O respeito em agonia

Padre João Medeiros Filho

Em artigo anterior (nesta coluna) abordamos, dentre outros aspectos, a falta de respeito, que dificulta o convívio. Para aqueles que o valorizam e consideram-no uma condição para a convivência saudável, torna-se fácil comprovar essa triste realidade: o respeito está em agonia. No contexto da atual sociedade, tal virtude, há muito, deixou de ser um valor na escala axiológica. E, por isso, verifica-se que cada vez menos as pessoas conseguem, em seu cotidiano, obedecer aos seus limites, ter em mente a dignidade do outro, perceber a fragilidade da vida, o equilíbrio da realidade social e da “Casa Comum”, consoante a expressão do Papa Francisco.

Segundo estudiosos, não se trata simplesmente de má vontade ou da ausência de caráter, mas de perda cultural e moral. De fato, estão desaparecendo a capacidade, as condições e as possibilidades de sentir e transmitir o respeito como valor estruturante do conviver. Isso acontece também porque se aceita a influência perversa da pressa. Passa-se a viver num corre-corre insano e desumanizador. Atropelam-se e ignoram-se valores, instituições e pessoas. Nisto reside também o desrespeito. Acolhe-se e registra-se tacitamente, como axioma inquestionável, uma espécie de imperativo categórico da mentalidade capitalista: “Time is money” (tempo é dinheiro). Com isso, de modo frenético, diariamente muitos se entregam, conscientemente ou não, aos vorazes e insaciáveis preceitos de “cronos”, o deus do tempo. Neste embalo também presta-se culto a “mamon”, a divindade do dinheiro, que promete libertar o ser humano das garras sufocantes de “cronos”. Não raro, pensa-se desta forma: quando se acumular bastante dinheiro, ter-se-á tempo para poder gozar plenamente a vida! Deste modo, sacrificam-se a existência e as relações com os outros.

Assim, sem a percepção das consequências, forja-se um jeito doentio de convivência. Não se tem mais tempo para assimilar as experiências vividas, as lições diárias que a vida gratuitamente oferece. Destrói-se o berço natural e indispensável para internalizar o respeito como virtude humana. Não é à toa que etimologicamente o termo provém do latim “respectus” – particípio passado de “respicere” – que significa olhar novamente. Ele nasce da consciência de que as pessoas, os fatos para serem compreendidos ou aceitos precisam de outros olhares e isto necessita de paciência. Exige a reverência de nossa atenção e cuidado. Sem isso não há consideração, tampouco um relacionamento saudável entre as pessoas. A educação, o amor, a amizade e outros valores ou sentimentos construtores da existência não funcionam sem um dedicado cultivo da paciência. Aí, de fato, entende-se que a pressa é inimiga da vida humana e, por conseguinte, desrespeitosa.

Não se tem mais tempo disponível para contemplar coisa alguma. Por isso, infelizmente, elimina-se a capacidade de transmitir a experiência fundante do respeito. Acompanhar a evolução da vida na pequena semente que brota, deleitar-se com o pássaro entoando seu canto matinal, emocionar-se com a pureza de uma criança, seu sorriso e o engatinhar de seus primeiros passos, tudo isso parece passar despercebido. A pressa não leva as pessoas a valorizar o andar inseguro e o olhar profundo de um idoso para a vida. Abandona-se a contemplação poética e orante de deixar-se iluminar pela magia do ocaso e da aurora, ou ainda, ser tomado pela beleza do céu estrelado e do contínuo balanço das ondas do mar… Não se tem mais tempo de avaliar a violência cultural, que está submetendo lentamente muitos à morte interior. A pressa – além de destruir o respeito – está aniquilando o hábito da contemplação, da poesia e da prece.

Vale a pena a leitura e a reflexão de dois textos: o poema-oração de Michel Quoist: “Não tenho tempo, Senhor”, em “Poemas para rezar”, ou ainda a canção do acadêmico pernambucano Oswaldo Lenine: “Paciência”. Ali enfatiza: “Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso… O mundo vai girando cada vez mais veloz… mas espera de nós paciência”. O apóstolo Pedro já aconselhava os cristãos de seu tempo: “Tratai todos com a devida reverência e respeito, amai os vossos irmãos e a Deus tendes temor” (1Pd 2, 17).

A difícil arte da convivência

Foto: João Gilberto

Padre João Medeiros Filho

Atualmente, é bastante forte e comum a falta de respeito, tanto como a agressividade nas relações entre as pessoas. Há uma dificuldade ou inabilidade em saber conviver. Muitos sequer se apercebem disso. Um passeio pelas ruas das cidades é suficiente para presenciar flagrantes, que evidenciam a impressionante incapacidade de se desfrutar de uma vida social saudável. Parece que se abriu mão dos avanços positivos da civilização e, no tocante ao relacionamento humano, não raro tem-se a impressão de um retorno à idade da pedra. A deterioração das relações sociais chegou ao nível em que uma pessoa polida e urbana torna-se joia rara, suscitando por vezes desconfiança ou escárnio. Noções básicas de polidez e civilidade parecem ter sido esquecidas e abolidas. Gentileza assume ares de fraqueza, exibicionismo ou esnobação. O Papa Francisco afirmou em recente alocução: “As coisas estão se invertendo cada vez mais. O feminismo saudável está se transformando num machismo de saia, relegando a um segundo plano a grandeza da mulher e sindicalizando a dignidade feminina”. Para muitos, mostrar-se gentil denuncia insegurança e necessidade de aprovação social. A noção de coletividade e pertença a um meio – onde os direitos dos demais devem ser observados – virou uma metáfora risível. Ética tornou-se algo ultrapassado e sem espaço no mundo moderno. As pessoas ignoram o seu significado e a sua importância. O egoísmo, a grosseria, a intransigência, a intolerância, a impaciência e a arrogância passaram a dar o tom no dia-a-dia.

Tudo isso tem suas causas. As condições educacionais, o desprezo ou abandono da axiologia, a ausência da prática religiosa (seja qual for), como parâmetro de vida e a influência externa estão destruindo nossas tradições e hospitalidade. A educação tradicional foi substituída por uma perigosa permissividade. O que se vê hoje é a consequência natural dessa transformação conjugada à insanidade pela qual o mundo enveredou. Como pode se comportar um indivíduo criado sem limites e com pouco ou nenhum preparo emocional e psíquico? Chegando à vida adulta, encontrará uma sociedade altamente competitiva, escravizada pelo consumismo desenfreado, pela fome incontida do lucro, pela injustiça, corrupção, violência e por um culto mórbido à aparência, tanto física, quanto social. Vive-se no mundo do desrespeito, do ter, do poder e aparecer. Pode-se verificar isto nas deprimentes sessões do Parlamento Nacional. Ali, as regras comezinhas do conviver são ignoradas. O uso hipócrita das formas oficiais de tratamento, mesuras e rapapés não ofusca a degradação de certos parlamentares. Não se deve confundir autenticidade ou convicção ideológica com insultos, discordância de ideias com agressão ou destruição e bem-estar coletivo com projetos de pessoas ou partidos.

Muitos concordam que a educação permissiva fracassou e o antigo modelo autoritário também se revelou inadequado. Na verdade, o atual sistema educacional tem se mostrado pouco eficiente. A ênfase dada por algumas instituições de ensino é centrada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou o equivalente, como se o futuro do ser humano fosse apenas o mercado de trabalho ou a profissão. A escola prioriza a transmissão de muitas informações e subestima outros valores humanos, levando à fácil ideologização. O ensino superior propõe-se a preparar técnicos, esquecendo o cidadão, o futuro esposo e pai de família. Faltam líderes com exemplo e testemunho de vida. “É preciso humanizar o homem” insistia Jacques Maritain, em sua obra “O humanismo integral”. E Charles Chaplin reiterava: “Sois homens e não máquinas”. É urgente começar implementando noções claras de uma cordial convivência em sociedade. Isto pode soar aos ouvidos de vários como algo estapafúrdio. No entanto, é uma reivindicação imprescindível e inadiável. Não lograram grande êxito os métodos rígidos, excessos e lições de moral alienada. Tampouco cabem a permissividade e o laxismo. Mas é fundamental que reine o respeito entre todos. Porém, necessita-se fazer algo. O cristianismo tem a missão de melhorar ou aperfeiçoar o ser humano. Eis o que nos ensina a Sagrada Escritura: “Ninguém dentre vós agrida, desrespeite, desconsidere e oprima seu próximo. Somente Eu estou acima de vós e sou o vosso Deus” (Lv 25, 17).

QUARESMA E CAMPANHA DA FRATERNIDADE

Foto: João Gilberto

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO

A quaresma é o reviver da caminhada do Povo de Deus em busca da Terra Prometida. É tempo de esperança, expectativa de reencontro, época de sonhos e planos. Como estará a pátria de onde saímos e para a qual pretendemos voltar? Como estão as pessoas que ali deixamos? A viagem é sempre um período de reflexão, planejamentos e, por conseguinte, conversão. Deste modo, quis a Igreja nos proporcionar um espaço interno e temporal, durante o ano, a fim de realizarmos uma viagem ao interior de nós mesmos. E assim, voltando ao que é verdadeiramente nosso, possamos nos deparar com o que ali deixamos, encontrando-o mais amadurecido e mais rico. Às vezes, de volta à casa, depois de meses ou anos, muita coisa não existirá mais. Da mesma maneira, o que é velho, no dizer de São Paulo, deverá desaparecer para dar lugar à novidade de Deus. Esse tempo privilegiado na vida cristã é a Quaresma. Mas, esta não é apenas um período litúrgico. Há uma realidade quaresmal também ao longo de nossas vidas, em que devemos retornar para a terra prometida por Deus, que é antes de tudo nossa paz interior e o encontro com nossa verdade e nossa individualidade.

Quaresma é tempo de aniquilamento e renascer. A cerimônia de cinzas representa uma destruição interior, o fim de tudo aquilo que nos afasta de Deus e de nós mesmos. É preciso reduzir a pó ou a cinzas nossa mentira individual ou social, nosso fracasso, numa palavra, nossos pecados para que possa nascer o homem novo, que Cristo veio mostrar. As cinzas são simbólicas, significam nossa conversão, a cremação de nossos pecados e o brotar de novos planos. Por isso deve surgir em nós um desejo autêntico de escuta da palavra de Deus. A caminhada, a viagem nos dá a oportunidade de dialogar e ouvir outras pessoas. A Quaresma é esse convite a uma escuta atenta e profunda de Deus. É sua Palavra que ilumina nossa vida, que nos chama à transformação interior e nos dá a verdadeira dimensão da misericórdia divina, do perdão e da graça.

Em geral, ninguém caminha sozinho. A viagem é mutirão e partilha. Assim foi o êxodo do Povo de Deus. Durante a peregrinação, muitos conversam e questionam. Por esse motivo, a Igreja instituiu a Campanha da Fraternidade, que é a reflexão em nossa caminhada anual. Neste ano de 2019, a Igreja do Brasil convida-nos a discutir o problema das políticas públicas. Por que? Há muita coisa a ser pensada. Mas, a Terra Prometida que esperamos, o Mundo Novo, feito de mulheres e homens livres, de pessoas solidárias e fraternas, constrói-se na caminhada e começa antes de tudo na retidão de nossas consciências e na sinceridade de nossos corações. Entenderemos assim o que diz Javé, Deus Todo-Poderoso, ao se definir: Eu sou a Libertação. Ouvi o clamor do meu povo e resolvi descer para libertá-lo da escravidão, da opressão e da morte (Ex 3, 7-8).

O lema bíblico escolhido para iluminar a Campanha da Fraternidade 2019 foi extraído do livro do profeta Isaías: Serás libertado pelo direito e pela justiça (Is 1,27). A Sagrada Escritura utiliza, no Antigo Testamento, a palavra direito para designar a ordem justa da sociedade, em sentido objetivo. Uma vez que nem sempre essa ordem é respeitada na vida real, a referida palavra vem invariavelmente acompanhada de outra justiça, designativa da obrigação moral do direito. Assim, a “justiça” obriga moralmente a pessoa a se preocupar com os mais pobres do povo, representados metaforicamente na Bíblia pela tríade: viúva, órfão e estrangeiro (simbolizando os excluídos e marginalizados), para que haja o direito na sociedade.

Somos convidados a agir como Jesus. Este não é mero observador, mas se envolve na vida do seu povo, participa e incentiva os seus seguidores a participar. Com sua ação, ele vai devolvendo aos pobres e infelizes o que lhes foi tirado. O povo não tinha pão, Cristo partilha o pão; o povo não tinha saúde, Jesus cura os doentes; muitos do povo eram colocados à margem da sociedade, Jesus os traz para o centro.

 

Viva a nossa gastronomia

Padre João Medeiros Filho.

Segundo o relato dos evangelistas, Cristo apreciava os alimentos e bebidas, a ponto de ser acusado por seus adversários decomilão e beberrão” (Mt 11, 19). Pelo sacramento da Eucaristia, Ele transubstanciou o pão e o vinho em seu corpo e sangue. E assim se definiu: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6, 8). O alimento é sagrado. Nesse contexto, ainda é costume entre os cristãos começar as refeições com orações e a benção da mesa. Os mosteiros medievais legaram ao Ocidente receitas de pratos e bebidas. Os monges eram exímios fabricantes de vinhos,licores, cervejas, tortas, bolachas, biscoitos etc., além de desenvolver várias técnicas agrícolas.

No final de janeiro passado, o Brasil participou do Bocuse d´Or, um campeonato mundial bienal de chefs. Recebeu este nome em homenagem a seu organizador. O evento acontece, em Lyon (França), junto com a feira dSalão Internacional de Restaurantes, Hotelaria e Alimentação – SIRHA. Trata-se de uma prestigiada competição do mundo da gastronomia. Nela, a preparação dos pratos acontece diante do público Antes, não se podia acompanhá-la, pois os profissionais atuavam nas cozinhas.A SIRHA tornou-se uma renomada feira internacional do ramo. Hoje organiza também outros concursos, inclusiveCopa do Mundo de Patisserie o Concurso Mundial do Pão.

Com ingredientes do norte e nordeste, destacando-seraízes da floresta amazônica, tucupi preto, puxuri, tapioca hidratada e leite de coco, o Brasil participou desse evento mundial, defendendo nossas tradições e hábitos alimentares. A equipe brasileira contou com a presença de especialistas, como a do chef Luiz Filipe Souza, assessorado por Giovanna Grotti, vencedora da versão latino-americana do Bocuse d´Or 2017. Nossos gastrólogos demonstraram que os sabores brasileiros podem agradar diferentes tipos de paladar. Esse time de estrelas da nossa culinária elaborou receitas inéditas, capazes de encantar outras nações. Enquantoos chefs participavam das provas, dez empresas brasileiras mostravam ali o diferencial dos ingredientes nacionais a cerca de oito mil compradores de diversos países. Nessa feira, as melhores empresas desse tipo de negóciodisputam a atenção do mercado consumidor. As empresas brasileiras estimam que as transações comerciais feitas no Bocuse d´Or 2019 deverão render milhões de dólares anosso país nos próximos meses.

A cada evento os clientes vão conhecendo as diversas formas de usar nossos produtos, e se encantando com os ingredientes que oferecemos”, explicou Fernando Arruda. Este levou para o encontro a tapioca hidratada e o leite de coco, um dos produtos mais requisitados por quem buscava novidades. Sobressaíram igualmente o açaí e as polpas de frutas, oriundas do norte e nordeste. O Mestre da Galileia dizia: “Só em sua própria terra, um profeta não é valorizado” (Mc 6, 4). Muitos compatriotas se deslumbram com comidas e bebidas importadas. Produzimos uvas de exportação e cachaça de excelente qualidade. Renovamos aqui nosso convite para revisitar o inesquecível mestre Cascudo, desta feita em sua obraPrelúdio da Cachaça. Mas, para alguns, comer pratos e ingerir bebidas alienígenas pode parecer chique, esnobe e talvez confira status.

É a primeira vez que o Brasil participa da vertente de negócios da SIRHA com resultados promissores”, afirmou Camila Meyer, representante da Agência Brasileira de Promoção de Exportações – APEX.  Ações como essa servem para mostrar a gastronomia brasileira eprovar que os ingredientes diferenciados podem transformar pratos tradicionais em algo especial aos olhos do mundo. A diversidade de clima e biomas que o Brasil possui faz com que os cozinheiros possam contar com um manancial de produtos característicos. Isso possibilitalevar às mesas de outros povos a riqueza de sabores que temos a oferecer. No estande do Brasil, o chef Guga Rocha preparou um prato de mandioquinha com feijão, castanha de caju, salada de folhas e um toque de vinagre aromatizado com frutas tropicais e nordestinas. PadreVieira, do púlpito da Igreja dos Jesuítas de Salvador, defendia nossa cultura e apresentava matizes de nosso legítimo patriotismo: “Por que buscais tão longe aquilo deque necessitais, se tendes aqui em abundância e melhor? Ninguém se contenta com o tamanho que Deus lhe deu”.

Mártires do descaso

Padre João Medeiros Filho

Quem aprecia autos – ao sabor de Gil Vicente e Ariano Suassuna – talvez pudesse narrar nesse gênero as tragédias de nosso país, dentre elas Brumadinho, metáfora de nossa realidade. Restaurante e escritórios, bem abaixo no caminho da barragem rompida, permanecem “na retina cansada” dos sobreviventes. As sirenes soam descontroladas aos ouvidos dos habitantes de outras cidades. As árvores e as pedras rolam, pois não se sustentam com tanta sujeira material e imaterial a seus pés. Inúmeras construções e planos destruídos, pessoas ceifadas de suas vidas em átimos.

Muitos fecharam os olhos, durante anos, diante de erros bárbaros, omissões e negligências em que o poder público é ausente ou conivente. Foram catástrofesprevistas. Elas continuam e, se os reparos forem procrastinados, atingirão a ponte de Igapó, sobre o Rio Potengi ou a de Niterói sobre a Baía da Guanabara.  Piscamos ainda os olhos, mas centenas de pessoas os cerraram eternamente, cobertos com a lama fétida do descaso e da ganância. Dirigentes revelaram uma cegueira de décadas, perante incongruências e crimes, apesar de permanecerem vivos e de consciência anestesiada. Longe, lenços enxugam as lágrimas de uma gente atônita, sofrida e perambulando na noite do menoscabo social e público. Existem os que tentam consolar as vítimas, procurando explicar o inexplicável. Autoridades e responsáveis abrem sindicâncias intempestivas e inconsequentes, talvez inócuas, decretando luto oficial e bandeiras a meio mastro.

Foi assim em Minas Gerais (Miraí, Mariana e Brumadinho), no Rio Grande do Sul (boate Kiss), em São Paulo (incêndio em Cubatão e no Museu da Língua Portuguesa, dentre tantos), no Rio de Janeiro (o fogodevorou o CT do Flamengo, o Museu Nacional; o desabamento no Morro do Bumba etc…). Não esquecemos ainda o infortúnio de Goiânia (césio 137). Vidas e patrimônio cultural viraram cinzas. Cidades estão pávidas e indefesas ante tanto desleixo. Se não houver providências, pontes e viadutos dissolver-se-ão, como o asfalto com o qual recapeiam ruas e estradas. Resistem crateras abertas, feridas não cicatrizadas, bueiros com bocas escancaradas – quais túmulos – preparadas para sepultar as próximas vítimas. A displicência com que tratam nossas cidades, as avenidas por onde passamos, as estradas pelas quais trafegamos rondam-nos em constante ameaça. fios pendurados ou desencapados, deixados ali por uma empresa, por outra que mexeu, e mais alguma que precisou desligar ou ligar algo. São responsabilidades jogadas de mão em mão, de governo em governo, de uma esfera a outra.

Ouvem-se promessas, às vésperas das eleições. As câmaras municipais dão nomes dos mortos às ruas e avenidas que os vitimaram. Afinal, necessitam de homenagens para não serem totalmente esquecidos. Assembleias legislativas? Olhem a ALERJ: vários integrantes, atrás das grades, por desvios, corrupção, servidores fantasmas, laranjas e “rachadinhas” de salários. Aquelas de outros estados aguardam investigações, se encontrarem alguém disposto a dizer a verdade. Alguns deputados certamente falarão que estão nas suas bases, lutando pelas cidades que representam no parlamento.

Aqui ficamos diante da lama de nossa indignação, recolhendo os rejeitos e escombros de nossa revolta e até, quem sabe, culpando Deus por tantas desgraças. Assiste-se ao espetáculo cotidiano da insanidade e à briga pelo poder no Congresso. Ecoam discursos teatrais, recheados de “excelências” e salamaleques. Oxalá seu pensamento e vontade estivessem voltados para o povo, transformandodiscursos em gestos concretos. É nele que devem fixar a atenção e registrar as solicitações. Não raro, somos deixados ao largo. Teremos de esperar o dia em que a casa cair, o buraco engolir, o prédio incendiar, a ponte desabar, o rio transbordar, o fio eletrocutar, a pedra rolar do morro, a barragem romper? Ah, mas não se pode deixar de pagar o IPTU, o IPVA e outros tributos com vencimento em breve. Deus queira que o dinheiro arrecadado sirva realmente para não chorarmos por tantos desastres. Lembremo-nos das crianças de outrora: “Cadê o dinheiro que tava aqui? O gato comeu”; o fogo queimou, a lama engoliu e o rio carregou. Cabem as palavras do evangelista Mateus, falando dos santos inocentes: “Ouve-se um grito em Ramá, um grande lamento. Raquel chora os seus filhos, que já não vivem” (Mt 2, 18. Jer 31,15).

Férias e veraneio

Padre João Medeiros Filho

As férias (sobretudo escolares) e o veraneio deste ano estão terminando ou já acabaram para alguns. E isso nos leva a refletir. Veranear, hoje em dia, representa mais uma questão de status social ou econômico do que propriamente uma oportunidade de lazer e repouso. Nota-se que não vale qualquer local. E não se fale aqui do caos do trânsito a caminho das praias e do barulho dos vendedores ambulantes e paredões de som. Já no Natal, às vezes, esquece-se o sentido da festa cristã e o pensamento volta-se totalmente para preparar a temporada de verão, seja na praia ou na montanha. Há o mito do veraneio. Não o fazer ou vivê-lo, parece que envergonha ou deprecia uns tantos. “Certas pessoas ficam postando fotos das praias, mas a gente sabe que elas só ficaram por lá dois ou três dias”, brincou o cantor padre Fábio de Melo em seu “twitter”.

Durante a temporada de verão, as redes sociais enchem-se de selfies e mensagens. Parece cômico, porém está se tornando também trágico. Não pelo fato de que as pessoas publiquem imagens e notícias de suas férias por uma ou mais semanas. Mas, pelo que isto representa em relação à necessidade de se construir uma imagem, a qual se encaixe nas expectativas e nos padrões ilusoriamente imaginados e planejados pela sociedade hodierna.

É provável que muitos indivíduos tenham gatilhos que influenciem seu ego. Um elogio costuma fazer alguém sentir-se melhor, enquanto uma crítica pode ser o suficiente para causar desânimo ou até mesmo desencadear depressão. A vontade de aparecer é uma arma de dois gumes. A foto de uma amiga, passando o verão em Fernando de Noronha ou Dubai, a selfie da colega de trabalho, exibindo um corpo “sarado”, impecavelmente dentro dos atuais padrões de beleza ou o carro novo que um vizinho acaba de adquirir poderão atingir a autoestima de alguns. As redes sociais estão aí para comprovar tais fatos. 

Não é raro que pessoas trabalhem sua própria imagem para transmitir a impressão de que sua vida vai muito bem. Muitas vezes, o que se publica está ligado ao que se gostaria de ser, porém distante da realidade. Hoje, há aplicativos para transformar a barriga em “tanquinho” com apenas alguns toques. Isso sem falar em maquiagem, “fotoshop” e outros artifícios. Praticamente, uma plástica virtual. “Vanitas vanitatum et omnia vanitas”, (“vaidade das vaidades, tudo é vaidade”), proclama o Livro Sagrado (Ecl 1, 2). Exibe-se nas redes sociais o sonho ou a utopia de cada um. Entretanto, no cotidiano, não se faz o menor esforço para ser digno e verdadeiro. As “fake news” reforçam e exteriorizam nossa ilusão individual, do nosso faz de conta. Afinal, é bem mais fácil fazer uso de um aplicativo do que ser autêntico e coerente.

