“Quo vadis”, Brasil?

Padre João Medeiros Filho

Eis a pergunta de muitos. O Brasil passa por uma ingente crise sociopolítica, econômica, ética, cultural e até religiosa. A catástrofe gaúcha parece ter se tornado uma metáfora da deterioração social brasileira. Analistas verificam que o descaso com a “res” pública, a corrupção e a desigualdade social vêm sendo marcas constantes, ao longo de anos. Propagadores da impunidade assumiram abertamente a postura da desfaçatez. Não disfarçam mais seus verdadeiros propósitos. Pregam divisões em grupos, gerando hostilidade e o proposital enfraquecimento da sociedade. Posicionam-se contra Deus, a Pátria, os inocentes e indefesos. Alguns se arrogam de competências que não lhes cabem. Sepultaram a Ética e a Moralidade. Interesses de alguns importam mais que o bem comum. Sobre os nossos ombros recai o pesado ônus das mazelas pelas quais atravessa o país. Vive-se em meio aos destroços causados pelo ensino de baixa qualidade, pela fragilidade da saúde do povo, falta de investimentos em serviços públicos etc. Há uma fartura de sofismas e narrativas demagógicas, tentando nos convencer de que tudo vai bem.

Aos cidadãos três caminhos se abrem diante dessa triste conjuntura. O primeiro consiste em permanecer ao lado dos insensíveis. O segundo, manter um silêncio omisso e conivente, beneficiando a iniquidade. Durante décadas, muitos trilharam por essas duas direções. Porém, cabe-lhes assumir uma atitude crítica contra essa realidade deletéria e desumana. Mister se faz um compromisso de serviço ao próximo e à Pátria. Entretanto, é necessário, inspirados no Evangelho, manter o diálogo e contribuir para a solidariedade e a ação transformadora. Não se pode desviar dessa opção. O engajamento do discípulo de Jesus começa pela vivência do Evangelho. Ela exige envolvimento com a causa do próximo e o Reino de Deus. Este consiste também na equidade e garantia de direitos irrenunciáveis.

Os cristãos – apesar de esperar uma vida plenificada, após a peregrinação terrestre – não podem cruzar os braços ante os empecilhos para o despontar do Reino na realidade cotidiana. O sinal da cruz, traçado em nossas frontes, deve significar o seguimento a Jesus. Este colocou sua vida inteiramente em favor dos irmãos. A Igreja –  sacramento terreno e continuadora da missão do Filho de Deus – deve assumir o ousado e bíblico papel da profecia. Esta opõe-se a tudo o que é sinal de morte, injustiça, iniquidade, ou seja, o contratestemunho da doutrina de Cristo. Mas, é importante que se diga: o profetismo não se refere à mera condenação ou crítica, construída em confortáveis gabinetes, surdos aos gemidos dos que sofrem. O engajamento da Igreja inicia-se com o diálogo de todos os segmentos sociais para a busca de soluções adequadas e sugestões de atitudes que possam iluminar as ações dos dirigentes. É fácil condenar, mas não é cristão. Dissera o Mestre: “Não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo” (Jo 12, 47). Rabindranath Tagore insistia: “É muito mais fácil condenar milhares de seres humanos do que tocar um só com a verdade.”

A laicidade do Estado brasileiro não deve ser óbice para o entendimento das instituições religiosas com os poderes públicos e vice-versa. As igrejas têm um importante papel na defesa de direitos dos filhos de Deus. Desde que voltadas para os autênticos interesses do bem comum, elas detêm legitimidade na discussão da “res” pública, em favor da população e contra as práticas opressoras. Estas, não raro, advêm daqueles que deveriam ser os verdadeiros representantes do povo.

Os cristãos necessitam ter uma voz profética que clama, como sinal de esperança para os sofredores, vítimas da maldade e injustiça. Atribui-se a Padre João Maria, o Anjo de Natal, a seguinte frase: “Temos o sagrado dever de transformar a lágrima dos que sofrem em sorriso.” A fidelidade ao Evangelho não pode assumir uma posição de indiferença diante do sofrimento dos que não têm voz ou vez na sociedade. Isso não significa que a Igreja deva ser partidária, como pensam ou pregam alguns, esquecendo o que disse Nosso Senhor: “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36). Inspirados na Palavra Divina, os discípulos de Cristo necessitam assumir sua vocação, fundamental para o legítimo testemunho da vivência religiosa e expressão da fé. “Somos cidadãos do céu, mas não podemos fazer da terra um inferno”, advertia Santo Agostinho.

A ruela dos livros

Marcelo Alves Dias de Souza Procurador Regional da República Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Andei prometendo – e promessa deve ser cumprida – escrever aqui sobre a Cecil Court, ruela de pedestres londrina que é completamente tomada de pequeninas lojas de antiguidades e colecionáveis, livrarias e sebos especializados em primeiras edições, raridades, mapas, gravuras, ilustrações e em temas tão variados como línguas, automóveis, música, numismática, teologia, magia e por aí vai. Essa “ruela cultural”, no miolo turístico da capital do Reino Unido, liga a Charing Cross Road à St. Martin’s Lane, na direção de Covent Garden. Facílimo de achá-la.

Com uma história que retroage ao século XVII, a Cecil Court sempre esteve de alguma forma relacionada às artes. Dizem que o pequeno Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), quando em Londres por volta de 1764-1765, morou lá. Quer mais? Já a primeira livraria parece ter se estabelecido por ali antes da chegada desse morador ilustre, ainda no comecinho do século XVIII, com proprietários de origem francesa.

É claro que a Cecil Court teve suas idas e vindas do ponto de vista arquitetônico. Foi quase reconstruída no tempo de Robert Gascoyne-Cecil (1830-1903), o 3º Marquês de Salisbury e primeiro-ministro do Reino Unido por três vezes (1185-1886, 1886-1892 e 1895-1902). Uma reforma para melhor, como era de praxe à época, com a remoção dos edifícios antigos, substituídos por prédios e lojas melhor construídas, sanitariamente adequadas e de proporções mais atraentes.

Se essa reforma urbanística deu a forma “definitiva” à Cecil Court, depois dela a ligação dessa ruela com as artes não parou de crescer. Já na virada do século XIX para o XX, a Cecil Court esteve fortemente relacionada ao nascimento da indústria cinematográfica britânica. Fornecedores de equipamentos técnicos, produtores e distribuidores estabeleceram-se em seus prédios. Esses “cineastas” pioneiros, alguns dos principais nomes de então, eram os seus “locais”. A ruela era o “coração dessa recém-nascida indústria”, dizem os historiadores.

Foi também por essa época que editoras e livrarias começaram a chegar em grande número à Cecil Court, ainda dividindo espaço com o povo do cinema. Esse boom se deu antes da 1ª Guerra Mundial, certamente. Eram sobretudo comércios de livros especializados, como ainda hoje o são. E foram só crescendo. Ocupando os dois lados da ruela, embora nem todas as lojas sejam livrarias tecnicamente falando. Temos também comércios de outras “curiosidades” ligadas ao que ainda chamamos de cultura.

De toda sorte, para esta crônica, o mais importante é ressaltar a sensação que tive ao voltar à Cecil Court na minha recente viagem em família: ela está quase como eu a deixei. Plena de comércios de livros e assemelhados. Eis uma lista deles extraída da página da Internet criada para a querida ruela dos livros (www.cecilcourt.co.uk): Alice Through The Looking Glass, Art Deco Gallery London, Bryars & Bryars, Coin Heritage, Colin Narbeth & Son Ltd, Daniel Bexfield Antiques, Darnley Fine Art, Goldsboro Books, London Medal Company, Marchpane, Mark Sullivan Antiques & Decoratives, November Books, Panter & Hall, Serhat Ahmet, Stephen Wheeler Medals, Storey’s Ltd, Sworders Fine Art Auctioneers, Tenderbooks, Tindley And Everett, Travis & Emery Music Bookshop e Watkins Books. Pelos nomes, embora em inglês, já dá para saber do que cuidam. Claro, não dá para visitar todos em uma só agradável tarde londrina.

