliás, é o seu icônico lema episcopal: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fl 4, 13).

Registrei estas notas, no limiar de meus oitenta e cinco anos, antes que a lucidez brigue comigo e me abandone. Há fatos e feitos que não posso esquecer. Muitos não esperavam em fevereiro a escolha de Dom Sílvio para o episcopado. Não que lhe faltasse mérito. Comenta-se que outros nomes eram cogitados nas sacristias e casas paroquiais. Ele detém muito das virtudes de nosso arcebispo: discreto, simples, avesso à fama e aos holofotes, focado na pregação do Evangelho. Para mim não foi inesperado.

Este velho escriba confessa sua admiração ao ver nosso pastor chegar aqui, há quase três anos, de mãos vazias, desarmado, coração aberto para acolher e perdoar, imbuído do amor a Cristo e à Igreja. Nada pediu, desejava primeiro ouvir e rezar para agir na hora de Deus. Para cá não o acompanhou nenhum sacerdote ou auxiliar. Começou o pastoreio como o Mestre, e foi conquistando os discípulos. Segundo a rotina eclesiástica, é comum a um bispo, ao ser nomeado para uma diocese desconhecida, levar consigo ao menos um secretário. Dom Joaquim Antônio de Almeida, nosso primeiro antístite, ao tomar posse da diocese do RN, trouxe para Natal seis auxiliares. Dom João, nesse e em outros aspectos, procurou seguir as pegadas do Mestre.

Na homilia da Eucaristia, em memória dos quatorze anos de vida episcopal, Dom João anunciou efusivamente, como presente de Deus, a nomeação de seu primeiro bispo auxiliar. Mais um exemplo de despojamento e valorização do clero potiguar. Não seria menoscabo se tivesse indicado um padre amigo, oriundo de outras dioceses. Escolheu, dentre os sacerdotes da arquidiocese, um dos assessores mais próximos. Isso demonstra respeito e consideração ao nosso clero. Este gesto tampouco o impede de indicar um presbítero de outros bispados para ocupar as futuras dioceses (Assú e Santa Cruz). O que deve falar mais alto é o bem da Igreja. Nosso arcebispo segue Jesus: “caminhando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos (Simão Pedro e André) e os chamou.” (Mt 4,18). Ao escolher seu primeiro bispo auxiliar, seguiu a tradição de seus antecessores Dom Marcolino e Dom Nivaldo. Entretanto, isso não é um impeditivo para outras escolhas, nem desdouro se vier acontecer.

Dom João e Dom Sílvio continuarão abrindo novos caminhos com a força da Palavra Sagrada, colhendo frutos para o bem do Povo de Deus. O desejo que move nosso arcebispo e seu bispo auxiliar é o de compreender, perdoar, amar, viver e difundir o Evangelho, construindo a beleza da Igreja e contribuindo para que possa ecoar sempre a melodia da graça divina. Como nosso Pastor, Dom Sílvio detém as virtudes da simplicidade e ternura evangélicas, independência diante das coisas efêmeras, aceitando o desafio de servir e deleitar-se com o Sagrado. Ambos entendem o poder, em qualquer instância, como um serviço. Dizia Dom Delgado, um grande bispo que pisou o chão do Seridó: “O poder só tem sentido, quando busca melhorar a vida dos outros e aumenta a sede de Deus.” Cristo advertia: “Quem quiser ser o maior, seja aquele que vos serve” (Mc 10,43).

Nomes pitorescos de cidades brasileiras 

Padre João Medeiros Filho 

O Brasil é considerado um país continental, rico geográfica e culturalmente. Apesar do idioma único, há diversidade nos falares, expressões típicas e curiosa toponímia (com traços indígenas). O mapa é um inventário de palavras, despertando atenção, humor e poesia. Há cidades que lembram lendas, acontecimentos… Dentre centenas de topônimos, vale destacar pela originalidade: Varre-Sai (norte fluminense) e Passa e Fica (agreste potiguar). Contêm histórias, anedotas, folclore e o modo brasileiro de lidar com a linguagem oral, cheia de graça e criatividade. Situada na divisa com MG e ES, Varre-Sai é também conhecida pela produção de café. Sua denominação onomatopaica, surge de um fenômeno natural: os ventos fortes que varriam a região, antes da chegada de colonos italianos. Reza uma lenda que tropeiros, ao passarem pelo local, teriam dito que ali “o vento varria e saía levando tudo.” Daí a expressão “Varre-Sai”, batizando o lugarejo. “O vento gira para o sul e dobra para o norte, passando ao redor de tudo.” (Ecl 1,6). 

A cerca de cem quilômetros de Natal, Passa e Fica é outro exemplo de imaginação popular aplicada à geografia. Fundada nos albores do século XX, a cidade montanhosa nasceu como ponto de parada para tangedores e comerciantes que atravessam o interior potiguar. Conta-se que no topo da serra havia uma pensão-bodega, onde os viajantes costumavam descansar. Certa vez, um deles teria dito ao dono: “Vou só passar.” O anfitrião respondeu: “Pois, passa e fica!” A expressão pegou. Quando o povoado virou município, o nome estava consolidado. Passa e Fica é síntese do acolhimento nordestino e humor de quem transforma uma conversa casual em identidade coletiva. Entretanto, o nome é paradoxal: passar e ficar são ações opostas. Mas, a linguagem popular é mestra em conciliar termos antagônicos. Em Passa e Fica, há um convite. Quem fica, quer levar adiante a história. “Deus confiou ao homem a gestão das criaturas.” (cf. Gn 1, 28). 

Casos, como os supracitados, não são isolados. O Brasil contém nomes de municípios que poderiam figurar em um livro de história ou anedotário. Vejamos: Não Me Toque, Espumoso e Arroio dos Ratos (RS), Espera Feliz, Três Corações, Ponto Chique e Passa Tempo (MG), Fartura e Bofete (SP), Vai-Vem, Quijingue e Cacha-Pregos (BA), Chã de Alegria, Surubim e Solidão (PE), Puxinanã, Baía da Traição e Casserengue (PB), Coité do Noia, Porto Calvo e Boca da Mata (AL), Pau dos Ferros, [São Miguel do] Gostoso, Pureza, Encanto e Venha Ver (RN), dentre tantos. Tais nomes, longe de meras curiosidades, revelam a relação entre o homem, a língua e a terra. Nasceram de situações prosaicas, como uma fazenda, anedota, lenda, um rio, uma devoção religiosa… Entretanto, ao serem fixados como topônimos, ganham uma carga simbólica, fazendo da linguagem popular uma história oficial. “E o homem deu nome às coisas.” (Gn 2, 20). 

