
Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.
“Não gosto de ver tanta água reunida sei que é o mar mas nada é o que parece. Visto de Guantánamo o mar são grades de infinitas tessituras visto de Goreé é o marulhar multissecular de lágrimas exangues preferia que a água se dispersasse.”
Boaventura de Sousa Santos, livro 139 epigramas para sentimentalizar pedras Ainda bem que a Copa do Mundo é de 4 em 4 anos. Para nós, que amamos o futebol e estamos acostumados à paixão por um clube e às tradicionais birras, implicações e brigas com as torcidas dos times adversários, tudo é estranho. Embora faça parte do jogo. Uma das delícias do futebol é exatamente torcer contra a equipe rival e zoar os amigos amantes dos adversários. Ver o Atlético Mineiro perder é quase tão bom quanto ver o Cruzeiro ganhar. Normalmente, Copa do Mundo é outra lógica.
Nesta Copa, embora não seja propriamente uma novidade, há, para mim, um espanto interessante: a união que existe, de maneira quase indiscriminada, contra as grandes equipes europeias. Há muito tempo, os países ricos europeus, acostumados a colonizar o mundo afora, usam do poder econômico para tirar dos países africanos e dos sul-americanos os grandes talentos do futebol.
Até o poderoso Japão entrou nessa rota. Dos 26 jogadores japoneses convocados, 23 jogam fora do Japão. E agora, de alguma maneira, esse uso ostensivo da força do dinheiro volta contra os países perdulários e favorece os que mais usam a força do talento no futebol nas competições do dia a dia. Assistir a selação do Paraguai eliminar a da poderosa Alemanha, a 4ª equipe mais cara do mundo, deu um gostinho de vingança. Indefinido, mas delicioso. Acompanhar o time do Marrocos ganhar do da poderosa Holanda foi outra alegria indecifrável. Não existe um motivo explicável; no futebol é assim: é bom e basta. A seleção do Brasil sofreu para passar pela do Japão –país que, além de mandar suas estrelas para jogar na Europa, teve um professor do tamanho do gênio Zico. Mas todo esse movimento torna o futebol ainda mais emocionante. É divertido acompanhar os grupos repletos de “torcedores de Copa” que acompanham futebol de 4 em 4 anos.
No jogo do Brasil contra o Japão, nosso time sofria com os desempenhos medíocres de Paquetá, Casemiro e outros. Um futebol muito abaixo da tradição da camisa verde e amarela. É evidente que nós, torcedores do bom futebol, fizemos muitas críticas. Algumas merecidas; outras, só pelo prazer de zoar os erros infantis, mas dentro do espírito de brincar com o futebol. No final, Casemiro fez o gol de empate. Sim, estávamos perdendo para o Japão e sendo eliminados. Nos grupos, surgiu uma enorme cobrança de coerência por parte dos críticos. Até com mensagens sugerindo pedido de desculpas! Realmente é de quem assiste a tênis, golfe, polo equestre.
Optei por não ir aos EUA na Copa, mesmo tendo recebido inúmeros convites, e, claro, como amante do futebol tive vontade. Um protesto silencioso, individual e sem nenhuma relevância contra os absurdos do governo Trump, contra a subserviência da Fifa, contra a truculência aos jogadores do Irã –impedidos de dormir em solo norte-americano–, contra as revistas humilhantes a algumas seleções, contra a não participação do juiz somaliano e, enfim, contra o fascismo praticado pelo governo de direita. Até brinquei que, se tivesse certeza de que, ao chegar aos EUA, eu seria só deportado, correria o risco, pois seria um charme e uma história para contar. Mas a direita prende e humilha. É claro que essa opção não tem a menor relevância, porém, é assim que funciona a vida. Fazer as coisas de acordo com sua consciência e sua opinião. Não necessariamente pela repercussão ou pensando nos outros. Na hora de torcer no futebol, também é um pouco assim. A gente torce e vibra com o Paraguai vencendo a Alemanha, assim como viramos torcedores dos países africanos.
E, anotem os puristas: não devemos satisfação com a lógica dos torcedores que só veem futebol de 4 em 4 anos. Mas toda torcida é bem-vinda. Vamos estar juntos contra a Noruega no próximo domingo (5.jul) Lembrando-nos do velho Manoel de Barros, no poema Infantil, no Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo:
“O menino ia no mato E a onça comeu ele. Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino E ele foi contar para a mãe. A mãe disse: mas a onça comeu você, como é que o caminhão passou por dentro do seu corpo? É que o caminhão só passou renteando o meu corpo e eu corpo e eu desviei depressa. Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia. Eu não preciso de fazer razão”.
Poder 360