Viagens, automóveis e restaurantes de luxo – tudo isto que a sociedade atual valoriza – vêm construindo o perfil de muitos. Até a missão e a arte de informar entraram nessa onda. Isso explica a grande competição por “likes”. Obter mais curtidas confere importância e maior valor. Ninguém quer ser diminuído na mídia. No entanto, é assim que vários acabam se sentindo. Segundo uma pesquisa do “booking.com”, grande parte dos entrevistados assumiu a postura de ter publicado uma foto antiga, de férias anteriores, querendo parecer mais jovem e atraente. 

Acredita-se que o problema não seja somente construir um novo personagem, mas não se aceitar ou estar de bem consigo mesmo. Os sinais da idade, uma reserva menor de dinheiro que obriga a ir para um destino de férias mais barato e simples, não devem ser um problema ou drama. Faz parte do existir e viver humanos. O que diferencia é a forma como se lida com tudo isso. Cristo veio ao mundo para nos ensinar a ser realistas e humildes: “Quem de vós pode, com sua preocupação, acrescentar um só dia à duração de sua vida. Vede os pássaros do céu. Olhai como crescem os lírios. Eu vos digo: nem Salomão em sua glória se vestiu como um só dentre eles”. (Lc 12, 25, 27).

A poesia e Deus

 

Padre João Medeiros Filho

O êxtase poético é o experimento de uma realidade anterior a ti. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. São conhecidas estas palavras inspiradas de Adélia Prado. A escritora mineira é uma das vozes que toca o coração de muitos. As frases supracitadas exprimem a força latente da poesia. Nesta, quando os conceitos não conseguem manifestar o que se sente, a metáfora salva, tornando-se o seu regaço e alcançando, de fato, aquilo que é belo, revelando a essência do real, transpirando deslumbramento e harmonia. Além de toda conceituação lógica ou racional, o poema comunica a experiência daquilo que nos escapa e nossa linguagem cotidiana não dá conta de expressar. Santa Teresa d´Ávila afirmava que “a vivência poética é uma experiência mística, de límpido deslumbramento e encanto. E isso não é ser de outro mundo. É ver este mundo iluminado pela beleza.

O instante poético é uma revelação que nos conduz ao sagrado. Por meio dele, a realidade mostra-se no cotidiano da existência, como uma surpresa que nos seduz e faz ver, além do trivial e do imediato. Tal experiência encontra também expressão na arte. Porém, a poesia paira em toda obra artística, despertando em nós uma sede do transcendente e do infinito.

A poesia reveste-se de uma vitalidade mística. Não porque trate desse tema ou fale sobre Deus, mas por gerar em nós um sentimento transcendental. Encanto e enlevo são duas de suas dimensões religiosas e espirituais. Não se trata de afirmar que ela seja ou deva ser confessional ou esteja a serviço das religiões. Cumpre-lhe servir sempre à beleza, pois é sua manifestação em nosso cotidiano. E quem a percebe, está em comunhão com o sagrado. Ela é uma das faces visíveis de Deus, a qual nos salva de nós mesmos e da dureza da vida. Sabiamente, Dostoievski dissera que “só a beleza nos salvará e a ternura redimirá o mundo”. E, na mesma esteira, Adélia Prado proclama, quase teologicamente: “fora do poema não há salvação”.

Alcançar a transcendência é algo que nos caracteriza, entre outras coisas, como criaturas humanas. Somos seres para além de nós mesmos. Isso torna-nos religiosos, abertos para Aquele que nos ultrapassa e, num sem fim de possibilidades de nomeação, comumente, é chamado Deus. A poesia é liame que nos leva a contemplar o Absoluto e o Eterno. É, portanto, intrínseca e radicalmente algo religioso, seja confessional ou não. Para os que têm fé, a vivência poética extrapola nossas expressões comuns. É o saber e o sabor de Deus. “A borboleta pousada ou é Deus ou é nada”, poetizou Paul Claudel.

A poesia tem uma relação íntima com a espiritualidade. Ambas são nomes do êxtase diante do Inefável, que nos arrebata. Elas se expressam por meio de símbolos, parábolas ou alegorias, isto é, buscando revelar aquilo que a linguagem corriqueira não alcança. O mundo tem fome de beleza e os poetas são diáconos desse pão sagrado, verdadeiros profetas que anunciam a salvação, mesmo entre os escombros do sofrimento, da dor e da morte. Estar atento à revelação do que encanta, é missão do poeta. Ser sempre mais, para além de si mesmo é igualmente sua vocação!

Deus é também Poesia, não obstante sua invisibilidade presencial. Impossível não o sentir. Quem poderá ver o Criador? Este é como o vento. Pode-se senti-lo na pele, ouve-se a sua voz nas folhas das árvores e seu assobio nas gretas das portas. Mas não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Na flauta, o vento se converte em pura melodia. Não há como detê-lo. Entretanto, as religiões tentam enclausurar Deus em lugares que denominam templos e igrejas. E, se Ele está fechado e isolado numa casa, ficará ausente do resto do mundo? Para Mário Quintana, “a poesia purifica a alma e um belo poema sempre leva a Deus”! A lágrima se evapora, o sorriso se abre, a flor desabrocha, enquanto a poesia e a oração aproximam a criatura de seu Criador!

A era da impaciência

 

Padre João Medeiros Filho

Vive-se na sociedade dos apressados, agitados e impacientes. Verificam-se manifestações nesse sentido no trânsito, nas filas, nos atendimentos em geral, nas celebrações religiosas etc. Alguns terapeutas afirmam que 60% dos seus pacientes padecem dessa morbidade. As novas tecnologias estão mudando a maneira de percepção da realidade cronológica e o modo de viver das pessoas. Às vezes, tudo parece se acelerar. Então, a impaciência aumenta. Constata-se que, por conta disso, muitos vivem presos à cronometria e se tornam escravos dos relógios.

Não raro, tem-se a impressão de que o tempo voa, alimentado por um invento que se tornou extensão de nosso corpo: o inseparável telefone celular (smartphone). Este parece sempre disposto a oferecer novidades. Porém, de forma adversa, há ocasiões em que tal instrumento funciona como um algoz. Existem momentos, em que se espera uma resposta, a qual tarda a chegar. Recentemente, a psicóloga australiana A. McLoughlin publicou um estudo, demonstrando que o corpo humano percebe o tempo de maneira diferente, quando se permanece longos períodos conectados a dispositivos elétricos ou eletrônicos. Outra pesquisa, realizada na Universidade de Harvard, comprovou que nos indivíduos de sociedades tecnocêntricas os relógios biológicos e internos manifestam-se com um ritmo célere e descontrolado. Isso pode ser útil para se trabalhar com mais rapidez. No entanto, faz com que as pessoas se sintam pressionadas e nervosas. À medida que a marcha de nossas vidas se acelera, sente-se subjetivamente o tempo disponível diminuir. Isto faz os seres humanos mais impacientes. Alguns cientistas afirmam que a percepção temporal está ligada às nossas emoções. Se tudo está bem, passa mais rápido. Quando se está com dificuldades e problemas, pensa-se que ele fica mais lento. O modo como o cérebro humano o percebe, continua ainda sendo um mundo de incógnitas para os pesquisadores.

É muito conhecida a poesia-oração do padre Michel Quoist, em seu livro Poemas para rezar, quando afirma: “Senhor, os homens passam correndo pela terra: apressados, atropelados, sobrecarregados, enlouquecidos, assoberbados. Correm todos, para não perder tempo, para recuperar o tempo, para ganhar tempo. No entanto, Jesus Cristo já advertia sobre a pressa e a agitação: “Quem de vós com toda a sua preocupação pode acrescentar um só dia à sua vida?” (Mt 6, 27; Lc 12, 25). O apóstolo Paulo dirigindo-se ao bispo Timóteo recomenda: “Ao discípulo do Senhor… convém que seja manso para com todos, saiba ensinar e seja sempre paciente” (2Tm 2, 24).

Mas, a questão atual é saber se a vida está transcorrendo mais rápido do que antes. A pressa, a falta de oportunidade para encontros, conversas, leitura, reflexão e até mesmo oração levam a esse questionamento. Uma conclusão deve ser tirada. O tempo não nos pertence. Por mais que se queira, ele nos vence e poderá tonar-se um grande inimigo dos seres humanos. A impaciência não modifica nem melhora a situação. Nota-se que, quanto mais estímulos e compromissos para as pessoas, ele parece mais apressado. No entanto, é fundamental perguntar: vive-se melhor nos dias atuais? Muitos respondem de forma negativa, pois a sobrecarga de informações revela-se como uma fonte de estresse. Quando este aumenta, afeta a percepção do tempo e da vida. Se alguém não está bem, tudo fica mais demorado e lento. O apóstolo Tiago já alertava para a tentação da ansiedade que domina os seres humanos. “O que será de vossa vida? De fato, não passais de uma neblina que se vê por um instante e logo desaparece” (Tg 4, 14). Por que tanto açodamento?

Hoje, há alguns termos menosprezados neste mundo dos vexados, por exemplo: ter paciência e esperar. Isto gera em vários a incerteza. E esta significa muitas vezes sofrimento. O professor Antônio Bayés de Luna, da Universidade de Barcelona, autor do livro “El reloj emocional”, afirma que “é necessário ensinar o valor da espera e da demora”. A Sagrada Escritura caminha nessa direção e tenta nos transmitir isto, como se depreende do Livro do Eclesiastes: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há um momento oportuno para cada coisa debaixo do céu.” (Ecl 3, 1).

O SER HOMINAL E SUAS INTELIGÊNCIAS: COMPETÊNCIAS DESENVOLVÍVEIS – parte 1

 

Assis Costa
Pedagogo e Jornalista

Howard Gardner e sua equipe de pesquisadores da Universidade de Harvard, afirmam, a partir de 1980, que a inteligência não mais se restringe a duas áreas básicas do conhecimento (a linguística e a lógico – matemática), em cuja constatação científica se demonstra a certeza de que a mente humana não mais oculta à multiplicidade das inteligências.
Inteligência é a “capacidade de compreender e de inventar e ao acolher uma informação atribuir-lhe significado e produzir respostas pertinentes.”, segundo nos auxilia Antunes (2006, V.1, p. 19). E assim, explana essas categorias:
Inteligência Linguística: capacidade de expressar com boa desenvoltura a comunicação verbal e escrita, com domínio, coesão e clareza. Verifica-se tal competência em oradores, professores, escritores, políticos e em assemelhados a esses aspectos;
Inteligência Lógico – matemática: está associada à competência de desenvolver preciso raciocínio, solucionar problemas lógicos, lidar bem com a leitura e compreensão da linguagem algébrica e numérica de alto nível de complexidade, verificada com maior grau em pessoas das áreas de Engenharia, Física, Informática e áreas similares.
Inteligência Corporal – cinestésica: relacionada à agilidade dos movimentos musculares, da força, às habilidades do autocontrole corporal, à destreza na manipulação de objetos. Encontra-se desenvolvida em dançarinos, mímicos, atletas e indivíduos com funções idênticas.
Inteligência Espacial ou viso espacial: faculdade de perceber e administrar distâncias, posicionamentos geográficos, de identificar, transformar o espaço com precisão visual para orientar-se entre objetos. Os navegadores, arquitetos, cirurgiões e pessoas que possuem competência análoga.
Inteligência Pictórica: é a inteligência do espectro, ou seja, mediante a observação do espaço visualizado e explorando a memória ser capaz de reproduzir desenhos, pinturas, artes, grafismos, com caráter de condição complementar, consoante afirma Machado (1996, p.104 apud NOGUEIRA 2009, p.36), que: […] é ainda possível reconhecer três pares que apresentam relações mútuas bastante significativas, com certas características de complementaridade, que são: o par linguístico/lógico-matemático, o intra/interpessoal, o espacial/corporal-cinestésico, restando sem par à competência musical.
Inteligência Musical ou sonora: capacidade de interpretar, escrever, ler partituras e expressar-se pela música, inclusive os intérpretes apenas de ouvido.

O Ser Hominal e a Escola: enfrentamento do analfabetismo emocional.

Francisco de Assis Costa
Pedagogo, Jornalista

Indicadores estatísticos consideráveis registram os feitos do Ser Hominal, através dos avanços da Ciência e Tecnologia, da Civilização, da Ética e das Estruturas Sociais, informando aspectos de desenvolvimento das capacidades cognitivas avantajadas, multiplicadas nos ramos do conhecimento, crescimento notável realçado pelo trabalho e por demasiado esforço humano para atingir resultados surpreendentes.
Na Medicina, os equipamentos de última geração que auxiliam o prolongamento da existência física, humana, proporcionando melhor qualidade de vida aos pacientes portadores de gravíssimos problemas de saúde.
No caso da Engenharia, auxiliada pela Arquitetura, as tragédias têm sido minimizadas, tornando o mundo com mais conforto.
A Farmacologia, mediante aplicação de recursos químicos sofisticados coopera com a diminuição da dor física, regula a recuperação de incontáveis enfermidades, reduzindo o sofrimento.
Doenças ameaçadoras que surgem são pesquisadas por cientistas abnegados e despertos que produzem, em laboratórios, medicamentos de natureza preventiva e curadora destinada a salvar vidas.
Na Agricultura, os alimentos são produzidos por intermédio de recursos preciosos, de alta tecnologia, aperfeiçoando o combate aos seres vivos minúsculos e nocivos sem a aplicação de agrotóxicos, cujo objetivo é atender à necessidade da família com segurança alimentar e nutricional, aumentando a oferta de comida adequada.
As conquistas virtuais, disponibilizadas pela Telecomunicação globalizada, informatizadas e de fácil acesso às mídias, trouxeram inegável aporte prático para a redução das distâncias e a consequente aproximação dos indivíduos, ao propiciar a visão de espaços ampliados em tempo real, em cuja demonstração se confirma elevado raciocínio, pois quando bem aproveitado contribui para o sucesso profissional.
O Ser Hominal, diga-se quanto, ao seu entendimento esperançado, é um ser de bons cometimentos, utilizando capacidades racionais e emocionais.
Contudo, ainda libertando-se da insegurança, do medo, da mágoa, da rebeldia, associados ao sentimento agressivo, alardeiam o horror incontrolável, provenientes de movimentos fanáticos, de terrorismo, motivadores de enorme sofrimento coletivo, caracterizando a vida humana sem significado, arrebatada por criminalidade incontida, onde o perigo se alastra e até cultiva a devastação de famílias, sorrateiramente, em número bem maior do que as epidemias, além de banalizar, com efeito, os mais nobres sentimentos existentes em indivíduos de educação emocional bem conduzida.
Constata-se, entretanto, a caracterização da incapacidade quanto ao domínio das emoções, proveniente do analfabetismo emocional, evidenciados nos transtornos comportamentais, visivelmente percebidos através dos meios de comunicação tornam o mundo imprevisível, constrói cenário de desigualdades, discriminações, cada vez mais, cada vez presentes, estimulando a crença que menospreza os valores, dividem as famílias e os incentivam ao consumo desenfreado exigente, ocasionando a ausência de ambos os pais dos seus lares a procura de um trabalho estereotipado pelo conceito de mais valia, na correria pela sobrevivência.
Surge, então, a Escola propondo a sistematização do conhecimento, de forma ativa, e apropria recursos didáticos atinentes ao progresso evolutivo pessoal e social das pessoas, ao instigar o docente à reflexão para investigar processos relacionados à educação emocional, tornando-se também um indivíduo detentor das competências emocionais, no sentido de ampliar dimensões afetivas, para se desenvolver tanto no campo emocional quanto no comportamental, além do cognitivo, para mediar facilitadores condizentes ao despertar as habilidades dos alunos, visando o domínio gradual de suas emoções, em busca da construção ideal do ensino/aprendizagem, pois aprender ensinando a aprender é uma ação que aprimora e constrói continuamente o conhecimento pela intenção que se pretende codificar o mundo.
Neste comenos, faz-se necessário a identificação de questões conscientes ou inconscientes advindas da tríplice relação entre pais, professores e alunos, formadas no ambiente escolar, no sentido de oportunizar o exercício contínuo para fortalecer o aprimoramento emocional tanto dos docentes quanto dos educandos e seus familiares, reconhecendo estilos de vida renovados, consubstanciado pela prática interativa quanto ao desenvolvimento das habilidades voltadas para os campos emocional, cognitivo e comportamental no que diz respeito ao entendimento das carências emocionais existentes entre os sujeitos envolvidos, bem como permitir criteriosa análise de condutas reais socializadas pela comunidade usuária da escola.
Vislumbra-se, portanto, a existência do Ser Hominal em todos os ambientes: no Lar, na Escola, no Trabalho, configurando sua evolução cognitiva, emotiva e biológica, no tempo e no espaço – Vida.