O geógrafo Milton Santos dizia que o território é também um “sistema de significados”. Varre-Sai e Passa e Fica são mais que palavras no mapa. Tornam-se relatos condensados, pedaços da memória oral, transformados em geografia e registro histórico. Há quem veja nesses termos apenas exotismo ou folclore. No entanto, revelam sabedoria diante da vida. Espera Feliz, por exemplo, parece um conselho. Não Me Toque, um aviso que, segundo alguns, teria origem numa briga entre vizinhos. Passa e Fica e Varre-Sai lembram a vida interiorana, testemunha de idas e vindas, ventos e estradas, gente que passa, deixando um traço e lugares varrendo a poeira do tempo, mas preservando a memória.  

Há um número razoável de nomes de origem popular, fruto da criatividade, oralidade e cultura sertaneja, dando ao Brasil um tom de crônica viva. Cada um deles é um pequeno conto. Varre-Sai fala do vento. Passa e Fica, da hospitalidade. Fartura, da esperança. Espera Feliz, do otimismo. Não Me Toque, da prudência etc. São expressões de uma imaginação coletiva, que transforma o cotidiano em história e poesia. Chorozinho (CE) lembra o choro dos índios, expulsos de suas terras. Trombudo (SC) vem de um rio sinuoso, como uma tromba. Nosso mapa é um mosaico onde humor, natureza e imaginação popular se misturam. “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra de suas mãos.” (Sl 19/18,1). 

O corpo, templo divino

Padre João Medeiros Filho

O poeta satírico Juvenal viveu em Roma, entre 55-127 A.D. Tecia duras críticas aos imperadores romanos, especialmente Domiciano, por oferecer apenas pão e circo à população. Comenta-se que era atleta. Dele é a frase: “Mens sana in corpore sano” (“Mente sadia num corpo são”), muito usada nas escolas para despertar o interesse dos alunos pela educação física. O cuidado com o corpo é bíblico. “Não sabeis que vosso corpo é santuário daquele que habita em vós?” (1Cor 6,19), insiste o apóstolo Paulo. Eis as bases de uma “teologia da corporeidade humana”, inspirada também no Gênesis. “Fomos criados à imagem e semelhança de Deus” (Gn 1, 26-27). Santo Agostinho pregava aos fiéis de Hipona: “Tende cuidado com vosso corpo. Ele é o santuário de vossa alma.”

No Seminário, ouvia amiúde tais afirmações. Entretanto, desde criança, tenho tendência cartesiana. Menosprezava atividades físicas, permanecendo sedentário e leitor compulsivo. Observava as recomendações dos médicos e profissionais da saúde muito mais “por obrigação do que por devoção.” Meu corpo protestou contra a minha incúria, tendo chegado a um estágio avançado de artrose nos joelhos. Fiquei dependente de uma cadeira de rodas. As prescrições de alguns profissionais não lograram êxito. Não fora o meu bom humor (herança paterna) teria mergulhado em profunda depressão. Mas, Deus não nos desampara. “Ele é nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre encontrado nos perigos” (Sl 46/45, 1).

O tempo foi passando. Não me revoltava diante de meu quadro, mesmo ao escutar de profissionais da saúde: “Não há mais jeito, tudo é paliativo.” Analgésicos, anti-inflamatórios, infiltrações, pomadas e sessões fisioterápicas com aparelhos entraram na minha rotina. Mas, há pacientes que necessitam do toque físico e de mãos humanas. “Estas transmitem também a energia de quem cura”, lembra um princípio da medicina oriental. Cristo tocava os enfermos (Mt 8, 13; Mc 1, 40; Lc 4, 40 etc.). Advertia também Chaplin: “Sois homens e não máquinas.” Hoje, há quem priorize exames sofisticados, alta tecnologia e aparelhos. Sábias as lições de Dr. Celso Matias de Almeida: “A clínica é soberana. As melhores sondas são os nossos dedos.” Pairavam dúvidas em mim.

Deus tem os seus caminhos e a sua hora. Tocam-me sempre as frases do profeta Isaías: “Os meus pensamentos não são os vossos… Meus planos estão acima dos vossos” (Is 55,8). O tempo de Deus não segue a cronologia humana. No meio de tantas angústias e incertezas, não me insurgia, confiava e me entregava “Àquele que me fortalece: Jesus Cristo” (Fl 4,13). Chegava a brincar com meus amigos e irmãos sacerdotes, dizendo: “Já fui quase cego, hoje sou cadeirante e a surdez já dá sinais. Enquanto a lucidez predomina, registro minha gratidão a muitos. Hoje, ela se destina especialmente a meu fisioterapeuta Gildásio Lucas de Lucena. Narro tais fatos para ajudar alguns a refletir diante de situações análogas. Escreveu o profeta Naum: “Deus protege em quem Nele confia (Na 1,8).

Um dia, Gildásio veio visitar-me, trazido por meu amigo Monsenhor Lucas. Acreditou em mim e viu que poderia me ajudar. Dominando bem anatomia, fisiologia, biomecânica e ética, iniciou o tratamento. Sempre explicava a razão de cada ato, pois percebia meu ceticismo. Trata-se de excelente professor, mestre, doutor e pesquisador na sua área. Demonstrou que as técnicas importam na reabilitação. Entretanto, elas pouco valem sem o convencimento de quem as recebe ou o amor, carinho e dedicação de quem as aplica. A primeira preocupação era reativar meus músculos adormecidos. Não foi tarefa fácil, por conta do tempo de inatividade e descrença do paciente. Na melhora de meu quadro atual devo lembrar igualmente o contributo da querida fisioterapeuta Daliany e do bem que me fez no pós-Covid.

Meu corpo começou a reagir positivamente, à medida em que me convencia do valor da fisioterapia. A melhora acontece com a simbiose entre paciente e terapeuta. Antes, eu dependia de alguém para as tarefas básicas do cotidiano. Faz-me lembrar Unamuno: “Il n’y a pas de maladies, mais seulement des malades” (Não há doenças, mas doentes). Minha profunda e permanente gratidão a Deus. “Provai e vede como é bom o Senhor. É feliz quem nele confia” (Sl 34/33, 9).

Influências sobre a cultura seridoense

Padre João Medeiros Filho

Credita-se parte significativa do desenvolvimento cultural e intelectual do Seridó à influência dos flamengos, oriundos dos Países Baixos (Holanda), que no passado incluíam Bélgica, Luxemburgo e parte da França (século XVII). A região foi marcada também pela presença de jesuítas e padres diocesanos, provindos da Freguesia do Assú (séc. XVIII-XIX). Os primeiros legaram tradições e técnicas. Dentre elas, destacam-se os queijos. Segundo algumas fontes, sua primeira fabricação ocorreu entre Acari e Currais Novos, em 1596, antecedendo às queijarias mineiras. Os bordados seridoenses são uma herança cultural flamenga, oriunda de Bruges, capital da Flandres Ocidental. Os açudes e barragens seridoenses foram inspirados nos diques, construídos para defender o sul Holanda da invasão do mar. No Seridó, o objetivo é armazenar água. Não há como ignorar nomes franceses de tantos cidadãos seridoenses: Descartes, Dinarte, Vergniaud, Arnaud, Lamartine, Vauban, Odilon, Morton, bem como Gastão e Bernardo aportuguesados. Ressalta-se o francesismo dos bordados e rendas: tricot, crochet, macramé, richelieu, renaissance (renascença), guipure e outros.

Há quem atribua tais galicismos aos almanaques. É ignorar que a antiga Província de Bruges se estendia até Lille (França), tendo o francês como língua original. Bruges ainda é marcadamente francófona, apesar do neerlandês ser o idioma oficial da região. Muitos de seus habitantes vieram para o Nordeste brasileiro, quando da ocupação holandesa. Monges beneditinos fundaram naquela cidade um mosteiro, a fim de suscitar vocações religiosas para evangelizar o Brasil. Trata-se da Abadia de Santo André, que preparava jovens para a vida missionária. De lá, veio Dom Gérard Van Caloen, primeiro bispo da Prelazia de Boa Vista (RR). Este motivou a tese doutoral do historiador Jacques Jongmans, na Universidade de Louvain.

É inegável a inspiração flamenga na cultura seridoense. Entretanto, o Seridó potiguar conheceu outros agentes formadores de seu povo. Muito deve aos sacerdotes jesuítas, evangelizadores e colonizadores do interior potiguar. Esta presença na formação de nossa índole data dos séculos XVII-XVIII. Há que lembrar a importância do Colégio dos Jesuítas, de João Pessoa. De lá partiram para evangelizar o RN, fundando missões, aldeias e erigindo igrejas. Santo André de Soveral (mártir de Cunhaú) era um deles. Câmara Cascudo delineia os caminhos dos padres da Companhia de Jesus no RN: Arês (antiga São João Batista de Guaraíras), Extremoz (outrora São Miguel de Guajiru), Angicos (cujo nome primitivo era Curral dos Padres), Assú, Apodi e Jucurutu. Nessas localidades, além da catequese, transmitiram conhecimentos linguísticos e científicos. Incutiram nos assuenses o gosto por idiomas, poesia e literatura. Assú é berço da primeira Escola de Latim do RN. “Todo discípulo bem formado será como o mestre” (Lc 6, 40).

Assú foi um celeiro de vocações sacerdotais, inspiradas pela cultura latina que encontrava seu ápice na liturgia. Até pouco tempo, Padre Canindé manteve ali uma escola de preparação ao sacerdócio. A vida cristã sempre foi marcante naquela cidade potiguar. É o torrão natal da Beata Lindalva Justo. Da Freguesia de São João Batista (compreendendo, à época, Campo Grande e outras localidades) provêm vários presbíteros, destacando-se o Senador Guerra, seus sobrinhos Francisco Justino e José Modesto Pereira de Brito, Manuel José Fernandes, Francisco Adelino de Brito e Francisco Rafael Fernandes. Foram pastores e docentes no Seridó. Padre Guerra trouxe ainda para Caicó seu sobrinho Joaquim Apolinar de Brito (leigo), um dos maiores educadores caicoenses. Outros renomados assuenses, formadores da erudição seridoense (especialmente Caicó, Jucurutu e Florânia), foram Padres Amaro Théo Castor Brasil, Manoel Gonçalves Soares de Amorim e Idalino Fernandes de Souza. A presença de tantos sacerdotes de alto nível intelectual é um marco na formação dos seridoenses.

Deve-se ao Padre Guerra a anexação do atual Seridó potiguar ao RN, desligando-o da Paraíba. Vale lembrar que a Freguesia de Sant’Ana de Caicó foi desmembrada da Paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pombal (PB), em 1748. No tricentenário da criação da Freguesia do Assú, o Seridó é chamado a render homenagens à Igreja-mãe de várias gerações. Por ter sido a origem de tantas comunidades cristãs e civis, Assú merece ser diocese, possuindo sua Catedral. Na verdade, foi a cátedra de muitos ensinamentos cristãos e culturais para incontáveis norte-rio-grandenses. O apóstolo Paulo orienta: “Guardai cuidadosamente as tradições que vos transmitiram” (2Ts 2,15).

Vou de filme

Dr. Marcelo Alves Dias

Já disse aqui algumas vezes que é meu costume, antes de viajar para o exterior, ler um livro cuja história/estória esteja ambientada na cidade/país para onde eu vou. É muito bom, asseguro.

Não seria diferente neste verão, já que tinha/tenho uma viagem programada, para o período do Carnaval, com destino ao Marrocos. Portanto, em janeiro, fui para Pirangi/RN misturado na seguinte lógica: litoral, praia e calor. Marrocos: litoral, praia, deserto e, talvez, até mais calor. Mas não achei o livro ideal sobre o Marrocos. Então, escolhi um livro ambientado na Argélia. São países alegadamente com geografia e urbanização comuns, litorâneos, vizinhos, calorentos, ali no Magrebe africano. O livro escolhido: “La peste” (1947), de Albert Camus (1913-1960), nesse caso com o adendo de ser uma edição em francês (edição de poche da coleção “Folio” da editora Gallimard, 2003), o que, de quebra, ajudaria na proficiência desse idioma ainda falado por aquelas bandas. Daria certo. Afinal, como consta do primeiro parágrafo deste clássico de Camus: “Os curiosos acontecimentos que são o tema desta crônica ocorreram em 194., em Oran. (…) À primeira vista, Oran é, crucial que se diga, uma cidade comum, nada mais que uma administração francesa no litoral argelino”.

“A peste”, rivalizando com “O estrangeiro” (1942), é o mais badalado romance de Albert Camus. É muito provavelmente o mais célebre romance sobre “epidemias”. O título ajuda bastante, é verdade. É impactante. Mas o conteúdo é também excepcional. Em 1940, substituindo os horrores da 2ª Guerra Mundial, uma peste bubônica devasta a cidade de Oran, na costa argelina. A verdadeira Oran foi outrora tomada por outras pragas, a bubônica e a cólera entre elas, mas a narrativa de Camus supera os fatos. Namora com o absurdo. Romance existencialista, é a crônica de uma luta, a dos habitantes da cidade, subjugados pela natureza humana e pelo destino, contra a doença que se torna cada dia mais assustadora. E, claro, há o prestígio do autor. Camus, argelino, órfão de pai, crescido entre o mar e o sol, resistente francês, diretor da revista Combat, filósofo e ficcionista, prêmio Nobel de literatura em 1957 e falecido muito jovem, em 1960, em um acidente de carro tão absurdo como foi sua própria vida. Tudo isso junto faz de “A peste” um clássico das letras francesa e universal.

