Bendito 4 x 1

“Afinal a morte é sempre um gol de placa aos 45 minutos no segundo tempo da existência.”
Luis Turiba
De certa forma, a derrota dos EUA para a Bélgica – numa bendita e bem-vinda goleada de 4×1 que eliminou os norte-americanos – serviu de consolo e de inexplicável vingança pela derrota e eliminação do Brasil. Na realidade, a prepotência do governo Trump foi tamanha que se criou uma corrente no mundo inteiro contra o time dos EUA.
No futebol, não se exige coerência nem muita fundamentação para os gostos da torcida. É fato que os torcedores que estavam no estádio, torcendo pelos EUA, fizeram um belíssimo papel. Eles, coitados, não podem ser responsabilizados completamente pelo Presidente que têm. Embora, em parte, é claro, que devam ser. Assim como o Brasil tem responsabilidade por ainda apoiar um Bolsonaro, que, por sinal, está lá nos EUA, de quatro, querendo entregar o nosso país para salvar a família da cadeia.
Em um país de 200 milhões de técnicos e entendedores de futebol, é certo que vamos ler centenas de explicações para o nosso fracasso na Copa. Eu também ouso ter a minha. Penso que, com uma análise das últimas competições e acompanhando o futebol no Brasil e no mundo, há 2 questões fundamentais. Uma extremamente triste e decepcionante: o Brasil já não é mais sombra do que foi no futebol mundial. Nem sequer uma pálida nuvem. Nossa última conquista em Copa do Mundo foi em 2002. E, de lá para cá, foi só ladeira abaixo.
Mas esse fato triste e inquestionável tem outro lado. Positivo e instigante. O futebol mudou muito e para melhor. Quase não existem seleções sofríveis ou fracas. Com a enorme força dos grandes times, os jogadores da África, do Japão e das Américas vivem em contato permanente com europeus, com o Brasil e com o mundo. Nenhum jogador da seleção de Cabo Verde joga em Cabo Verde. Se tem um lado meio melancólico, essa é uma realidade e uma novidade que oxigenou o esporte. Veremos, em pouco tempo, um país africano se sagrar campeão do mundo. Os jogadores africanos são excepcionais, técnicos e fortes. Há muito tempo encantam o mundo.
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Mas a Copa ainda é um acontecimento sob diversos ângulos. O papelão que o governo Trump fez nesta edição certamente nos leva à reflexão. A arrogância e prepotência dos EUA e a subserviência da FIFA ficarão indelevelmente como a marca da Copa de 2026. E a reação a essa aliança espúria levou, de certa maneira, à valorização do espírito esportivo, do verdadeiro espírito que deve embalar o futebol.
O Brasil perdeu o posto e vamos vendo a França, a Espanha e outros países da África crescerem. Para nós, pode ser, e é, triste e desolador. Para o esporte, para o futebol e para os amantes de um bom jogo, é um raio de esperança. Daqui a quatro anos, a Copa será em Portugal, Espanha e Marrocos, que receberão tão bem quanto os mexicanos neste ano. Se o Brasil se classificar para o evento, estarei lá, claro, torcendo pelo nosso país. Porém, com os olhos voltados para o belo futebol que não é mais o nosso. E com o coração preparado para não sofrer.
Como no poema GOL, de Ferreira Gullar:
“O chute que num relâmpago a dispara na direção do nosso coração.”
Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay