Categorizando

 

Sigamos na trilha aberta na semana passada para usufruir mais um pouco das sugestões do Goodreads – aquele que se intitula “o maior site do mundo para leitores e recomendações de livros” – sobre os queridíssimos romances de suspense e mistério.

Desta feita, façamos uso de uma outra publicação do Goodreads, que também me chegou via e-mail: “96 Mystery and Thriller Recommendations by Mood and Setting”. Nessa publicação talvez o mais legal seja a categorização dos títulos de uma forma muito curiosa, fugindo do “lugar-comum” (aqui já vai um trocadilho). Afinal, “uma das coisas divertidas” que os criadores do site afirmam haver descoberto ao longo dos anos “é que existem muitas, muitas, muitas maneiras de embaralhar e categorizar livros”. As categorizações tradicionais são úteis, mas se você se enfronha um pouco mais nelas, novas “conexões interessantes naturalmente vão se apresentando”.

O Goodreads nos mostra algumas dessas conexões, a partir de uma curiosa classificação dos livros em binômios – aliás, um tipo de sistematização muito comum na ciência jurídica, com coisas como direito objetivo v. direito subjetivo, direito público v. direito privado, direito penal v. direito civil etc. Dos binômios apresentados pelo site, eis os que eu achei mais interessantes: mistérios/suspense no trabalho (work) v. no lazer (play); mistérios históricos (historical) v. no futuro (future); e mistérios em igrejas (church) v. mistérios no governo (state).

Vou citar/recomendar alguns desses títulos, seja porque já os li, seja porque já assisti a adaptações deles para o cinema/TV, ou, melhor ainda, porque irão entrar na minha lista de mistérios a ser desvendados num futuro mais do que próximo.

Na categoria mistérios no trabalho, seleciono “The Firm” (1991), de John Grisham (1955-), que foi o primeiro best-seller do autor. Foi bater no cinema em 1993, dirigido por Sydney Pollack, com um elenco do balacobaco: Tom Cruise, a belezinha Jeanne Tripplehorn, Gene Hackman, Ed Harris, Holly Hunter e por aí vai. E sugiro também “Murder Must Advertise” (1955), um romance detetivesco inglês clássico, de Dorothy L. Sayers (1893-1957), talvez obra-prima da autora, que é considerada uma das rivais de Agatha Christie (e isso basta para mostrar sua grandeza). Doutra banda, como suspense no lazer, vou citar “The Talented Mr. Ripley” (1955), de outra mui talentosa “dama do crime”, Patricia Highsmith (1921-1995). E aqui temos também uma adaptação famosa, de 1999, com Matt Damon, Jude Law, Philip Seymour Hoffman e as belíssimas Gwyneth Paltrow e Cate Blanchett. Acho que foi desse filme que surgiu minha paixão pela Gwyneth.

Já na categoria de mistérios históricos, vou de “The Bangalore Detectives Club” (2022), de Harini Nagendra (1972-). Este livro faz “o relógio voltar um século e é um deleite para os amantes de mistérios históricos que procuram uma nova série para saborear (ou devorar)”, é afirmado no The New York Times Book Review. Aqui se misturam a história e o exotismo da Índia. E quem não gosta dessa mistura? Já quanto a crimes no futuro – sim, é possível misturar romance policial com ficção científica –, seleciono “The Paradox Hotel” (2022), de Rob Hart (1982-). O Goodreads resume o livro: “Um crime impossível. Um detetive à beira da loucura. O futuro da viagem no tempo em jogo”. Bom, gosto de hotéis, gosto de desvelar paradoxos e, sobretudo, tenho fé de um dia voltar ao tempo em que “festejavam o dia dos meus anos”.

Agora eu chego na minha praia (ficcional, que fique claro): crimes em igrejas. Esse cenário é sensacional. E, da lista do Goodreads – pondo de lado “Il nome della rosa” (1980), de Umberto Eco (1932-2006), que é hors-concours –, cito “Father Brown: The Complete Collection” (1935), do enorme G.K. Chesterton (1874-1936) e “A Morbid Taste for Bones” (1977), de Ellis Peters, pseudônimo de Edith Pargeter (1913-1995), a primeira estória/investigação do Brother Cadfael. Essas estórias de padre são sinistras. Já como mistério no “governo”, vou de “Tinker, Tailor, Soldier, Spy” (1974), de John le Carré (1931-2000). Quem não gosta de uma boa espionagem? Ainda mais se imaginada por um espião, o próprio le Carré, que sabia escrever muito bem.

Embora a categorização do Goodreads seja sui generis, ela tem de tudo, como vocês podem ver. Clássicos do gênero e títulos recentes. Autores novos, ainda pouco conhecidos, mas também os suspeitos habituais – Chesterton, Sayers, le Carré, Highsmith, Grisham. Por mim, parodiando as demais classificações da Goodreads, afirmo que vocês podem ler os livros sugeridos tanto num quarto fechado como ao ar livre, no frio ou no calor, numa cidadezinha pitoresca ou numa grande metrópole, no ar ou no mar, embora eu recomende mesmo ler em terra redonda, boa e firme.

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Sorte minha

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Fazia algum tempo que não recebia uma mensagem do Goodreads. Para quem não conhece o dito cujo, criado em 2007, ele se intitula “o maior site do mundo para leitores e recomendações de livros”, com a missão específica de “ajudar as pessoas a encontrar e compartilhar os livros que amam”. Segundo seu fundador, o Goodreads “é um lugar onde você pode ver o que seus amigos estão lendo e vice-versa. Você pode criar ‘estantes’ para organizar o que leu (ou quer ler). Você pode reciprocamente comentar as avaliações dos demais usuários. Você pode encontrar seu próximo livro favorito. E nessa jornada com seus amigos você pode explorar novos territórios, reunir informações e expandir sua mente”. Um pouco autoajuda esse final, mas tá joia.

            Fiquei felicíssimo com a mensagem, sobretudo porque ela trazia consigo uma lista de 80 recentes “romances de mistério”, com as devidas recomendações, para que o usuário/leitor possa se enfronhar em novas aventuras do tipo: “você está procurando os romances de mistério mais populares dos últimos três anos? Oitenta deles? Em ordem? Temos uma coincidência extraordinária a relatar. Reunimos abaixo os novos mistérios e thrillers mais populares em circulação recente, conforme determinado pelo que seus colegas Goodreads recomendaram e adicionaram às suas prateleiras. Os livros aqui são classificados como os mais populares e cada um tem uma classificação média geral de 3,5 estrelas ou melhor. Normalmente melhor”.

Realmente, a proposta era/é instigante. E caí para dentro da lista.

Todavia, qual foi a minha surpresa ao descobrir que, dessa lista de mistérios do Goodreads, tidos como os mais badalados dos últimos três anos, pouquíssimos eu conhecia ou mesmo tinha ouvido falar. E olhem que a lista era/é bem diversificada: os tradicionais whodunits, cozy mysteries da moda, thrillers, cold cases, com títulos de escritores do momento e dos famosos ases da turma (tipo Stephen King, James Patterson, Harlan Coben). Conhecia talvez uma meia dúzia: “The Thursday Murder Club” (por Richard Osman), “The Cartographers” (Peng Shepherd), “The Guest List” (Lucy Foley), “The Woman in the Library” (Sulari Gentill), “The Boy from the Woods” (Harlan Coben) e “State of Terror” (Louise Penny e Hillary Rodham Clinton, a outrora primeira-dama e Secretária de Estado dos EUA). Dois deles porque tinham me chamado a atenção título e enredo, que associei à minha amiga Agatha Christie, um deles em razão da autora estadista famosa e os outros porque havia topado com eles (até nas traduções em português) em livrarias daqui e d’alhures.

Por falar em Agatha Christie, devo reconhecer, resignado, que a minha praia são mesmo os clássicos – além da minha amiga, Conan Doyle, C.K. Chesterton, Ian Fleming, Georges Simenon, Raymond Chandler, Dashiell Hammett e por aí vai –, que, graças às venturas da vida, já tive a oportunidade de ler e apreciar.  