Ledo engano. A praia e o calor de Pirangi não estavam propensos à leitura, sobretudo de um livro em francês de um autor existencialista. Cansei nas primeiras páginas. Fui tomar banhos de mar com o pequeno João e, quando podia, “pernas pro ar”, que ninguém é de ferro. No mais, divaguei, xeretei, pensei e me lembrei de Casablanca, a cidade (que seria/será a primeira parada do nosso périplo pelo Marrocos) e, em especial, do filme homônimo. Fui de filme. Ingrid Bergman…

“Casablanca” é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, um clássico do ano de 1942 (direção de Michael Curtiz e vencedor de três Oscars), um drama romântico que busca, em tempos de guerra, traçar a saga dos que tentavam fugir da Europa e África, ocupadas pelos nazistas, para regiões livres do mundo. E talvez nada no filme chame mais atenção do que o fato de a personagem de Humphrey Bogart (Rick) abrir mão do amor de Ingrid Bergman (Ilsa), sob um aparente sentimento patriótico, que ele parecia não possuir. “Sempre teremos Paris”, disse. É um tanto revoltante. Só podiam ser tempos de guerra…

De toda sorte, pesquisando sobre “Casablanca” (o filme), descobri num curioso livro que possuo, “Film Facts” (Aurum Press, 2001), de Patrick Robertson, o seguinte: “Crédito único para uma única versão de Casablanca é o caso da violação de Copyright por João Luiz Albuquerque. O dito cineasta brasileiro recortou o filme para uma exibição privada no antigo ‘FestRio’. Na célebre cena do aeroporto, Ingrid Bergman não toma o avião que deixa Casablanca e, sim, volta para os braços de Humphrey Bogart”.

Bom, assim irei ao Rick’s Cafe Americain de Casablanca na (vã) esperança de que despedidas eternas nunca mais aconteçam.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

 

 

 

Marcas de arrogância e prepotência

Padre João Medeiros Filho

O mundo caminha na contramão da doutrina que Cristo transmitiu a seus discípulos: “Aprendei de mim que sou manso e humilde.” (Mt 11, 29). Mansidão e humildade, virtudes destacadas pelo Mestre, opõem-se sempre a qualquer tipo de arrogância e prepotência. Durante sua vida pública, o Filho de Deus deparou-se com a bazófia dos doutores da lei, escribas e fariseus. Procurou chamar a atenção de seus seguidores para o descaso e abuso das autoridades de seu tempo. Diante da presunção deles – uma das faces da prepotência – chamou-os de “sepulcros caiados” (Mt 23, 27).  Jesus sempre condenou a atitude do dedo em riste, criticar levianamente e acusar sem provas, culpar sem motivos e destruir sem diálogo. Este comportamento domina o Brasil hodierno. Cristo contrapôs sua mensagem a tais atitudes. “Bem-aventurados os mansos” (Mt 5, 5). A lógica cristã está delineada no Evangelho: “Todo aquele que se exalta será humilhado, e todo aquele que se humilha será exaltado.” (Mt 23, 12). Vale lembrar um antigo ritual da coroação do papa. Ao colocar a tiara, símbolo do poder pontifício, um dos cardeais pronunciava estas palavras: “Sancte Pater, sic transit gloria mundi!” (Santo Padre, a glória do mundo é transitória).

Etimologicamente, a palavra arrogância deriva do verbo latino “adrogare”, que significa exigir para si. No Império Romano, era utilizada para definir alguém que se considerava no direito de impor um reconhecimento que não lhe cabia. Arrogantes de diferentes tipos estão hoje em alta na vida pública e nas redes sociais. Trata-se de atribuir a si poderes ou privilégios, impondo uma suposta superioridade. É manifestação de narcisismo, deslumbramento decorrente de algum frágil predicado ou ausência deste. Segundo os estudiosos da mente humana, trata-se do sentimento de quem se acredita melhor e mais capaz – moral, religiosa, social, política ou intelectualmente – do que os seus semelhantes. Resultado disso é o desprezo em relação aos outros, vaidade e soberba ostensivas. É típico do prepotente acreditar-se dono absoluto da verdade, demonstrando supremacia sobre os demais.

O tribuno romano Marco Túlio Cícero afirmou peremptoriamente: “Quanto mais medíocre, mais arrogante. O sábio não impõe.” O Salvador sempre se mostrara despretensioso e propositivo. Quanto mais santidade e sabedoria, mais pureza e humildade, ou seja, consciência de suas limitações. Os soberbos vestem a túnica da empáfia para ocultar sua ilusão e, por vezes, a própria mediocridade. A arrogância embriaga e ilude, faz perder a noção e a lucidez da condição humana. É sempre oportuna a orientação do apóstolo Paulo: “Nada façais por contenda ou vanglória, mas com humildade. Cada um considere os outros como superiores a si mesmo.” (Fl 2, 3).

A gênese da arrogância e de seus equivalentes, não raro, está nos recalques e frustrações que se procuram esconder nos gestos e palavras intransigentes. O presunçoso ameaça, procura humilhar, agride e persegue. É um obcecado por destruição. Sente prazer mórbido em descontruir quem o desagrada. Em geral, guarda uma amargura e um azedume interiores, buscando atingir seu semelhante com o ódio ou desprezo. Geralmente, ignora a polidez, educação e urbanidade. As pessoas pedantes tendem a ser ácidas e manter relações tóxicas. A ausência da paz dissemina um clima de negatividade. São pessoas inseguras, dominadas pelo medo de ser descobertas em sua pobreza interior.

A arrogância e seus congêneres têm levado muitos a desvarios em pronunciamentos inconsequentes que, não obstante, ecoam fortemente. O nível de morbidez da sociedade é tão expressivo que narrativas e discursos equivocados, marcados de petulância e sofismas, têm mais receptividade e adesão do que as perspectivas construtivas. No entanto, somente estas são capazes de desencadear uma qualificada configuração sociopolítica, religiosa e emocional. A prepotência hospeda discursos negativos e deletérios, sem contribuir para a solução dos problemas que afligem a humanidade. A prepotência é a máscara dos fracos. As posturas de suposta autossuficiência e a ilusão de ocupar uma posição de superioridade são confrontadas pela implacável realidade: quem é o ser humano, habitante deste “pálido ponto azul”, que é o planeta terra, na imensidão do Universo? Assim aconselha a Sagrada Escritura: “A soberba acaba por trazer humilhação, enquanto a humildade leva-nos à glorificação!” (Pv 29, 23).

