
Os elementos envolvidos são tão absurdos que pareceriam sem credibilidade até numa obra de ficção daquelas bem exageradas. Envolvem o ex-chefe do serviço de espionagem da Alemanha, a herdeira de uma rede de restaurantes e o ex-marido dela, engalfinhados numa briga pela guarda dos dois filhos menores do casal, e ex-agentes do Mossad contratados para sequestrar as crianças e entregá-las à mãe. Voltando ao primeiro personagem, August Hanning: na revista policial em sua casa, por envolvimento em favor da mãe das crianças, Christina Block, a polícia encontrou indícios de que ele passava informações sigilosas a agentes estrangeiros.
Principais suspeitos de serem os receptores: Azerbaijão e Israel. As autoridades alemãs são notoriamente fechadas a divulgar detalhes sobre casos ainda em investigação, ainda mais envolvendo um nome como Hanning, um respeitabilíssimo homem de 80 anos que pode ser acusado de traição.
Hanning chefiou o serviço de inteligência alemão, o BND, entre 1998 e 2005. Depois de se aposentar e se dar mal num negócio de investimentos, abriu um serviço de assessoria destinado, justamente, a fazer avaliações de inteligência. Tudo legítimo, não fosse pelo detalhe de que seu chefe de gabinete havia continuado na ativa e passava informações sigilosas do BND.
O total chegaria a quase dois mil documentos, inclusive de agências estrangeiras amigas, como a espionagem americana e britânica. O caso despertou vários sentimentos de suspeita, remetendo à época da Guerra Fria, quando a Alemanha Oriental operava infiltrações profundas na rival do lado ocidental. Confiar na Alemanha Ocidental era considerado arriscado e até desaconselhado por causa dos furos de segurança.
DISPOSITIVO DE EMERGÊNCIA
A realidade desse mundo é que todo mundo espiona todo mundo, inclusive os aliados. Os desdobramentos mais espantosos são por causa do envolvimento de Hanning com Christina Block. A herdeira milionária da rede de restaurantes especializados em carne com filiais em quatro países está sendo julgada por sequestro dos próprios filhos.
O pai das crianças, baseado na Dinamarca, não devolveu os filhos depois de um período de férias com eles, alegando maus-tratos por parte da mãe. A justiça da Dinamarca tomou uma decisão em favor do pai, depois de ouvir as crianças.
Na véspera do Ano Novo de 2024, cinco homens mascarados em duas vans chegaram à casa do pai, dominaram-no, fizeram a travessia da fronteira até a Alemanha com as crianças amordaçadas, viajaram 800 quilômetros e entregaram os filhos à mãe. Os homens trabalhavam para uma agência israelense que vende cibersegurança e aparentemente umas coisinhas mais. Detalhe: uma das crianças tinha um dispositivo de emergência e toda a saga foi acompanhada pela polícia dinamarquesa. Autoridades alemãs devolveram as crianças ao pai. Hoje elas vivem como num programa de proteção a testemunhas, com novos nomes e endereço sigiloso.
August Hanning é acusado de ter organizado a operação clandestina, com base em seus bons contatos em Israel. Chegou a ser citado o nome de Danny Yatom, ex-diretor do Mossad, como um dos envolvidos.
Uma mãe desesperada para reaver seus filhos, um pai disposto a não entregá-los, com o respaldo da lei, e um ex-chefe da espionagem alemã que supostamente ativa seus contatos israelenses e acaba exposto por passar informações sigilosas a outro país. Como os casos estão na Justiça, outros fatos ainda vão aflorar. Mas o trailer do filme já é suficiente para deixar o público de queixo caído. Quem foi que disse que a vida é muito certinha e sem emoções na Alemanha?
Com informações de Veja