Deixem Deus de fora

Feto de plástico foi utilizado em sessão sobre aborto no Senado Federal
Geraldo Magela/Senado Federal Feto de plástico foi utilizado em sessão sobre aborto no Senado Federal

Por Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Quem começa uma conversa sobre aborto perguntando: “você é favorável ou contrário ao aborto?”  está com má-fé e se nega a ter uma reflexão séria sobre uma questão tão delicada. Obviamente, ninguém é favorável. Não se imagina uma mulher dizendo com naturalidade: “vou ali fazer um aborto e volto para almoçar”. A questão é defender o direito ao  aborto com toda a segurança proporcionada, obrigatoriamente, pelo Estado. No Brasil, só existem 3 hipóteses previstas na lei: estupro, risco à vida da mulher e feto anencéfalo.

A realidade crua e dura é constatar milhares de mulheres fazendo aborto em condições precárias, sem a assistência do Estado e com altíssimo número de mortes e mutilações. Salvo as que possuem poder econômico e se submetem ao procedimento em clínicas e hospitais particulares.

O tema mobiliza a classe política, que se acostumou a ser falsa em vários assuntos que são fundamentais para a sociedade. Na reta final do segundo turno entre Dilma e Serra, duas pessoas extremamente qualificadas, sérias, com formação humanista e compromissados com a agenda humanitária, não por acaso ambos de esquerda, por uma opção política de não contrariar os religiosos e os conservadores, nenhum deles colocou esse assunto tão delicado na pauta da campanha. Lembro-me que, decepcionado, escrevi na Folha de São Paulo, em 15 de outubro de 2010, o artigo “Eu fiz 3 abortos”. À época, ocorriam 1,1 milhão de abortos clandestinos anualmente e, a cada 2 dias, uma mulher morria. Naquele ano, passaram pela rede pública 184 mil mulheres para fazerem curetagem. E o dado era que 1, em cada 5 mulheres até 40 anos, já tinham interrompido a gravidez. Há mais de 14 anos, mais de 5 milhões de mulheres tinham passado por esse trauma.

Não escrevi com nenhuma alegria ou prazer, mas me senti na obrigação de me posicionar. Entendo que essa é a questão que passa sobre o direito de a mulher decidir sobre o corpo dela, mas é também um assunto em que o homem tem que se manifestar. Dentre outros pontos, é preciso ressaltar que o aborto é uma questão de saúde pública.

Boa parte desses que se posiciona, até de maneira agressiva, a favor de projetos repressivos na discussão sobre aborto, são hipócritas quando uma gravidez indesejada acontece. Vários recorrem a hospitais e médicos particulares para fazer o que querem criminalizar em nome de uma fé que nada tem de semelhança com Deus.

Impressionantes os números quando se fala sobre o aborto legal em caso de estupro. De cada 10 abortos, 6 são de crianças até 13 anos. Majoritariamente, negras e pobres. Meninas. Crianças. Na sua maioria, abusadas e estupradas por alguém da família. Alguém próximo. Em boa parte dos casos, a criança nem se dá conta da gestação. Só descobre depois das 22 semanas previstas no projeto do estupro. E querem criminalizar a opção de não ter um filho fruto de um estupro com pena maior do que a do estuprador. Um acinte. Um escândalo.

No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, foram feitos 2.687 abortos legais no ano passado. Desses, 600 foram realizados após a 22ª semana de gestação. As dificuldades das crianças são dantescas. Além do trauma de serem violentadas por pessoas que deveriam cuidar delas, 70% dos estupros ocorrem dentro de casa. Muitas vezes a criança sequer percebe que está grávida. Não conhece direito seu corpo, tem medo, tem vergonha e não tem com quem se consultar ou dialogar. Mesmo depois que se descobre a gravidez indesejada, fruto de um estupro criminoso e covarde, são inúmeras as dificuldades de providenciar a interrupção da gestação, que é um direto das mulheres nesse caso. Somente 2% dos municípios brasileiros oferecem uma unidade de saúde com condições técnicas de realizar o aborto legal.

A cena dantesca promovida por um senador da República, no Plenário do Senado Federal, ao levar uma mulher para interpretar um feto, envergou a todos e causou revolta. A tentativa de apoiar o  Projeto 1904/24 proporcionou uma cena teratológica e repulsiva. Infelizmente, perderam o senso do decoro e do ridículo. Com essa omissão por parte do Estado e com a política de criminalizar a mulher e a criança que é estuprada, é importante que compreendamos que esses irresponsáveis são cúmplices dos horrores que defendem em nome de Deus.

Lembrando-nos de Hilda Hilst, no Poema aos homens do nosso tempo:

“Sobre o vosso jazigo
-Homem político-
Nem compaixão, nem flores.
Apenas o escuro grito
Dos homens.

Sobre os vossos filhos
-Homem político-
A desventura
Do vosso nome.

E enquanto estiverdes
À frente da Pátria
Sobre nós, a mordaça.
E sobre nossas vidas
– Homem político-
Inexoravelmente, nossa morte.”

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Fonte: www.ultimosegundo.ig.com.br

Feminismo. Linguagem neutra

Padre João Medeiros Filho

Segundo estudiosos, o ex-presidente José Sarney deu sua parcela de contribuição para o desenvolvimento do feminismo no Brasil. Inovou no programa radiofônico “Conversa ao pé do rádio” com a saudação “brasileiros e brasileiras”. Os termos divergem do padrão oficial, em que o plural masculino é a forma literária consagrada. Nem os discursos populistas de Getúlio Vargas afastaram-se da regra clássica. Aquele dignitário dirigia-se aos ouvintes com estas palavras: “Trabalhadores do Brasil”. Sarney incluiu o feminino plural, optando pela separação. Distancia-se da norma culta do idioma pátrio, pela qual o plural masculino engloba as variantes. Até a liturgia foi atingida pelo redundante emprego de termos femininos, dispensáveis semântica e estilisticamente. Acrescentaram à tradução vernacular do “Orate frates” (Orai, irmãos) o substantivo “irmãs”. Tangidos pelos ventos do modismo e outras influências, pregadores começaram a saudar os fiéis desta forma: “Caríssimos irmãos e irmãs” ou vocativos equivalentes, inclusive em documentos. Oradores sacros de outrora primavam pelo conteúdo bíblico-teológico e forma literária. Os sermões de Padre Vieira, Frei Mont’Alverne e posteriormente Dom José Pereira Alves, Cônego Luiz e Dom Nivaldo Monte, Dom Mário Villas Boas, Dom João Portocarrero Costa etc. são ricos em sabedoria.

Decisões favoráveis ou contrárias à linguagem neutra dão azo a polêmicas, inclusive nos meios acadêmicos e literários. O recente pronunciamento do Supremo Tribunal Federal, em 10/06/24, na ação movida contra os municípios de Águas Lindas (GO) e Ibirité (MG), reproduz fundamentalmente a sentença prolatada na ADIN 7019, aos 10/02/23, declarando a inconstitucionalidade da Lei 5123/2021, oriunda do Estado de Rondônia. Questionava-se a proibição do uso da linguagem neutra em instituições escolares, vinculadas ao sistema estadual de educação. Consideram-se equivocamente língua e linguagem como realidades idênticas. Entretanto, duas novidades são verificadas no último julgamento. Um dos ministros afirma que “a linguagem neutra destoa das normas do português.” No voto, o relator alude à “competência da União para estabelecer currículos escolares.” Convém lembrar determinados dados históricos, linguísticos e jurídicos, inerentes ao tema.