A crise das editoras e livrarias

          

Padre João Medeiros Filho

Até chegar ao leitor, o livro passa pelo seguinte itinerário: autor, editor, gráfica, distribuidor e livraria. Algumas empresas detêm quase todo esse circuito. O mercado brasileiro de editoras e livrarias encerrou 2018, sob muitas nuvens densas e escuras. Setores importantes dessa cadeia entraram em processo de recuperação judicial, fechando dezenas de lojas ou filiais. Indubitavelmente, o momento de recessão econômica, pela qual passa o país, impactou consideravelmente as casas desse ramo, já antes fragilizadas. O fechamento de postos de venda e distribuição traz repercussões sérias sobre a vida literária e cultural. Sem dúvida, isso se deve a diferentes fatores. Sabe-se que o brasileiro não é muito chegado à leitura. Estudiosos afirmam que os europeus, por conta do frio, ficam mais enclausurados. Sol, praia, clima e natureza deixam-nos menos concentrados.  Para vários, o livro é considerado supérfluo. Quando o dinheiro torna-se escasso, o gasto com livros, jornais e revistas é dos primeiros a ser cortado. Outrora, quando se encontrava um amigo, perguntava-se: o que está lendo? Hoje, o questionamento é diferente: viu o blog de fulano, o “youtube”?

Fala-se que a falta de alfabetização é também uma das causas dessa realidade. Segundo estatísticas, mesmo que o número de pessoas letradas tenha aumentado, o advento da mídia eletrônica vem contribuindo para aumentar o analfabetismo funcional. Antigamente, para seus trabalhos escolares o aluno consultava enciclopédias. Coleções clássicas povoavam as bibliotecas familiares. Em alguns lares podia-se encontrar: Tesouro da Juventude, Barsa, Britânica, Delta Larousse etc. Hoje, com a internet e o Google, ficou mais fácil encontrar informações sobre qualquer assunto. O uso do “copiar” e “colar” torna-se costume, deixando o cérebro preguiçoso. No passado, os estudantes aprendiam nos livros, hoje dividem a atenção entre o celular e o computador, que estimula o hábito da leitura superficial e explica, em parte, a dificuldade em redigir bem. Ler exige atenção e disciplina. Hoje poucos conseguem se concentrar. Configura-se uma civilização dispersiva, de muitas informações e pouca profundidade.

O avanço tecnológico fez com que o livro tradicional encontrasse concorrência em outras plataformas. É possível baixar um arquivo em segundos e armazenar inúmeras obras, sem a necessidade de espaço físico. O acesso ao livro eletrônico (“e-books”) é relativamente mais barato, podendo às vezes ser gratuito. Embora muitos resistam, os novos suportes tentam transformar o livro impresso em peça de museu. A sociedade vem acompanhando o fim de jornais, atropelados pela tecnologia digital. O Rio Grande do Norte assistiu nesta última década ao encerramento, em Natal e Mossoró, do Diário de Natal (O Poti), Jornal de Hoje, Novo Jornal, Correio da Tarde, Gazeta do Oeste e O Mossoroense.

Os editores e livreiros investem pouco em publicidade. Tais empresas precisam divulgar largamente seus produtos numa sociedade consumista de espetáculos, cada vez mais sofisticados. O livro permanece quase desconhecido e invisível para o grande público. Isso dificulta a formação de leitores e a consequente ampliação do mercado. Para complicar o quadro, algumas editoras voltam-se para atender a demandas governamentais, em função de bibliotecas públicas e escolares. Com as crises dos governos – não cabe aqui discutir a qualidade dessas edições – as vendas diminuíram. Impostos e taxas sacrificam as editoras e livrarias. Some-se a isso a má qualidade do ensino no Brasil, classificado em penúltimo lugar entre os quarenta países pesquisados, em 2018, pela “Economist Intelligence Unit”, noticiada no portal da Associação Brasileira de Educação.

Segundo dados do Instituto pró-Livro e a pesquisa Retratos da Leitura, estimam-se em cerca de 40% os brasileiros que costumam comprar livros. Neste percentual incluem-se os best-sellers, publicações didáticas ou acadêmicas, inclusive aquelas destinadas às bibliotecas públicas. Na ausência de uma política cultural que valorize o livro e os autores, a situação do mercado editorial só tende a piorar. Oxalá as nuvens carregadas que pairam sobre nossas cabeças não se convertam em um temporal destruidor. Leão XIII cunhou esta frase: “A Palavra de Deus fez-se Escritura, desde o Antigo Testamento. Daí, a importância da escrita”. E o Papa Francisco acrescenta: “Um bom livro aquece o coração”.

Estes Judeus!

por George García Hamilton.- adaptação:Assis Costa.

Vocês já pensaram que neste mundo, ninguém vive sem os Judeus?
O que sente um manifestante ao fracassar nesta luta contra os Judeus? Por que não usar a energia em algo mais produtivo e digno ao invés de ódio sem base contra os Judeus?

Os Judeus sobreviveram aos Egípcios, Babilônios, Persas, Gregos, Romanos, Otomanos, Alemães, Soviéticos e o restante do mundo …

Por que aqueles que fazem demonstrações frente a embaixada de Israel acreditam que em algum momento eles vencerão a partida contra os Judeus? Após 65 anos do Holocausto, os Judeus têm uma nação próspera e moderna no mesmo lugar onde seus vizinhos não tem mais que a miséria e deserto com muita areia. Além disso, todos os anos Judeus ganham ao menos um prêmio Nobel – 25% dos prêmios Nobel da história, 170 deles, são Judeus. Todos esses que fazem demonstrações frente a embaixada de Israel e odeiam os Judeus, de modo inconsequente, e odeiam a metade inteligente da humanidade.

Deixemos bem claro: não sou Judeu. Todavia, Jesus era Judeu e nunca renunciou ao seu judaísmo. Paulo de Tarso era Judeu, Maria era Judia, os doze apóstolos e os primeiros Papas da Igreja foram Judeus.

Claro, meus amigos socialistas, inimigos dos Judeus,- lhes digo que Karl Marx era Judeu, mas também o foram os criadores filosóficos de capitalismo, Samuelson, Milton Friedman etc.
Se você investe na bolsa, deve usar as teorias de Markowitz, que era Judeu. Nenhum dos que se manifestam contra Israel pode ir ao psicólogo (Sigmud Freud era Judeu), não deve tomar aspirina (Spiro era judeu), não pode ser diabéticos porque você me dirá … o criador da forma de aplicar insulina, Karl Landsteiner era Judeu. Tampouco pode ser vacinado contra a poliomielite, contra a cólera, nem contra a tuberculose, já que seus inventores ou descobridores foram famosos Judeus.

Nenhum dos que vão a demonstração contra Israel pode ir vestido já que Isaac Singer, o da máquina de costurar, era Judeu … Evidente, nem pode usar jeans, porque Levi Strauss era mais um Judeu. Calvin Klein, Ralph Lauren ou Donna Karan, famosos designers de roupas, são Judeus.

Ah! o microfone que usam para gritar mensagens explosivas contra os Judeus foi invento de um Judeu chamado Emil Berliner. E um tal Philip Reiss, também Judeu, trabalhou no aparelho de ouvir que serviu de base para o telefone …

A primeira máquina calculadora foi ideia de um Judeu, Abraão Stern. os palitos de fósforo são invenção de um Judeu, Sansão Valobra. Claro que nestas manifestações não se deve usar nenhuma das ideias filosóficas de Durkheim, Spinoza ou Strauss embora sejam fundamentais para a nossa sociedade …

Kafka, Albert Einstein eram Judeus, Ana Frank foi Judia.

Nada de usar o Google já que os seus criadores, Larry Page e Sergey Brin são Judeus. adeus Batman e Homem-Aranha, porque Max Fleischer, o criador da Marvel Comics é Judeu.

Todos os que se manifestam contra Israel devem usar apenas brinquedos de corda porque as pilhas Energizer são coisa de Joshua Lionel. Sim senhoras e cavalheiros, ele era Judeu.

Uma empresa de Israel foi a primeira a desenvolver e instalar uma fábrica que trabalha só com energia solar para produção de electricidade em grandes quantidades no deserto de Mojave na Califórnia. Também o USB e os PenDrivers foram inventos de Judeus de Israel!

Todos os jovens da geração video-game devem abandonar seus monitores de vídeo Sega, já que são coisa do Judeu David Rosen. Aproveite e esqueça os sorvete Haagen- Daaz ou os Donuts.

As lindas mulheres que vão demonstrar contra os Judeus terão que deixar de maquiar-se já que Esthee Lauder é Judia tal como Helena Rubinstein, e – claro – nada de bonecas Barbies.

E sobre quem gosta de música? Nada de ouvir maestros como Leonard Bernstein ou Daniel Baremboim, este Israelense e ambos Judeus. Nenhum dos manifestantes deve assistir filmes da MGM ou da Warner Bros, nem o canal Fox ou o Universal Studios ou a Columbia Pictures. Não mais assistir Spielberg, Harrison Ford, Paul Newman, Kirk Douglas, Jessica Parker, Dustin Hoffman ou Barbara Streisand entre centenas de artistas.

Progressistas do mundo, parem de sujar suas mãos com produtos de Judeus, metade do que há de bom no mundo nós devemos a eles.

Falemos a verdade: qual é o único Estado realmente democrático, moderno, Ocidental, limpo, secular, laico em todo o Oriente Próximo e Oriente Medio? Qual é o único país do mundo em que há hoje mais árvores que havia há cem anos? Qual país tem a maior média de Universitários por habitante no mundo? Em que país se produz mais documentos científicos por habitante que qualquer outro país? Qual foi a primeira nação do mundo a adotar o processo Kimberly, que é um padrão internacional que certifica os diamantes como “oriundos de zonas livres de conflito “?

Qual país desenvolveu a primeira Câmara de Video ingerível, tão pequena que se cabe no interior de um comprimido e é usada para observar o intestino fino por dentro, e ajuda no diagnóstico de câncer e outros distúrbios digestivos? Em que país foi desenvolvida a tecnologia de irrigação por gotejamento? E onde foi que Albert Einsten fundou uma Universidade? Qual é o 2° país em leitura de livros por habitante?

Qual é o país que fornece ajuda humanitária em todo o mundo, o tempo todo? Que país enviou ao Haiti uma equipe de resgate com 200 pessoas logo após o terremoto? Que país montou uma clínica de resgate, em seguida ao terremoto devastador no Japão? Que país faz gratuitamente cirurgias de coração para salvar a vida de mais de 2.300 crianças, incluindo os Palestinos?
Será que em alguma das minhas existências fui Judeu, ou ainda serei um Judeu, também resiliente!?

“E agora, José”?

Padre João Medeiros Filho

O poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1942, traduz um sentimento de incerteza, inquietude, bem como a sensação de quem está sem rumo na vida.  Após a euforia das eleições e posses dos governantes, paira no ar análoga percepção.  Muitos brasileiros preocupam-se sobremaneira com a governabilidade. Reina ainda um clima de dúvida e insegurança. O desafio da chegada de novos tempos gera expectativa e apreensão. A adaptação e aceitação de qualquer mudança, por vezes, são dolorosas. Os que fazem oposição dividem-se. Alguns optam pela resistência e combate acirrados. Outros preferem esperar para ver e deixar que o adversário fracasse. Muitos apostam na ingovernabilidade. Resta uma nação dividida e desencontrada.

Nestes últimos meses, famílias se indispuseram e até, em alguns casos, cortaram relações entre seus membros. Amizades de anos se desfizeram e palavras de acusação, raiva e ofensa foram proferidas, onde antes parecia haver entrosamento e reinar harmonia. Muitas coisas foram perdidas e parece bem difícil reencontrá-las. Em suma, verifica-se um ingente desencontro. Nessa contramão atual, o papa Francisco tem falado da importância de construir uma cultura do encontro. Não se trata de mero discurso piedoso do Sumo Pontífice para dizer a todos que se respeitem e se amem. Vive-se por aqui, no momento, o contrário: a cultura da fragmentação e desintegração. Os cristãos não podem capitalizar o ressentimento e deleitar-se com vínculos rompidos e laços quebrados.

Saber encontrar-se é de suma importância. O poeta Vinicius de Morais dizia: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” O encontro é inerente ao ser humano. Este é vocacionado para a relação, o afeto e o amor. Quando era arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio várias vezes conclamou seus compatriotas a superar os desencontros e restabelecer na sociedade, pelo diálogo e com esperança, os vínculos culturais, religiosos, sociais e políticos. É o que devem promover atualmente todos os cidadãos brasileiros, motivados especialmente pelas convicções religiosas e inspirados no exemplo de seus líderes e pastores.

A tentação de desânimo diante desta proposta vem carregada da tinta escura da desconfiança e dos ressentimentos. “Os cristãos devem se conscientizar de que são irmãos, e não concorrentes ou inimigos”, reitera Francisco em suas homilias. Como superar a obstinação de pessoas e grupos que parecem falar outra língua, oposta à linguagem da união, da paz e da prosperidade? Como fazer para que a busca do entendimento se transforme em verdadeira cultura, levando ao bom senso e à sabedoria?

Sabe-se que é difícil. Mas sem isso o Brasil não se libertará. O ódio, o fanatismo e a intransigência são forças que afastam e levam à destruição. Mas, a união e a harmonia poderão acontecer. Somos um povo fiel e temente a Deus. “Não ficarão desiludidos os que em Ti esperam” (Sl 25, 3), diz o salmista. Ou ainda, como escreveu o apóstolo Paulo: “Tudo posso Naquele que me fortalece” (Fl 4, 13). O pacto e o encontro ocorrerão, se houver em cada um o desejo de uma pátria justa e humana, edificada sobre valores nacionais, alicerçada na liberdade e na justiça. Tudo será possível, se existir um propósito comum: o bem da nação.

É imperativo que o povo respire um clima de paz, segurança e de um progresso partilhado com todos, vislumbrando a perspectiva de um futuro melhor. Recalcitrar-se nas divergências e em posições antagônicas e antipatrióticas não ajudará o Brasil a conseguir o objetivo de seu desenvolvimento e bem estar. Aprofundar divisões conduzirá ao abismo. É urgente desarmar os espíritos e buscar consensos. Eis a postura verdadeiramente cristã. Sem respeitar as diferenças, elidir o nefasto radicalismo e extirpar o ignominioso e excludente egoísmo partidário, o país chegará ao caos. Isto vale igualmente para o Rio Grande do Norte. A difícil arte do encontro deve fazer-se, ainda que em meio a esse mar de desencontros, no qual se vive hoje. O Brasil e a terra potiguar merecem! É hora dos cristãos mostrarem a força do amor e do perdão, que brotam do Evangelho!