Fiquei decepcionado comigo mesmo por essa falta de familiaridade com “contemporâneos”. Quase triste. Até que me lembrei de um “slide” do nosso Américo de Oliveira Costa no seu maravilhoso “A biblioteca e seus habitantes” (Achiamé/Fundação José Augusto, 1982): “‘Homem feliz que ainda tem alguma coisa de Eça para ler’, disse, um dia, Afonso Arinos a Tristão de Athayde, ante a informação negativa deste à pergunta se lera certo volume do autor de Os Maias. Carta de Claudel a Gide (1910): ‘Você é feliz por não haver ainda lido as Mémoires d’Outre-Tombe, tendo por isso, em reserva, uma grande satisfação’. O que é uma paralela à pergunta de Eduardo Prado a Batista Pereira: ‘Já leu as Mémoires d’Outre-Tombe?’. E como a resposta não fosse afirmativa, Prado exclamaria como Arinos e Claudel: ‘Que homem feliz! Ainda pode ter esse prazer de ler pela primeira vez!’”.

Pensando bem, tudo sorte minha. Ainda tenho todos esses mistérios para desvendar, todas essas aventuras para sonhar. 

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

O julgamento do juiz

Marcelo Alves Dias de Souza – Procurador Regional da República e Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Aproveitando a deixa do artigo da semana passada, que versou sobre um bizarro “Causídico de Instagram”, vou hoje abordar a moral/ética dos juízes, misturando a temática com lições da história e do cinema, para deixar a nossa conversa mais leve e interessante.

Começo com dois trechinhos colhidos do “Curso de ética jurídica: ética geral e profissional” (Editora Saraiva, 2016): no que toca a qualquer profissional do direito, este “tem de estar consciente de que o instrumental que manipula é aquele capaz de cercear a liberdade, de alterar fatores econômicos e prejudicar populações inteiras, de causar a desunião de uma sociedade e corrosão de um grande foco de empregos e serviços, desestruturar uma família e a saúde psíquica dos filhos dela oriundos, de intervir sobre a felicidade e o bem-estar das pessoas…”; no que toca ao juiz especificamente, “pede-se consciência do magistrado na medida em que é ele a última palavra acerca da lei, devendo, portanto, prestar a atividade jurisdicional como sendo o último recurso de que dispõe o cidadão na defesa de seus direitos e garantias, no combate à arbitrariedade, à deslealdade, à inadimplência, ao desvio de poder, enfim, à ilegalidade e à inconstitucionalidade”.

E agora chegamos às lições da história e do cinema.

Quanto à história, relembro aqui os “julgamentos de Nuremberg”, decorrentes dos horrores da 2ª Guerra Mundial, que foram realizados entre 1945 e 1949. O principal julgamento teve fim em 1º de outubro de 1946 e concentrou-se na cúpula do regime nazista. Hermman Goering & Cia. Mas, a partir de dezembro de 1946, foram realizados mais doze julgamentos de criminosos de guerra nazistas de menor relevância. Um deles foi o “julgamento dos juízes”, em que nove membros do Ministério da Justiça do Reich e sete membros de tribunais do povo e de tribunais especiais foram acusados de abusar dos seus poderes de promotores e juízes para cometer crimes de guerra e contra a humanidade, fomentando e autorizando a perseguição racial e horrendas práticas de eugenia, entre outras coisas, levando à prisão e à morte inúmeros inocentes. O julgamento durou de março a dezembro de 1947. Dez dos acusados foram condenados, quatro absolvidos e dois acabaram não julgados.

Esse julgamento, com uma boa dose de ficção, foi dramatizado no filme “O julgamento de Nuremberg”, de 1961, com direção de Stanley Kramer. O filme é estrelado por Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Judy Garland, Montgomery Clift, Richard Widmark, Maximilian Schell, Werner Klemperer e William Shatner, entre outros. Só top!

Moralmente, o filme foca naquilo que uma das personagens chama de “crimes cometidos em nome do direito”. É certo, como afirma a defesa, que “um juiz não faz as leis; ele aplica as leis do seu país”? Ou devem os juízes sempre ter em conta um direito superior, a Justiça em si?

“O julgamento de Nuremberg” responde a esse questionamento por meio de um outro magistrado, o herói do filme, o presidente da Corte no caso do “julgamento dos juízes”, o juiz Dan Haywood (papel de Spencer Tracy), apresentado como um homem modesto, tolerante e justo, que quer entender como os sábios magistrados da Alemanha puderam participar dos horrores do regime nazista e, se for o caso, punir adequadamente esses “crimes judiciais” praticados “em nome da lei”.

A resposta nos é dada primeiramente pelo anti-herói do filme, Ernst Janning (papel de Burt Lancaster), aquele jurista que, segundo é dito no filme, havia “dedicado sua vida à Justiça – ao conceito de Justiça”. Janning acaba aceitando sua responsabilidade pelos graves erros do regime nazista, reconhecendo que tanto ele como os corréus sabiam que as pessoas que eles sentenciavam eram enviadas a campos de concentração. O próprio Janning, tomando o lugar do seu advogado (papel de Maximilian Schell), vem a reconhecer a sua responsabilidade no “Caso Feldenstein”, que já estaria decidido, pela “lei” nazista, antes mesmo da abertura dos debates. “Aquilo não foi um processo”, dirá Janning, “foi um rito de sacrifício”. No final do filme, num encontro entre herói e anti-herói, afirma ainda a personagem de Spencer Tracy: “sua culpa [e a dos juízes nazistas como um todo] teve início na primeira vez que você condenou conscientemente um inocente”.

Baseado na crença de que uma ordem moral/ética transcende o direito/lei feito pelos homens, devendo ser seguida por todos nós, a Corte de Nuremberg condena os réus magistrados. Acho que todos nós condenaríamos, não?

Marcelo Alves Dias de Souza
Procurador Regional da República
Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Santa Dulce dos Pobres

Padre João Medeiros Filho

A notícia de sua canonização divulgada, no dia 01 de julho passado, trouxe alegria aos brasileiros, em especial aos católicos baianos. Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes era o seu nome civil. Nasceu em Salvador, aos 26 de maio de 1914, ali faleceu, em 13 de março de 1992. No entanto, é mais conhecida como Irmã Dulce ou Bem-aventurada Dulce dos Pobres, denominada, também, de forma grata e carinhosa pelos soteropolitanos, o Anjo bom da Bahia”. Foi beatificada em 2011 e, no próximo dia 13, será canonizada pelo Papa Francisco. Trata-se daprimeira brasileira nata (não mártir) a ser declarada santapelo catolicismo. Sabe-se que entre as vítimas dos massacres de Cunhaú e Uruaçu, havia mulheres. Irmã Dulce era de saúde frágil, sofria de problemas respiratórios e dormia sentada.

O Papa Francisco afirma frequentemente quea santidade é a face mais bela da Igreja”. O testemunho de vida dos santos é o seu maior patrimônio. Como diz a Carta aos Hebreus, estamosenvolvidos por uma nuvem de testemunhas [exemplos]” (Hb 12,1), servindo de estímulo para trilhar o caminho da justiça e do amor. O processo canônico para a Igreja reconhecer oficialmente a santidade de um cristão consta de três momentos: Vox Populi, Vox Ecclesiae e Vox Dei” (a voz do povo, a da Igreja e a de Deus). De fato, a santidade é vivida no cotidiano da existência humana, na maioria das vezes, na simplicidade de uma vida de seguimento a Cristo e ao Evangelho (normalmente, de forma discreta e sem notoriedade). O primeiro passo é o reconhecimento de uma vida humana e cristã exemplar, ou seja, a fama de santidade verificada pelo povo (Vox Populi). Isto já era corrente, quando Irmã Dulce vivia aqui na terra. Desde jovem, foi movida pela misericórdia e ternura com os pobres e desvalidos. Com o consentimento da família,ainda jovem, foi transformando sua residência num centro de atendimento aos necessitados. Sua casa era conhecida como “a portaria de São Francisco”. Dentre tantas outras iniciativas, destaca-se a fundação, em 1959, das Obras Sociais Irmã Dulce.