Flanei em Cecil Court com a minha família, como fazia outrora sozinho, de mãos dadas apenas com a saudade de casa. Tiramos fotos. Xeretei algumas vitrines e lojas. O pequeno João a pé, à frente, animado deveras. E, aqui, para finalizar, apenas repito as palavras do grande Graham Greene (1904-1991): “Obrigado, Deus! Cecil Court continua Cecil Court…”

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Passaram a boiada e sobrou para o cavalo caramelo

cavalo ilhado
Na imagem, o cavalo Valente Caramelo ilhado durante enchente no Rio Grande do Sul.
Kakay
“Borges não toleraria enxergar nestes tempos de absoluta claridade do caos.”
–Ronaldo Cagiano, no poema “Pressuposto”

São muitos anos de descaso acumulado no trato criminoso com a natureza. De certa maneira, todos nós somos responsáveis pelos maus tratos. Claro que em escalas muito diferentes. Não pode ser a mesma coisa uma garrafa plástica que se joga no chão, ou que não é recolhida na rua, e a destruição dolosa das nascentes para fazer uma pastagem em larga escala. Mas a garrafa plástica vai se juntar a outras e vai entupir as bocas de lobo, que poderiam ajudar no escoamento das águas.

Impressiona imaginar que a eliminação de uma estrutura jurídica de contenção dos abusos seja algo planejado e meticulosamente pensado. A imagem da reunião ministerial de Bolsonaro durante a pandemia, na qual seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse, sem rodeios, que era necessário aproveitar que a imprensa estava cuidando desse problema para “passar a boiada” é de uma crueldade sem limites. E ele explicava para seus cúmplices, com detalhes, quais seriam os planos de desmanche para, “de baciada”, mudar as regras ligadas à proteção ambiental e à área de agricultura.

Criminosamente defendeu, na frente do presidente da República e seus ministros, que fosse mudado todo o regramento e simplificadas as normas do Iphan, do Ministério da Agricultura e do Ministério de Meio Ambiente. Criminoso!

Na imagem, reunião ministerial de Bolsonaro em que Ricardo Salles sugere “passar a boiada”, em 2020
Tive uma conversa com 2 grandes pecuaristas sobre o apoio poderoso e apaixonado de boa parte da classe a Bolsonaro e me espantei com a frieza da análise. Ambos concordam que a política do governo Lula para o setor, em se tratando de juros, empréstimos, financiamentos e apoio, é muito melhor do que a do Bolsonaro. Porém, consideram que é mais importante uma política menos eficiente, mas com nenhuma fiscalização. Até porque se sentiam mais seguros para fazer o que bem entendessem com o meio ambiente.
Essa atitude declaradamente destrutiva do ex-presidente forjou uma imagem que preencheu o imaginário caubói do homem que vive do campo. Quando Bolsonaro declara que o Exército norte-americano fez um belo trabalho ao exterminar os indígenas nos EUA, está bajulando boa parte dos ruralistas, que vê nos povos originários uma fonte de atraso e de problemas.
É só relembrar alguns discursos do ex-presidente aos ruralistas, nos quais exaltava o tratamento que hoje em dia é dispensado em comparação com como o Ibama e o ICMBIO tratava antes. Ele se jactava de facilitar as irregularidades pela não fiscalização. Criminoso! A tragédia que ocorre no Rio Grande do Sul tem muitas faces. É uma tristeza sem tamanho ver o povo simples, com sotaque do interior, rosto queimado de sol, agarrar-se a uma esperança vã e não querer sair da casa onde mora.
Com água até o peito, balbucia palavras desconexas, impregnadas de perplexidade. E, nas cidades, a falta de luz e de água potável, em contraste com a fúria e a força avassaladora das águas da chuva e dos rios, deixa um cenário de medo e de guerra. A natureza assumiu o controle do destino. Não há nada que se possa fazer para impedir o avanço do caos. O acúmulo dos erros e dos abusos não pode ser contido em meio à desgraça instalada.
E quando a água baixar e voltar ao seu leito natural, outra tragédia estará ocupando todos os espaços. Infelizmente, boa parte dos corpos dos desaparecidos surgirão em estado de avançada decomposição. As doenças, várias, ocuparão as manchetes hoje dominadas pela enchente. A falta de condições de várias estruturas, como casas, prédios públicos e aeroporto levará a uma sensação de cidade fantasma e fala-se, em hipóteses extremas, até mesmo na necessidade de reconstrução de alguns setores. Ou seja, o desastre está ainda muito longe do fim.
O homem resolveu enfrentar, desafiar e desprezar a natureza e perdeu. Agora, milhares de brasileiros pagam a conta. Com a vida. Com a saúde. Enfrentando a fome e o desemprego. Como ensinou o gaúcho Mário Quintana, no poema “Diário de viagem”:
“O poeta foi visto por um rio, por uma árvore por uma estrada…”
Depois de tantos dias de espanto e susto com a dimensão dos estragos, já é hora de fazermos o enfrentamento, na busca da identificação e responsabilização dos culpados. O esforço do governo federal é absolutamente louvável. Mas, é preciso que a sociedade eleja, como pauta, o que fazer para mudar a maneira irresponsável de tratar a natureza. Identificar quais foram os políticos que se dedicaram, em busca de dinheiro, voto e poder, à retirada da legislação de salvaguardas que protegiam a natureza do avanço do caos. Identificar e denunciar. É claro que, contra a estupidez, às vezes, não há muito o que fazer. O governador do Rio Grande do Sul se manifestou contra as doações, salvo em dinheiro, pois o excesso delas estaria atrapalhando o comércio local. A fala parece ser falsa de tão absurda. Cruel, surreal, mas, infelizmente, verdadeira. Que mulheres, crianças, idosos morram de sede, de fome e de frio em nome de um “comércio local” que, por sinal, está fechado, debaixo d’água, em boa parte pela irresponsabilidade e ganância de alguns políticos.
É hora de responsabilizar os divulgadores criminosos das fake news, de desnudar os erros grosseiros dos políticos, de mostrar aos desabrigados que, em tragédias como essas, a natureza não tem culpa. É tão vítima como os que sofrem a fúria das enchentes.
Lembrando Rainer Maria Rilke:
“Escuridão, minha origem, amo-te mais que a chama que é limitada, porque só brilha num círculo qualquer fora do qual ninguém a conhece. Mas a escuridão tudo abriga figuras e chamas, animais e a mim, e ela também retém seres e poderes. E pode ser uma força grande que perto de mim se expande. Eu creio em noites.”
Poder 360

O silêncio dos culpados

Foto: reprodução – O advogado criminalista Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay

Muitas vezes, é nos momentos mais delicados, extremos até, que a pessoa mostra seu verdadeiro caráter e sua índole. O Brasil foi dividido pelo radicalismo bolsonarista, que apostou no ódio e na política de desinformação para se impor. Com uma estratégia pensada e planejada na divulgação de mentiras encomendadas, o governo do  Bolsonaro criou uma incrível massa de seguidores incapazes de discernir, sequer de maneira razoável, o que é falso e o que é verdadeiro. Nas campanhas e no exercício do poder, a disseminação de fake news sempre foi um alvo criteriosamente trabalhado.

São inúmeros os exemplos bizarros que foram cristalizados e que assumiram ares de verdade, seja para incensar posturas teratológicas, seja para destruir reputações. É extremamente difícil se contrapor a um grupo que não tem limites, ética e nem escrúpulos. A discussão política, que engrandece e fortalece a Democracia, precisa de critérios que sustentem e prestigiem os valores humanistas para a manutenção do Estado democrático de direito. Lidar com seres escatológicos impede o exercício dos princípios fundantes da civilização.

Com a dimensão da tragédia no  Rio Grande do Sul, criou-se uma expectativa de que essas posturas seriam abandonadas em solidariedade ao imensurável sofrimento do povo gaúcho. Imaginávamos que não existiria lugar para banditismo, para o uso político de mentiras e para uma disputa de espaço com base na dor e na desgraça alheia. Ledo engano. O homem surgiu no meio das águas com suas vertentes mais díspares e completamente expostas. Escancaradas. Tanto na extrema dedicação da solidariedade, quanto no absoluto mau-caratismo das fake news e dos abusos.

Já se discute entre os criminalistas a dificuldade de criminalizar as condutas dos criminosos que as espalham. O certo é que é necessário responsabilizar as consequências dessas mentiras. Não é apenas, e já seria grave, a monetização das postagens e o despudorado uso político por parte desse grupo. O que mais deve ser levado em consideração é o tanto que as desinformações influenciam as pessoas e dificultam o salvamento. O discurso e as ações solidárias mostram que a humanidade ainda tem chance no meio deste caos. A grande maioria dos brasileiros se mobiliza para ajudar e tentar minimizar esta dor inimaginável. O número de mortos e desabrigados nos deprime. Mas a quantidade de pessoas recuperadas e salvas nos enche de esperança.

O governo federal se mobilizou de uma maneira admirável. Sob todos os aspectos, o apoio ao povo do Sul está sendo a prioridade máxima. A seriedade com que a  gestão Lula está sendo construída enfrentando o desastre é inquestionável e só a má-fé pode levantar qualquer dúvida.

As fakes news insistem em tentar diminuir a imensa ação solidária do governo federal. E a cara de paisagem do governador do Estado, que não tem a grandeza de reconhecer o trabalho do Presidente da República, reforça a máxima de que é nas horas trágicas e difíceis que se conhece o tamanho do político. Tudo que é possível está sendo feito. Mas é hora de o governo federal começar a, estrategicamente, contar, com detalhes e com profundidade, o que realmente está ocorrendo. Prestar contas é também dever do governante. E, no caso concreto, é necessária uma ação política que ajude a combater as fake news e os políticos responsáveis por agravar essa tragédia. E que insistem em figurar como falsos heróis. A hora é de solidariedade. Mas a hora de apontar os culpados já bate à porta.

Como nos lembra o poeta Thiago Turbay: “Nada contém mais palavras do que o silêncio. O silêncio aceita tudo”.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay.

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Derrubar muros e barreiras

Padre João Medeiros Filho

Nos idos de 1960, quando estudante na Bélgica, ouvia colegas europeus, notadamente alemães, discutir sobre o Muro de Berlim. O objetivo deste era separar os habitantes daquela cidade germânica, por razões políticas e ideológicas. Ficava pensando como isso acontecera num país considerado civilizado e desenvolvido. Não poderia imaginar que, décadas depois, veria algo semelhante, em meu país. Atualmente, há no Brasil um muro, de difícil demolição. Foi construído, não com pedra, ferro e cimento, mas com intransigência, radicalismo, rancor e ódio, tornando irmãos e compatriotas em inimigos. Infelizmente, passados tantos anos, a civilização contemporânea não conseguiu ainda fazer com que avanços tecnológicos e científicos fossem acompanhados de posturas humanistas e éticas, capazes de demolir paredões fraticidas para estabelecer vínculos entre as pessoas.

Cada vez mais, verificam-se cenários de conflitos e diferentes modos de exclusão social. Os discursos e propostas tornam-se repetitivos, obsoletos, estéreis e demagógicos. A sociedade paga um alto preço por sua deterioração social. Ocorre uma inércia ético-moral, neutralizando ações de efetiva solução dos graves problemas e fragilizando iniciativas para o enfrentamento de crises. Há falta de união, racionalidade, interesse e solidariedade, até mesmo para aniquilar um mosquito.  Mais do que descuido administrativo, configura-se na carência de sensibilidade humana e espiritual. Isso gera incapacidade para diálogos indispensáveis à ruína de vários muros. Muitos deles são erguidos em nome do bem-estar e proteção à democracia. Outros, com tons de “apartheids”, inviabilizam o respeito à liberdade ou dignidade humana. Recorde-se a Palavra inspirada: “Irmãos, exorto-vos a ter cuidado com os que causam divisões e colocam obstáculos em seu caminho” (Rm 16, 17).

Apesar do progresso e desenvolvimento tecnológico, científico e socioeconômico, o Brasil ainda padece de muitos males, cuja solução necessita de diagnósticos precisos, lúcidos e ações eficazes. Poder-se-ia citar um conjunto de barreiras sociais que se levantam, inviabilizando pontes. Dentre elas, incluem-se a apatia e a anestesia social, que fazem crescer a indiferença, criando obstáculos entre os indivíduos. A esperança para a queda dos muros reside na convicção e vivência da fé. Esta poderá apontar saídas justas e humanizadas para as diferentes situações desoladoras, aparentemente insuperáveis.  

O saber técnico, o desempenho político e outras habilidades são importantes. Todavia, têm-se mostrado ineficientes diante de singularidades da existência humana e complexidades do funcionamento das instituições. A fé e a espiritualidade trazem alentos e sentidos existenciais, alargam o horizonte para cada um tomar consciência do seu relevante papel de agente do bem e da paz. Exorta o apostolo Paulo: “Não haja divisão entre vós. Ao contrário, sede bem unidos” (1Cor 1, 10). A fé proporciona ao ser humano ir além do território do seu próprio bem-estar. É com ela que se aprende a praticar e demonstrar o amor fraterno, superando o anseio de destruir o semelhante.  Viver a espiritualidade e a autêntica crença religiosa consiste em cultivar uma abertura para todos, efetivando a derrubada de barreiras e a edificação de pontes. Para tanto é indispensável ultrapassar a lógica materialista, a dinâmica interesseira e as conveniências ideológicas e partidárias. Cabe lembrar que Cristo é o Pontífice. Este termo etimologicamente significa aquele que faz pontes. Segundo a teologia, a Igreja é sacramento de nosso Salvador, portanto deve ser construtora de união. Nisto compõe-se também a sua missão. Será que está acontecendo assim no Brasil atual? Como faz falta uma ponte. Que o digam os viajantes, de dias passados, com destino de Mossoró a Natal e vice-versa. Sua inexistência torna a viagem mais demorada e talvez perigosa. Assim é o mundo sem Deus. E para se achegar a Ele, precisa-se recorrer ao Pontífice: Jesus.

A ausência de ligações leva ao monólogo, fomentando a insensatez de eliminar os outros. Há muros e fossos construídos, colocando em lados opostos e incomunicáveis indivíduos e grupos. Essa divisão é semanticamente diabólica. Diabo (em grego diábolos) quer dizer separação. Cristo rezou: “Pai que todos sejam um como Eu e Tu” (Jo 17, 21). Somente a vivência da fé e a espiritualidade poderão derrubar muros ou cercas e construir vínculos. Urge edificar pontes de confiança, diálogo, entendimento, reconciliação e paz. Esta “nos é dada [por Deus], não como o mundo no-la dá” (Jo 14, 27).

A velha rua

Marcelo Alves Dias de Souza Procurador Regional da República Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Charing Cross Road é tradicionalmente conhecida como a “rua das livrarias” de Londres, sobretudo em razão dos seus muitos comércios de livros usados ou mesmo raros (e aí talvez esteja a diferença entre os sebos e os antiquários de livros). De tão famosa, entre outras coisas, deu título a um livro, “84 Charing Cross Road”, de 1970, da escritora Helene Hanff (1916-1997), que foi bater no cinema em 1987, com craques como Anne Bancroft, Anthony Hopkins e Judi Dench nos papéis principais. Livro e filme contam sobretudo uma estória de amor aos livros. Recomendo-os.

Quando cheguei a Londres para o meu doutorado, em 2008, ainda encontrei Charing Cross Road fornida de muitas livrarias e sebos. No meu primeiro ano por lá, morava bem pertinho, na Great Queen Street, em Covent Garden. Achava os comércios de livros de Charing Cross o máximo. E terminava quase todos os meus dias/noites zanzando por lá.

Havia lojas gigantes como a Blackwell’s, onde, por encomenda do saudoso Dr. Ernani Rosado, comprava coleções de filmes em DVDs (ainda assistíamos a filmes assim), de craques como Alfred Hitchcock (1899-1980), com títulos ainda do seu “período inglês”, ou David Lean (1908-1991), outro gênio do cinema britânico. Com a recomendação do Dr. Ernani, adquiria coisitas para mim também. Havia também comércios bem especializados, como a adorável Murder One Bookshop, especializada, como o nome mesmo dá a entender, em estórias detetivescas e policiais. Eu adoro esse gênero de literatura, confesso. E havia, claro, os muitos sebos, que xeretava, pulando de porta em porta, descendo e subindo escadas, atrás dos títulos mais escondidos.

Ainda me recordo com saudade do meu achado, nos sebos daquela rua, de uma edição de bolso de “Ten Little Niggers” (também publicado em inglês, para evitar o título politicamente incorreto, como “Ten Little Indians”, “The Nursery Rhyme Murders” e “And Then There Were None”), da minha Agatha Christie (1890-1976). O título “Ten Little Niggers” foi praticamente banido em livrarias e até em sebos. Comprei o danado, antigo mas conservado, em um dos comércios dali (já não lembro qual), por 3 libras esterlinas. Na Internet, achei uma edição igual por 730 libras. Guardo o meu exemplar com muito carinho.

Todavia, foi ainda nos meus anos em Londres, numa dessas infelizes coincidências, que fui observando, talvez em razão do crescimento do mercado dos livros digitais, talvez simplesmente porque as coisas inexoravelmente mudam, a decadência do comércio de livros de Charing Cross Road. Alguns comércios foram fechando as portas, como a Murder One Bookshop e, um pouco depois, até mesmo a grande loja da Blackwell’s.

Tendo estado agora novamente em Londres pelo período da Páscoa, achei as coisas ainda mais tristes. A decadência dos comércios de livros físicos parece que atingiu Charing Cross Road em cheio. Outras livrarias e sebos se foram; as que ficaram, como tenho dito, só pelejam. No dia em que estive por lá, empurrando o carrinho de meu pequeno João (uma trabalheira dos diabos), vi que a fachada do quarteirão onde ficam os sebos sobreviventes estava toda em reforma. Eram tapumes por todas as lojas. Usei para mim mesmo a desculpa de estar ali com João, de ser muito difícil transitar com ele por escadas e estantes e fugi de Charing Cross. Não quis sequer ir à enorme livraria Foyles de Charing Cross, que, fundada em 1903, autoproclama possuir a maior quantidade de diferentes livros em estoque da Europa (coisa de 200 mil títulos, afirma, mas não sei dizer se é vero ou não). Espero que a reforma venha salvar ou, ao menos, dar sobrevida aos queridos sebos.

Na verdade, desanimado com a velha rua das livrarias, preferi ir caminhar em Cecil Court, ruela de pedestres que liga Charing Cross Road à St. Martin’s Lane, na direção de Covent Garden. Lindinha, pitoresca, parecendo ter parado no tempo, ela continua tomada de pequeninas lojas, livrarias e sebos especializados em livros antigos, primeiras edições, mapas, gravuras, ilustrações e em temas tão variados como línguas, automóveis, música, numismática, teologia, magia e por aí vai. Sobre essa ruela mágica falaremos qualquer dia desses. Prometo.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

A hora de pensar o Judiciário

Foto: reprodução – O advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay
Kakay 10.mai.2024
“Para fechar o Supremo, basta um cabo e um soldado.” –De um fascista golpista Com o recente julgamento da juíza Gabriela Hardt pelo Conselho Nacional de Justiça, veio à tona, e virou meme, a maneira deselegante e autoritária com que ela se comportou no interrogatório do então ex-presidente Lula em Curitiba. A frase que correu o Brasil foi proferida em tom de ameaça ao réu: “Se o senhor começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema”.

À época, os bolsonaristas vibraram e a primeira-dama chegou a usar uma camiseta em claro deboche. Costumo dizer, parafraseando o poeta baiano, que: “A vida dá, nega e tira”.

Hoje, a doutora é conhecida como “juíza copia e cola”, responde ao seu órgão disciplinar e é investigada criminalmente por suas ações enquanto magistrada da Lava Jato, substituta da 13ª Vara Federal da República de Curitiba. Republiqueta antes gloriosa e que agora se esvai no ralo sujo da história. E o Lula é, pela 3ª vez, presidente da República.

Em recente entrevista ao ICL, o assunto foi abordado e notei certa perplexidade dos jornalistas pelo tom arrogante adotado pela magistrada. Cumpre anotar a maneira elegante e altiva do interrogado, que demonstrou sua contrariedade pelo tom desnecessário da juíza, mas continuou se portando com classe e dignidade. Fiz questão de ressaltar, ao ser indagado, que, infelizmente, na realidade essa arrogância é uma marca de boa parte do Judiciário.

Os Tribunais Superiores, geralmente, mantêm uma relação mais respeitosa. Talvez, por isso, ficaram marcadas no julgamento do Mensalão a agressividade e a deselegância do então presidente do Supremo com o advogado Luiz Fernando Pacheco, ao assumir a tribuna requerendo a apreciação de um pedido de liberdade do seu cliente, o deputado José Genoino. O advogado, altivo e educado, apenas pedia o óbvio: que o processo fosse julgado. Foi retirado da tribuna e quase foi preso.

Não desconheço que existem inúmeros colegas atrevidos e que também abusam na lida diária do processo. Sem contar os integrantes do Ministério Público que chegam a instrumentalizar a poderosa instituição para o exercício de um poder que a Constituição não lhes outorga. É só nos lembrarmos do grupelho até pouco tempo coordenado por Deltan Dallagnol, que desonrou o cargo. Mas a reflexão sobre a postura dos juízes, seja de que grau for, é a que merece uma atenção toda especial. Em última análise, são eles que detêm o poder, quase sagrado, de decidir sobre a liberdade ou sobre a prisão de um cidadão. E sobre bens, patrimônio, guarda de filhos, direitos políticos, elegibilidade, enfim, tudo o que mais interessa. Como nos ensinou o mestre Rui Barbosa: “O direito dos mais miseráveis dos homens, o direito do mendigo, do escravo, do criminoso, não é menos sagrado, perante a Justiça, que o do mais alto dos poderes”.

Faço essa reflexão por constatar que o papel do Judiciário mudou no imaginário da população. Há tempos, vem acontecendo um fenômeno de abertura do Judiciário em relação ao cidadão. A criação da TV Justiça levou os julgamentos para dentro das casas dos brasileiros. Embora eu seja um crítico ácido do televisionamento dos processos penais, essa é uma realidade consolidada. A TV Justiça pode ter, e tem, importante papel ao transmitir processos como a discussão sobre drogas, aborto, marco temporal e tantos outros de interesse comum. Nunca, porém, sobre o processo penal, no qual ocorre um evidente pré-julgamento e uma condenação prévia sem direito a recurso. A superexposição é uma punição acessória sem previsão legal. E irrecorrível. Advoguei para o publicitário Duda Mendonça, no Mensalão, e conseguimos sua absolvição. Quando fomos comemorar, ele, experiente, observou: “No imaginário popular, eu sou um mensaleiro. Nunca vou perder esse estigma”.

Com a assunção de um governo fascista, em 2018, houve uma clara e triste cooptação de boa parte do Poder Legislativo. Em um momento dramático da história brasileira, convivemos com uma tentativa de desestabilizar a democracia e com a destruição sistemática e planejada de todos os avanços sociais e democráticos. O objetivo, hoje inquestionável, era a derrocada do Estado Democrático de Direito e a instalação de um governo militar armado. Um regime de força. Uma ditadura.

Nesse grave momento, o Poder Judiciário assumiu o papel de guardião da Constituição e, na prática, impediu o caos. Para tanto, com o apoio de parte da sociedade e de segmentos democráticos, teve que se expor muito além do que seria o desejado em uma normalidade institucional. E fez o que deveria ter sido feito com desassombro, coragem, ousadia e usando a Constituição como uma arma. É hora de voltarmos a um tempo em que esse protagonismo não tem mais razão de ser. Eu sempre fui um crítico leal, mas ferrenho, desse Poder Judiciário patrimonialista, conservador e machista. Porém, vi-me na contingência de ser seu maior defensor nos últimos tempos. Já não vejo a hora de voltar a poder criticar… “Pois vieram milhares de golpistas armados de paus, pedras, barras de ferro e muito ódio. E não fecharam nem o Supremo, nem o Congresso, nem a Presidência da República. Pelo contrário. As instituições e a própria democracia saíram fortalecidas da tentativa de golpe.”.

–Discurso do presidente Lula na abertura do Ano Judiciário de 2024.

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Dia das Mães

Padre João Medeiros Filho

Durante o mês de maio, os cristãos cultuam de modo especial Maria Santíssima. No primeiro domingo desse mês, em várias comunidades, celebra-se a invocação de Nossa Senhora Mãe dos Homens, o orago mais antigo da Virgem de Nazaré. E no segundo domingo, é festejado o dia de nossas mães terrenas. Em plena primavera no hemisfério norte, quando as flores desabrocham, quis a Igreja comemorar a beleza de Maria e nossas genitoras, “rosas de Deus”, na expressão de Santo Ambrósio. A patrística greco-latina é rica em textos e comentários a respeito daquelas que nos transmitem a vida. Santo Irineu, primeiro bispo de Lyon, referia-se a elas como “face terrena do Divino”. Ou, de acordo com o patrono da Igreja Copta, Clemente de Alexandria, “carícia celeste na terra dos homens.” E São João Crisóstomo as denomina “sol de nossas vidas, luz de nossos dias, estrelas de nossas noites e travessias.”

Mais do que justo e merecido é esse preito de gratidão, prestado a todas as mães da terra. É importante proclamar o seu amor incondicional, sua doçura ímpar, seu carinho inefável e renomado desvelo. Nada melhor para simbolizar tais sentimentos do que a figura daquelas que nos geraram. Participantes do mistério da criação e clemência divina entre os homens, elas encarnam a benevolência e benignidade do Pai. Orientam nosso destino de filhos do Eterno e Infinito.

É difícil descrever o quanto são especiais. São poemas divinos no prosaico dos homens. Pertencem ao Transcendente. Dotadas de sensores supersensíveis, chegam a captar o que não foi dito. Seu olhar penetrante mergulha no âmago dos filhos. Rastreiam pelo seu timbre de voz as marcas da dor e do sofrimento “Ao nos tocar, medem a temperatura de nossa alma”, conforme afirmou nosso dileto Padre Gleiber Dantas de Melo. Assim, ultrapassam qualquer ciência. O próprio Jesus Cristo, tendo dispensado os bens terrenos, não se privou do colo materno e do sorriso meigo Daquela que Ele nos legou também para conceder a sua bênção. “Eis aí o Teu Filho. Eis aí a Tua Mãe” (Jo 19, 27). Disse Cristo a Maria e João, no patíbulo da cruz, antes de dar a sua vida por nossa salvação. Deus sabia que um coração materno pode expressar, de forma perfeita, seu afeto. De maneira inspirada, João Paulo I afirmou diante de uma multidão na Praça de São Pedro: “Deus é Mãe.” E no século III, o teólogo São Cipriano de Cartago, arrimado no profeta Isaías (cf. Is 49, 15), definiu Maria Santíssima como “rosto temporal e materno de Deus.”

É esse lado sobrenatural de nossas mães que se pretende exaltar no segundo domingo de maio. É a tradução da meiguice de Deus em forma humana, que nesse dia é proclamada, ao celebrar quem nos gerou. A grandeza do Criador torna-se então acessível a todos os homens. A munificência e capacidade de amar de Deus manifestam-se numa representação terrena. O Pai celeste quis nos legar um sacramento universal de sua benevolência. Por isso, concretizou o seu plano no coração materno.

O Dia das Mães – apenas para destacar um dentre todos do ano – é o memorial da sublimidade da vida. Lembrança da suprema beleza eterna, que Deus reserva para os seus filhos. Não poderia deixar de existir no calendário uma data que marcasse nosso reconhecimento e gratidão por aquelas que participam do tesouro da bondade suprema. As mitologias greco-romanas e orientais apresentam deusas-mães. O cristianismo presenteia-nos com duas mães: a celestial e a terrena para nos acompanhar em todos os momentos e dimensões de nossa caminhada. Mãe é Amor. E Deus o é em plenitude, como define o evangelista João em uma de suas Cartas (cf.1Jo 4, 8). Que Nossa Senhora cubra com o seu manto sagrado aquelas que nos transmitiram o dom da vida, protegendo-as sempre. A Virgem Imaculada é como uma centelha no coração daquelas que traduzem a amorosidade incomensurável de nosso Deus, que por elas também se faz presente na face da terra. “Não rejeites o ensinamento de tua mãe. Quando caminhares, te guiará; quando dormires, te guardará; e quando acordares, falará contigo” (Pr 6, 21-22).

A mudança do cenário

Marcelo Alves Dias de Souza Procurador Regional da República Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Pela época da Páscoa, estive em Londres com a minha família. A ideia era levar o pequeno João para conhecer a cidade onde o pai, há mais de uma década, havia morado e estudado quando do seu doutorado. Foi cansativo, é verdade, mas valeu a pena. A alma de João – a “imaginação” talvez seja a palavra justa – não é pequena.

É verdade que eu já havia estado em Londres outras vezes desde que terminei o doutorado. Mas, desta vez, achei as coisas bem diferentes. Vi muitos moradores de rua, algo de chamar mesmo a atenção. E achei tudo muito caro. Caríssimo, posso dizer, para nós brasileiros, com uma libra valendo quase sete reais. Amigos que moram por lá nos disseram que a inflação dos últimos anos foi terrível. Para se ter uma ideia, achamos Paris, para onde fomos em seguida, até “barata”. E já desistimos dos planos de estudar inglês, ano vindouro, na capital do Reino Unido.

Mas minha epifania sobre a mudança no “cenário” londrino veio mesmo quando vi um cartaz anunciando a peça “Long Day’s Journey into Night” (“Longa jornada noite adentro”, entre nós), obra-prima do americano Eugene O’Neill (1888-1953). Para quem não sabe, “Long Day’s Journey into Night” foi escrita em 1941. Mas, autobiográfica, O’Neill deixou instruções para que só fosse publicada 25 anos após a sua morte e, mesmo assim, nunca fosse levada aos palcos. Suas instruções, ainda bem, não foram seguidas à risca. A peça teve a sua première em Estocolmo, Suécia, em fevereiro de 1956 (e em sueco, curiosamente). No mesmo ano, estreou na Broadway. Deu a O’Neill o prêmio Pulitzer de 1957.

Lembro-me bem que, morando então em Londres, fui assistir a “Long Day’s Journey into Night” no Apollo Theatre, em Shaftesbury Avenue, bem pertinho de Piccadilly Circus. A opinião dos críticos ingleses era unânime: David Suchet e Laurie Mettcalf davam um show na refinada produção da obra de O’Neill. Some a isso o fato de que eu era fã de David Suchet – na verdade, sou –, pela sua interpretação de Hercule Poirot, no seriado “Agatha Christie’s Poirot” da rede de televisão ITV. Mas, desta vez, a peça, com Brian Cox interpretando a personagem principal James Tyrone, estava em Cartaz no Wyndham’s Theatre, localizado em Charing Cross Road, rua famosa por outrora abrigar as inúmeras livrarias especializadas e de segunda mão da metrópole londrina.

Não sei se foi a mudança dos teatros e dos atores principais (embora tanto David Suchet como Brian Cox sejam craques do métier), não sei se foi a lembrança do tom genialmente desesperançoso de “Long Day’s Journey into Night” – um jogo de culpas, mas, sobretudo, de dissimulações; esconde-se a tuberculose; esconde-se a dependência à morfina; brinca-se com a bebida, apesar do alcoolismo na família; uma das últimas cenas, em que o pai conta ao filho enfermo, ambos dominados pela “emoção” do álcool, as desventuras de sua infância miserável e sua ascensão na vida, é mais que tocante; e a peça prende a nossa atenção até a cena final, quando a família termina reunida em torno da mãe, que, tomada pela morfina, parece um fantasma –, mas, não mais do que de repente, vi que até a Charing Cross Road que eu conheci, nos meus primeiros anos de Londres, ainda como a “rua das livrarias”, havia também mudado de cenário.

Uma mudança, sob o meu ponto de vista de amante dos livros, para muito pior. Muitas livrarias já se foram; as que ficaram, pelejam. Uma decadência que parece atingir os comércios de livros físicos por todo o mundo, mas que, sob o impacto da recordação do desenlace de “Long Day’s Journey into Night”, senti de uma maneira muito intensa, como se defronte à velhice e à doença de um ente querido, cuja dor e, sobretudo, o destino, nem mesmo a morfina resolve.   

É verdade que alguns comércios de livros de Charing Cross Road, três ou quatro, ainda resistem. E é verdade que a famosa Cecil Court, rua de pedestres ligando de Charing Cross à St. Martin’s Lane, em direção à Covent Garden, ainda está ativa, com suas pequenas livrarias independentes, muitas especializadas em livros colecionáveis, primeiras ou raras edições, mapas e gravuras antigas, artigos de numismática e por aí vai. Talvez sejam até mais antiquários do que livrarias. Ainda vale a pena passear por lá xeretando as vitrines. Nossa alma, quanto aos livros, nunca deve ser pequena.