A linguagem neutra rejeita o que pode remeter ao masculino ou feminino. “Adapta o português ao uso de expressões em que pessoas não binárias são representadas.” Terminações e artigos masculinos e femininos são grafados na maioria dos casos com “x”, “e” ou “@”. Tal grafia ignora a origem, história e formação das palavras na língua portuguesa. O neutro do Latim foi convertido no idioma luso-brasileiro pelo masculino. Desconsidera-se um dado relevante: o vigente Acordo Ortográfico adotado pela Comunidade de Países de Língua Portuguesa, ao qual o Brasil – após ouvir o Parlamento Nacional – se obriga a respeitá-lo, como signatário. Consiste num tratado internacional, assinado pelas dez nações que adotam oficialmente a lusofonia.

Para psicopedagogos, a linguagem neutra poderá acarretar dificuldades de aprendizagem aos portadores de dislexia e deficiência auditiva. Os defensores da linguagem neutra aludem à necessidade de mostrar nas palavras a inclusão dos diferentes. Vocábulos ou leis nem sempre realizam efetivamente a inclusão de pessoas. Importa a formação das personalidades. No Brasil, apesar da pletora de instrumentos legais, persistem exclusão e desigualdades. A norma é bem-vinda, quando consagra a consciência sociocultural autêntica. “A letra é morta. É o espírito que vivifica” (2Cor 1, 3). O evangelista João adverte: “Evitar o que pode causar divisão” (Jo 10, 19).

As decisões do STF consideram a proibição da linguagem neutra uma violação da liberdade de expressão. Reiteraram que é privativo da União legislar sobre modificações no uso do idioma e currículos acadêmicos. Para maior clareza, os textos decisórios poderiam ter deixado explícito o inverso, bem como conceituado os termos língua e linguagem. Se não é permitido proibir – em nome da liberdade de expressão – o uso da linguagem neutra, tampouco, pela mesma regra, se poderá impor o emprego dessa linguagem nas instituições de ensino. Daí, surge a questão: se os entes públicos municipais e estaduais são incompetentes para legislar sobre conteúdos curriculares e idioma nacional, grupos poderão fazê-lo? Percebe-se coercibilidade em certos movimentos. É cristalino o princípio constitucional da legalidade: “Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa, senão em virtude de lei” (CF. Art. 5º, Inciso II). Ensina-nos o apóstolo Paulo: “Estejais todos de acordo com o que falam e não haja discórdia entre vós por causa de palavras” (1Cor 1, 10).

Padre João Medeiros Filho

FAMÍLIA LOBÃO: O SILÊNCIO PARA OS INOCENTES


“De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça, de
tanto ver agigantarem-se os
poderes nas mãos dos maus, o
homem chega a desanimar da
virtude, a rir-se da honra, a ter
vergonha de ser honesto.”

Rui Barbosa

O martírio e o calvário da família Lobão começaram com uma delação fajuta de um então diretor da Petrobras. No auge da Operação Lava Jato, com todas as arbitrariedades ocorrendo sob o aplauso da grande mídia, coordenada pelo grupelho de Curitiba, um Senador por três mandatos consecutivos – ex-deputado federal por três mandatos, ex-governador, ex-ministro – era um alvo a ser servido no banquete de horrores e uma importante estratégia no plano de poder de Sérgio Moro e seus procuradores adestrados.

Quando li os pedidos de busca e apreensão percebi, de plano, as enormes mentiras do delator. À época – uma quadra de terror – bastava a palavra de um miserável delator, em regra covarde, para que a força tarefa deflagrasse pedidos de busca e apreensão e prisões. Naquela delação, o diretor apontava certo pagamento para Roseana Sarney e Edson Lobão. Entretanto, dizia que, quem teria entregado o dinheiro, teria sido o Alberto Youssef. Eu era advogado da Senadora e do Senador. Tinha sido advogado do Alberto Youssef. Conhecia a negativa dele. A contradição era grave e a delação do diretor, obviamente, imprestável. Mas eram tempos de heróis e de verdades encomendadas, num jogo de vale tudo pelo poder.

Passei a contradição para uma jornalista que, diligentemente, a publicou. Com o escancaramento da farsa, usei a matéria jornalística para pedir uma acareação entre os delatores. Algo inimaginável, pois a presunção deveria ser de um depoimento espontâneo e verdadeiro. Com a acareação, não houve outra saída senão arquivar os inquéritos em relação a Roseana e Lobão. Mas a turma da República de Curitiba, com seus tentáculos cariocas, estava com sangue na boca. Não iria aceitar a verdade. Era preciso criar novos fatos.

A partir daí, foi uma longa noite para toda a família. Com o intuito de tentar forçar uma delação, os lavajatistas viraram o foco para o filho do Senador. O empresário bem sucedido e reconhecido no mercado virou uma peça no jogo insano e sujo do poder. Depois de uma prisão, 8 mandados de busca e apreensão cumpridos, exposição midiática implacável, descobriram os heróis da Lava Jato que não haveria delação, pois nada havia para ser delatado. Até mesmo a aliança de casamento foi apreendida e jamais devolvida. As buscas se davam com metralhadoras e os filhos menores eram ameaçados com a presença ostensiva dos policiais. Por erro imperdoável, houve uma busca até na casa do sogro do Marcio Lobão, um reconhecido advogado criminal. Com
consequências trágicas que remetem à tragédia do reitor Cancellier. Uma verdadeira tragédia de horrores.

Aos poucos, nós, advogados, fomos ganhando todas as ações e, fazendo a prova negativa, comprovando a inocência dos dois.
Porém, existem questões que são incontornáveis. Até hoje, Márcio não consegue emprego. Com os bens indisponíveis durante todos esses anos, viu-se, ainda, com uma condenação acessória: foi proibido de ter conta bancária. Uma norma ilegal, imoral e inconstitucional dos compliances dos bancos fecha a porta para os investigados e expostos pela mídia. Às favas com a presunção de inocência. O investigado que se vire.

E as crueldades são infinitas. Durante as buscas e a prisão, ocorreu uma verdadeira espetacularização e uma super exposição midiática. Fazia parte da estratégia de poder lavajatista. Todas as grandes mídias usaram a força da imprensa para humilhar, prejulgar e ridicularizar a família. Agora, com a esperada, mas demorada, comprovação da inocência do Senador Lobão e de seu filho Márcio Lobão, há um silêncio cúmplice e quase envergonhado da imprensa. Para os investigados, o prejulgamento e presunção de culpa. Para os inocentes, o silêncio.

Eles se esquecem de Cecília Meireles: “
Aprendi com a primavera a deixar-me cortar, e a voltar sempre inteira.”

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

O julgamento: Operação Lava Jato no banco dos réus

Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
Agência Brasil – Conselho Nacional de Justiça (CNJ)

Na última sexta-feira, dia 7 de junho, encerrou-se o julgamento virtual do caso que analisava, no  Conselho Nacional de Justiça, a abertura de um processo administrativo contra dois desembargadores federais e dois juízes da tristemente famosa República de Curitiba. Por 10 votos a 5, em decisão histórica, prevaleceu o posicionamento do corregedor, ministro Salomão, que determinava o prosseguimento do processo até o julgamento final do mérito. E contra o voto e o empenho do Presidente do Supremo Tribunal e do CNJ. Não é pouca coisa.

Importante termos a dimensão exata do que isso significa. O CNJ não estava analisando a conduta de 4 magistrados quaisquer. O que estavaem julgamento era a  Operação Lava Jato e tudo que ela representa.