A voz do povo, confirmada pelo testemunho de sua vida, é o núcleo da santidade. O reconhecimento da Igreja(Vox Ecclesiae) passa pela aceitação de dois milagres(Vox Dei) que são atribuídos pela sua intercessão. O ato miraculoso para a canonização de Irmã Dulce aconteceu com José Maurício Bragança Moreira, músico, natural de Salvador. Estava cego de ambos os olhos. Em meio a uma crise inflamatória ocular, tomou a imagem da Beata Dulce e a levou até os olhos, suplicando com muita fé que ela aliviasse o seu sofrimento. Algumas horas depois, voltou a enxergar. Recebera mais do que havia pedido. Rezou apenas pelo alívio das dores. Mas, a generosidade da santao fez voltar a ver. O  milagre atesta a voz de Deus, testemunhando que a santidade é, acima de tudo, fruto dagraça divina. É assim que a Igreja proclama solenemente asantidade de um cristão.

No prefácio da missa da festa de um santo, rezam-seestas palavras: “Nos vossos santos ofereceis um exemplo para a nossa vida, a comunhão que nos une, a intercessão que nos ajuda”. São estes elementos fundamentais da presença dos eleitos de Deus em nossa vida de fé. Quando a Igreja eleva aos altares um batizado é para que sirva de testemunho de vida, pois pelo caminho por ele trilhado, deixa sinais, incentivando-nos a buscar também a santidade. Pela canonização, a Igreja manifesta igualmente a comunhão da fé que nos torna uma única família, em Cristo Jesus. Aqueles que aqui peregrinam, estão unidos aos que já vivem na glória da Eternidade e continuarão a fazer o bem, intercedendo por nós, confirmando a comunhão em Cristo, nosso verdadeiro mediador junto do Pai. É importante que nossa devoção a um santo, seja sempre fundamentada no seu testemunho de vida. A vontade de Deus é que sejais santos” (1Ts 4, 3). Ou ainda, como diz o apóstolo Pedro: “Como aquele que vos chamou, tornai-vos santos, em todo o vosso proceder” (1Pd 1, 15).

O silêncio nas igrejas

Padre João Medeiros Filho

Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para cada coisa, debaixo do céu. Tempo de falar e tempo de calar” (Ecl 3, 1-7). Essa máxima bíblica deveria ser mais lembrada, ao adentrar as igrejas, lugares sagrados, em sinal de reverência à presença de Cristo Eucarístico. Não raro, dentro dos templos, observa-se um clima de entretenimento, iniciado lá fora. As conversas, mesmo a meia voz, servem de passatempo, enquanto se aguarda o ato litúrgico. A casa de oração transforma-se em lugar de comentários, críticas etc. O mais grave é isto ocorrer durante as celebrações religiosas. Nos cinemas e teatros, pairam a atenção e o silêncio, durante as exibições e apresentações. Importa valorizá-los mais. Calar significa também nossa condição de pecador. Assim fala o apóstolo Paulo: “Toda a boca se cale. Todos se sintam culpados diante de Deus” (Rm 3,19).

O Senhor, no sacrário das igrejas, pede o recolhimento pessoal e o da comunidade. Ali, o relacionamento é com Deus. O evangelho de Lucas conta que, ao ser revelada a divindade de Jesus na transfiguração no Monte Tabor, “os discípulos ficaram calados” (Lc 9, 36). O profeta Habacuc nos adverte: “Mas, o Senhor está no seu templo santo. Silêncio diante de sua face, toda terra” (Hab 2, 20). Sofonias insiste, no mesmo sentido: “Silêncio, diante do Senhor” (Sf 1, 7). Santo Ambrósio já advertia, no século IV: “O demônio busca o barulho, Cristo, o silêncio”.

Essas considerações levam-nos a especificar algumas circunstâncias para melhor compreensão. Na missa, o deslocamento na ocasião do abraço da paz, por vezes quebra o silêncio e a piedade exigidos para esse momento. Isso prejudica o recolhimento espiritual, antes da comunhão. Pelas diretrizes litúrgicas, essa saudação deve ser feita aos mais próximos. Certos cânticos – mesmo de cunho religioso – podem ser apropriados a outros locais e circunstâncias, que não o templo sagrado e as celebrações litúrgicas. A missa não deve ser usada para protestos político-ideológicos, através de “homilias”, cânticos etc. As preces da comunidade tampouco podem ser aproveitadas para se inserir críticas ou externar determinadas posições, à margem da sacralidade do ato que se celebra. Algumas cerimônias de casamento não condizem com a liturgia da Igreja. As pessoas devem sempre ter em mente a sacralidade do local em que se encontram, assumindo uma atitude respeitosa. Ninguém é obrigado a comparecer a tais cerimônias, mas se livremente ali está, subentende-se que acate uma postura de reverência.

Esses exemplos e outras circunstâncias sugerem a necessidade de consubstanciar a importância do sagrado, numa sociedade que se afasta cada vez mais dos valores religiosos. Como proceder para preservar um ambiente verdadeiramente adequado à santidade de nossos templos? Primeiramente, dever-se-á fortalecer o espírito de fé. A crença bem viva na infinita grandeza de Deus leva-nos a um profundo respeito. E o silêncio é uma das expressões desses sentimentos. Ao penetrar nos umbrais da casa do Senhor, por mais humilde que seja, deve-se ter presente a dignidade espiritual do lugar. É preciso aprender e exclamar como o salmista, em atitude de prece: “pois o zelo de tua casa me devorou” (Sl 69/68, 10).

É necessário ter bem viva a responsabilidade de dar exemplo cristão ao próximo, especialmente às pessoas afastadas da fé. Esse trabalho educativo pode ser dinamizado pelos que se acham vinculados à Igreja. Exemplos, por vezes, são mais eloquentes do que uma exortação ou apelo. Muitos poderiam perguntar por que tratar desse assunto, quando há outros, aparentemente de maior importância? A resposta é muito simples: tudo o que se refere a Deus é prioritário, valioso e oportuno. Além disso, o cuidado com as necessidades materiais do nosso próximo será mais eficaz quando elas estão vinculadas ao divino. Este é um alicerce sólido sobre o qual se possibilita a edificação da espiritualidade. Louvemos ao Senhor com os lábios e também com o coração na Casa de Deus, lembrando-nos das palavras do Evangelho: “O Mestre está aqui e te chama” (Jo 11, 28). “Este [Jesus Cristo] é o meu Filho muito amado, escutai-o(Mc 9, 7

Ai, as palavras…

Padre João Medeiros Filho

As palavras passeiam, frequentam palácios e tugúrios, dançam, viajam, andam de chinelos ou sapatos. Conta-se que Gabriel García Márquez ao escrever, espalhava sobre a mesa de trabalho vários dicionários, de modo que as palavras disputassem umas com as outras. O poeta de Itabira, em seu poema “O Lutador”, já se expressava: “Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto lutamos, mal rompe a manhã… Palavra, palavra (digo exasperado). Se me desafias, aceito o combate”. A palavra tem uma força surpreendente: pode ferir ou confortar; unir ou separar; despertar amor ou ódio; humilhar ou enaltecer; compreender ou condenar; incitar à guerra ou trazer a paz. Pode ser amarga ou terna, desumana ou divina. Tem a capacidade de gerar sentimentos paradoxais no ser humano. Consegue provocar danos mais graves que a arma convencional, que atinge o corpo. Ela, porém, fere a alma, causando estragos irreversíveis.

Há palavras chiques e banais, não por conta da semântica, mas por causa da pressão social. Nos aeroportos, quando a viagem é de classe econômica, a indicação da fila está em vernáculo. Porém, no embarque em classe executiva, as palavras mudam para “business” ou “first class”, mesmo se a viagem é apenas de lazer, sem propósito de negócios. Quando se toma uma xícara de café com uma fatia de bolo ou tapioca em casa, diz-se merenda. Se acontecer numa empresa ou escritório, vira “coffee break”. Adquire mais charme, embora não necessariamente mais sabor. Saudades de Ariano Suassuna, que não se curvava diante de estrangeirismos desnecessários e pernósticos.

A linguística vem mostrando que os idiomas vão se desgastando, não só pelo uso, mas também pela submissão colonialista, assimilando palavras e expressões de outras línguas. Assim aconteceu com o latim, que foi se misturando às línguas dos povos colonizados. Parece adquirir um tom mais refinado, quando o autóctone emprega termos insólitos ou estrangeiros. A moda hoje é o inglês, como foi o francês no passado e o grego na Antiguidade. Quem sabe, será o mandarim no futuro? Assim, há quem diga que trabalha “full time” ou “part time”. O povo simples – apesar de já se comunicar pelo “whatsapp” – não usa tais expressões. Dirá apenas que trabalha o dia todo, inclusive sem se preocupar com o que significam os termos ingleses.