Mas esse é o cenário para uma próxima – e espero não tão saudosa – crônica.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Aquele grupo tá doendo em mim

grupo de idosos caminhando em praça
O mundo de hoje exige das pessoas um ritmo que afasta a reflexão e impõe uma velocidade que impede a maturação das ideias e dos afetos, escreve Kakay.

Por Kakay

“As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão.” –Carlos Drummond de Andrade.

O talentoso compositor, poeta, músico, cantor e artista Caetano Veloso é também um grande contador de causos. É uma delícia ouvi-lo falar com sua métrica e voz inconfundíveis. Tão bom quanto escutar a sua irmã, a diva Maria Bethânia, recitar Fernando Pessoa. Impagável.

Caetano conta que, uma vez, chegou na casa de Caymmi e esse disse que tinha algo genial para mostrar. Foi levado a um quarto onde tinha uma cadeira na frente de um ventilador. Ele não entendeu e perguntou o que era.

Ouviu como resposta que Caymmi havia colocado ali aquela cadeira para nela se sentar com o ventilador ligado virado para ele. Assim, ele pensava a vida e deixava a criatividade tomar conta. Penso que esse fato e esse diálogo só poderiam ter acontecido na Bahia, terra abençoada. Escrevo isso para refletir sobre como o mundo de hoje exige das pessoas um ritmo que afasta a reflexão e impõe uma velocidade que impede, de certa forma, o tempo certo da maturação das ideias e até dos afetos. Cansa o mundo de notícias 24 horas, o número chocante dos grupos de WhatsApp e as respostas que, muitas vezes têm que se antecipar às perguntas.

Os detalhes da vida, esses que compõem um certo caleidoscópio e que nos define, ficam à beira do caminho. Sem tempo para nós mesmos, deixamos de ter tempo para os outros. Como nos lembrava o matuto Manoel de Barros: “Ando muito completo de vazios”. E a vida segue, independente, o seu curso inexorável. Sempre que viajo bem cedo e vou para o aeroporto em Brasília, pego um trajeto que mostra uma imagem, para mim, tocante. E que me faz pensar na finitude da vida.

Em uma reta em frente a um conjunto de casas, eu passava, há anos, por um grupo de senhores que fazia uma caminhada matinal. Conhecia vários deles. Andavam com desenvoltura e conversavam avidamente. Era sempre o mesmo grupo, perto de 10 amigos. Ao longo do tempo, os cabelos foram rareando e ficando brancos, os ombros curvados, os passos mais lentos e cuidadosos. Mas, principalmente, e que me dava certa angústia, foram diminuindo o número dos companheiros de caminhada.

Agora, restam 2 que andam bem vagarosamente, como que querendo segurar o tempo, impedindo-o de passar. Bem curvados, eles parecem que olham para o chão, talvez à procura dos passos dos que já se foram. Essa imagem é um quadro que dói em mim. É sobre a inevitabilidade do transcorrer do tempo. Hoje, passei outra vez correndo. Uma São Paulo densa e tensa me espera. Como sempre, ela não sabe de mim, eu é que corro para os inúmeros compromissos que me aguardam na cidade indecifrável. Só que desta vez não estou indo trabalhar como sempre.

Acompanho uma pessoa amada para ir fazer exames de saúde. Talvez, por isso, tenha sentido uma vontade incontrolável de descer do carro e me juntar aos 2 companheiros que resistem à caminhada matutina. Na vã esperança de sermos 3 a andar com passos trôpegos, mas amigos. Com a ilusão de, ao mudar, pela primeira vez, o número para uma quantidade maior de caminhantes, pudesse influenciar no tempo. Senti-me com uma vontade incontrolável de voltar a roda da vida. Para um tempo no qual a gente não corria tanto e se permitia mais. Não desci e nem tive coragem de olhar para trás, com medo de ver aquilo que está para acontecer: um companheiro sozinho a resistir em nome do velho grupo. É passada a hora de parar de correr tanto e sentar em uma cadeira em frente a um ventilador. Ou, talvez, seja a hora de me mudar para a Bahia.
Lembrando-nos da nossa Clarice Lispector:

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida.”

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Remoer o passado ou respeitar o presente?

Foto: reprodução

Por Antonio Carlos de Almeida Castro, o advogado criminalista, Kakay.

O argumento usado pelo Presidente Lula e por alguns ministros sobre a não instalação da Comissão Nacional da Verdade, no sentido de que não é hora de remoer o passado, parte de uma premissa absolutamente falsa. Segundo estudo feito durante o governo Dilma, dos 243 desaparecidos pela ditadura, só 33 de foram encontrados os restos mortais! Ou seja, não se trata de remoer o passado, mas de enfrentar o presente. Essas famílias de brasileiros têm o direito de obter hoje, no presente, agora, o mais urgente possível, uma resposta do Estado.

No passado, a cruel e sanguinolenta Ditadura matou e torturou. Depois, houve uma anistia na qual os assassinos e os torturadores foram perdoados. Se não perdoados, pelo menos não foram enfrentados e admoestados. É este o momento, e já é longe demais, de darmos uma explicação, não só aos familiares e aos amigos, mas a todas as pessoas que têm ainda um pouco de formação humanista. Não se trata de esquerda e direita. O que se coloca é se o Estado deve respeitar o básico: o direito de deixar claro para todos onde, quando e como foram assassinados, torturados, enterrados ou desaparecidos os brasileiros e brasileiras que se opuseram à Ditadura.

Para quem espera há longos 39 anos, pode ser tarde, mas ainda é tempo. Uma das causas do surgimento do bolsonarismo foi exatamente a inação do Estado no confronto a essa gravíssima questão. O Bolsonaro era um militar golpista. Tentou dar um golpe com um atentado terrorista e foi expulso do Exército. O próprio General Geisel afirmou que ele era um mau militar. Porém, nunca foi realmente punido. Ao contrário, ganhou o apoio de grupos de extrema direita e de parte da mídia para exaltar a tortura, o racismo e a misoginia.

Todos sabem que é o Estado o responsável por tudo. Até por isso, não pode se omitir. O coroamento da não ação e do não esclarecimento por parte do Estado desembocou na longa noite de horror do 8 de janeiro. Como nunca foram responsabilizados, foi normal e natural tentar voltar ao estado de ruptura constitucional. Agiram acobertados pela covardia histórica do Estado Brasileiro. E com a certeza da cumplicidade por parte desse Estado. É necessário fazermos um enfrentamento para não sujarmos as mãos pela omissão.

Sempre nos lembrando do mestre Ruy Barbosa: “A justiça atrasada não é justiça; senão injustiça qualificada e manifesta”.

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Relíquias de Santa Teresinha

Padre João Medeiros Filho

As relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus estarão expostas à visitação, de um a cinco de maio próximo, na Arquidiocese de Natal (RN), mormente no Carmelo de Emaús (Parnamirim). Guardamos com carinho lembranças materiais inestimáveis de nossos pais e pessoas queridas. Assim age a Igreja com os restos mortais dos santos e beatos, bem como objetos por eles usados. São sinais indicativos para a veneração dos fiéis. De Leão XIII a Francisco, os pontífices manifestaram encantamento com o testemunho cristão da Santa de Lisieux. Esta entrou para a vida religiosa, aos quinze anos de idade, com o beneplácito de Leão XIII. “É a maior santa dos tempos modernos”, declarou Pio X, exaltando a profunda espiritualidade da jovem carmelita. Um dos últimos atos desse Pontífice foi abrir o processo de beatificação da jovem religiosa. Bento XV introduziu a expressão teológica “infância espiritual”, referindo-se à vivência mística de Thérèse Martin. Ela seguiu o ensinamento do Mestre: “Se não vos converterdes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18, 3).  A infância espiritual consiste na confiança em Deus e no entregar-se nas mãos do Pai.

Pio XI chamava Teresa de Lisieux “Estrela do meu pontificado.” Mesmo antes de ocupar o trono de Pedro, devotava-lhe profunda reverência. Elevou-a à honra dos altares, aos 17 de maio de 1925, constituindo-a padroeira das missões, em 14/12/1927. Desde cedo, o culto àquela eleita de Deus se fez presente no RN. Nosso terceiro bispo diocesano, Dom José Pereira Alves e o primeiro arcebispo metropolitano, Dom Marcolino de Souza Dantas, dedicavam-lhe especial devoção. O primeiro educandário feminino de Caicó, construído em 1925 pelo Cônego Celso Cicco recebeu, por sugestão de Dom José Pereira, o nome de Santa Teresinha. Em 1930, Dom Marcolino inaugurou o Santuário do Tirol, elevando-o posteriormente à condição de paróquia. Apôs o nome da santa carmelitana como co-padroeira. Ela marcou tanto a piedade dos fiéis, a ponto de denominarem até hoje Igreja de Santa Teresinha, geralmente omitindo Nossa Senhora das Graças, também co-patrona.

Pio XII manteve correspondência assídua com o Carmelo de Lisieux. Enquanto cardeal, ali esteve diversas vezes a fim de presidir solenidades. Em 1934, foi designado legado papal “a latere” no Congresso Eucarístico Internacional de Buenos Aires. Levou consigo uma relíquia de Teresa à qual confiara a sua missão. Durante o tempo em que viveu no Vaticano, mantinha contato com as carmelitas Pauline (Madre Agnes) e Celine (Ir. Geneviève), irmãs biológicas de Teresinha. “Esta discípula do Menino Jesus nos conduz ao porto seguro”, assim se expressou João XXIII. Na audiência geral de 16 de outubro de 1960, proclamou: “Ela foi grande por ter sabido, na humildade, simplicidade e constante abnegação, colaborar para o bem de inúmeros fiéis.” Paulo VI chegou a afirmar: “Nasci para a Igreja no dia em que Teresinha partiu para o céu.” Reconheceu que a humildade é o espaço do amor. A intimidade com Deus inspira a transcendente caridade. João Paulo I, quando Patriarca de Veneza, fez uma conferência por ocasião do centenário do nascimento de Teresa, escrevendo-lhe uma carta em seu livro “Illustrissimi”. Confessa ter lido “História de uma alma”, aos dezessete anos.

Em 1977, ao proclamá-la Doutora da Igreja, João Paulo II efetivou o sentimento de seus predecessores. Na audiência geral de 6/4/2011, Bento XVI pronunciou significativa alocução sobre Teresinha. Antes de morrer, rezou como ela, olhando para o crucifixo: “Meu Deus, amo-Te.” O ato de amor, expresso no último suspiro, traduzia o incessante balbuciar de preces de Teresa e Joseph Ratzinger. Em 2023, por ocasião do sesquicentenário de nascimento da Santa de Lisieux, Francisco dedicou-lhe a Exortação Apostólica “C’est la confiance”. Assim escreve: “Em nossa existência, onde muitas vezes, nos dominam medos, desejo de segurança humana, necessidade de ter tudo sob controle, a entrega a Deus liberta-nos de cálculos obsessivos, preocupação constante com o futuro e medos que nos tiram a paz.” “Teresa do Menino Jesus é um mimo de Deus para nós, suas crianças”, pregou Dom Nivaldo Monte, por ocasião do centenário natalício (1973) da filha dos Santos Luiz e Zélia Martin. “Sede, portanto, perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5, 48), recomendou Cristo aos discípulos.

O que é um “college”?

Marcelo Alves Dias de Souza Procurador Regional da República Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

A partir da leitura dos meus textos das semanas retrasada e passada – sobre Oxford e Cambridge e suas respectivas universidades –, uma amiga amante das coisas da Inglaterra me perguntou: “o que significa esse termo ‘college’? Já vi sendo utilizado em vários contextos e nomeando tipos diversos de instituições. Estou confusa”.

Tem a minha amiga motivo para estar confusa. De fato, na Ilha Britânica, usa-se a palavra “college” para designar instituições realmente bem diversas. Ademais, quem não está confuso por estes dias?

The Oxford Companion to Law” (Oxford University Press, 1980), de David Maxwell Walker, dicionário “das antigas” que eu adoro, assim define o tal “college”: “uma companhia, sociedade ou grupo de pessoas incorporada, com certos privilégios, a uma outra instituição especialmente direcionada à busca do aprendizado. O aprendizado pode ser ‘puro’, como nos casos dos colleges de Oxford e Cambridge, ou ter um aspecto vocacional específico, como nos casos dos Royal Colleges of Physicians and of Surgeons. (…). Em Oxford e Cambridge um college é uma sociedade dentro da universidade, e alguém se torna membro da universidade tornando-se membro de um college”.

É por aí mesmo nos casos das universidades de Oxford e Cambridge, em virtude da forma como elas se estruturam. De fato, além da governança central (liderada, formalmente, por um “Chancellor” e, na prática, pelo respectivo vice), constituída dos departamentos, das faculdades, das “schools” e dos grandes museus, laboratórios e bibliotecas, as Universidades de Oxford e Cambridge, em um modelo dual, que tende a se sobrepor, se organizam também em torno de um sistema de instituições independentes e autogovernadas (lideradas geralmente por um “Master”, “Principal”, “President” ou algo que o valha), denominadas “colleges”. Isso tem sua explicação no fato de essas universidades terem sido historicamente criadas a partir da aglomeração de instituições de ensino independentes, fundadas nas respectivas cidades. Aos colleges, necessariamente, estão vinculados todos os docentes (normalmente chamados de “fellows”) e os estudantes. Os colleges de Oxford e Cambridge, particularmente, são um misto de residência (com prédios próprios para tanto) e centro de estudos, com as chamadas “supervisões”, que complementam as aulas dadas pelos departamentos. Pelo que sei, a Universidade de Oxford possui hoje 38 colleges (além de sete “private halls”); Cambridge, 31. Alguns colleges – como o King’s, o Trinity e o St. Jonh’s em Cambridge e, em Oxford, o All Souls, o Christ Church, o St. Jonh’s e o Corpus Christi (onde tive a honra de estudar), apenas para dar alguns exemplos – são especialmente prestigiados. Alguns poucos colleges admitem apenas mulheres ou pós-graduandos. A grande maioria, entretanto, não faz qualquer distinção.

O problema é que tanto na Inglaterra como nos Estados Unidos o termo “college” é também comumente aplicado a diversas instituições de ensino superior aptas a independentemente conferir os graus acadêmicos de estilo como verdadeiras universidades. Por exemplo, é muito importante não confundir os colleges de “Oxbridge” com outros colleges, como o King’s College London – KCL, onde fiz meu PhD, que é uma verdadeira universidade, com sua organização toda própria. Todavia, é importante também frisar que o King’s College London faz parte da chamada “University of London”, que, na verdade, é uma federação de quase duas dezenas de universidades, incluindo também, por exemplo, os renomadíssimos University College London – UCL, Imperial College London (que está de saída da federação) e London School of Economics – LSE, todas estas verdadeiras universidades per si. Coisa complicada de se entender, eu devo reconhecer.

De toda sorte, caro leitor, se você for indagado sobre o que é um “college”, mas ainda estiver confuso, apenas diga que college lembra a nossa palavra “colégio” e essas coisas de ensino, aprendizado e aulas. Afinal, quem não está confuso por estes dias?

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Um pouco de fuga e muito de encontro

Na imagem, foto aérea do ato com apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em Copacabana, no Rio.

Kakay 26.abr.2024

É um momento de reflexão que alivia as angústias do dia a dia. A cada passo, parece que conseguimos nos distanciar das guerras, da violência e do ódio que hoje assolam o mundo. Corremos, muitas vezes, como quem está em fuga permanente. Um pouco de fuga e muito de encontro. Aprendi a me isolar nesses momentos quando fazia análise em Paris. Meu analista tinha seu consultório à beira do Jardin des Tuileries e, depois de cada sessão de 1 hora, vagava sozinho por mais 2 ou 3 horas. Era como se cada sessão tivesse 3 ou 4 horas.

“Perdi muito tempo até aprender que não se guarda as palavras. Ou você as fala, as escreve, ou elas te sufocam.” –Clarice Lispector Correr em Paris faz bem para a saúde e, especialmente, para o espírito. Normalmente, corro à beira do Sena e no Jardin des Tuileries. Mesmo cedinho, é interessante ver a enorme quantidade de turistas que parecem brigar por um espaço e por uma foto. Com a loucura das pessoas pelo celular, é comum ter que desviar de algum incauto que parece não notar a beleza de Paris e se ocupar tão somente da tela do WhatsApp.

São coisas que não conseguimos fazer no dia a dia comum, quando estamos em casa trabalhando. O mundo cotidiano tem uma velocidade que acaba nos distanciando de nós mesmos. Sem tempo para leitura, para não fazer nada e nem para olharmos devagar os detalhes que nos cercam. A crueza das notícias 24 horas faz mal às pessoas. Há, permanentemente, uma guerra a nos ocupar. Ou nós nos embrutecemos com as atrocidades, quase fingindo não as ver, ou, literalmente, enlouquecemos.

No Brasil, vivemos várias batalhas internas. A pobreza dominou as grandes cidades e as milhares de pessoas morando nas ruas não mais chamam a atenção. Parece que já fazem parte da arquitetura. E a irracionalidade campeia em quase todas as áreas. Em São Paulo, o governador insiste, abertamente, em apoiar a violência policial. Ao dizer, despudoradamente, que não se preocupa com a matança promovida pela sua polícia, deixa claro que essa atrocidade é para a direita e, especialmente, para a ultradireita, um capital político.
Não é preciso mais fingir que se preocupa com a crescente violência policial. Diferentemente, hoje, esse grupo de pessoas se jacta de apoiar abertamente as barbaridades cometidas em nome do Estado.
A herança maldita de 4 anos de fascismo bolsonarista tirou do armário seres que se libertaram de qualquer viés humanista. A cultura da arma de fogo, da prioridade do clube de tiro no lugar das bibliotecas, do exercício diário do machismo, do racismo e do ódio ao pobre fez com que a sociedade ficasse impregnada com um ar denso que dificulta a respiração e com uma espécie de muro que nos tolhe a visão. Hoje, vivemos permanentemente em um círculo de giz invisível, mas que nos aprisiona. E nos aniquila pouco a pouco.
E o pior é que é fácil perceber que existe um movimento mundial de valorização da ultradireita. O orgulho do brasileiro que se elegeu deputado pelo partido de extrema direita, o Chega, em Portugal, é de causar ânsia de vômito. Em recente discurso, ele disse que a Europa é para os brancos e a África, para os negros. E que vai lutar contra a imigração. E isso, pasmem, sendo ele um imigrante negro! É muito difícil discutir com quem não tem nenhum escrúpulo ou sequer um critério para se contrapor. É a valorização da mediocridade que, em nosso país, parece ter vindo para ficar.
O ataque sistemático e organizado que se faz ao Poder Judiciário, à toda evidência, faz parte desse propósito de desestabilizar a democracia. Não por acaso, trouxeram aqui o bilionário Elon Musk para atacar o ministro Alexandre de Moraes e o Supremo Tribunal. Para esses extremistas, a democracia é um perigo. Em nome de uma pretensa liberdade de expressão plena, buscam solapar as bases de uma sociedade democrática. Já cansou ver o tal Malafaia ser a voz estridente de um Bolsonaro “calado” por medo da prisão. A que ponto chegamos! Um ex-presidente da República que usa um ventríloquo patético para dizer o que não tem coragem de ele próprio falar.
É hora de colocar um final nos inquéritos, especialmente o que investiga a tentativa de golpe do 8 de Janeiro. O Brasil merece sair desse impasse que nos emparedou. Vamos julgar todos esses golpistas e dar a eles o que merecem. As guerras pelo mundo afora continuarão, a pobreza vai continuar a nos tirar o sono e a violência vai nos manter em estado de permanente alerta. Vamos tentar viver com esses fantasmas que são o espelho da sociedade moderna, mas, pelo menos, poremos fim ao fantasma do golpe e da boçalidade institucionalizada. Talvez aí a gente possa voltar a correr pelas ruas e praças de uma maneira mais leve.
Lembrando-nos do velho Pessoa:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

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Vivendo a distopia

Padre João Medeiros Filho

No Brasil atual, de um lado verifica-se um clima de arrogância, vaidade e opressão; de outro, apatia, temor e pessimismo. Em meados do século XX, alimentava-se a utopia ou o sonho de mudar os costumes e a nossa sociedade. Corria nas veias da juventude o sangue de ufanismo com seus ideais e valores. Imaginava-se um futuro próspero. O Brasil focalizava tudo no adjetivo: “novo”. Cinema novo, bossa nova etc. Hoje, vivem-se momentos de distopia, em que predominam descrédito, desânimo, mal-estar, depressão individual e social. O autor do Eclesiastes padeceu desse sentimento: “Todas essas coisas são difíceis de explicar. Mas, a vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir” (Ecl 1, 8). A Pátria amarga a omissão, leviandade e incúria, advindas de alguns filhos. Está pobre de espiritualidade e carente de Deus.

O egocentrismo domina. Cresce o isolamento das pessoas. No reino animal, os humanos talvez sejam as criaturas mais sedentas de companhia. Sua natureza requer solidariedade, por isso aproximam-se dos semelhantes. Porém, o medo e a insegurança levam ao distanciamento. Muitos manifestam desagrado e indignação diante de certas realidades e sentem-se impotentes. Raramente, é possível propor algo factível. Percebe-se um desalento, oriundo da distopia, que desencadeia radicalismo e polarização. Não raro, importam mais os sofismas e narrativas com o objetivo de desviar a atenção dos sérios e urgentes problemas nacionais.

O mundo atravessa uma crise civilizatória, dominado por ódio, sede de poder, soberba e violência. Indivíduos e grupos demonstram mais força que governantes e poderes constituídos. Será que tudo é pensado em função do acúmulo de riquezas e dominação? A natureza é massacrada. Considera-se sua preservação entrave ao progresso ou objeto de discursos demagógicos. Inverteu-se a axiologia. O homem existe em função dos planos de poucos. Não falta quem queira impor suas ideias e vontades aos demais. Isso é anticristão. Jesus não impunha, propunha. “Se alguém quiser me seguir…” (Mt 16, 21). Fala-se tanto em democracia, todavia muitos a golpeiam e tentam destruí-la. A honestidade intelectual agoniza. Felizmente, a espiritualidade sobrevive, sendo da essência da vida, altar de incontáveis valores. Contudo, busca-se um sustentáculo para o egocentrismo, a volúpia do poder e exaltação dos interesses grupais e partidários. Hoje, segmentos e projetos ideológicos têm mais importância que a Pátria. Priorizam-se esquemas partidários em detrimento de autênticas políticas públicas. Mas, há os que dão exemplo de altruísmo e fraternidade. Como não lembrar Padre João Maria, Irmã Lúcia Vieira, Irmã Dulce e tantos outros? Suas opções originaram-se da força transcendental da fé, impulsionando a caridade.

Assiste-se à mercantilização dos bens da vida, das relações sociais. Observa-se a política desprovida de sensibilidade e preocupações comunitárias. Surgem posturas maniqueístas. Declina-se do irrenunciável dever de encontrar as causas e soluções dos males. Os simplistas afirmam a necessidade de resignar-se à vontade divina e orar por um milagre. Tem-se a sensação de um Brasil em derrocada. Predomina o sentimento de incredulidade e negativismo. É a distopia, minando a estima. Muitos cristãos carecem da esperança, uma virtude teologal. Revoltam os gastos excessivos e o desperdício do dinheiro público diante da fome e da precária assistência na saúde, educação e segurança. Causa asco o cinismo dos infratores, acrescido da demagogia e politicagem com interesses espúrios. O povo fica perplexo e apoplético. Resta-lhe apenas calar-se diante da liberdade sufocada, da insegurança reinante. Presencia-se a queda dos princípios pelas conveniências, do Bem pelos bens.

A Bíblia contém vários exemplos de desalento, como o que se vive hoje. A saída não depende deste ou daquele partido. E sim da consciência e união de todo o povo, embasadas numa maneira digna e autêntica de pensar e agir, inspiradas em postulados éticos. Cristo não teve pressa em instaurar seu Reino. Adotou uma atitude que possibilita e efetiva a perseverança. Reuniu discípulos e plantou sementes de uma filosofia de vida. Esta se alicerça no amor, respeito ao outro, compaixão, solidariedade e partilha. Não se pode esquecer a verdade do salmista: “Senhor, todos os que esperam em Ti não serão confundidos” (Sl 25/24, 3). Cristo assegura-nos: “Estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 20).

Padre João Medeiros Filho