O chefe do grupo, o ex-juiz Sérgio Moro, não estava sendo julgado porque desistiu da toga e foi buscar o abrigo da imunidade parlamentar. É hoje senador e não pode mais ser submetido ao órgão de classe. Da mesma maneira, o subchefe, o ex-procurador Deltan Dallagnol, quando submetido ao Conselho Nacional do Ministério Público, órgão competente, optou por também abandonar as hostes do Ministério Público, fugindo da punição, e refugiou-se na Câmara dos Deputados. Foi abatido em plena rota de fuga, tendo seu mandato de deputado federal cassado.

Devemos levar em consideração que foi esse grupo que, por um projeto de poder, instrumentalizou o Judiciário e o Ministério Público Federal, com o apoio da grande mídia e de grupos estrangeiros, e prendeu, ilegal e inconstitucionalmente, o Presidente Lula para propiciar a vitória do fascista Bolsonaro. Sentiam-se tão poderosos que o líder deles, um juiz federal, deu ordens à Polícia Federal para descumprir a decisão de um desembargador que determinava a liberdade do Lula. Com rara ousadia, e sob o silêncio cúmplice de desembargadores do Tribunal Regional da 4ª Região, o bando arrotava o poder que tinha e desdenhava dos ritos democráticos. É o espelho do que dizia Lord Acton: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”.

Mas o melhor e mais grave ainda está por vir. A instauração do PAD, por si só, já é de extrema importância. Mesmo com as prováveis penalidades sendo brandas, o simbolismo desse caso transcende, em muito, as possíveis penas. Embora qualquer punição seja de imensa gravidade, todas as atenções agora devem estar postas na investigação da Polícia Federal. Tão logo foi finalizado o julgamento no CNJ, o relatório sobre o que ocorreu na 13ª Vara Federal de Curitiba e no TRF-4, área de domínio do grupo do Sérgio Moro, foi encaminhado à Polícia Federal.

O relatório é avassalador. Técnico. Minucioso. Cuidadoso. Corajoso por enfrentar um grupo poderoso do próprio Judiciário. Mas não se furta de apontar possíveis crimes de corrupção, prevaricação, peculato e organização criminosa. E declina os nomes dos suspeitos: Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Gabriela Hardt e outros membros da força-tarefa de Curitiba. É uma notitia criminis que será esquadrinhada pela hoje competente Polícia Federal até ser submetida ao crivo do procurador-geral da República. É o resgate da dignidade do Judiciário.

Ainda há muito a ser feito. A inspeção levada a efeito pelo competente, corajoso e sério corregedor do CNJ, ministro Salomão, indica os caminhos para um inevitável processo crime. Mas a investigação que está no gabinete do ministro do Supremo Dias Toffoli, ao que tudo indica, encontra resistência no que ainda resta do grupo da 13ª Vara Federal de Curitiba. Há notícias de que a cooperação desse grupo com o gabinete, necessária e obrigatória, está muito aquém do esperado. Exatamente por isso, o Tribunal Regional da 4ª Região, sob a batuta do senador Moro, afastou, sumariamente, o independente magistrado Eduardo Appio, então titular da vara e que começava a abrir as gavetas daquele porão imundo, deixando sair os esqueletos que tiram a paz dos que sabem o que fizeram nos verões passados.

É hora de acompanhar o trabalho de aprofundamento da investigação da Polícia Federal, em relação ao relatório do CNJ, de voltar os olhos para o gabinete do ministro Toffoli – um ministro que já demonstrou sua competência e coragem no enfrentamento dos excessos da Operação Lava Jato, sem se preocupar com a parte da mídia viúva da operação, inclusive com a determinação de retorno, por um imperativo de Justiça, do juiz Appio àquela Vara. O Judiciário merece e os jurisdicionados agradecem. O Brasil também.

Lembrando-nos de Clarice Lispector: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

É hora de reconstruir o Brasil

 

Padre João Medeiros Filho

A reconstrução pessoal ou social é inerente à história humana. O Brasil, em diferentes momentos, viveu etapas reconstrutivas. Atualmente, há interpelação da consciência cidadã e cristã sobre a necessidade de ressignificar a Pátria. A pandemia marcou a urgência de se repensar os serviços públicos. Muitos não querem admitir que o tempo pandêmico abalou vários setores da sociedade, notadamente a saúde e a educação. No mínimo, comprovou-se a sua precariedade ou ineficiência crônica. “Saúde e educação de um povo não se improvisam”, afirmou Dr. Marcolino Candau, primeiro brasileiro a dirigir a Organização Mundial da Saúde.  Os problemas socioeconômicos, políticos, educacionais, a carência de segurança alimentar para tantos, gerando desigualdade social, clamam pela reconstrução do País. Enquanto isso, o tempo precioso é ocupado com diatribes ideológicas, inócuas e deletérias, tornando o radicalismo além de agudo, crônico. Tem razão o salmista: “Se o Senhor não construir a casa, debalde trabalham os que a edificam” (Sl 127/126, 1).

Análises científicas vêm mostrando, em muitos aspectos da conjuntura sociopolítica, um processo de deterioração do tecido social. Considerações técnicas explicitam desmontes que atingem a estrutura da sociedade, cujos alicerces foram abalados: improbidades, privilégios, mentira social, demagogia, narrativas, ensaios ideológicos despropositados, descaso educacional etc. Tudo isso requer lucidez e serenidade dos cidadãos. Um velho líder potiguar comparou nossa política a “uma moça despudorada, apresentada por membros da família como uma jovem honrada e virtuosa.” Há unanimidade sobre a necessidade de intervenções urgentes para evitar que se constitua, entre nós, a verdadeira “abominação da desolação” (Dn 19, 27). Essa foi a expressão bíblica que definiu o caos reinante no povo prevaricador do Antigo Testamento. A história da Terra de Santa Cruz, não obstante percalços e vicissitudes, carece de apreço. O País detém um relevante potencial humanístico e material para se reerguer. Não pode estar em mãos equivocadas nem ser refém de inescrupulosos e oportunistas, cujo objetivo é seu projeto de poder e não de uma nação humana e justa. Não se deve apostar no “déjà vu”.

Preocupa sobremaneira o diagnóstico de nossas feridas políticas. Nossa Terra vive a carência de uma visão moderna de gestão, capaz de oferecer respostas rápidas, adequadas e atualizadas. Há de se corrigir degradações gravíssimas na educação, infraestrutura, segurança e saúde, no sistema eleitoral, na política ambiental e administração pública. É imprescindível um novo movimento civilizatório. Muitas coisas precisam ser pautadas urgentemente para retirar o País dos atrasos e marasmo. É característico no Brasil viver intensa e antecipadamente os períodos eleitorais. Nem bem acabam as eleições federais e estaduais, já se entabulam os conchavos para os pleitos municipais, ou vice-versa. Respiram-se campanhas eleitorais o tempo todo. O pior é o clima contaminado por vícios interesseiros, os quais reduzem a discussão política a nomes e pessoas, que traduzem esquemas obsoletos e perpetuadores de privilégios e erros. O que se espera dos líderes e dignitários não é uma briga medíocre e improdutiva, mas uma ampla pauta de diálogo civilizatório, incluindo especial atenção ao linguajar corrente, uso ético e produtivo das tecnologias contemporâneas.

Infelizmente, o Brasil vai se tornando um solo de narrativas em todos os segmentos e matizes ideológicos. Sepultam-se a verdade, o realismo e a honestidade intelectual. Há cada vez mais falácias, relatos desonestos e desconexos, impedindo avanços e agravando a polarização. Convive-se com falas fora dos trilhos, incompatíveis com os cargos ocupados, comprometendo a seriedade dos poderes e instituições. Não raro, discursos e pronunciamentos geram desentendimentos, acarretando intransigências, reforçando radicalizações, alimentando medos, minando a paz social. Na tarefa de reconstruir a Nação, mister se faz investir em palavras que iluminem e apaziguem pela verdade que transmitem. É preciso respeitar autoridades e direitos, salvaguardar a Pátria com políticas sensatas, varrer os cenários da vergonhosa desigualdade social, garantir a vigência de valores e princípios inegociáveis. Assim é possível reconstruir verdadeiramente nosso torrão natal. Nisto consiste a recomendação bíblica, interpretada apenas do ponto de vista demográfico: “Crescei e multiplicai-vos” (Gn 9, 7). Crescer em dignidade e grandeza humana. Multiplicar o bem-estar social dos filhos de Deus! “Feliz é a nação, cujo Deus é o Senhor” (Sl 33/32, 12).

À cata do vento

Marcelo Alves Dias de Souza Procurador Regional da República Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

Na região londrina de South Kensington – bairro chique, por sinal –, precisamente no encontro da Cromwell Road com a Exhibition Road, ficam alguns dos melhores museus da capital do Reino Unido: o Victoria and Albert Museum (o maior e melhor museu de artes decorativas do Mundo, posso afirmar), o Natural History Museum e o Science Museum.

Na nossa estada em Londres para o feriado de Páscoa, decidimos levar o pequeno João, em dias encarrilhados, para conhecer dois desses museus, o de História Natural e o de Ciências. Tenho certeza de que, por mais maravilhoso que seja o Victoria and Albert Museum, João, com os seus cinco anos ainda incompletos, não está muito interessado em arte decorativa.

O Natural History Museum, começando pelo belíssimo prédio, é fantástico. É programa para toda a família, com seus dinossauros gigantes, suas baleias e outros grandes mamíferos, seus vulcões e meteoros e uma infinidade de coisas mais. Algumas atrações são “de verdade”; outras, claro, como um insólito terremoto, simulações. Tudo é muito explicadinho. Instrutivo mesmo. A pegada do Science Museum é a mesma, apenas direcionado para a ciência do homem. Invenções de todo tipo, casa, carros, navios, aviões e computadores, viagens espaciais, energias sustentáveis, conquistas da matemática e da medicina, laboratórios ilustrativos e muito mais, tudo junto mas não misturado. Muito interativo para as crianças. A visitação a ambos é gratuita. Maravilha!

Aproveitamos bastante – João, em especial – os passeios. Chegar aos museus é facílimo. A estação do tube de South Kensington é bem pertinho das atrações. Curtimos toda a tarde do nosso primeiro dia em Londres no Museu de História Natural. Já na manhã do segundo dia, que passamos no Museu de Ciências, nos livramos, agradavelmente abrigados e distraídos, de uma daquelas inconvenientes chuvas londrinas. Saímos quando o céu deu uma trégua. A rua ao derredor da estação de metrô é simpaticíssima. Cheia de pequenos restaurantes. Comemos uma massa. João devorou suas batatas fritas. Eu ainda achei uma pequena mas charmosa livraria, a South Kensington Books, onde comprei um livro de divulgação científica (gênero literário que adoro), “Scientifica Historica: how the world’s great science books chart the history of knowledge” (Ivy Press, 2019), de Brian Clegg. Deu tudo certíssimo.     

Mas o meu objetivo hoje não é bem elogiar – ou não é só esse – as visitas aos museus londrinos. Quero aqui muito mais “protestar” em prol de um museu brasileiro, sito em São Paulo capital, que, asseguro, pouco deixa a desejar aos congêneres estrangeiros: o Museu Catavento, inaugurado em 2009, também dedicado às ciências e à sua divulgação.

A excelência do Museu Catavento começa pelo seu prédio, o outrora Palácio das Indústrias, depois sede da prefeitura, que é belíssimo. Lá uma exposição conta a história da edificação. Mas o seu acervo também é maravilhoso. Gigante. Tem de tudo: planetas e estrelas, vulcões e terremotos, aviões e submarinos, ciência, educação e interatividade. É um espaço do poder público, administrado – e muitíssimo bem cuidado – pelo estado de São Paulo. E a entrada é gratuita. Viva!

Entretanto, talvez pelo nosso alegado “complexo de vira-lata”, é comum enaltecermos –  e visitarmos, se nos dada a oportunidade – apenas os museus estrangeiros. O que é nosso é desmerecido e até mesmo desconhecido. Eu mesmo, tendo morado/estudado em São Paulo, até outro dia sequer tinha ouvido falar do Museu Catavento. Só ficamos sabendo da sua existência por intermédio de um amigo de Natal que havia acabado de levar o filho lá.

De toda sorte, o pequeno João nos deu mais uma lição. Na sua inocência, acho que ele gostou muito mais do museu paulistano do que dos congêneres londrinos. Lembro-me dele pulando da Terra para o Sol, metendo a mão nos meteoros e de cabelos em pé na sua experiência com a eletricidade. Talvez porque intuitivamente entendendo o português ali escrito e falado, ele estava mais feliz – aliás, curioso e excitado talvez sejam termos mais justos. No nosso museu, ele correu solto à cata do vento e das suas muitas histórias. 

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

É chegado o tempo da justiça

Foto: divulgação
Por Kakay
O tempo do Judiciário, evidentemente, não é o mesmo da imprensa e da opinião pública. Ele é um poder inerte e só age se provocado. Ao investigar um crime, a polícia e o Ministério Público se encarregam de, cada um no seu espaço, tentar provar a devida responsabilidade de quem pode vir a ser denunciado. Após a colheita de elementos suficientes de autoria e materialidade, cabe ao Ministério Público apresentar a peça formal de acusação. Somente aí começa, de fato, o processo criminal.
Costumo dizer que o procurador-geral da República, com assento no Supremo Tribunal, detém poderes imperiais e, de certa forma, tem um poder maior do que os próprios ministros em matéria criminal, pois, sendo o dominus litis, só ele pode propor o início de uma ação penal. Se quedar inerte, o processo penal não poderá ser levado adiante. Em casos de grande repercussão midiática, muitas vezes, esse tempo age contra a expectativa do público em geral. Em um processo penal democrático, há, sempre, que se respeitar o devido processo, a ampla defesa, o contraditório e a presunção de inocência. Por isso, em regra, o processo penal tende a ser demorado.
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No caso da tentativa de ruptura institucional que ocorreu em 8 de janeiro, várias questões devem ser levadas em consideração. Quando ocorreu o levante golpista, houve uma reação imediata das forças democráticas e houve várias e corretas prisões em flagrante. No dia do golpe, foram presas 243 pessoas. No dia seguinte, 9 de janeiro, outras 1152 foram encarceradas. E, ao longo do desdobramento da Operação Lesa Pátria, outras 35 foram detidas. Ao todo, o STF já condenou mais de 200 pessoas, a maioria pelo crime de tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e de golpe de Estado. As penas chegam a assustadores 17 anos de reclusão.
O Supremo já validou centenas de acordos de não persecução para aqueles que não praticaram atos de violência e a Procuradoria avalia, ainda, mais de mil outros. Enquanto isso, a competente e eficaz Polícia Federal segue fazendo uma investigação técnica para apontar os responsáveis pela ousada e desastrada tentativa de ruptura institucional. Nunca é demais frisar que foi o Poder Judiciário, especialmente o Supremo Tribunal, que garantiu a estabilidade democrática.
Ocorre que, passados 17 meses do dia da infâmia, com dezenas de pessoas presas e condenadas, uma natural inquietação começa a tomar corpo na sociedade: quando serão responsabilizados os grandes financiadores, os militares, os generais, os políticos e, especialmente, o ex-Presidente da República? A prisão dos pretendentes a terroristas só faz sentido se os mentores forem igualmente processados e condenados.
A ultradireita semeou o ódio, a violência e dividiu o país. Ousou investir contra as instituições democráticas. Os idiotas terraplanistas acreditaram nos planos negacionistas e golpistas do mito Jair Bolsonaro. Enquanto amargam a crueza do cárcere, em um sistema penitenciário falido, o grupo que organizou o golpe segue fazendo política e rindo do país.
Já passa da hora de relatar esses inquéritos, de terminar as investigações e responsabilizar criminalmente os que se beneficiariam com a implantação de uma Ditadura. O Brasil merece virar essa página e eliminar os fantasmas que insistem em continuar ameaçando a estabilidade democrática. É mais que chegada a hora de o tempo do Judiciário ser o tempo da Justiça. O país e a Democracia agradecem.
E para não esquecer o grande Rui Barbosa:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
www.odia.ig.com.br

A vida dá, nega e tira!