O anglicismo pega forte, como dizem os jovens. Prefere-se “sale” à liquidação. E isto pode ser verificado desde lojas sofisticadas – que vendem produtos de marca nos “shoppings” – até aquelas de rua. Um amigo falou que já encontrou tal expressão em barracas de vendedores ambulantes (“camelôs”, o galicismo dá ares de elegância). Na verdade, os brasileiros são mais afeitos a absorver a cultura estrangeira, diferentes de outros povos, que são mais resistentes.

Antes, dizia-se que fulano era diretor de vendas ou gerente comercial. Agora está em moda qualificá-lo de diretor de “marketing”, assim como a operadora de “telemarketing” era telefonista. Se isso aumenta o volume de vendas, não se sabe. Mas, alimenta, sem dúvida, o colonialismo cultural. Os assessores e redatores de autoridades são comumente chamados de “ghost writers”. A atenção dos leitores volta-se para os “best sellers”. Ao se hospedar em um hotel de algumas estrelas, certamente alguém haverá de encontrar nos aposentos um “kit” de higiene, “wi-fi” e outras realidades rotuladas de nomes ingleses. Ao se hospedar em hotéis mais luxuosos, faz-se primeiro o “check-in” (expressão também usada nos aeroportos) e na saída o “check-out”. Nos estádios, teatros etc., costuma haver uma sala “VIP”. Às vezes, quem tem direito ao acesso, não é tão importante quanto pensa, mas o dinheiro ou o cargo fala mais alto. De fato, seria mais democrático não haver tais discriminações.

A informática sofre de um anglicismo crônico e agudo. Parece menos repulsivo manipular um “mouse” do que um rato. Muito se poderia escrever sobre o assunto, mas como o jornal impõe um “deadline” (prazo de entrega), melhor é parar por aqui e enviar o texto por “e-mail” ao redator. É bom pedir a proteção de Ariano para que interceda junto à Compadecida pelos brasileiros, mergulhados em muitos barbarismos, libertando-os de tantos termos pedantes e sem precisão! “E cada um ouvia falar em sua própria língua” (At 2, 6).

Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil”!

Padre João Medeiros Filho

As comemorações da Semana da Pátria reacendem nos brasileiros o desejo de expressar o amor por ela, suas origens e cultura. Todos são convidados a buscar o Bem e a Justiça para o Brasil, que carece de ser mais amado. As festividades – outrora vividas com ufanismo nas escolas – devem inspirar o compromisso de encontrar novas dinâmicas e respostas para que o povo não continue a sofrer as consequências dos privilégios intocáveis, das inadmissíveis práticas de certas instâncias dos poderes “republicanos”. É preciso ter determinação para vencer os cenários de exclusão e o clima de radicalização e ódio que estão fragmentando a sociedade, criando um contexto desfavorável à participação altruísta nos processos cotidianos e levando os cidadãos ao pessimismo.

Para reverter esse quadro é necessário romper com inadequadas formas de exercício do poder e a sede egoísta do proveito próprio, desrespeitando o povo. A cooperação entre todos e a clareza sobre a necessidade de se procurar a paz e o bem-estar social devem ser prioritárias. A pátria é mãe de todos e não apenas de alguns, que tentam impor obstinadamente suas vontades, em detrimento da nação. Não é mais possível viver, de forma radical, como se o país estivesse numa contínua e acirrada campanha eleitoral. Hoje, fala-se mais em esquerda, direita e centro do que sobre o Brasil.

A sociedade precisa estabelecer prioridades e apontar soluções eficazes e patrióticas para alcançar uma mudança civilizatória. Todo cuidado é pouco para não se deixar aprisionar por disputas insanas e escolhas de siglas descomprometidas com os sérios problemas nacionais, e sim voltadas para interesses hegemônicos e oligárquicos. Assiste-se a embates orientados por conveniências de pessoas e grupos, contaminados pela vaidade, comprometendo a necessária lucidez, neste período difícil de nossa história. As atuais disputas inadequadas, inconsequentes e infrutíferas retardam o progresso, impedindo o Brasil de atingir um patamar, condizente com sua história e riquezas. Deve haver desapego, a partir de uma nova dinâmica cultural, capaz de nortear as instituições comprometidas com as dimensões políticas, sociais e éticas. Basta observar o que ocorre em altas esferas dos três poderes, desorientando os rumos do país. E o que dizer das alarmantes cifras destinadas à manutenção da máquina pública? O pior: isso vem resultando num tipo de burocracia nociva ao desenvolvimento do Brasil. Muitas direções escolhidas são letais, impondo processos que produzem morte lenta e perversa de pessoas, segmentos sociais e instituições.

É o momento de “abrir mão” e “abrir a mão”. O alcance simbólico destas duas expressões evidencia especial desafio aos homens públicos, autoridades e líderes, Considera-se o exercício da solidariedade indispensável à construção de um mundo melhor. Há grande resistência para se abrir mão de privilégios, mordomias preconceitos e partidarismos. Não é menor a dificuldade para se abrir a mão, numa postura sincera de acolhimento e doação. Quase sempre, quando é proposto um gesto que signifique “abrir mão”, acontece do mais forte impor o sacrifício ao fraco; o rico ao pobre; o político às camadas populares. Não raro, a “justiça” é exercida em favor dos que dominam e os prejuízos socializados entre os indefesos e inocentes. A atitude de não querer “abrir mão” contribui decisivamente para que várias instituições afundem, como um barco náufrago, sem que os ocupantes percebam o perigo. Poucos aceitam mudanças, que possam ser desfavoráveis à situação na qual se encontram, em prol do bem coletivo. Renunciar a “benesses” é algo inaceitável para muitos. Em tais casos, a resposta é imediata e negativa. Votações do parlamento têm comprovado. É preciso reavaliar o tecido cultural, subjacente nos processos aos quais as instituições são submetidas, ao longo de décadas. Na maioria dos casos, a irresponsabilidade e os interesses cartoriais configuram procedimentos gerando prejuízos, impedindo avanços e o enfrentamento das crises. Vale lembrar as palavras do apóstolo Paulo: “Enquanto temos tempo, façamos bem a todos” (Gl 6, 10). Neste 197º aniversário da Independência, rezemos (como na Bênção do Santíssimo Sacramento): “Dai ao povo brasileiro paz constante e prosperidade completa”!

Doação de órgãos: um serviço a Deus

Padre João Medeiros Filho

Dom Helder Câmara, em seu programa “Um olhar sobre a cidade”, levado ao ar pela Rádio Olinda, costumava citar esta frase adaptada de um pensamento de Esopo: “Ninguém é tão pobre que não possa dar, nem tão rico que não possa receber”. Realmente, mesmo após a morte, quando nada mais nos resta como sopro de existência, nossos órgãos poderão salvar vidas ou melhorar o cotidiano de nossos irmãos.

Repercutiu a decisão de Dom Agnelo Rufino, bispo auxiliar de Bombaim, doando seus órgãos, após sua morte. Um dia, do púlpito da catedral, proclamara: “Quero ajudar meus irmãos. Se alguém puder ver através de meus olhos ou utilizar meu rim para viver mais, creio que será um serviço a Deus”. Dom Agnelo promoveu intensa campanha entre seus diocesanos em prol da doação, escrevendo artigos e fazendo palestras sobre o assunto. Aumentou o número de doadores na Índia, mais frequente nas comunidades cristãs. De acordo com as palavras daquele prelado, é importante a conscientização de “que mesmo, após a morte, podem servir a Deus e à humanidade”.

Em outubro de 2014, o Papa Francisco denominou o gesto de doar como: “peculiar forma de testemunho do amor”. O Evangelho declara: “não existe prova maior de amor do que dar a sua vida pelos irmãos” (Jo 15, 13). Os teólogos afirmam que, ao permitir sobrevida com qualidade, vive-se esse princípio evangélico. Em 2018, Padre Gerônimo Dantas Pereira, da arquidiocese de Natal, doou seu corpo para estudo dos alunos do Centro de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

No Brasil, o número de cirurgias de transplantes perdeu um pouco o fôlego com a crise econômica, repercutindo sobre a captação de órgãos. A Coordenação do Sistema Nacional de Transplantes explicou que, nesse contexto, a queda era esperada. Atividades assistenciais acabam sofrendo algum revés. O transplante é, às vezes, um procedimento de alta complexidade e custo elevado. Intervenções que demandam tecnologia mais avançada, encontram dificuldades de realização por falta de leitos, material, centros cirúrgicos equipados, medicamentos, transporte imediato dos órgãos etc. Desta forma, os hospitais de ponta acabam sobrecarregados e têm de replanejar as atividades.

Graças à sensibilidade dos brasileiros, nosso país possui um razoável sistema público de transplantes. O renal é o mais procurado. A Igreja católica aprova a doação e o transplante de órgãos, tecendo elogios a esse ato humanitário (cfr. Catecismo Católico, nº 2296). João Paulo II manifestou-se favoravelmente, em agosto de 2000: “É preciso suscitar no coração de todos profunda consideração da necessidade da caridade fraterna, de um amor que se possa exprimir na decisão de se tornar doador de órgãos.” Ainda como simples sacerdote, Bento XVI tornou-se doador. Em novembro de 2008, dirigindo-se aos participantes do Congresso Internacional sobre Doação de Órgãos, declarou: “A doação é um ato de solidariedade, que oferece ao próximo a esperança para recomeçar”. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, aos 25 de setembro de 2008, afirmou: “Vemos na doação voluntária um gesto de amor fraterno em favor da vida e da saúde do próximo. É uma prova de solidariedade, grandeza de espírito e nobreza humana”. A sociedade brasileira sentir-se-á grata, se a CNBB dedicar uma campanha da fraternidade, versando sobre esse tema.

Há quase dois anos aguardo um transplante de córnea, que deverá ser realizado brevemente. Avalio o sofrimento de quem necessita de um rim, um coração, um fígado etc. para sobreviver. Tenho vivido apenas com um olho, parcialmente obnubilado pela catarata. Isso me tem causado alguns transtornos, como, vez por outra, derramar vinho e água sobre a toalha do altar, colocar comida no prato emborcado e ter que digitar no computador com caracteres grandes. Ora, isso não é o mais grave. Posso me locomover e tenho certa autonomia. Penso nos irmãos que necessitam de um órgão vital. Peço que rezem, agradecendo a Deus pelo meu doador (ou doadora) e pela equipe médica, que realizará o procedimento oftalmológico. Cabe-me dizer: “In manus tuas, Domine” (Lc 23, 46). Em tuas mãos, Senhor, eu me entrego!

A cultura da impontualidade

Padre João Medeiros Filho

Artigos especializados apontam o estresse como um dos grandes males atuais. Pessoas adoecem, sofrem, podendo ir a óbito, em consequência dessa morbidade. Isso leva parte da população ao uso de ansiolíticos, pois tal estado psíquico também causa depressão. Abordam-se suas diversas causas, dentre elas, o comportamento alheio e o ambiente de tensão, como sendo motivos da irritação e de descontrole interno e externo. Estudiosos indicam ainda a impontualidade como um de seus fatores.

Muitos brasileiros, quando visitam outros países pela primeira vez, especialmente europeus e asiáticos, surpreendem-se com os hábitos de seus habitantes. Ser pontual, por exemplo, é uma condição inseparável e normativa no seu cotidiano. Coincidentemente, são países que possuem indicadores sociais elevados. No Brasil, terra tão pródiga de belezas e riquezas naturais, essa característica parece ser escassa no DNA de seu povo. Não é verificada com frequência. E não está à venda, tampouco encontrada em forma de medicamento. Sendo assim, este predicado deve ser despertado na infância. No entanto, como o fazer, se os próprios pais, por vezes, são carentes dessa qualidade? Requer disciplina do comportamento humano. E enquanto não for incutida nas famílias brasileiras, continuar-se-á sofrendo com a predominância de cidadãos desprovidos de pontualidade e, consequentemente, do respeito ao tempo dos outros.  

O termo compromisso vem do particípio passado do verbo latino “compromittere”, que significa prometer, garantir. Portanto, compromisso é a garantia de uma palavra dada. Do ponto de vista semântico, o descompromisso é sua negação ou desabono. Não se refere apenas às pessoas isoladamente, mas também à sociedade. Os impontuais perdem credibilidade, no tocante à observância de horário. Realmente, poucas pessoas costumam chegar antes da hora aprazada. É comum usar gerúndios e expressões, como: “estou chegando, indo, saindo, estou no trânsito” etc. São termos imprecisos para tentar justificar a impontualidade. Indubitavelmente, encontram-se praticantes e defensores por todos os lados, de diferentes idades e camadas sociais. Em casa, é frequente ter pessoas que não se dispõem a realizar as tarefas de sua competência ou responsabilidade. Em vão, procrastinam e prometem que o farão mais tarde. Crianças e jovens caminham na mesma direção. Parece que seu tempo livre é ilimitado diante das telinhas dos aparelhos eletrônicos, brincando ou trocando mensagens com os amigos, também descompromissados. Em geral, ficam assistindo filmes, quando deveriam fazer os deveres escolares. Ao crescerem, talvez não assumam suas responsabilidades. E, muitas vezes, os pais se questionam: “Onde foi que erramos?” Eis algumas características da geração atual. Lembra-nos o Livro do Eclesiastes (ou Coélet): “Tudo tem o seu tempo. Há um momento oportuno para cada coisa debaixo do céu” (Ecl 3, 1).

Fora de casa, o descompromisso também grassa como uma erva daninha. Não é raro encontrar profissionais autônomos ou prestadores de serviços, que deixam as pessoas desassistidas. “Dão cano”, como se diz na gíria. Quantos já não sofreram ou sofrem com a impontualidade irresponsável? Fazem um trato, sabendo que não conseguirão cumprir. Porém, cabe eximir os profissionais, cuja natureza de suas atividades acaba interferindo em seus horários e não logram êxito em atender na hora marcada. No entanto, vários compensam essa lacuna com dedicação e eficiência em seu atendimento. É preciso ter em mente que a impontualidade, além de desrespeito ao tempo de outrem, gera transtornos em cascata. “A impontualidade é uma das manifestações do egoísmo”, dizia o escritor Orígenes Lessa. Mas, existem muitos brasileiros, modelos de pontualidade, como o Cardeal Eugênio Sales, que nunca se atrasava nas suas aulas, eventos ou cerimônias.

Na vida pública, um exemplo negativo é o de autoridades que, ignorando o tempo dos outros, costumam chegar atrasadas nas solenidades. E o fazem, às vezes, por conveniência. Equivocadamente, para certas pessoas, não observar horários é demonstração de status e poder. Dão a impressão de que são donos do tempo do próximo. É necessário mudar esse hábito, transmitindo e consolidando a cultura da pontualidade. Já aconselhava o apóstolo Paulo: Tudo, porém, seja feito como convém, na hora certa e em boa ordem” (1Cor 14, 40).

A nossa vulnerabilidade cotidiana

Padre João Medeiros Filho

Em tempos idos, as portas de nossas casas ficavamsempre abertas. As visitas, ao chegarem, batiam palmas e gritavam: “Ô de casa”! Nosso patrimônio era respeitado.Os anos vão passando, as entradas das residências foramsendo fechadas. Muros começaram a ser construídos. Anossa defesa vai se tornando cada vez mais frágil. Nada era o bastante para afastar os invasores do alheio. Chegoua época das grades e da cerca elétrica. Porém, não se conseguiu afastar a sensação de medo e insegurança.Passaram a instalar câmeras, equipamentos de alarme.Surgiram as empresas de vigilância. Tudo na tentativa de nos proteger. Mas, os que furtam e roubam não se contentam somente com as coisas materiais. Iniciou-se a fase de ataque a outros bens, inclusive à privacidade dos cidadãos. Invasão, vazamentos, hackers, criptografia, instagram, whatsapp, telegrama, aplicativos de mensagens etc. são palavras comuns dos noticiários, as quais assustammuita gente. Antes, ouvia-se falar em vírus, imaginadoscomo agentes microscópicos, contaminando os computadores. Agora o problema está em outrospredadores cibernéticos. Entre seus alvos prediletos estão os celulares, esses aparelhinhos tecnológicos que viraram “pets” digitais, carregados para todos os lugares, na mão, na bolsa, no bolso traseiro, com capinhas originais echamativas. Por vezes, revelam-se voluntariosos com os seus donos. Parecem saber que nossa vida e valores estão ali. Lembram-nos a frase do Evangelho: “Onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 21).

Atualmente, esse assunto fervilha na mente de várias pessoas. Não é preciso ser autoridade ou celebridade para sofrer invasão. Há gente que se diverte, procurandoenganar os outros. Os celulares são uma ferramenta importante, no entanto, uma ingente dor de cabeça. Até motivo de divórcio têm sido. Sempre mais sofisticados, deixaram de ser apenas telefones e se transformam em banco, arquivo, agenda, filmadora etc. O leitor já tentou folhear algum dos manuais multilíngues dos smartphones?As orientações para nós, pobres mortais (exceto para os que mexem com isso), assemelham-se a hieróglifos. É uma luta para entender os comandos e termos técnicos. Trata-se de uma nova língua aborígene ou extraterrestre para os leigos, especialmente aqueles que já ultrapassaram meio século de existência. É complicado e angustiante, quando osexpertstentam nos ensinar o que se tem de fazer. Dizem ser extremamente fácil e ficam irritados com a nossa lentidão frente aos seus dedos ágeis, manuseando os dispositivos dos aparelhos. Vem a ser mesmo humilhante, quando uma criança de cinco ou seis anos achega-se a nós e sentencia: “Vovô, titio, não é assim não. Essa semana nosso celular travou e ficamos quaseuma hora tentando pôr novamente o bicho para funcionar.

Hoje, o pesadelo maior gira em torno dos hackers:clonagem de cartões de crédito ou débito, invasão deaplicativos bancários e dados profissionais, pessoais, alguns reservados. Os larápios e corsários atuais são apátridas, estão disseminados justamente para não serem localizados. Há quem seja contratado para o serviço sujo de enganar os incautos com páginas falsas, ofertas mirabolantes, e-mails maldosos, que se abertos, captamdados e senhas dos smartphones e computadores. quem vendaa peso de ouro – os frutos de sua rapinagem. E assim vem crescendo, de forma maciça, a divulgação de “fake news”, o massacre ou a defesa ardorosa de pessoas e poderes nas redes sociais.

Tudo virou território de ninguém. Está cada dia mais difícil e não se sabe a quem recorrer. Faz-nos relembrarpriscas eras, quando se dizia: “Vá se queixar ao bispo”. Sobre a nossa vulnerabilidade começam a surgir leis, que só funcionam, depois do leite derramado e das vidas e conversas espalhadas pelo vento virtual, que ninguém consegue ensacar. Uma mensagem ingênua pode ser entendida, de qualquer forma, por alguém inescrupuloso,contaminado pelo desejo de vingança ou ódio e sedento de chantagem. Quando haverá uma blindagem realmenteinvulnerável e efetiva para os nossos celulares? É preciso rezar bastante e ter muita fé, como o salmista: “Confio em meu Deus. Não temerei. O que fará contra mim um ser de carne” (Sl 56/55, 5).

A honestidade intelectual

 

Padre João Medeiros Filho

Pode-se verificar a forte influência exercida pela mídia sobre a cultura e o comportamento humano. Isso conduz a uma redobrada atenção sobre algumas desconstruções de conceitos fundamentais para o homem e a sociedade. O desinteresse pelo que é verdadeiro chega ao limite do tolerável. O pensamento pós-moderno – inspirado na dúvida cartesiana – questiona toda e qualquer verdade, fazendo com que a humanidade não dê mais importância ao que é certo ou errado. “Um dos maiores erros e pecados de nossos dias é a desonestidade intelectual, fonte de outras desonestidades”, afirmou o Papa Francisco. Parece não haver mais verdade, e sim interesses; direitos rechaçados por conveniências. Implantou-se o império do “politicamente correto”. Importa o que convém a alguns e não a objetividade dos fatos e realidades. Esquece-se o interesse coletivo ou o bem comum e cultua-se a egolatria.

Tangida pela onda do relativismo, a cultura atual busca desacreditar a milenar tradição que apresenta o conhecimento sob o ângulo da unidade da razão, isto é, a verdade em sua conceituação filosófica e ética. Em seu lugar, entronizam-se o oportunismo e a conveniência de ocasião. Muitas são as investidas em favor da fragmentação da verdade. Contrário a todo e qualquer projeto de veracidade, estabelece-se o reino dos sofismas e das mentiras em prol de interesses de alguns. Cada qual constrói para proveito próprio a sua versão, querendo impô-la como única e verdadeira.

Jorge Mario Bergoglio, no início de seu pontificado, denunciou a “ditadura do relativismo”, invadindo as instituições sociais, escolas e famílias, colocando em perigo a sadia convivência entre os homens. “Sem a verdade, não haverá paz”, concluiu o atual Pontífice. E continuou: “não pode haver paz, se cada um é a medida de si mesmo, reivindicando sempre e apenas os seus próprios direitos, sem se importar com o bem e o respeito aos direitos de todos” (Discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, em 2013). Acompanha-se o surgimento de várias ideias contrárias à imutabilidade da lei natural. Ideologias, como a de gênero, a desconstrução da família etc. são bastante polêmicas. Dizer que a sexualidade de cada pessoa é algo subjetivo – desconexo da objetividade do corpo – é fechar os olhos e negar o princípio antropológico-biológico da identidade. “Se não sou eu o criador ou autor da corporeidade, não posso mudá-la. Isso é falso e ilusório”, assim se expressara o teólogo Joseph Ratzinger (mais conhecido como Papa Bento XVI).

Tais ideologias pretendem moldar – a partir de uma ação orquestrada e difundida mundialmente – “seres humanos”. Segundo a doutrina cristã, Deus não concedeu ao homem o direito e poderes de mudar radicalmente o que Ele criou. Há aqueles que defendem como lícito reconstruir, a seu bel prazer, o corpo humano, do qual não são autores.  Trata-se de um descompromisso com a verdade e a lei natural, fundamento indispensável para edificar a comunidade dos homens e elaborar a lei civil. O sociólogo jesuíta padre Fernando Bastos d´Ávila, em brilhante conferência na Academia Brasileira de Letras (da qual era membro), assim se pronunciou: “Alguém tem escritura lavrada em algum cartório de que é dono exclusivo e absoluto da vida e do corpo”?

Quem se proclama medida única das coisas e da ética não consegue conviver e colaborar com o próximo e a sociedade (cf. Compêndio de Doutrina Social da Igreja, nº 142). Infelizmente, muitos encarnam analogamente a frase de Luís XIV: “l´état c´est moi”, querendo que sua vontade (ou a de seu partido) seja a lei! A negação ou o descaso da verdade (corolário da lei natural) gera uma cisão entre a liberdade dos indivíduos e o direito de outrem. É o que se assiste no Brasil de hoje. Auxiliados por Jesus Cristo, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), esforcem-se os cristãos para que seus atos edifiquem o saudável convívio entre os seres humanos e a promoção do reino da justiça e da paz. “É preciso estar atentos para que nenhum dos nossos sejam seduzidos por qualquer vento de vã doutrina” (Hb 13, 9).

Santo Inácio de Loyola

Padre João Medeiros Filho

Celebra-se a festa litúrgica de Santo Inácio de Loyola, no dia 31 de julho, aniversário de sua morte, ocorrida em 1556. Piedoso, mas sem pieguice. Firme, contudo, terno e compassivo; culto e erudito, porém desnudado de arrogância. Obediente à Igreja, todavia sem subserviência. Teólogo, no entanto, distante de ideologias; humano, entretanto, sedento do divino! Poderia ser este o perfil de Inácio. O centro de sua vida foi Cristo. Denominou a ordem religiosa por ele fundada de Companhia de Jesus.

Nasceu, aos 31 de maio de 1491, em Loyola, município de Azpeitia, no País Basco. Recebeu o nome de Íñigo López. Perdera a mãe na tenra idade e o pai, aosdezesseis anos. Em 1506, tornou-se pajem do ministro do Tesouro Real de Castela. Em 1516, colocou-se a serviço do vice-rei de Navarra Gravemente ferido na batalha de Pamplona, passou meses convalescendo. Durante talperíodo, dedicou-se à leitura de obras cristãs, como:Vita Christi”, de Rodolfo da Saxônia, Imitação de Cristo, de Tomás Kempis e “Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze. Desejou uma vida voltada para Deus, seguindo o exemplo de Francisco de Assis e outros líderes espirituais.Desenvolveu os primeiros passos dos Exercícios Espirituais, que exerceriam grande influência naevangelização da Igreja. Após recuperar a saúde, decidiu consagrar-se ao serviço da Divina Majestade.

E1528, entrou para a Universidade de Paris. Ali,com outros universitários, plantou a semente de sua futura ordem religiosa. Incentivava o amor ao estudo, tornandoos padres da Companhia de Jesus muito bem preparadosintelectualmente. Isso explica sua vocação de educadores ededicação a colégios e universidades. No dia 15 de agosto de 1534, é fundada oficialmente a Companhia de Jesus na cripta de Saint-Denis da Igreja de Santa Maria, em Montmartre. Em 1537, o Papa Paulo III concedeu a aprovação canônica à ordem religiosa, autorizando a ordenação sacerdotal de seus fundadores.

O Papa Francisco é membro dessa ordem religiosa. Há seis anos, o mundo admirou a sua humildade. Em lugar da bênção que todos aguardavam, inclinou a cabeça e pediu que rezassem por ele. Nesses anos de pontificado, Bergoglio tem realizado um caminho renovador. O que importa para ele, como sacerdote jesuíta, é a centralidade em Jesus Cristo e seu ensinamento, não somente anunciado com palavras, mas com a vida. Procura agircomo o fariam o Mestre e Santo Inácio, aproximando-se das pessoas, escutando-as, consolando-as, sem julgá-las, porém amando-as. Bergoglio sentiu-se tocado pela vida de Inácio de Loyola, o qual era um apaixonado pelo Evangelho, sedento da graça divina, semelhante aoapóstolo Paulo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Inegavelmente, a educação brasileira muito deve à Companhia de Jesus. Como não reconhecer o valor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, confiada aos jesuítas, desde a sua fundação pelo Cardeal Leme? É valioso o contributo da Universidade do Rio dosSinos, em São Leopoldo (RS), da Universidade Católica de Pernambuco, da Faculdade Jesuíta, de Belo Horizonte, dos colégios Anchieta, Nóbrega, Padre Antônio Vieira, São Luís, Santo Inácio e outros, para a formação de tantoslíderes cristãos e quadros profissionais. No passado, o Rio Grande do Norte beneficiou-se da catequese dos jesuítas. Atualmente, tem-se o exemplo da obra evangelizadora de padre Agustin Catalayud, em Natal. Tudo para a maior glória de Deus”, segundo o lema inaciano. Câmara Cascudo registra a presença dos jesuítas em Arês, Extremoz, Angicos (outrora Curral dos Padres, em alusão aos presbíteros jesuítas) e até na pequena Jucurutu, de antanho. Eis o que também afirma o historiador Serafim Leite: Perseguidos, os nossos [termo como os jesuítas chamam os confrades] se refugiaram numa pequena aldeia, administrada pela Companhia [de Jesus], que do Arraial [Açu] dista cerca de dez léguas, à margem de um rio, povoado de piranhas, que banha igualmente o citadoarraial. Inácio de Loyola e seus discípulos combateram os erros e desvios do seu tempo. Seu testemunho de vida deve ser lembrado no Brasil de hoje, tão carente de justiça, de verdade, sobretudo de Deus!

A devoção a Sant´Ana

Padre João Medeiros Filho

Segundo a tradição católica, Ana era a mãe de Maria Santíssima. Nos evangelhos não constam informações a esse respeito. Os nomes de Ana e Joaquim são citados em escritos apócrifos, dentre eles, o Protoevangelho de São Tiago, datado de 150 d.C. Parece ser este o documento mais antigo a mencionar os genitores da Virgem Mãe de Deus. Apesar de receber pouca atenção da Igreja ocidental até o final do século XII, no Oriente, a devoção a Sant´Ana remonta  ao século VI. A partir de então, é reverenciada nas igrejas orientais e duas de suas grandes festas lhe foram dedicadas. 

Nas denominações evangélicas históricas, especialmente entre os luteranos, Ana também é venerada. Conta-se que Lutero ingressou na vida religiosa, como frade agostiniano, após pedir a sua proteção numa noite de tempestade. Por tal razão, em alguns países europeus, invoca-se a Mãe da Virgem de Nazaré como protetoracontra os relâmpagos. A esposa de Joaquim também é reverenciada no Islã. Seu nome não é citado no Alcorão. Entretanto, é reconhecida como uma mulher altamente espiritual e Mãe de Maria. Segundo as narrativas islâmicas, Hannah não tinha filhos, até a idade avançada. Um dia, sentada sob uma árvore, viu um pássaro alimentaros filhotes e sentiu o desejo de ser mãe. Suplicou ao Altíssimo e engravidou, dando à luz uma menina a quem atribuiu o nome de Miriam.

Sant’Ana tem sido muito cultuada pelos cristãos. Na igreja oriental, sua devoção aparece por volta do ano 550, quando Justiniano mandou construir em Constantinopla um templo em sua homenagem. Em 1584, o Papa Gregório XIII fixou o dia 26 de julho para sua festa litúrgica. Em 1879, Leão XIII a estendeu para toda a Igreja. No Ocidente, a primeira representação pictórica, atestando sua veneração, é um afresco do século VIII, exposto na igreja de Santa Maria Antiqua, em Roma. As imagens e ícones de Sant´Ana mostram-na (em pé ou sentada) com as tábuas da lei, abraçada a Maria Santíssima. Isto é simbólico, deseja mostrá-la como mestra da Palavra divina, exemplo a ser seguido pelos seusdevotos.

Seu culto expandiu-se pelo mundo inteiro. Santuários, catedrais, capelas, cidades e províncias lhe são dedicados. Destaca-se como padroeira da Bretanha, de Quebec e Düren (Alemanha). No Brasil, é titular de dezessete catedrais, co-padroeira das arquidioceses de São Paulo e do Rio de Janeiro. Cabe lembrar que é também a protetora de Goiás. No Rio Grande do Norte, é padroeira da diocese seridoense e de três paróquias (em Caicó, Currais Novos e Santana do Seridó). No bispado de Mossoró, é orago de Luís Gomes e Campo Grande. Na arquidiocese natalense, é venerada como titular das matrizes de São José de Mipibu, Santana do Matos, Capim Macio e Soledade II.Fato digno de nota é o seguinte: a freguesia de Jucurutu,ao ser criada, teve o seu território desmembrado de três jurisdições paroquiais dedicadas a Sant´Ana (Caicó, Campo Grande e Santana do Matos).

A devoção a Sant´Ana difundiu-se de tal modo que a Igreja lhe reserva o título de “Senhora”, que só fora concedido a sua filha. Assim, entende-se porque muitos católicos passaram a chamá-la de Nossa Senhora Sant’Ana. É patrona da Casa da Moeda do Brasil, por designação de Dom João VI. Exímia gestora e financista,dividia o salário do esposo em três partes: uma para a manutenção da família, outra para o culto e a terceira para ajudar os pobres. Suas relíquias são veneradas em vários lugares. Merecem destaque aquelas da catedral de Apt (perto de Avignon, na França), onde, segundo alguns pesquisadores, encontram-se seus restos mortais. Narra-se que, durante os séculos XII e XIII, os cruzados e peregrinos, ao retornarem do Oriente, trouxeram-nas até aquela cidade da antiga Gália.

Em Emaús (Parnamirim), há um mosteiro consagradoa Sant´Ana, local de adoração eucarística. Dom Nivaldo quis ressaltar o exemplo de Ana, a qual preparou Maria para ser o primeiro sacrário da humanidade. Desejavaque ela também educasse os corações dos fiéis para setornarem tabernáculos vivos de Cristo. “Salve, Sant’Ana gloriosa, nosso amparo e nossa luz”, cantam fervorosos os seridoenses.

A cor púrpura e os cardeais

Padre João Medeiros Filho

Em várias obras que abordam o tema, fala-se de púrpura, de matiz violeta, escarlate, azul etc. Afinal, qual é a sua verdadeira cor? Alguns estudiosos a definem comouma tonalidade violácea e variações de vermelho. A matéria prima é extraída da glândula hipobranquial de uma espécie de molusco existente no Mar Mediterrâneo.Quando exposta à luz e ao ar, essa glândula transparente tornase amarela. Em seguida, passa à coloração verde,que se transforma em azul e, por fim, em vermelho-violeta. Eis as informações de Inge Boesken Kanold, uma das maiores autoridades em cores raras. A púrpura tornou-se especial, em virtude de sua versatilidade, a partir da sua exposição à ação da luz e do ar, por um tempo maior ou menor. Originariamente, pode apresentar tons diferentes, mas seu colorido marcante está entre a ametista e overmelho-escuro.

No Império Romano, a púrpura era considerada preciosíssima. Apenas o imperador e os nobres vestiam-se com roupas preparadas com ela. Outras autoridades e dignitários do império trajavam vestimentas de outras cores, de acordo com sua categoria ou importância. Por volta do ano 60 de nossa era, Roma amanheceu indignadacom um decreto de Nero, restringindo seu uso à família imperial. Estabeleceu a pena capital e o confisco dos bens para os plebeus que usassem ou simplesmente comprassem tecidos purpúreos. Não é difícil imaginar o quanto esse ato despótico do imperador suscitou dereações iradas e revoltas nos membros das classes dirigentes e nos comerciantes.

Com o falecimento de Nero, o uso da púrpura foi liberado para quem tivesse condições de adquiri-la.Entretanto, quase quatro séculos mais tarde, o imperador bizantino Justiniano I restringiu novamente seu uso à corteimperial. Seus descendentes passaram a receber o epítetode porphyrogênete, isto é, nascido na púrpura. Com o tempo, o decreto deixou de ser aplicado, pois o comércio dos tecidos tingidos com a referida cor foi se tornandoraro, culminando com a queda de Bizâncio, em 1453. No entanto, na Europa, a partir do século XI, a púrpura foi sendo cada vez menos utilizada. Demasiadamente cara e fonte de manifestação de luxo em nada elogiável, seu uso sofreu censura por parte de destacadas figuras do clero, dentre as quais, São Bernardo de Claraval. Acabou sendopraticamente esquecida nas alfaias sacras.

Posteriormente, foi consagrada como cor característica dos cardeais católicos, revelando sua relevância e nobreza. Os senadores romanos eram definidos metaforicamente como parte do corpo do imperador. De forma análoga e segundo a tradição católica, os cardeais, que compõem o senado eclesiástico, também fazem parte do corpo do papa, desde 1150. O título de “cardinalis (pedra fundamental) era dado pelo imperador a generais e prefeitos pretorianos. Na Igreja, eles são os consultores pontifícios, tendo também a funçãode eleger e assessorar o Sumo Pontífice. Vale salientar que até o século XII, o Sucessor de Pedro era eleito pelo clero e fiéis de Roma, pois se trata de seu bispo.

A cor púrpura – outrora dominante no manto e na toga dos nobres romanos – é hoje característica dos cardeais, considerados príncipes da Igreja. Assume, porém, uma nova conotação: a de lembrar o sangue derramado por Cristo. Revestiu-se de um simbolismo, qual seja, o compromisso e a disposição dos cardeais de derramar seu sangue em defesa do Evangelho. Muito mais do que sua utilidade ornamental, a batina, o manto e barrete cardinalícios ressaltam um caráter simbólico e teológico. João Paulo II o relembra, dirigindo-se aos novos purpurados, em fevereiro de 2001: A púrpura não é o símbolo do amor apaixonado por Cristo? Nesse vermelho rutilante não está o fogo ardente do amor à Igreja que deve alimentar em vós a disponibilidade, se necessário, até o supremo testemunho do sangue, que está simbolizado? Mas nem todos se mostram dispostos a trilhar o caminho da simplicidade e humildade de Cristo. Alguns preferem as pompas imperiais às sandálias do pescador. Por isso, opõem-se abertamente às reformas deFrancisco, empenhado em desclericalizar a Igreja e livrá-la da ostentação, da opulência e da sede de poder!

O Sínodo da Amazônia

Padre João Medeiros Filho

O sínodo é uma assembleia periódica de bispos de toda a Igreja Católica, de um país ou região, presidida pelo Papa, para tratar de assuntos concernentes à vida eclesial. Constitui uma instância consultiva, inspirada no Concílio Vaticano II, prevista e normatizada pelo Código de Direito Canônico. Há também sínodos nas dioceses presididos pelos respectivos bispos. Meses atrás, o Sumo Pontíficeconvocou a referida assembleia para o período de 6 a 27 de outubro, no Vaticano. As circunscrições eclesiásticas daregião amazônica estão debruçadas sobre o documento preliminar (“Instrumentum laboris”). O texto é o ponto de partida para os debates dos participantes do encontro. O citado instrumento foi disponibilizado no dia 17 de junhopróximo passado, pela assessoria de imprensa da Santa Sé. Intitula-se “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” e foi publicado simultaneamente em três idiomas (espanhol, português e italiano). Compõe-se de três partes e 21 capítulos.

Na sua pauta, vários assuntos de cunho pastoral, teológico e social. Tem dentre seus objetivos conhecer melhor a riqueza do bioma, os saberes e a diversidade dos povos da Amazônia, especialmente os indígenas, suas lutas por uma ecologia integral, seus sonhos e esperanças. Visa a reconhecer as lutas e resistências de sua gente, que enfrenta ainda a colonização e projetos desenvolvimentistas voltados para a exploração desmedida e a destruição da floresta e dos recursos naturais. O Sínodo será, pois, um espaço privilegiado de escuta. Oportunidade para a Igreja qualificar ainda mais a sua missão na Amazônia, oferecendo a todos singular chance de dedicar melhor atenção a essa realidade ambiental, histórica, cultural, social, econômica e religiosa, de notável relevância. Por isso mesmo, a Igreja é interpelada a ouvir as pessoas, ricas de vida e sabedoria.

Com este debate histórico, Francisco pretende dar uma resposta ao que denomina ecologia integral: “o grito da terra e dos sofridos”. Após a publicação da encíclica “Laudato Sí”, Jorge Mario Bergoglio é considerado um dos pontífices mais sensíveis aos problemas ecológicos. Ele convocou o Sínodo a fim de proteger os povos daquela região, que abrange nove países, considerada o pulmão do planeta.

O texto-base, elaborado a partir de questionários realizados com religiosos e fiéis da região, destaca a preocupação e também alerta para os graves problemas enfrentados pela Amazônia, como a devastação de seu território por grandes corporações, a corrupção, a migração para as cidades e o abandono das naçõesindígenas. É preciso “solicitar aos governos que garantam os recursos necessários para a proteção efetiva dos povos indígenas isolados”, clamam os prelados da Amazônia. Há de se encontrar caminhos para superar os processos que atentam contra a vida, pela destruição e exploração que depreda a Casa Comum e viola os direitos humanos elementares da população amazônica. Essa ameaça ao homem e à natureza deriva de interesses econômicos e políticos de setores dominantes da sociedade com conivências de governos. É preciso, assim, enfrentar a exploração irracional e construir um novo tempo – tempo de Deus – humanizado na Amazônia.

Os participantes irão discutir igualmente a possibilidade de ordenar homens casados e conferir alguns ministérios – em nível de diaconato – às mulheres para regiões distantes e carentes. De acordo com teólogos e historiadores, trata-se de uma abertura sem precedentes na história eclesial e de um gesto profundamente evangélico e inovador do Santo Padre. O texto assinala que o celibato é uma dádiva para o Povo de Deus. No entanto, para as áreas mais longínquas da região, analisar-se-á a viabilidade da ordenação sacerdotal de pessoas maduras e idôneas, respeitadas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável. Um dos objetivos precípuos é assegurar a recepção dos sacramentos que fortalecem a vida cristã. Além da abertura aos viri probati”, isto é, homens casados com funções sacerdotais, os bispos irão refletir sobre a probabilidade de criar “novos ministérios para responder de modo mais eficaz às necessidades dos povos amazônicos”. O Papa Francisco vive o que diz a Bíblia: “Eu vi a aflição do meu povo. Ouvi o clamor dos oprimidos” (Ex 3, 7).