A Faculdade do Nordeste

Dr. Marcelo Alves Dias

Nestes tempos de tantos preconceitos – contra o Nordeste e os nordestinos e contra as universidades públicas, para dar dois graves exemplos –, vou aproveitar o ensejo para falar bem – aliás, muito bem – de uma instituição de ensino superior pública, genuinamente nordestina, que merece todas as nossas homenagens: a Faculdade de Direito do Recife.

Quase bicentenária, a Faculdade de Direito do Recife é um dos dois mais antigos cursos superiores do Brasil, de par com a Faculdade de Direito de São Paulo. Foi fundada ainda no primeiro Império, em 11 de agosto de 1827 (na mesma data da sua congênere paulista), à época como Faculdade de Direito de Olinda. Foi transferida para a capital da Província de Pernambuco em 1854, com a consequente mudança de denominação.

Ademais, a Faculdade de Direito do Recife, desde os seus albores, funcionou não só como o grande centro para formação de bacharéis em direito no Norte e Nordeste do país (incluindo muitos potiguares, num tempo em que o RN era ainda desprovido de cursos de direito), mas também como uma academia de filosofia, ciências sociais, artes e, sobretudo, política e literatura. Nomes célebres de nossa literatura e história política, como Joaquim Nabuco, Castro Alves, Martins Júnior, Clóvis Beviláqua, Capistrano de Abreu, Graça Aranha, Aníbal Bruno e Pontes de Miranda, para citar apenas alguns, passaram pelos bancos e pelas cátedras da Faculdade de Direito do Recife, irradiando suas ideias, inovadoras e muitas vezes polêmicas, para todo o Brasil.

Quanto à ciência do direito, sua filosofia e sua história, é certo que a Faculdade de Direito do Recife fez “escola” – e na precisão literal desse termo. Como registra Edilson Pereira Nobre Júnior em recentíssimo artigo publicado no Consultor Jurídico, “A Faculdade do Recife e a história do direito (parte 1)”, “se, para Machado de Assis, era controverso que a Escola do Recife, sob o prisma literário, poderia ser chamada de escola, indiscutível, sob o ponto de vista jurídico, que aquela assim se impôs. Prova disso o seu legado, tanto inesquecível quanto inestimável”.

Falamos aqui da famosa “Escola do Recife”, ponto luminar na história da filosofia (geral e jurídica) brasileira, que girava em torno da Faculdade de Direito do Recife e que albergava boa parte dos grandes pensadores brasileiros da época (segunda metade do século XIX). Era constituída por um grupo de filósofos, juristas, sociólogos e homens de letras, pensadores em geral, capitaneados por Tobias Barreto (1839-1889) e Sílvio Romero (1851-1914), que buscou produzir, por meio da adaptação dos referenciais europeus, sobretudo germânicos (especialmente Ernest Haeckel, 1834-1919), uma filosofia ou modo de pensar essencialmente brasileiro.

Desde a sua fundação em 1827, passando pelos tempos de Joaquim Nabuco e Gilberto Amado (sobre quem, tomando por base as suas “Formações”, conversamos nas semanas passadas), atravessando períodos de glória e de graves intempéries, suas muitas efemeridades, lá se vão quase 200 anos da “Faculdade do Nordeste”. Hoje, conservando a tradicional denominação de Faculdade de Direito do Recife, está abrigada no Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal de Pernambuco. É sempre relacionada entre os melhores cursos de direito do Brasil (e a UFPE, por sua vez, entre as melhores universidades do país). Sua revista – a Revista Acadêmica da Faculdade de Direito do Recife, que “começou a ser publicada em 1891, sendo o periódico acadêmico-científico mais antigo do Brasil na área de Direito” – é conceituadíssima. Seus professores/pesquisadores são renomadíssimos (e não vou citá-los nominalmente pelo risco de esquecer algum amigo). Seus discentes são deveras engajados. E por aí vai. Podem conferir isso tudo nos diversos rankings Internet afora.

Nestes tempos em que, para alguns, só o que é ensinado no sul do país ou mesmo no exterior tem valor, é sempre um alento rememorar o quão bela é a história da Faculdade de Direito do Recife, eterna capital do nosso Nordeste, de gerações passadas, da minha geração e de gerações futuras. Ano que vem, em 2027, devemos celebrar! E muito!

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Outra formação

Dr. Marcelo Alves Dias

Gilberto Amado (1887-1969) foi jornalista e político (deputado federal e senador), boêmio e diplomata (na América Latina, nas Zoropa e na ONU), jurista e escritor, às vezes tudo junto e misturado. Sergipano, diplomou-se e lecionou direito penal na célebre Faculdade de Direito do Recife. Fez-se também grande no direito internacional. Escritor de renome, aparentado do não menos talentoso Jorge Amado (1912-2001), o amado Gilberto foi imortal da Academia Brasileira de Letras. E meteu-se em alguns perrengues, sendo o mais célebre o assassinato à bala do também deputado federal e escritor Aníbal Teófilo (1873-1915), do qual, justa ou injustamente, foi absolvido pelo Júri (e só esse fato daria ensejo a inúmeras crônicas).

Em meio a tudo isso, Gilberto Amado é o autor de um livro/formação que reputo extraordinário: “Minha Formação no Recife” (1955). Li-o, lembro-me muito bem, faz muitíssimos anos, por sugestão do meu pai, numa edição já velhinha mas encadernada da Livraria José Olympio Editora. Precisamente em seguida à leitura de “Minha Formação” (de 1900 e sobre o qual conversamos faz alguns dias), do grande Joaquim Nabuco, como se fosse – e era – mais um passo à frente na minha própria formação. E a “Formação” de Amado me tocou até mais, posso dizer (aliás, repetir), que a “Formação” do Nabuco, com todo respeito à imensa pluralidade cultural do autor de “Um Estadista do Império”.

Há algumas razões bem objetivas, mesmo em detrimento da “Formação” do grande Abolicionista, para a presente badalação de “Minha Formação no Recife”.

Como já disse certa vez, “Minha Formação no Recife”, sob o ponto de vista estilístico, com linguagem fluente, sem pedantismos, coloquial às vezes, é uma obra-prima (embora quanto à linguagem devamos dar o desconto de que Amado escreveu mais de 50 anos após Nabuco).