O advogado crimnalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay

Moro chega ao Supremo!

O Senador Sérgio Moro, que envergonhou a toga aceitando ser Ministro da Justiça do governo fascista que ajudou a eleger eleger ao prender ilegalmente o LULA , tinha como recompensa pelo ato ilícito, criminoso, ser nomeado Ministro do Supremo. A vida surpreende. Hoje ele chegou ao Supremo Tribunal: como réu!

No mesmo dia que uma procuradora da República, que ele chefiava na exdrúxula Operação lavajato, é punida pelo CNMP.

Eles terão uma longa caminhada de processos criminais. Vamos assegurar a todos os direitos constitucionais que eles negavam aos réus ao fazer política na República de Curitiba. Devido processo legal, ampla defesa e presunção de inocência. Que sejam recolhidos ao cárcere só após o trânsito em julgado das sentenças que , fatalmente, virão.

O trabalho que fizemos em defesa da Constituição,que eles desrespeitavam, têm que servir a eles.

La vie n’est pas un grand fleuve tranquile

Kakay

O medo e a fé

Padre João Medeiros Filho

Segundo Santo Ambrósio: “O medo é a ausência de Deus”. Lembrava a seus diocesanos a certeza do salmista: “Mesmo que tenha de percorrer um vale de sombras, não temerei os males, porque estás comigo” (Sl 23/22,4). Fernando Sabino aconselhava: “Fazer da interrupção um caminho novo; da queda, um passo de dança e, do medo, uma escada”. O ser humano, diferentemente de outros animais, por sua natureza, é medroso. Philippe Ariès e Jean Delumeau estudaram esse fenômeno e o tratamento dado pelos religiosos. Ariès declara: “O homem é o único ser no mundo a viver constantemente apavorado, quando está só. E a solidão maior é a falta de Deus”. O pavor tem um lado pernicioso, enquanto paralisa as pessoas. Não raro, é usado como arma de controle; triste, quando a dominação parte das religiões.

No mundo antigo, o medo estava ligado às divindades. Os gregos adoravam Deimos e Fobos, deuses do terror e pânico, respectivamente. Segundo Hesíodo, ambos são irmãos gêmeos, filhos de Ares e Afrodite. Eram cultuados pelos helênicos, que lhes suplicavam e deviam favores. A Europa da Idade Média temeu as pestes que dizimaram populações inteiras, sendo as mais importantes a bubônica e a de Marselha. Tais epidemias e guerras criaram situações alarmantes para as populações. Não foi diferente conosco, durante a pandemia, acompanhada de uma polêmica e beligerância político-ideológica. Ao longo da história, outras realidades aterrorizaram as pessoas: o mar, o diabo, as tempestades, o credo. No medievo, ganhou destaque o receio da forca ou fogueira inquisitorial. Havia igualmente a ameaça do Juízo Final. Para a fúria da Inquisição, havia nomes e faces: hereges, bruxos, feiticeiros etc.

O temor faz parte da natureza humana, sua limitação e fragilidade. Todavia, uma das preocupações de Jesus foi ensinar aos discípulos como vencê-lo. Aliás, isso perpassa pelas páginas da Bíblia. A fé proclama: “Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre encontrado nos perigos” (Sl 46/45,1). O apóstolo Paulo afirma: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31). Há episódios marcantes na história do cristianismo sobre essa realidade. Quando Jesus nasceu, o anjo proclamou: “Não temais. Eu vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10). O Ressuscitado neutraliza, em cada aparição, a inquietação e a angústia dos discípulos. Em diversos momentos de sua existência terrena, procurou encorajar seus seguidores.

Após multiplicar os pães e rezar na montanha, Jesus aparece caminhando sobre as águas do mar da Galileia. Pensavam tratar-se de um fantasma. Pedro vai ao seu encontro e começa a naufragar. Cristo toma-o pela mão e tranquiliza os discípulos: “Tende confiança, sou eu, não temais” (Mt 14,27). Há pavor diante da morte, doença, violência, desemprego etc. Isso resulta da pequenez ou tibieza de nossa fé. O caminhar de Jesus sobre as águas é sinal de que Ele nos ajuda a superar as adversidades. O “sou eu” significa Deus afirmando que nos liberta do sofrimento, da dor e opressão. Pedro tem fé ao chamar Cristo de Senhor, mas ela é ainda fraca. Como uma criança que começa a ensaiar seus primeiros passos, o Mestre lhe diz: “Vem!”. E estende a sua mão para Pedro andar sobre o mar. A fé nos acalma e aproxima de Deus. Sem Ele, brota a violência, que leva ao medo. Esse é causado por aqueles que estão vazios de Deus. Os temerosos creem pouco.

Vale citar o autor da Carta aos Hebreus: “O Senhor é meu auxílio, jamais temerei, que mal me poderá fazer o ser humano?” (Hb 13,6). O inesquecível Dom Nivaldo Monte repetia nas homilias e palestras: “O cristianismo não é a religião do pavor, mas da esperança e do amor.” Deus nos ama. Alguns religiosos disseminam a deletéria teologia o evangelho do pânico, que ignoram a inefável benignidade e misericórdia divina. O cristianismo se contrapõe à doutrina ameaçadora. Em Jesus Cristo e por Ele, o ser humano é liberto da escravidão do pecado e domínio do Mal. Eis o que está escrito no profeta Isaías: “Não temas, porque Eu estou contigo; não te assombres, porque sou teu Deus; Eu te fortaleço, te ajudo e te sustento com a destra da minha justiça” (Is 41,10).

Padre João Medeiros Filho

Mãe: o doce silêncio da ausência

Kakay 31.mai.2024 (sexta-feira) – 5h59
“No descomeço era o verbo. Só depois é que veio o delírio do verbo.”
–Manoel de Barros, “Livro das Ignorãças”
Há momentos na vida em que muitos atos relegados à insignificância tomam corpo e sentido. Lembrar o que fizemos ontem é o óbvio e só merece destaque quando o esquecimento se faz presente. Esquecer é algo sem importância, salvo quando vira perigosa regra.

O dia a dia de quem a gente ama tem outra cor com o esquecimento. E é estranho, com um simples observar, sem profundidade, nem ciência, quando o esquecimento vem acompanhado de um olhar perdido. Não se sabe se de angústia, de busca ou de um alheamento que tem um quê de cansaço e dor. Parece sabedoria. Difícil para quem pensa que está lúcido entender esse outro espaço do que parece ser uma não lucidez.

Não há nada mais cruel, doloroso até, do que o espaço entre a tal lucidez e a perda dela. Depois que o esquecimento se instala, todos, aparentemente, sofrem menos. Somos adaptados, de fábrica, na luta pela sobrevivência, pois temos um kit emergência. Quando o problema se apresenta, enfrentamos. Quando acreditamos que há saída, o caminho é muito sofrido. Mas nós nos apresentamos. E o esquecimento não se define assim, de pronto. É traiçoeiro e insinuante. Vem aos poucos e nos engana com pequenas memórias, saudadas quase como milagre. Também nós, aparentemente lúcidos, precisamos desses respiros de memória e comemoração. Na verdade, essa doença assusta a todos que nos vemos nela com uma projeção macabra.
Digo que sofremos menos até o inevitável acontecer, pois precisamos nos manter lúcidos. Enquanto a tal névoa está baixando e deixando os olhos opacos, todos nós nos negamos a acreditar. E é incrível a minha experiência com a maturidade do amor nessa hora.

A falta do diálogo deixa de ser falta e a presença nos basta. Os casos antigos não mais contados continuam a nos aconchegar silenciosamente. O silêncio amoroso é uma companhia sempre acolhedora. O beijo fugaz. O olhar repentino. Às vezes, a memória de uma insignificância. Tudo nos remete a Sophia de Mello Breyner Andresen, no lindo poema Ausência:
“Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda que a tua.”.

Difícil entender o que contém naquele olhar perdido, antes tão claro e tão lúcido. Impossível entender o silêncio da ausência com quem sempre tinha um caminho a contar, um carinho explicitado. Um amor materializado nas palavras doces que só a mãe pode ter. E, especialmente, um silêncio do sorriso que não se negava. Afeto puro. Esse sorriso ainda hoje existe quando ela parece querer nos pegar no colo. E nos abraça com um sorriso que ilumina a vida. Lembro-me do meu poeta amado, Leão de Formosa: “É a única deusa viva do meu culto, a única mulher que quero ver no céu”.
Não sei se é consolo saber que toda essa dor e falta vêm de anos acumulados de amor, alegria, camaradagem, carinho e cumplicidade sem limites. O que mais me faz falta é exatamente esse excesso que vivi. Excesso que justifica a vida e que explica o vazio. Não sei em que lugar foi habitar tanta doçura, amor, solidariedade e carinho. Meu maior espanto é, às vezes, querer seguir o seu olhar perdido e, docemente, me perder. Para encontrá-la.
Lembrando-nos de Mia Couto: “Antes de dormirmos a mãe vinha esticar os lençóis que era um modo de beijar o nosso sono”.

Foto reprodução: O advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay

Para o mundo que eu quero descer

Foto: reprodução – O advogado criminalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay
Está cada vez mais difícil viver neste mundo. Para quem insiste em ser lúcido e tenta manter viva uma formação humanista, o ar está cada vez mais denso e a respiração fica como se tivesse um nó na garganta. A cada dia, acumula-se uma saraivada de novos desastres de todo tipo.
O massacre diário do povo palestino quase saiu do noticiário. É como se, em um processo natural de defesa, nós apagássemos da realidade toda e qualquer notícia do genocídio diário. No dia a dia, acompanhar os bombardeios e as mortes de crianças e de mulheres faz com que cada um de nós encontre rotas de fuga para preservar a sanidade.
Foi assim com os ataques sistemáticos à Ucrânia. No início, era preciso observar os milhões de ucranianos perambulando sem rumo tentando sobreviver. Os estupros, as torturas e as mortes entravam em nossos lares causando revolta e ódio. Com o tempo, muitos optaram por se afastar dos meios de comunicação. Como se, ao apertar o controle remoto, a guerra deixasse de existir.
Em Gaza, o sistema de proteção à saúde mental começa a dar sinais de fadiga. Logo após o Tribunal de Haia ter determinado que os ataques a Rafah cessassem imediatamente, Israel fez 60 ataques em 48 horas, matando, no mínimo, 45 pessoas que tentavam se refugiar. E em um local onde Israel havia indicado ser seguro para quem fugia: um campo da ONU na Faixa de Gaza. Foi uma covardia, as pessoas foram carbonizadas. O ultradireitista Benjamin Netanyahu teve o desplante de dizer que foi um “acidente trágico”.
E vai piorar.
Há um crescimento muito forte da extrema-direita em todo o mundo. A fúria do governo Bolsonaro contra a legislação e contra os órgãos de proteção ao meio ambiente é, sem dúvida, uma das causas da tragédia no Rio Grande do Sul. O verdadeiro desmonte que, dolosamente, deu-se nas regras de proteção veio como consequência da determinação de “passar a boiada”. Essa ultradireita predatória visa sempre ao lucro rápido e a qualquer custo. Mesmo que isso signifique colocar em risco a própria vida na Terra.
Sem nenhum organismo internacional que tenha realmente eficácia, o sanguinário Netanyahu segue com seu propósito de extirpar os palestinos da face da Terra. Sem nenhuma consciência do mal que espalham, os ultradireitistas crescem em cima de um discurso e de uma prática de extermínio da natureza, do pobre e do preto.
Qualquer análise sob o prisma humanista do cotidiano no mundo acaba virando uma teia de aranha aparentemente sem um rumo, um fio condutor. Mas o pior é que tudo está envolvido em uma teia invisível que sufoca qualquer proposta humanitária. A direita ensandecida colocou tudo na mesma panela de pressão: a falta de cuidado com o meio ambiente, as políticas assassinas contra o invisível social, as guerras de ocupação que se espalham, a venda desenfreada de armas, a propagação das fake news como maneira de fazer política, o fortalecimento das políticas racistas e misóginas, o cerco obsceno aos imigrantes, o crescimento da fome, da miséria e das desigualdades, enfim, o mundo caminha para um esgotamento perigoso.
Nesse ritmo, não será suficiente as pessoas simplesmente desligarem o noticiário para escapar da realidade. Vai ser impossível viver fugindo de tanta desgraça e de nós mesmos. Ou mudamos a rota de terror dessa política nefasta ultradireitista, ou seremos tragados pela insanidade que destrói, aos poucos, a humanidade em cada um de nós.
Como disse o imortal José Saramago: “Não é a pornografia que é obscena, é a fome que é obscena”.
Com a observação do grande Miguel Torga: “O mal de quem apaga as estrelas é não se lembrar de que não é com candeias que se ilumina a vida”.
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

“Tão sublime Sacramento”

Padre João Medeiros Filho

Este cântico litúrgico é a parte final do hino eucarístico “Pange Lingua”, composto, em 1264, por Santo Tomás de Aquino para a festa de “Corpus Christi, a pedido do Papa Urbano IV. Esta música sacra, apresentada em canto gregoriano ou polifonia, marcou a vida espiritual de muitos. O compositor brasileiro Toquinho, parceiro de Vinicius de Moraes, ainda hoje se encanta e se emociona, ao recordar a melodia tocada por Padre Romano, organista do Liceu Salesiano do Coração de Jesus (São Paulo), onde estudou. No Seridó, a interpretação musical do Maestro Felinto Lúcio comove, de modo especial, os fiéis na Bênção do Santíssimo Sacramento. A partitura do eminente seridoense é executada na Basílica de São Pedro (Vaticano), graças a nosso conterrâneo Monsenhor Flávio José de Medeiros Filho.

Plantão permanente da eterna solidariedade de Deus é o Pão Eucarístico, meiguice de um Pai, que nos envia um Irmão para dialogar conosco. Ele assegurou-nos: “Quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). A Eucaristia é a espera de Deus por nós, abraço divino que nos é reservado. Beijo carinhoso de um Pai cheio de bondade, que no silêncio da Hóstia nos mostra seu amor misericordioso. Eis o gesto augusto da presença celestial, temporalizada no mistério da Encarnação. Cristo quis se unir à humanidade e revelar que ela tem um valor infinito, não obstante as suas limitações. Um dia, Deus em sua inefável benignidade nos perfilhou.

A Encarnação é uma incomensurável prova de amor de Deus. Mas, Ele quis ir além. Complementou misteriosamente sua prodigalidade no Sacramento do Altar. Ele se dá ainda mais, transformando elementos materiais em símbolos de sua pessoa. Consagra o universo, através dos três elementos que o representam: pão, vinho e água. A matéria inanimada torna-se suporte da divindade de Cristo ali presente, porém latente. Graças à fé, pode-se sentir essa teofania de Jesus, concedida por Deus aos filhos adotados. Por isso, exclamou Tomás de Aquino: “Ainda que o sentido falhe, a fé basta para confirmar o coração sincero.”

A profecia de Isaías, retomada pelo Mestre, no Evangelho de João, afirma: “Todos que tendes sede, vinde à água. Vós, os que não tendes dinheiro, vinde, comprai e comei; comprai, sem dinheiro e sem pagar, vinho e leite” (cf. Is 55,1 e Jo 7,37). Alude ao alimento espiritual que Jesus oferece com seu Corpo e Sangue. É verdade que temos sede de justiça e do próprio Deus, às vezes, aparentemente, tão distante de nossos sentimentos e vidas. A Eucaristia sacia a nossa fome de valores maiores. Quem tem saudades de Cristo, vai buscá-Lo na beleza dessa presença silenciosa. E, embora sem falar, Ele deixa sua graça penetrar no íntimo de cada um que se achega a Ele para mitigar todo tipo de fome e sede. A Eucaristia é o pão dos viandantes, o viático na dimensão semântica do termo. Não apenas para os enfermos, mas, sobretudo para os caminhantes. Vale citar as palavras dirigidas ao profeta Elias, cansado, deprimido, como muitos de nós, em certos momentos da vida: “Levanta-te e come, porque ainda tens um caminho longo a percorrer” (1Rs 19, 7).

“Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18), largados à própria sorte, garantiu-nos o Senhor. A Eucaristia é Cristo em nós. A caminhada solitária é difícil. Por esse motivo, Cristo quis conviver conosco. A dimensão do diálogo é importante. Assim sendo, Jesus legou-nos esse memorial, sinal de sua companhia. Não querendo que padecêssemos de solidão ou abandono, fez-se Pão e permanência. O “Sublime Sacramento” é antecipação do banquete da eternidade, no qual gozaremos o definitivo de nossa história. Deus, por Cristo, abranda em nós as saudades do Eterno. Extasia-nos um mistério tão admirável! Apesar de suas interrogações, os fiéis encontrarão paz na intimidade eucarística. Sustentados pela fé, que ilumina os nossos passos na noite da dúvida e das dificuldades, pode-se proclamar, como fizera o saudoso Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, quando pároco de Currais Novos: “Rei eterno, ó Deus humanado, suplicamos aos céus com fervor. Glória a Ti, ó Jesus escondido, ó mistério querido, ó milagre sublime de amor!” (Hino do Congresso Eucarístico Paroquial, outubro de 1937).

A passagem secreta

Marcelo Alves Dias de Souza Procurador Regional da República Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

A Daunt Books, na região londrina de Marylebone, é uma belíssima livraria. Como comércio de livros, em princípio especializado em literatura de viagem, foi fundada em 1990, por James Daunt, um banqueiro também craque no ramo livresco, que depois foi trabalhar para as gigantes redes Waterstones (do Reino Unido) e Barnes & Noble (dos EUA). A Daunt Books virou uma pequena rede de livrarias, menos de dez no total, das quais eu estou lembrado de conhecer apenas a matriz em Marylebone, por sinal um bairro chique e muito aprazível da capital do Reino Unido. Acho que tenho uma das belas sacolas da rede – chamadas de tote bags –, das quais eles são, justificadamente, muito orgulhosos.

De toda sorte, fui poucas vezes à Daunt Books quando do meu período de estudos em Londres. Não era tão perto dos locais onde morei e, quase sempre, nas minhas vizinhanças, havia opções, digamos, mais convenientes. Mas, desta feita, hospedado por cinco noites no The Cumberland Hotel, nas abas de Marylebone, decidi alegremente me aventurar por esse comércio de livros. A mãe de João tinha ido fazer as compras de estilo na Oxford Street. Eu fiquei com o nosso pequeno. Então, passearia com ele na Marylebone High Street, rua agradabilíssima por sinal, cheia de lojas, restaurantes e gente, levaria ele na livraria e, quem sabe, dando tempo, ainda chegaríamos à estação de trens de Paddington, para ver o famoso urso – sua estátua, na verdade – chamado… Paddington.

O passeio pela Marylebone High Street foi divertidíssimo. Era uma manhã de sol – o que é sempre algo a se comemorar no abril londrino. Ia empurrando o carrinho de João. Ele com suas perguntas, que eu tentava – e ainda tento – responder da melhor forma possível. Olhamos muitas vitrines. Entramos em um par de lojas. Tomei um café. Dei o lanche de João. E chegamos à livraria.

A Daunt Books de Marylebone, que ocupa o prédio de uma antiga livraria da era eduardiana, é mesmo muito bonita. Embora mais simples, o seu interior lembra a famosa Livraria Lello do Porto. O trabalho em madeira escura nas estantes, nas balaustradas do andar superior, nos corrimãos e na escada que dá para o subsolo é realmente digno de nota. Belíssimo. A enorme janela/vitral no fundo da loja é encantadora. O teto envidraçado ilumina a nossa estada. Outrora especializada em livros de viagem, é hoje uma livraria bastante generalista. Seu acervo é bom. Muito melhor do que o da Lello, por sinal. E bem sistematizado. A livraria parece viver cheia. Tinha bastante gente no dia em que estivemos lá. Mas não eram “turistas”, tirando fotos para todos os lados, como no caso do comércio do Porto. Pareciam “locais” e realmente amantes de livros.

Pelo que me recordo, nada comprei. Mas algo deveras inusitado aconteceu. Uma lição, posso dizer. João insistiu em descer a bela escada de madeira, que dava para o andar mais baixo da livraria, onde ele afirmava haver uma passagem secreta. Tirei João do carrinho, que deixei atrapalhando o trânsito no andar térreo, e, carregando o requerente nos braços, nos aventuramos pelo subsolo, onde havia muitos livros, entre eles os de criança. Subimos depois de um tempo. Cheguei a colocar João de volta no carrinho. Mas ele pediu de novo para descer as escadas, com o mesmo argumento de que havia a tal passagem secreta. Desci já com um misto de cansado e encafifado. Demoramos mais um tempo e, para desgosto de João, subimos. Esse desce e sobe se repetiu mais uma vez. Foi aí que eu percebi haver deixado o carrinho de João verdadeiramente impedindo o trânsito dos leitores. Em especial, pedi desculpas a uma mulher que, curvada sobre o carrinho, tentava consultar a prateleira dos livros de filosofia. Envergonhado, colocando a responsabilidade no pequeno, disse: “É a imaginação dele. Insiste que descendo as escadas tem uma passagem secreta”. Ao que ela respondeu: “Mas tem ele razão. Lá está cheio de livros”.

Ainda hoje me pergunto o que João encontrou na sua passagem secreta…

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL
Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras – ANRL

O que de humano ainda resta em nós

Reprodução:O advogado crimnalista Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay

Kakay – 24.mai.2024

“Nós somos homens, Filipe, e vivemos quase como máquinas. Essa ânsia de progredir, de acumular dinheiro, de construir, faz a gente esquecer o que tem de humano.”

–Érico Veríssimo, “Olhai os Lírios do Campo”.