POSSE DOS ELEITOS E ANO NOVO

 

Foto: João Gilberto

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO

O Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas reúnem-se hoje, em sessão
extraordinária, para empossar os novos gestores, escolhidos nas últimas eleições. Estão
em recesso, cuja finalidade é proporcionar o contato dos parlamentares com as bases para
ouvir propostas, reinvindicações e críticas. Durante o ano que findou, o Parlamento
Nacional foi mais um palco de polêmicas e ataques entre os blocos de oposição e
governista do que espaço de diálogo e busca de soluções para os verdadeiros e urgentes
problemas da nação. Marco Maciel, quando Ministro da Educação, dirigiu-se a seus
principais assessores, nestes termos: “Preciso de colaboradores, não de bajuladores”. Os
eleitores poderiam também ouvir declarações análogas de seus representantes. Há uma
pergunta que não cala: em seu retorno, como o Congresso irá votar as reformas? A nação
queda-se incrédula diante da insensibilidade social e indiferença da classe política e de
certas autoridades. Quão distantes estão da Sagrada Escritura, quando se refere a Javé, o
Deus Todo-Poderoso: “Ouvi o clamor de meu povo” (Ex 3, 7). A aprovação dos projetos
de emenda constitucional é insuficiente para mudar o Brasil. Não será a solução
automática, como muitos imaginam. A tarefa é bem mais complexa. A reforma necessária
reside primeiramente nas mudanças dentro de nosso tecido sócio-político-cultural. Ocorrerá somente com a transformação radical de mentalidade e condutas individuais ou
partidárias, que vêm perpetuando privilégios e exceções. Deve-se caminhar para o fim de
posturas que alimentam preconceitos e discriminação, intransigência e ódio. Acontecerá
apenas se os anseios do povo prevalecerem sobre aqueles dos partidos e grupos. É preciso
eliminar uma mentalidade retrógada, antiética e antipatriótica de tentar prejudicar e fazer
oposição irresponsável, ilógica e indiscriminada aos governantes. O clima deve ser de
união e colaboração pelo bem da pátria, que é do povo e não dos dirigentes e políticos. O Brasil merece dias melhores. Para tanto, convém respeitar os avanços sociais, e
não atender tão somente a projetos de governos ou partidos (não os da população), mesmo
à custa de artifícios administrativos, bem como concessão de cargos e benesses. Entende- se que só haverá a verdadeira transformação, quando as instituições se tornarem
instrumentos capazes de elidir mecanismos de empobrecimento e exclusão social. Exige- se lucidez para ajustar a máquina pública, extirpando regalias que geram desigualdades. Requerem-se disciplina e controle para não se gastar além do que se arrecada e
estabelecer prioridades para a nação. É fundamental superar dinâmicas viciadas, que
acarretam divisão: de um lado, privilegiados e, de outro, uma multidão de desassistidos. Para o Brasil avançar é imperativo que a classe política faça respeitar
verdadeiramente a dignidade humana, como princípio basilar da sociedade. É essencial
haver, por parte dos novos gestores, a vontade inarredável do bem comum, firmado em
parâmetros de equidade e eficiência, e não de conveniências partidárias. Atualmente, é
unanimidade afirmar que o Estado não suporta mais o crescimento excessivo de sua
máquina e seus aparatos, sobrecarregando o povo com despesas. Os políticos e
governantes têm em 2019 um desafio sério: encontrar uma saída para o desenvolvimento
do país e o bem-estar dos cidadãos. Estes estão exaustos de pagar a dívida dos
desgovernos e saturados de escândalos, improbidades, desrespeito e retórica demagógica!
Assim, poder-se-á vislumbrar um autêntico Ano Novo para o Brasil!
Cabe lembrar as palavras de Cristo: “Não se põe remendo novo em pano velho”
(Mt 9, 17). Talvez seja o que acontece entre nós, tornando a emenda pior do que o soneto. Há premência em sair da crise que atinge a nossa pátria. Para isso é indispensável incluir
responsabilidade e sensibilidade social a fim de proporcionar uma governabilidade eficaz, assegurando empregos, facilitando atividades empresariais, iniciativas educativas e
culturais. Urge que o Brasil reconquiste sua credibilidade com a garantia de direitos e
oportunidades de trabalho para evitar que a nação seja uma legião de decepcionados e
excluídos. Mister se faz seguir as recomendações do apóstolo Paulo a seu discípulo
Timóteo: “Antes de tudo, façam súplicas e orações por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos paz, justiça e dignidade” (1Tm 2, 1-2).

 

 

 

 

O Natal do Senhor

Padre João Medeiros Filho

Ao longo de sua história, o povo de Deus da Antiga Aliança caminhou no deserto, foi exilado e escravo de outras nações. Recebeu ensinamentos dos profetas, patriarcas e figuras decisivas em sua trajetória. Três grandes personagens marcaram essa caminhada e contribuíram para a sua libertação, por meio de pregações, com o testemunho de esperança e fé na força divina. No Antigo Testamento, Isaías anunciou tempos diferentes com sua palavra de ânimo e renovação. João Batista – o precursor do Senhor – é a conclusão desse ciclo. Construiu a partir do deserto uma nova ética, denunciando pseudovalores, erros e pecados, mostrando a necessidade de eliminar tudo aquilo que pode impedir a chegada de Deus até nós. “Preparai os caminhos para o Senhor” (Lc. 3, 4; Is 40, 3-5). Inaugurando uma nova etapa (a de Deus Conosco), surgiu Maria Santíssima – preconizada por grandes figuras bíblicas femininas do Velho Testamento – escolhida pelo Todo Poderoso para ser a Mãe do Salvador, revelando desse modo a ternura, o amor e a gratuidade divina. Ela simboliza a vida, a alegria, ao contrário de Eva que representa o sofrimento e a morte. Na Virgem de Nazaré começa o verdadeiro Natal e novos tempos. “Confia nele e o mais Ele te fará” (Sl 37, 5). Esta é a dinâmica natalina, a certeza de que Cristo veio para mudar o mundo e os homens.

Deus quis morar entre nós. Eis a ingente e importante novidade da história humana. O sonho dos homens era ter o seu deus bem próximo. Para isso, uns se declaravam deuses ou filhos de deuses e outros divinizavam seres. Tornar-se imortal foi sempre o maior desejo do ser humano, mas suas aspirações ficavam insatisfeitas e sem respostas. Andava triste e decepcionado. Buscava solução em realidades materiais, mas continuava confuso e perdido. Sentia saudade de suas origens e profunda nostalgia da vida que um dia lhe fora reservada. A esperança de concretizar aquilo que sonhava, parecia uma quimera e permanecia nas trevas da existência.

O Natal é essa utopia divina. É a concretude dos sonhos e ideais humanos, a resposta à sua procura e à sua sede. Em Jesus, o Pai materializou todos os anseios do homem: um ser infinito, pleno de bondade, rico de misericórdia, templo da justiça, fonte da verdade, berço do perdão e do amor. Cristo é a humanidade na sua beleza original e em sua grandeza de criatura, antes da triste realidade do pecado. É a convivência celestial nos caminhos da terra, partilha da Vida divina com a existência terrena. É o encontro do Eterno com o efêmero, a Presença permanente com a fugacidade da criação. É Deus decidindo habitar a terra. Isso é Natal.

Admiramo-nos, às vezes, quando sabemos que religiosos como, por exemplo, as Irmãs de Charles de Foucauld e Madre Teresa de Calcutá decidem morar nas favelas e tugúrios, em condições subumanas. O Natal vai além. É Deus aceitando a nossa miséria, fazendo opção pelo nosso existir para nos arrancar da pobreza e nos enriquecer de sua Vida. O Verbo encarnou-se e habitou entre nós. Ele valorizou também a matéria de que fazemos parte, pois se fez carne de nossa carne. E como se não bastasse, transformou essa carne em divina, tornando-a nosso cotidiano alimento.

E como se fora ainda pouco incomensurável amor pleno de poesia, Ele quis perpetuar o Natal. Deixou-nos a Eucaristia como sacramento de sua presença e de seu nascimento renovado. A data de 25 de dezembro é a lembrança de todos os natais de nossa vida. É o memorial das incontáveis vezes que Deus nasce em nós, em pequenos, silenciosos e repetidos gestos, como forma de suprema bondade e indizível ternura conosco. O Natal é o homem renascido na pessoa do Senhor Jesus. É o ser humano revestido do mistério da divindade. Não existe nada mais belo, por isso mesmo temos tanto a dizer e pouco conseguimos. Sim, pois só Cristo é a única Palavra Perfeita! “Verbum caro factum est”! “E o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14).