A Solenidade de “Corpus Christi”

Padre João Medeiros Filho

Na próxima quinta-feira, celebrar-se-á a festividade do Corpo de Cristo, “o Pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51), o alimento espiritual que nos une e fortalece. A festa foi instituída pelo Papa Urbano IV no dia 8 de setembro de 1264, com o objetivo de proclamar a grandeza da Eucaristia. Por esse augusto sacramento Jesus quis permanecer junto de seus irmãos. “Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). A presença de amigos é fundamental na existência humana. Ninguém gosta de caminhar sozinho. Na trajetória, o diálogo é de suma importância. Por isso, Cristo legou-nos esse memorial, manifestação de sua constante companhia. Não queria que padecêssemos de solidão. Por isso, fez-se Pão e Permanência. Na Eucaristia comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor, sua humanidade e divindade, de forma mística.

A vida que Deus-Pai idealizou para cada um de nós é fortalecida com o Pão Celeste, preparado para os seus filhos. A Eucaristia é antecipação da Eternidade, do imenso banquete e encontro da família de Deus. Este deseja que possamos antegozar o definitivo de nossa história, o abraço incessante do Criador com as criaturas. No sacrossanto mistério eucarístico temos Deus em Jesus atenuando as saudades de nossas origens.

Segundo a doutrina católica, além de recebermos o Corpo e Sangue de Cristo, entramos também em comunhão com sua doutrina e mensagem. Não existe um Cristo dividido ou separado. Comunga quem está disposto igualmente a alimentar-se do Evangelho de Jesus, a viver a verdade, justiça, liberdade, perdão e amor. O Brasil, que se diz cristão, ainda está bem distante dessa realidade. Recebendo Cristo, não podemos aceitar o que Ele condenou: discriminação, mentira, miséria, indiferença, egoísmo, abandono de inocentes, idosos e doentes, radicalismo e ódio. Junto com o sacrifício da cruz, a comunhão é o gesto supremo de amor de nosso Salvador. Este convida-nos a partilhar nossa vida. Eis um dos simbolismos do partir o Pão (“fractio panis”) na missa.

A Eucaristia é o sacramento da unidade. Cristo reuniu em seu corpo, gerado no seio de Maria, a humanidade inteira. Desta forma, comungar é também se unir a todos aqueles que aceitam e vivem o pensamento do Mestre. A Eucaristia é o Pão da unidade e verdadeira igualdade. Cristo revela-se como irmão de todos: santos e pecadores, pequenos e grandes, fortes e fracos. No sacramento eucarístico Cristo dá-nos a certeza de que “Deus não faz distinção de pessoas.” (Rm 2, 21). A comunhão que recebe o Papa é a mesma destinada aos simples fiéis. A Eucaristia é a certeza permanente da solidariedade de um Deus, do amor e da ternura de um Pai.

O mistério eucarístico é Deus nos dizendo: eu amo todos, quero alimentá-los, “pois quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). Na Eucaristia Deus espera por nós. É o abraço divino reservado e antecipado, o beijo carinhoso de um Irmão discreto e bondoso, que vem silenciosamente para dizer que nos ama e perdoa. A Eucaristia é o sacramento da realidade celestial. Num paradoxo é a perenidade no tempo pela encarnação do Filho de Deus Eterno, o qual quis estar unido à humanidade, mostrando que ela tem valor eterno. Não importam nossos pecados e limitações. Deus nos perfilhou por ato de misericórdia e clemência, fruto de sua incomensurável gratuidade. A Eucaristia é a resposta para o Brasil de hoje, desnorteado e dividido, abandonando suas origens e vocação! “À mesa dos mortais Cristo se assentou”, afirma o Hino do XXXVIº Congresso Eucarístico Internacional (RJ). Não se pode esquecer o que disse um sábio e santo que viveu entre nós: “Sem a Eucaristia somos pequenos demais para o Céu. Com ela, demasiadamente grandes para a terra (Cônego Luiz Monte).