As observações feitas por Gilberto Amado na sua “Formação”, com total naturalidade, acerca de si e dos outros (e “o inferno são os outros”, já dizia Sartre), são também impagáveis. Tenho mesmo na memória algumas passagens do livro e uma, em especial, gosto sempre de repetir. É uma repreensão que Amado fazia a um amigo poeta, que, “autor de versos extraordinários, rodeado de aclamações, gemia de raiva por ser pequenino de corpo”. Se a natureza lhe prodigalizara, entre milhões de pessoas, dons excepcionais, por que, exclamava Amado, “em vez de dançar como Davi na frente dos exércitos, indiferente à chacota, chorava por não ser um Golias!?”. Amado era mesmo o que chamamos hoje de um grande frasista. Abro aqui um parêntesis para recontar um episódio atribuído a ele que, acredito, li em outro lugar que não na sua “Formação” recifense. Diplomata no Velho Continente, mas sempre boêmio, ele foi a uma festança em Paris ou Roma levando a tiracolo garotas de vida fácil ou difícil (tudo depende do ponto de vista). O segurança do estabelecimento, identificando Amado, ainda na portaria, o alertou: “Embaixador, essas garotas são suspeitas”. Ao que Amado respondeu: “Suspeitas são as que estão aí dentro. Estas são garantidas. Entram comigo!”.

Afora a modernidade e a naturalidade no escrever e essa perspicácia em sondar a alma humana (em especial, a brasileira), penso que foi também o pano de fundo de “Minha Formação no Recife” que me encantou deveras. Sou formado em direito. Trabalho na capital de Pernambuco. Dali e dos bons tempos de Olinda tenho às vezes saudade. A “Formação” de Amado rememora exatamente os cinco anos que o autor passou, como jovem estudante, na antiga Faculdade de Direito do Recife. Lê-la é uma forma ao mesmo tempo mais intelectualizada e comportada de sussurrar “voltei Recife…”.

Por estes dias, aqui na praia, procurei por uma versão digital, de preferência em PDF, de “Minha Formação no Recife”. Para reler e escrever esta crônica. Cascavilhei meus e-mails (tinha certeza de que o querido Humberto de Paiva Araújo e o saudoso Haroldo Ferraz da Nóbrega tinham me mandado algo a respeito). Perguntei também aos amigos. Diretamente e em grupos de WhatsApp. E xeretei a Internet (aqui até encontrei uma versão que vai até o capítulo V, sendo-me, assim, de alguma valia). Mas uma edição completa digital, nada, infelizmente. Bom, se alguém tiver, me manda, urgente. O carnaval já está chegando…

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Uma formação meio brasileira

Dr. Marcelo Alves Dias

Dia desses, conversamos aqui sobre o “romance de formação”, gênero literário de origem germânica, cujo enredo gira em torno da evolução moral e psicológica de um protagonista desde a sua juventude até a idade adulta. Designado pela expressão alemã “bildungsroman”, ele tem em “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister”, de Goethe, o seu marco referencial, com enorme influência sobre a subsequente literatura ficcional no estilo.

Hoje conversaremos sobre uma “formação brasileira” que, embora não seja um romance na precisão técnica do termo, pode ser degustada, pela maravilha do estilo, como tal: “Minha Formação” (1900), de Joaquim Nabuco (1849-1910).

Pernambucano de nascença, Nabuco foi um dos mais ilustres filhos do Brasil. Político e grande orador, jurista (iniciando os estudos em São Paulo, mas terminando no Recife), diplomata, historiador e jornalista, poeta e memorialista. Como político, ao lado de Rui Barbosa, lutou a favor da liberdade religiosa e pela separação entre Estado e religião. Como jurista, defendeu a interpretação mutável e progressiva da Constituição e advogou para o Brasil na (malograda) querela com a Inglaterra acerca dos limites da Guiana. Foi um homem que, nascido em família escravocrata (era filho e neto de vultos políticos do Império), tornou-se grande abolicionista, advogado de escravos, em luta que abraçou por quase toda a vida. Autor de belíssimas obras – “O Abolicionismo” (1883), “Um Estadista do Império” (1897-1899), “Pensées détachées et souvenirs” (1906) e “Diários” (inéditos até 2005), entre outros –, Nabuco foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e grande amigo de Machado de Assis.

Li “Minha Formação” uma primeira vez, ainda muito jovem, por sugestão do meu pai. Era uma edição já antiga, de 1970, da W. M. Jackson Inc. editores. E ali estava o Nabuco que evocava, com insuperável beleza e emoção, sua terra (Pernambuco), suas origens e a “Massangana” de sua infância. Mas que também falava, com igual beleza, de sua formação em Paris, Londres, Nova York, Washington e no Vaticano. Era o Nabuco multifacetado, mas que, como disse a filha Carolina Nabuco no prefácio dessa edição, foi “um exemplo de equilíbrio feliz. (…) em cada uma das brilhantes facetas da sua personalidade e da sua inteligência, harmonioso consigo mesmo e com o meio”. Me encantou…

Nestes dias de verão em Pirangi/RN, estou relendo “Minha Formação”, desta feita numa edição de 2004 da Editora Itatiaia, que adquiri baratinho (10 reais) numa dessas felizes promoções da vida. Mais maduro, confirmo a excelência das memórias/autobiografia do “primeiro homem público brasileiro a descobrir-se [embora não totalmente, para proveito dos seus biógrafos] com a própria mão de grande escritor”, uma “autobiografia tão psicológica como sociologicamente valiosa, além de notável pela sua qualidade literária. Uma das expressões mais altas da literatura em língua portuguesa”, como disse no prefácio o não menos notável e pernambucano Gilberto Freyre.

De toda sorte, retrospectivamente analisando, para mim, o que há de mais especial em “Minha Formação” será mesmo a sua “pluralidade”. A humanidade do livro espelha a vida de um dos homens mais completos de nossa terra – e aqui falo de Pernambuco, do Nordeste, do Brasil. É a apresentação de uma alma, de um ambiente, de uma sociedade, de uma civilização, a brasileira. Como dito na apresentação da Editora Itatiaia, “algumas das qualidades mestras da alma brasileira, a bondade, a delicadeza, a doçura, a tolerância, a simpatia humana, a afabilidade, tudo se encontra nas suas páginas inesquecíveis”. Todavia, ele é também um livro marcadamente cosmopolita. Indo até “Paris, Londres, Nova York, Washington e no Vaticano”. Viajando, no tempo e no espaço, e aprendendo/ensinando, dos engenhos da outrora civilização da cana-de-açúcar às coisas da Zoropa. Isso me marcou deveras. E certamente me formou…

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

A traição de Dante

Dr. Marcelo Alves Dias

Dias atrás, conversamos aqui sobre a “Divina Comédia” (1321), de Dante Alighieri (1265-1321), como exemplo “avant-garde” – bem anterior ao “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796) de Goethe – de um “bildungsroman” (romance de formação). Nesse “épico do aprendizado”, Dante percorre, acompanhado pelo grande poeta pagão Virgílio (70aC-19aC), seu mentor e guia, em meio a sucessivas lições e master classes, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso em busca da verdade revelada. E temos, assim, entre outras maravilhas, o texto dito fundador da língua italiana e uma das obras fundamentais da literatura mundial. Maravilha! 

Entretanto, há algo de trágico na interpretação da “Divina Comédia” como “bildungsroman”: o final da relação entre Dante e Virgílio, entre o pupilo e seu mentor/guia, com a negação ao autor da “Eneida” (19aC), por parte de Dante, de qualquer possibilidade de salvação na vida em Cristo. Virgílio, que guia seu pupilo à luz, é, ao final da peregrinação conjunta, destinado ao Inferno, deixando perplexos e mesmo indignados muitos dos mais aficionados leitores da “Comédia”. 

Profundamente trágico. Injusto também? Por mais que lamentemos – e que o próprio Dante lamente – não havia mesmo jeito de o pupilo “salvar” o seu “dolicissime patre”? Ou estamos diante, como se referiu George Steiner (em “Lições dos mestres”, Record, 2005), da “sombra da traição projetada onde mais se concentrava a luz da felicidade [paternidade]”?

O destino de Virgílio parece estar sendo selado durante o decorrer da comédia. George Steiner lembra que o poeta russo Óssip Mandelstam, autor de “Conversa sobre Dante”, já havia observado que “os números revelam muito da sensibilidade de Dante. Noventa citações de Virgílio no Inferno, trinta e quatro no Purgatório, apenas treze no Paraíso. Esse diminuendo preciso corresponde à dependência decrescente do discípulo em relação ao seu Mestre, à redução da dívida que tem a Comédia para a Eneida. As traduções diretas da obra de Virgílio ocorrem sete vezes no Inferno, cinco vezes no Purgatório, mas apenas uma vez na esfera celeste. Em contraponto, as Escrituras são traduzidas doze vezes no Paraíso, oito vezes no Purgatório, mas apenas uma vez nas profundezas do Inferno. De mais a mais, as alusões à Eneida nos oitavo e nono cantos do Paraíso são ásperas. A maestria pagã [a partir de certo ponto da peregrinação] não é mais bem-vinda”. Se a chamada “tragédia da comédia” é incipiente no Inferno, ela vai se tornando “inevitável” no decorrer da jornada via Purgatório ao Paraíso. 

É certo, outrossim, segundo Dante, que Virgílio resiste à lei do Salvador (é “ribellante a la sua legge”) e até “duvida da missão divina de Beatriz e de sua proteção”. Mesmo que o assustado discípulo muitas vezes retorne, tal qual criança, ao mestre (“voltei-me para o oceano de toda sabedoria”), “o discípulo peregrino intui que um misterioso fallimento, uma falha inexplicável, impede o mestre de fazer uso de toda a sua clarividência”. Virgílio não ouviu o “Verbo”. A “luz” não lhe foi possível pessoalmente atingir. E a fama é uma “glória secular que se estende para além da morte”. O “defeito do cristal” não poderia mesmo ser reparado. Nem seu mister de guia do pupilo na “Comédia” pode colocar o mestre pagão nos braços de Cristo. Dante manda seu “dolicissime patre” para junto de “le genti antiche ne l’antico errore” no primeiro círculo do Inferno.

Todavia, contraditoriamente, na “Comédia”, a graça da salvação é dada a quatro supostos pagãos (os dois primeiros no Purgatório; os dois últimos no Paraíso): a Estácio (45-95), poeta latino que, aparentemente, em vida, já era, curiosamente inspirado pela Eneida, cristão velado; Catão, o jovem (95aC-46aC), por sua vida e morte heroica e moral, sacrificando-se pelos outros; o imperador Trajano (53-117), que foi resgatado do limbo pelas preces do Papa Gregório por haver governado seu povo com Justiça; e Rifeu, soldado troiano da “Eneida”, que foi o mais equânime e justo entre aqueles que “fizeram Roma”. E mesmo “a mitologia medieval teria dado a Dante ampla licença para ‘salvar’ Virgílio”, como lembra George Steiner. Então, por que essa intransigência de Dante que nos deixa perplexos? “Que espécie de traição é essa? (‘Que vingança edipiana?’, seria a pergunta em linguagem psicanalítica)”. 

Embora me cause tristeza – e mesmo ojeriza – essa tão comum traição à paternidade (“a mais terrível sombra projetada onde mais se concentra a luz da felicidade”), não condeno Dante – e quem sou eu para condenar o “divino” autor? Qualquer que tenha sido o personalíssimo motivo de Dante – explicar esse motivo demandaria ter acesso às “áreas vitais da sensibilidade labiríntica” dantesca –, acredito que Virgílio esteve sempre teologicamente condenado. E se não o foi por razões acuradamente teológicas, o foi pelo seu fatum literário. Ele deveria mesmo ir (injustamente?) para o Limbo, o primeiro círculo do Inferno, para que pudéssemos discutir mais esse mistério dantesco, inclusive aqui nesta singela crônica.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL 

 

A formação de Dante

Dr. Marcelo Alves Dias

Os romances de formação são um tipo de “gênero literário”, muito comum na literatura alemã, cujo enredo está centrado na evolução moral e psicológica de um protagonista, geralmente desde a sua juventude até a idade adulta. “Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister” (1795-1796), obra seminal de Goethe (1749-1832), é o seu marco referencial, ao mesmo tempo um ponto de chegada e de partida, que exerceu enorme influência sobre a subsequente literatura ficcional no estilo. No mais, eles são universalmente designados pela expressão alemã “bildungsroman”, que, “desconstruída” para o português, nos dá “romance de formação” ou “romance de educação”.

Embora típico da literatura alemã, os “bildungsromane” não são desconhecidos em outras literaturas. Em inglês, por exemplo, podemos apontar “Jane Eyre” (1847) de Charlotte Brontë (1816-1855), “David Copperfield” (1850) e “Grandes Esperanças” (1861) de Charles Dickens (1812-1870) e “As aventuras de Huckleberry Finn” (1884) de Mark Twain, entre tantos outros.

Outrossim, muito embora “estritamente falando o termo não possa ser aplicado a texto anterior ao Wilhelm Meister”, o “bildungsroman”, de fato, como bem registrado na “Benét’s Reader’s Encyclopedia” (HarperCollins Publishers, 1996), “representa a culminância de uma longa tradição”. E podemos citar, como grande exemplo de “romance de formação” anterior ao “Wilhelm Meister”, nada mais nada menos que a “Divina Comédia” (1321), de Dante Alighieri (1265-1321), texto fundador da língua italiana e, de resto, uma das obras fundamentais da literatura mundial. Nela, como consta da minha edição da “Comédia” (Martin Claret, 2015), “acompanhado por Virgílio [seu mentor e guia], o poeta percorre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso” em busca da verdade revelada. Dante, claro, também vai ao encontro da amada Beatriz.

Noves fora a Bíblia e Shakespeare, nenhum outro autor ou obra é tão badalado e dissecado quanto Dante e a sua “Comédia” (não só nas letras, mas também na arte pictórica, tendo ela assim formado a nossa visão – falo aqui de imagem mesmo – do mundo, dos céus ao inferno e vice-versa). Há inúmeras maneiras de se ler a “Comédia”, todas elas, como não poderia deixar de ser com esse tipo de monumento-esfinge do saber, incompletas. E numa dessas leituras, a Comédia é interpretada como “um épico do aprendizado”. Como anota George Steiner (em “Lições dos mestres”, Record, 2005), “as fontes, o moto spirituale da Comédia, são as da pedagogia. O poema instrui no seu desenrolar e isso se dá através de sucessivas lições e master classes. As condições e ações de mestre e discípulo são essenciais à jornada”. Lembremos sempre que, para Dante, o seu maestro supremo é uma “Divindade Suprema”, mas o seu mestre/guia, como peregrino do aprendizado, pelo Paraíso, Purgatório e Inferno, é o grande pagão Virgílio (70aC-19aC). De fato, “o grande achado de Dante, radical e determinante de sua obra, foi fazer do autor da Eneida o guia do peregrino, figura paterna, exemplar. A parceria eletiva entre Mestre e discípulo torna-se o eixo da jornada. A densidade da interação, articulada e subconsciente, é tal que qualquer abordagem adequada requer, virtualmente, uma releitura verso por verso tanto do Inferno quanto do Purgatório. A condição de pupilo é declarada desde o início: ‘Tu sei lo mio maestro e ‘l mio autore’. (…) A Comédia é a anatomia dessa natureza de rapport. Mais do que qualquer outro texto a partir de então, ele é o nosso Bildungsroman”.

De toda sorte, há algo de curiosamente trágico na interpretação da “Divina Comédia” como “bildungsroman”, em especial no final da relação entre Dante e Virgílio, entre o pupilo e seu mentor/guia: a negação a Virgílio, por parte de Dante, de qualquer possibilidade de salvação na vida em Cristo. Como se cumprindo o seu fatum ao mesmo tempo teológico e literário, Virgílio, o mestre/pagão, que guia seu pupilo à luz, é, ao final da peregrinação de ambos, condenado ao limbo, o primeiro círculo do Inferno.

E nos resta a questão: não havia mesmo jeito de Dante “salvar” o seu “dolicissime patre” Virgílio? Ou estamos diante, como se referiu o já citado George Steiner, da “sombra da traição projetada onde mais se concentrava a luz da felicidade [paternidade]”?

Sobre essa “tragédia da comédia” nós conversaremos na semana que vem. Paciência.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

O nascimento de Jesus Cristo

Padre João Medeiros Filho

Quem haveria de acreditar que uma criança nascida num lugar ermo, de pastagem de animais, deitada numa gamela, poderia ser Deus? A convicção de que Ele deseja habitar na gruta do coração de cada criatura humana faz com que os cristãos lutem para tornar este acontecimento aceito por todos. Não é possível conter a alegria da Mãe desse Menino, dos anjos, dos pastores e de quem sente a importância daquele que veio trazer sentido à existência do homem. “Vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10). 

Alguns não percebem a natureza do Verbo que se fez carne, ou seja, a comunicação de Deus com sua presença em nossa história. Ele assumiu a realidade dos homens, porque eram capazes apenas de olhar para eles mesmos. A luminosidade do amor do Deus-Menino faz-nos reconhecer os próprios limites, no entanto, superados, pela força e misericórdia da Criança, nascida em Belém. Aceitar o nascimento de Cristo é essencial para que o homem tenha a certeza de que a vida vale a pena ser assumida para perdoar e amar, como Ele fizera e ensinara. Olhar para fora de si é importante para uma convivência promotora de nossa existência, dom de Deus, que deve ser desenvolvida em comunhão de fraternidade, no respeito ao outro e à natureza.

O Menino do Presépio, Deus-conosco, veio para entrar na manjedoura de cada um de nós, dando-lhe sentido. Aceitando-O, veremos que, na transitoriedade da nossa peregrinação terrena, é gratificante a caminhada em busca da Paz e da Verdade. Por que há tanta concentração de riquezas e poder nas mãos de minorias insaciáveis, sem promover a justiça social? Por que alguns se detêm numa religiosidade intimista, procurando seus interesses na busca de soluções de problemas pessoais, sem compromisso com a promoção dos outros em função de uma cidadania plena? Por que o uso da religião para oprimir grupos e desviar o sentido da fraternidade e do respeito à diversidade humana? 

Quando o nascimento de Jesus acontecer em cada pessoa, família e organização social, teremos sua luz a nos fazer compreender a nossa missão de construir mais solidariedade e dignidade. Estas levarão a promover o existir com maior sentido para todos. Mister se faz aceitar que o Menino-Deus nos torna criaturas novas. Se isto acontecer, realizar-se-á, então, o que o profeta Isaías anunciou: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam nas sombras da morte, uma luz resplandeceu. Fizeste crescer a alegria e aumentaste a felicidade; todos se regozijam em tua presença…” (Isaías 9, 1-2). 

O Natal de Jesus ainda não aconteceu para muitos. Quem O deixa nascer em si mesmo, é convidado a bater à porta do coração dos outros para compartilhar a alegria de tê-Lo dentro de si. A centralidade da festa do Natal é a união do Divino e do humano. Deus é Amor, que vem ao nosso encontro, “esvaziando-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens” (Fl 2,7). Hoje, verificamos um paradoxo. A Igreja fez de tudo para cristianizar a festa do Natal pagão. A sociedade de consumo deixa-se levar cada vez mais para paganizar o Natal cristão. O Menino Jesus está dando lugar ao Papai Noel. Este ganha mais destaque nos shoppings do que o presépio.

Pobre ou rico, erudito ou iletrado, o homem carrega consigo um segredo, que só se torna claro à luz do mistério divino. E que verdade profunda: “O Verbo se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1, 14)! O mistério de Deus e o nosso se entrelaçam na pessoa de Jesus. A vida tem sentido. O Eterno-Absoluto existe e caminha conosco. Recebamos um Deus-Criança, inocente, solidário, vivo, em permanente comunicação conosco, iluminando nossa existência, transfigurando nossas dores e transformando a morte em passagem para a plenitude da vida. Por isso proclama o profeta Isaías: “Multiplicaste a alegria do teu povo, redobraste sua felicidade.  Adiante de Ti vão felizes, como na alegria da colheita, como se repartissem conquistas de guerra” (Is. 9,2).