
Por Monsenhor João Medeiros Filho
Numa liturgia única, a Igreja celebra aqueles que marcados com o sinal da fé, partiram para o abraço definitivo de Deus. Nisso, a Igreja dá-nos um grande exemplo de união e fraternidade, reunindo numa só festividade santos e pecadores, pois todos são filhos do mesmo Pai. Não há privilegiados nem desprezados. A Igreja tenta chamar nossa atenção para nossa condição de seres imortais, posto que Deus nos perfilhou pela graça santificante do batismo. Apesar de tudo, temos medo da morte. Sentimos dificuldade em aceitá-la como um ato natural da vida e a grande realidade do ser humano. “A morte é apenas a porta de entrada da Vida”, dissera Santo Agostinho. Sem ela não se pode desfrutar da paz em plenitude.
Deus Pai vela por nós e nos recebe com carinho, no final de nossa caminhada. É preciso ter consciência de que Ele nos criou por amor, de modo algum porque necessitava de nós. Tornou-nos seus filhos, resgatados pelo sangue de Cristo, sinal ainda maior de sua inefável ternura e misericórdia. Tudo é fruto do amor. Este não morre, gera vida e diferentes formas de viver. Deste modo, nossos entes queridos não desaparecem, encontram em Deus outra maneira de ser. O Dia de Finados é um convite a lembrarmo-nos daqueles que passaram por nossas vidas.
Pelo profeta Isaías, Deus nos diz: “Eu te chamei e te peguei pela mão” (Is 42,6). Percebemos Sua presença a nosso lado pela força que nos dá, pela esperança que nos alimenta e pela fé que ilumina nossos momentos de dor. Por essa ótica e pela dimensão cristã é possível compreender o mistério da morte. Pascal afirmava que “coração “tem razões que a própria razão desconhece.” O que não dizer da fé, iluminada por Deus. Ela identifica tipos de presença que a corporeidade não alcança, descobre união e proximidade que o espaço sequer imagina. Ela é a marca do divino, atemporal, onipresente e espiritual. Ultrapassa limites e amarras, quebra laços que nos prendem e liberta das prisões. Conduz-nos ao amor. E este não morre. “É mais forte que a própria morte. Quem não ama, permanece na morte” (1Jo 3, 14). O Santo de Hipona repetia: “Ninguém ama sem ter fé nem acredita sem amar.”
A Solenidade de Finados é, portanto, a celebração da fé que nos une e consola. Nesse dia devemos reverenciar aqueles que amamos e continuamos a amar. O vazio temporal é preenchido pela força da esperança cristã. A liturgia da Igreja é um convite a nos colocar numa atitude de escuta silenciosa daqueles que marcaram nossa história. O Dia de Finados é uma data de encontro familiar, em que nos reunimos para ouvir dentro da alma aqueles que nos ajudaram a compreender e a viver melhor o dom da existência. É também, metaforicamente, nossa celebração. Grandes sofrimentos, decepções, tristezas, angústias, derrotas e perdas têm sabor de morte. Mas Deus nunca nos deixa sozinhos, relegados ao desespero. Podemos verificar na história do povo bíblico. Deste modo, celebra-se igualmente nossa ressurreição ou vitória, fruto de nossa crença. Devemos acreditar que nas mãos de Deus não há perigos, alimentando em nós a chama da esperança.
O apóstolo Paulo afirma que “não há proporção entre os sofrimentos do tempo presente com a glória que há de ser revelada a nós” (Rm 8, 18). Deus reserva para cada um de nós o inimaginável, que supera de longe nossas dificuldades e dores. Em resumo, na Solenidade de Finados celebra-se, sobretudo, o amor. Primeiramente, o de Deus por nós; em segundo lugar, o de nossos entes queridos por nós, enfim o nosso pelo Pai Celestial e nossos familiares. Não nos inquietemos. O amor é invisível e imprevisível, cria formas e modos diferentes de se manifestar. Pela fé, haveremos de descobrir meios de permanecer presentes e unidos. Lembremo-nos das palavras de Cristo a Marta: “Eu sou a Ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá” (Jo, 11, 25).