Para quem não é político e analisa de longe a cena brasileira, às vezes é exasperante observar um acúmulo de falsidades e de absurdos. A tragédia que se abateu sobre o Rio Grande do Sul deveria ter unido, por solidariedade e visão humanitária, todos os brasileiros. Porém, o que ocorre na cobertura da verdadeira catástrofe que assolou os gaúchos é de desafiar qualquer cientista político. As contradições que podemos constatar chegam a causar perplexidade.
Lula em visita a abrigo em São Leopoldo (RS) consola mulher que perdeu bens em enchentes no Rio Grande do Sul
É interessante, até emocionante, ver a enorme corrente de generosidade que abraçou o país. De todos os lados, o que se vê são pessoas, ou grupos, buscando maneiras de demonstrar empatia. É extraordinária a quantidade de doações, das mais diversas formas.

Estão sendo recolhidos roupas, colchonetes, água potável e itens alimentícios não-perecíveis

Em dinheiro, em materiais diversos, em água, em comida, em colchão, em presença física nos salvamentos, enfim, todos se reinventado para salvar vidas e minorar dores. Algo que faz com que certa crença na humanidade volte a habitar os corações antes fechados pelo frio da desilusão.

Por outro lado, é surpreendente ver certas reações de algumas pessoas de lá, especialmente dos políticos e de parte da mídia. No meio de uma das maiores catástrofes já ocorridas no Brasil, é incrível a cara de pau de certos políticos, que colocaram seus mandatos e seu prestígio contra as medidas preventivas para impedir o desastre e ainda tiveram a ousadia de propor a prorrogação dos mandatos. Oportunistas baratos.

Seria quase um prêmio pelo extremo desprezo e pela falta de zelo no trato com a segurança ambiental. Ou seja, em vez de serem investigados e processados pela omissão, ou pela ação predatória, seriam recompensados pela irresponsabilidade. De novo, remeto-me ao gaúcho Érico Veríssimo:

“Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. (…) De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles?”.

Paralelamente a isso, é estarrecedor ver o solene desprezo com que se trata o enorme e gigantesco esforço dedicado à crise pelo governo federal. Penso ser essa uma obrigação do governo. Mas é admirável ver o senso absolutamente republicano com que tem se portado a gestão do presidente Lula.

Todos os esforços, sem poupar ajuda financeira ou humanitária, foram enviados pelo governo federal. No entanto, parte da mídia e dos políticos locais agem como se todo o trabalho fosse dos órgãos estaduais. Omitem. Mentem. Escondem. Felizmente, o presidente Lula age de maneira apartidária e se envolve, inclusive pessoalmente, na política de reconstrução do Estado gaúcho.

Mas não é só essa guerra surda e baixa de parte dos políticos. Não vejo, e quero estar enganado, as associações de classe do Estado, as cooperativas fortes do famoso agronegócio, as empresas e os grupos empresariais se manifestarem em solidariedade e agradecimento expresso ao enorme esforço do Estado federal.

Enfim, enquanto o governo federal abraça a causa da solidariedade e da reconstrução do Rio Grande, em boa parte internamente, não é criado um ambiente de confraternização nacional. E o governo Lula, tíbio em matéria de divulgação do que faz, só mostra pequenos filmes do presidente com as pessoas em situação de desespero e miséria. É bonito. Emociona. Mas não reflete a realidade do compromisso do governo federal com a catástrofe. É muito pouco frente ao grande trabalho que estão fazendo.
Por isso, é necessário o poder federal dizer a que veio. Informar e prestar contas é, sem dúvida, uma obrigação de qualquer autoridade. Até para que possamos cobrar é preciso que, especialmente nas crises, mas em regra no dia a dia, o cidadão possa acompanhar para onde anda a humanidade. Nos momentos em que a água fez uma população ser tragada pela desgraça, é imprescindível acreditar que podemos sair mais fortes dessa tormenta.
Como nos lembrou o gaúcho Mário Quintana:
“O que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono.
O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente”.
Poder 360

Moro para Moro: teje preso!

Moro para Moro: teje preso!
Lula Marques/ Agência Brasil – 09/04/2024

Eu julgava que, após a desmoralização da República de Curitiba, não seria necessário enfrentar novamente a desastrada e criminosa Operação Lava Jato. Com o julgamento da parcialidade do  ex-juiz Sérgio Moro, bem como com a declaração de incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba e a consequente anulação de vários processos, o então rei do  Judiciário ficou nu. Ocorre que, com a comemoração dos 10 anos da malfadada Operação, os holofotes se voltaram outra vez para a análise dos erros, dos crimes e dos acordos lamentáveis feitos pelo grupo que coordenou “o maior escândalo judicial da nossa história” e que “terminou como uma verdadeira organizadora criminosa” , nas palavras abalizadas do ministro do Supremo Tribunal Gilmar Mendes.

O relatório apresentado pelo ministro Salomão, corregedor do CNJ, sobre o que ocorreu na tristemente famosa República de Curitiba foi avassalador. O documento aponta “hipótese criminal” de desvio de dinheiro público com o suposto envolvimento dos líderes do que seria, nas palavras do ministro Gilmar, uma verdadeira organização criminosa. E apresenta, aberta e claramente, como responsáveis os nomes do ex-magistrado Sérgio Moro, do ex-procurador da República Deltan Dallagnol e de outros membros do Judiciário e integrantes da força-tarefa.

Ao falar em “gestão caótica” levada a cabo nos processos coordenados pela República de Curitiba, o documento desnuda a articulação, inclusive com o auxílio de “autoridades americanas,” e a teratológica criação de uma fundação privada de, no início, 2 bilhões de reais. Tudo sob a supervisão da juíza que substituiu Sérgio Moro, a Dra. Gabriela Hardt.

Por muito menos, por fatos infinitamente menos graves, se apresentados aos então responsáveis pela Lava Jato, o Deltan e seus comparsas, teriam pedido a prisão de todos: dele, do Moro, da Gabriela e dos outros membros da força-tarefa. E o então juiz heroico, por coerência, teria determinado a custódia preventiva dele próprio e dos demais. Talvez até, num enredo surrealista, forçassem eles próprios a uma delação. Seria cômico, não fosse trágico. Parafraseando o poeta baiano: “A vida dá, nega e tira”.

Não podemos esquecer: o que gestou o governo do fascista Bolsonaro foi exatamente a Operação Lava Jato. Em um exemplo acadêmico de corrupção, o ex-magistrado Sérgio Moro determinou a prisão do potencial candidato à Presidência que estava em primeiro lugar nas pesquisas, Lula da Silva, e deixou aberto o caminho para a vitória de Jair Bolsonaro. É importante registrar que, em claro jogo que evidencia a trama de poder, Moro foi recompensado com o cargo de ministro da Justiça tão logo Bolsonaro ganhou. As tratativas para receber a paga ocorreram ainda com o então juiz com a toga nos ombros. Um escândalo. A confirmação de tudo que eu falei país afora em centenas de palestra, debates e artigos.

Mas, repito, a Lava Jato não acabou. O Brasil tem que se respeitar. Só venceremos esse câncer definitivamente com a responsabilização, inclusive criminal, de todos os que instrumentalizaram o Judiciário e o Ministério Público, com o auxílio luxuoso da grande mídia. Inclusive dos advogados que eram usados como força auxiliar. Como eu já dizia, desde os primórdios da Operação, tudo era um jogo de poder e eles acreditaram, por serem indigentes intelectuais, que realmente eram heróis e semideuses.

Lembrando-nos do grande Pessoa, na pessoa de Álvaro de Campos, no imortal Poema em linha reta: “Arre, estou farto de semideuses!  Onde é que há gente no mundo”.

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay