A honestidade intelectual

 

Padre João Medeiros Filho

Pode-se verificar a forte influência exercida pela mídia sobre a cultura e o comportamento humano. Isso conduz a uma redobrada atenção sobre algumas desconstruções de conceitos fundamentais para o homem e a sociedade. O desinteresse pelo que é verdadeiro chega ao limite do tolerável. O pensamento pós-moderno – inspirado na dúvida cartesiana – questiona toda e qualquer verdade, fazendo com que a humanidade não dê mais importância ao que é certo ou errado. “Um dos maiores erros e pecados de nossos dias é a desonestidade intelectual, fonte de outras desonestidades”, afirmou o Papa Francisco. Parece não haver mais verdade, e sim interesses; direitos rechaçados por conveniências. Implantou-se o império do “politicamente correto”. Importa o que convém a alguns e não a objetividade dos fatos e realidades. Esquece-se o interesse coletivo ou o bem comum e cultua-se a egolatria.

Tangida pela onda do relativismo, a cultura atual busca desacreditar a milenar tradição que apresenta o conhecimento sob o ângulo da unidade da razão, isto é, a verdade em sua conceituação filosófica e ética. Em seu lugar, entronizam-se o oportunismo e a conveniência de ocasião. Muitas são as investidas em favor da fragmentação da verdade. Contrário a todo e qualquer projeto de veracidade, estabelece-se o reino dos sofismas e das mentiras em prol de interesses de alguns. Cada qual constrói para proveito próprio a sua versão, querendo impô-la como única e verdadeira.

Jorge Mario Bergoglio, no início de seu pontificado, denunciou a “ditadura do relativismo”, invadindo as instituições sociais, escolas e famílias, colocando em perigo a sadia convivência entre os homens. “Sem a verdade, não haverá paz”, concluiu o atual Pontífice. E continuou: “não pode haver paz, se cada um é a medida de si mesmo, reivindicando sempre e apenas os seus próprios direitos, sem se importar com o bem e o respeito aos direitos de todos” (Discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, em 2013). Acompanha-se o surgimento de várias ideias contrárias à imutabilidade da lei natural. Ideologias, como a de gênero, a desconstrução da família etc. são bastante polêmicas. Dizer que a sexualidade de cada pessoa é algo subjetivo – desconexo da objetividade do corpo – é fechar os olhos e negar o princípio antropológico-biológico da identidade. “Se não sou eu o criador ou autor da corporeidade, não posso mudá-la. Isso é falso e ilusório”, assim se expressara o teólogo Joseph Ratzinger (mais conhecido como Papa Bento XVI).

Tais ideologias pretendem moldar – a partir de uma ação orquestrada e difundida mundialmente – “seres humanos”. Segundo a doutrina cristã, Deus não concedeu ao homem o direito e poderes de mudar radicalmente o que Ele criou. Há aqueles que defendem como lícito reconstruir, a seu bel prazer, o corpo humano, do qual não são autores.  Trata-se de um descompromisso com a verdade e a lei natural, fundamento indispensável para edificar a comunidade dos homens e elaborar a lei civil. O sociólogo jesuíta padre Fernando Bastos d´Ávila, em brilhante conferência na Academia Brasileira de Letras (da qual era membro), assim se pronunciou: “Alguém tem escritura lavrada em algum cartório de que é dono exclusivo e absoluto da vida e do corpo”?

Quem se proclama medida única das coisas e da ética não consegue conviver e colaborar com o próximo e a sociedade (cf. Compêndio de Doutrina Social da Igreja, nº 142). Infelizmente, muitos encarnam analogamente a frase de Luís XIV: “l´état c´est moi”, querendo que sua vontade (ou a de seu partido) seja a lei! A negação ou o descaso da verdade (corolário da lei natural) gera uma cisão entre a liberdade dos indivíduos e o direito de outrem. É o que se assiste no Brasil de hoje. Auxiliados por Jesus Cristo, que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), esforcem-se os cristãos para que seus atos edifiquem o saudável convívio entre os seres humanos e a promoção do reino da justiça e da paz. “É preciso estar atentos para que nenhum dos nossos sejam seduzidos por qualquer vento de vã doutrina” (Hb 13, 9).

Santo Inácio de Loyola

Padre João Medeiros Filho

Celebra-se a festa litúrgica de Santo Inácio de Loyola, no dia 31 de julho, aniversário de sua morte, ocorrida em 1556. Piedoso, mas sem pieguice. Firme, contudo, terno e compassivo; culto e erudito, porém desnudado de arrogância. Obediente à Igreja, todavia sem subserviência. Teólogo, no entanto, distante de ideologias; humano, entretanto, sedento do divino! Poderia ser este o perfil de Inácio. O centro de sua vida foi Cristo. Denominou a ordem religiosa por ele fundada de Companhia de Jesus.

Nasceu, aos 31 de maio de 1491, em Loyola, município de Azpeitia, no País Basco. Recebeu o nome de Íñigo López. Perdera a mãe na tenra idade e o pai, aosdezesseis anos. Em 1506, tornou-se pajem do ministro do Tesouro Real de Castela. Em 1516, colocou-se a serviço do vice-rei de Navarra Gravemente ferido na batalha de Pamplona, passou meses convalescendo. Durante talperíodo, dedicou-se à leitura de obras cristãs, como:Vita Christi”, de Rodolfo da Saxônia, Imitação de Cristo, de Tomás Kempis e “Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze. Desejou uma vida voltada para Deus, seguindo o exemplo de Francisco de Assis e outros líderes espirituais.Desenvolveu os primeiros passos dos Exercícios Espirituais, que exerceriam grande influência naevangelização da Igreja. Após recuperar a saúde, decidiu consagrar-se ao serviço da Divina Majestade.

E1528, entrou para a Universidade de Paris. Ali,com outros universitários, plantou a semente de sua futura ordem religiosa. Incentivava o amor ao estudo, tornandoos padres da Companhia de Jesus muito bem preparadosintelectualmente. Isso explica sua vocação de educadores ededicação a colégios e universidades. No dia 15 de agosto de 1534, é fundada oficialmente a Companhia de Jesus na cripta de Saint-Denis da Igreja de Santa Maria, em Montmartre. Em 1537, o Papa Paulo III concedeu a aprovação canônica à ordem religiosa, autorizando a ordenação sacerdotal de seus fundadores.

O Papa Francisco é membro dessa ordem religiosa. Há seis anos, o mundo admirou a sua humildade. Em lugar da bênção que todos aguardavam, inclinou a cabeça e pediu que rezassem por ele. Nesses anos de pontificado, Bergoglio tem realizado um caminho renovador. O que importa para ele, como sacerdote jesuíta, é a centralidade em Jesus Cristo e seu ensinamento, não somente anunciado com palavras, mas com a vida. Procura agircomo o fariam o Mestre e Santo Inácio, aproximando-se das pessoas, escutando-as, consolando-as, sem julgá-las, porém amando-as. Bergoglio sentiu-se tocado pela vida de Inácio de Loyola, o qual era um apaixonado pelo Evangelho, sedento da graça divina, semelhante aoapóstolo Paulo: “Eu vivo, mas não eu: é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Inegavelmente, a educação brasileira muito deve à Companhia de Jesus. Como não reconhecer o valor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, confiada aos jesuítas, desde a sua fundação pelo Cardeal Leme? É valioso o contributo da Universidade do Rio dosSinos, em São Leopoldo (RS), da Universidade Católica de Pernambuco, da Faculdade Jesuíta, de Belo Horizonte, dos colégios Anchieta, Nóbrega, Padre Antônio Vieira, São Luís, Santo Inácio e outros, para a formação de tantoslíderes cristãos e quadros profissionais. No passado, o Rio Grande do Norte beneficiou-se da catequese dos jesuítas. Atualmente, tem-se o exemplo da obra evangelizadora de padre Agustin Catalayud, em Natal. Tudo para a maior glória de Deus”, segundo o lema inaciano. Câmara Cascudo registra a presença dos jesuítas em Arês, Extremoz, Angicos (outrora Curral dos Padres, em alusão aos presbíteros jesuítas) e até na pequena Jucurutu, de antanho. Eis o que também afirma o historiador Serafim Leite: Perseguidos, os nossos [termo como os jesuítas chamam os confrades] se refugiaram numa pequena aldeia, administrada pela Companhia [de Jesus], que do Arraial [Açu] dista cerca de dez léguas, à margem de um rio, povoado de piranhas, que banha igualmente o citadoarraial. Inácio de Loyola e seus discípulos combateram os erros e desvios do seu tempo. Seu testemunho de vida deve ser lembrado no Brasil de hoje, tão carente de justiça, de verdade, sobretudo de Deus!

A devoção a Sant´Ana

Padre João Medeiros Filho

Segundo a tradição católica, Ana era a mãe de Maria Santíssima. Nos evangelhos não constam informações a esse respeito. Os nomes de Ana e Joaquim são citados em escritos apócrifos, dentre eles, o Protoevangelho de São Tiago, datado de 150 d.C. Parece ser este o documento mais antigo a mencionar os genitores da Virgem Mãe de Deus. Apesar de receber pouca atenção da Igreja ocidental até o final do século XII, no Oriente, a devoção a Sant´Ana remonta  ao século VI. A partir de então, é reverenciada nas igrejas orientais e duas de suas grandes festas lhe foram dedicadas. 

Nas denominações evangélicas históricas, especialmente entre os luteranos, Ana também é venerada. Conta-se que Lutero ingressou na vida religiosa, como frade agostiniano, após pedir a sua proteção numa noite de tempestade. Por tal razão, em alguns países europeus, invoca-se a Mãe da Virgem de Nazaré como protetoracontra os relâmpagos. A esposa de Joaquim também é reverenciada no Islã. Seu nome não é citado no Alcorão. Entretanto, é reconhecida como uma mulher altamente espiritual e Mãe de Maria. Segundo as narrativas islâmicas, Hannah não tinha filhos, até a idade avançada. Um dia, sentada sob uma árvore, viu um pássaro alimentaros filhotes e sentiu o desejo de ser mãe. Suplicou ao Altíssimo e engravidou, dando à luz uma menina a quem atribuiu o nome de Miriam.

Sant’Ana tem sido muito cultuada pelos cristãos. Na igreja oriental, sua devoção aparece por volta do ano 550, quando Justiniano mandou construir em Constantinopla um templo em sua homenagem. Em 1584, o Papa Gregório XIII fixou o dia 26 de julho para sua festa litúrgica. Em 1879, Leão XIII a estendeu para toda a Igreja. No Ocidente, a primeira representação pictórica, atestando sua veneração, é um afresco do século VIII, exposto na igreja de Santa Maria Antiqua, em Roma. As imagens e ícones de Sant´Ana mostram-na (em pé ou sentada) com as tábuas da lei, abraçada a Maria Santíssima. Isto é simbólico, deseja mostrá-la como mestra da Palavra divina, exemplo a ser seguido pelos seusdevotos.

Seu culto expandiu-se pelo mundo inteiro. Santuários, catedrais, capelas, cidades e províncias lhe são dedicados. Destaca-se como padroeira da Bretanha, de Quebec e Düren (Alemanha). No Brasil, é titular de dezessete catedrais, co-padroeira das arquidioceses de São Paulo e do Rio de Janeiro. Cabe lembrar que é também a protetora de Goiás. No Rio Grande do Norte, é padroeira da diocese seridoense e de três paróquias (em Caicó, Currais Novos e Santana do Seridó). No bispado de Mossoró, é orago de Luís Gomes e Campo Grande. Na arquidiocese natalense, é venerada como titular das matrizes de São José de Mipibu, Santana do Matos, Capim Macio e Soledade II.Fato digno de nota é o seguinte: a freguesia de Jucurutu,ao ser criada, teve o seu território desmembrado de três jurisdições paroquiais dedicadas a Sant´Ana (Caicó, Campo Grande e Santana do Matos).

A devoção a Sant´Ana difundiu-se de tal modo que a Igreja lhe reserva o título de “Senhora”, que só fora concedido a sua filha. Assim, entende-se porque muitos católicos passaram a chamá-la de Nossa Senhora Sant’Ana. É patrona da Casa da Moeda do Brasil, por designação de Dom João VI. Exímia gestora e financista,dividia o salário do esposo em três partes: uma para a manutenção da família, outra para o culto e a terceira para ajudar os pobres. Suas relíquias são veneradas em vários lugares. Merecem destaque aquelas da catedral de Apt (perto de Avignon, na França), onde, segundo alguns pesquisadores, encontram-se seus restos mortais. Narra-se que, durante os séculos XII e XIII, os cruzados e peregrinos, ao retornarem do Oriente, trouxeram-nas até aquela cidade da antiga Gália.

Em Emaús (Parnamirim), há um mosteiro consagradoa Sant´Ana, local de adoração eucarística. Dom Nivaldo quis ressaltar o exemplo de Ana, a qual preparou Maria para ser o primeiro sacrário da humanidade. Desejavaque ela também educasse os corações dos fiéis para setornarem tabernáculos vivos de Cristo. “Salve, Sant’Ana gloriosa, nosso amparo e nossa luz”, cantam fervorosos os seridoenses.

A cor púrpura e os cardeais

Padre João Medeiros Filho

Em várias obras que abordam o tema, fala-se de púrpura, de matiz violeta, escarlate, azul etc. Afinal, qual é a sua verdadeira cor? Alguns estudiosos a definem comouma tonalidade violácea e variações de vermelho. A matéria prima é extraída da glândula hipobranquial de uma espécie de molusco existente no Mar Mediterrâneo.Quando exposta à luz e ao ar, essa glândula transparente tornase amarela. Em seguida, passa à coloração verde,que se transforma em azul e, por fim, em vermelho-violeta. Eis as informações de Inge Boesken Kanold, uma das maiores autoridades em cores raras. A púrpura tornou-se especial, em virtude de sua versatilidade, a partir da sua exposição à ação da luz e do ar, por um tempo maior ou menor. Originariamente, pode apresentar tons diferentes, mas seu colorido marcante está entre a ametista e overmelho-escuro.

No Império Romano, a púrpura era considerada preciosíssima. Apenas o imperador e os nobres vestiam-se com roupas preparadas com ela. Outras autoridades e dignitários do império trajavam vestimentas de outras cores, de acordo com sua categoria ou importância. Por volta do ano 60 de nossa era, Roma amanheceu indignadacom um decreto de Nero, restringindo seu uso à família imperial. Estabeleceu a pena capital e o confisco dos bens para os plebeus que usassem ou simplesmente comprassem tecidos purpúreos. Não é difícil imaginar o quanto esse ato despótico do imperador suscitou dereações iradas e revoltas nos membros das classes dirigentes e nos comerciantes.

Com o falecimento de Nero, o uso da púrpura foi liberado para quem tivesse condições de adquiri-la.Entretanto, quase quatro séculos mais tarde, o imperador bizantino Justiniano I restringiu novamente seu uso à corteimperial. Seus descendentes passaram a receber o epítetode porphyrogênete, isto é, nascido na púrpura. Com o tempo, o decreto deixou de ser aplicado, pois o comércio dos tecidos tingidos com a referida cor foi se tornandoraro, culminando com a queda de Bizâncio, em 1453. No entanto, na Europa, a partir do século XI, a púrpura foi sendo cada vez menos utilizada. Demasiadamente cara e fonte de manifestação de luxo em nada elogiável, seu uso sofreu censura por parte de destacadas figuras do clero, dentre as quais, São Bernardo de Claraval. Acabou sendopraticamente esquecida nas alfaias sacras.

Posteriormente, foi consagrada como cor característica dos cardeais católicos, revelando sua relevância e nobreza. Os senadores romanos eram definidos metaforicamente como parte do corpo do imperador. De forma análoga e segundo a tradição católica, os cardeais, que compõem o senado eclesiástico, também fazem parte do corpo do papa, desde 1150. O título de “cardinalis (pedra fundamental) era dado pelo imperador a generais e prefeitos pretorianos. Na Igreja, eles são os consultores pontifícios, tendo também a funçãode eleger e assessorar o Sumo Pontífice. Vale salientar que até o século XII, o Sucessor de Pedro era eleito pelo clero e fiéis de Roma, pois se trata de seu bispo.

A cor púrpura – outrora dominante no manto e na toga dos nobres romanos – é hoje característica dos cardeais, considerados príncipes da Igreja. Assume, porém, uma nova conotação: a de lembrar o sangue derramado por Cristo. Revestiu-se de um simbolismo, qual seja, o compromisso e a disposição dos cardeais de derramar seu sangue em defesa do Evangelho. Muito mais do que sua utilidade ornamental, a batina, o manto e barrete cardinalícios ressaltam um caráter simbólico e teológico. João Paulo II o relembra, dirigindo-se aos novos purpurados, em fevereiro de 2001: A púrpura não é o símbolo do amor apaixonado por Cristo? Nesse vermelho rutilante não está o fogo ardente do amor à Igreja que deve alimentar em vós a disponibilidade, se necessário, até o supremo testemunho do sangue, que está simbolizado? Mas nem todos se mostram dispostos a trilhar o caminho da simplicidade e humildade de Cristo. Alguns preferem as pompas imperiais às sandálias do pescador. Por isso, opõem-se abertamente às reformas deFrancisco, empenhado em desclericalizar a Igreja e livrá-la da ostentação, da opulência e da sede de poder!

O Sínodo da Amazônia

Padre João Medeiros Filho

O sínodo é uma assembleia periódica de bispos de toda a Igreja Católica, de um país ou região, presidida pelo Papa, para tratar de assuntos concernentes à vida eclesial. Constitui uma instância consultiva, inspirada no Concílio Vaticano II, prevista e normatizada pelo Código de Direito Canônico. Há também sínodos nas dioceses presididos pelos respectivos bispos. Meses atrás, o Sumo Pontíficeconvocou a referida assembleia para o período de 6 a 27 de outubro, no Vaticano. As circunscrições eclesiásticas daregião amazônica estão debruçadas sobre o documento preliminar (“Instrumentum laboris”). O texto é o ponto de partida para os debates dos participantes do encontro. O citado instrumento foi disponibilizado no dia 17 de junhopróximo passado, pela assessoria de imprensa da Santa Sé. Intitula-se “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” e foi publicado simultaneamente em três idiomas (espanhol, português e italiano). Compõe-se de três partes e 21 capítulos.

Na sua pauta, vários assuntos de cunho pastoral, teológico e social. Tem dentre seus objetivos conhecer melhor a riqueza do bioma, os saberes e a diversidade dos povos da Amazônia, especialmente os indígenas, suas lutas por uma ecologia integral, seus sonhos e esperanças. Visa a reconhecer as lutas e resistências de sua gente, que enfrenta ainda a colonização e projetos desenvolvimentistas voltados para a exploração desmedida e a destruição da floresta e dos recursos naturais. O Sínodo será, pois, um espaço privilegiado de escuta. Oportunidade para a Igreja qualificar ainda mais a sua missão na Amazônia, oferecendo a todos singular chance de dedicar melhor atenção a essa realidade ambiental, histórica, cultural, social, econômica e religiosa, de notável relevância. Por isso mesmo, a Igreja é interpelada a ouvir as pessoas, ricas de vida e sabedoria.

Com este debate histórico, Francisco pretende dar uma resposta ao que denomina ecologia integral: “o grito da terra e dos sofridos”. Após a publicação da encíclica “Laudato Sí”, Jorge Mario Bergoglio é considerado um dos pontífices mais sensíveis aos problemas ecológicos. Ele convocou o Sínodo a fim de proteger os povos daquela região, que abrange nove países, considerada o pulmão do planeta.

O texto-base, elaborado a partir de questionários realizados com religiosos e fiéis da região, destaca a preocupação e também alerta para os graves problemas enfrentados pela Amazônia, como a devastação de seu território por grandes corporações, a corrupção, a migração para as cidades e o abandono das naçõesindígenas. É preciso “solicitar aos governos que garantam os recursos necessários para a proteção efetiva dos povos indígenas isolados”, clamam os prelados da Amazônia. Há de se encontrar caminhos para superar os processos que atentam contra a vida, pela destruição e exploração que depreda a Casa Comum e viola os direitos humanos elementares da população amazônica. Essa ameaça ao homem e à natureza deriva de interesses econômicos e políticos de setores dominantes da sociedade com conivências de governos. É preciso, assim, enfrentar a exploração irracional e construir um novo tempo – tempo de Deus – humanizado na Amazônia.

Os participantes irão discutir igualmente a possibilidade de ordenar homens casados e conferir alguns ministérios – em nível de diaconato – às mulheres para regiões distantes e carentes. De acordo com teólogos e historiadores, trata-se de uma abertura sem precedentes na história eclesial e de um gesto profundamente evangélico e inovador do Santo Padre. O texto assinala que o celibato é uma dádiva para o Povo de Deus. No entanto, para as áreas mais longínquas da região, analisar-se-á a viabilidade da ordenação sacerdotal de pessoas maduras e idôneas, respeitadas por sua comunidade, mesmo que já tenham uma família constituída e estável. Um dos objetivos precípuos é assegurar a recepção dos sacramentos que fortalecem a vida cristã. Além da abertura aos viri probati”, isto é, homens casados com funções sacerdotais, os bispos irão refletir sobre a probabilidade de criar “novos ministérios para responder de modo mais eficaz às necessidades dos povos amazônicos”. O Papa Francisco vive o que diz a Bíblia: “Eu vi a aflição do meu povo. Ouvi o clamor dos oprimidos” (Ex 3, 7).

O bom nome é uma riqueza

Padre João Medeiros Filho

Quando criança, ouvia dos mais idosos que um dos valores preciosos da vida é o bom nome. Não se trata depessoas famosas, que atraem milhares de seguidores. O pensamento aqui se volta para a admiração e o respeito que alguém conquistou ao longo da vida. Construído dia após dia, lentamente, torna-se um bem valioso. E para obter tal reconhecimento, são necessárias escolhas certas, guiadas pela busca do que é legal, ético, justo, honesto e digno. Mas não se pode negar que é também algo frágil. Que o digam as redes sociais. Em questão de minutos, o conceito de alguém pode ser manchado e destruído. Nesse tipo de mídia, a cada momento, é lançada uma avalanche de palavras, ora edificantes, ora deletérias, e não raro com incitação à agressividade e ao ódio. Observa-se que a rapidez das mensagens não possibilita a ponderação, como exercício da inteligência e da prudência na comunicação. No silêncio da leitura pode-se não escutar o outro. Assim, as redes vão se tornando, pouco a pouco, lugares de discussões inflamadas e desrespeitosas. Concebidas para unir, estão se transformando em espinheiros, ferindo os que delas se aproximam.

É possível constatar que, uma vez lançado na lama, não será fácil limpar um bom nome. É muito difundida a metáfora sobre a calúnia e difamação, comparadas a um saco de plumas jogadas ao vento, do alto de uma torre. Mesmo que, tempos depois, se consiga provar a maldade do caluniador, o dano está causado. E se o erro vier a ser reparado, a sua cicatriz não desaparece. Já recomendava o apóstolo Paulo: “Abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência e linguagem indecente. Não mintam uns para os outros” (Col 3, 8-9).

Com o advento da internet, proliferou o número de mentirosos, maledicentes e detratores anônimos. Estes sãoapenas alguns termos para definir os destruidores da reputação alheia. Aproveitam toda oportunidade para menosprezar qualquer pessoa, talvez pelo simples prazer de destruí-la, por fanatismo, sectarismo ou até mesmo problemas psicológicos. Seria conveniente um estudoacurado sobre as causas de tal comportamento. Inveja? Ódio? Recalque? Frustação? Complexo de inferioridade?Sadismo? Provavelmente, um pouco disso tudo.

Não se pode ficar indiferente diante dessa realidade. O mínimo que as pessoas de bem devem fazer é evitar compartilhar mensagens inverídicas e não comprovadas,recebidas diariamente. Ou então, antes de repassá-las, verificar se expressam a verdade. A utilização inadequada de mensagens é desrespeitosa, não convence e causagrandes estragos. A Sagrada Escritura insiste sobre a necessidade de se preservar a reputação de alguém. “Não espalharás boatos, nem colaborarás com o ímpio por meio de testemunhos falsos (Ex 23, 1). Os discípulos de Jesus não podem aceitar a mentira. Ainda mais: devem rejeitar “todo dolo, hipocrisia, inveja e qualquer espécie de calúnia” (1Pd 2,1), advertia o apóstolo Pedro.

A maledicência e a calúnia destroem a honra do próximo. Todos devem gozar do direito natural à dignidade de seu nome e do respeito. E isto é cláusula pétrea, consagrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos (cf. art. XII) e nas constituições de vários países. Segundo o Evangelho e a moral cristã, a maledicência e a calúnia agridem a justiça e a caridade. É muito gravesemear o que é falso, com a intenção de prejudicar.A quem caluniar, eu calarei. Quem é soberbo no olhar e de coração enfatuado não o suportarei” (Sl 101/100, 5), diz o Senhor Deus. Na verdade é infeliz quem pensa limpar o quintal de sua casa, jogando lixo no jardim dos outros. Segundo o Mestre, a mentira e a calúnia são diabólicas. Isto está expresso no evangelho de João: “no demônio não há verdade, porque ele é mentiroso e pai de toda mentira” (Jo 8, 44). Quando alguém reconhece a dignidade de umapessoa, está a serviço do bem e da verdade. Esta tem um valor tão importante que é uma das autodefinições do próprio Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida!”(Jo 14, 6).

Agressividade Patológica

Padre João Medeiros Filho

No passado, pessoas divergiam e polemizavam, mas não se odiavam. Não havia a predominância da agressividade de hoje (camuflada em petulância, arrogância e violência), nem gestos ditatoriais, quando se quer impor uma mentira maquiada de verdade. Estudiosos comentam que, mesmo nos anos sombrios de regime de exceção, não se sentiam nas divergências políticas tanta intransigência, tamanha ira e incontido rancor. Hoje, perderam-se o respeito, a civilidade e a ética. Tornou-se comum ouvir discursos da tribuna do parlamento,contendo frases com ingente falta de decoro: “Vossa Excelência é um desclassificado”. Os termos não combinam e são antagônicos. Se alguém é realmente uma excelência, não é desclassificado. Se for isto, não pode ser excelente. Ignoram-se a semântica e a epistemologia. Taispalavras tornam-se desprovidas de nexo. Por que e para que tanta virulência e impetuosa necessidade de humilhar e debochar daqueles que ousam ter opinião contrária? O equilíbrio racional se esgarçou. Ruíram os grandes debates e discussões sérias. Do ponto de vista filosófico, o niilismo parece ter tomado o lugar do otimismo e bom senso. Tem-se a sensação de existir um altar erigido aosdeuses Egoísmo e Inverdade. Diante deles a solidariedade e a decência devem se curvar.

Ao perpassar pelas páginas da História, poder-se-áaprender lições importantes. Na Alemanha nazista, os supostos arianos se julgavam no direito de exterminar judeus, ciganos etc. Na União Soviética, os dissidentes padeciam nos rigores do inverno siberiano ou eram sumariamente executados. Nos EUA, a segregação racial impedia os negros de frequentar escolas e outros espaços públicos usados pelos brancos. A seletividade pode se tornar uma anomalia, estabelecendo limites entre os que são favoráveis e os contrários. Discordar é um direito intrínseco ao ser humano, à sua liberdade e à democracia. Nas relações pessoais ou sociais, a imposição do pensamento ou da vontade é sintoma de tirania. É o que parece acontecer no Brasil de hoje. Há despotismo de esquerda e de direita. Tenta-se, sem argumentação convincente, impingir aos outros sofismas e engodos. Faltam o verdadeiro sentido e a aceitação do contraditório. Não se acata outra visão dos problemas e da sociedade.

Hoje, o vazio de princípios e a ausência de lideranças vêm abrindo espaço à belicosidade. Ideias divergentes não são debatidas em fóruns adequados. A sociedade despolitizada gera manifestações de vinganças pessoais. Diante dos graves problemas nacionais, a preocupação não é buscar soluções justas e profícuas. O que importa écondenar e destruir os opositores. Instalou-se a picardia obtusa e inconsistente. Não basta contradizer o adversário, prevalece a sanha em desmoralizá-lo e destruí-lo. Não se procura argumentar, mas esmagar, em nome da obsessãopelo poder. A pátria é relegada ao abandono. Faz-nos lembrar o poema de Affonso Romano de Sant´Anna: “uma coisa é um país, outra o aviltamento”.

As redes sociais estão dando importância demasiada a certas pessoas e alguns grupos, que não a merecem. Oferecem aos usuários uma tribuna permanente de contestação. Em lugar de debates, têm-se celeumas. A insensatez ultrapassa os limites da razão e aceitabilidade. Abdicou-se da argumentação para se adotar a ridicularização. A falta de argumentos convincentes conduz necessariamente ao deboche. O linchamento virtual é efeito dessa carência de ideias e propostas, gerando o ódio. O ego se arvora em juiz absoluto. Há que desarmar os ânimos. Isso é papel relevante das igrejas, que devem pregar a paz, procurando diminuir o exército dos irados e pretensos donos da verdade. É preciso incentivar o respeito ao outro e poupar o coração do ódio. Ora, este só faz mal a quem o acumula dentro de si. Jamais Cristo o incentivou aos discípulos: “Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei o bem aos que vos perseguem. Tornar-vos-eis assim filhos de vosso Pai celestial, pois Ele faz nascer o sol sobre maus e bons” (Mt 5, 44-46). O preceito evangélico não significa condescendência com o mal, mas abraçar a tolerância e empenhar-se para fazer com que as pessoas não ajam como animais ferozes. Valerecordar o salmista: “Como é bom os irmãos viverem unidos! (Sl 133/132, 1).

A solenidade de Corpus Christi

Padre João Medeiros Filho

Na próxima quinta-feira, celebra-se a festividade doCorpo de Cristo, o alimento espiritual que nos une e fortalece. “Eu sou o Pão vivo que desceu do céu” (Jo 6, 51), dissera o Mestre. A solenidade foi instituída pelo Papa Urbano IV no dia 8 de Setembro de 1264, com o objetivo de proclamar a grandeza do mistério da Eucaristia. Esta é o sustento de nossa fé e caminhada. Esse sacramento é ummodo de Jesus permanecer junto de seus irmãos. Não vos deixarei órfãos” (Jo 14, 18). A presença de amigos é fundamental em nossa existência. Ninguém gosta de caminhar sozinho. É monótono e triste. Na trajetória, o diálogo é de suma importância. Por isso, Cristo legou-nos esse memorial, sinal de sua companhia. Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Não queria que padecêssemos de solidão. Por isso, fez-se Pão e permanência. Na Eucaristia comungamos o Corpo e o Sangue do Senhor, de forma mística sua humanidade e divindade. A vida que Deus idealizou para cada um de nósé fortalecida com o Pão Celeste, preparado pelo Pai para os seus filhos. A Eucaristia é antecipação da Eternidade, celebração do imenso banquete e encontro da família de Deus. Este deseja que possamos antegozar o definitivo de nossa história, ou seja, o abraço incessante do Criador com as criaturas. No mistério eucarístico temos Deus em Jesus atenuando as saudades de nossas origens e nossa pátriadefinitiva.

Mas, segundo a doutrina católica, na comunhão não tomamos apenas o Corpo e o Sangue de Cristo. Entramostambém em união com toda a sua doutrina, seu pensar e mandamentos. Não existe um Cristo dividido ou separado. Comunga realmente quem está disposto a alimentar-se do Evangelho do Senhor, a aceitar plenamente sua divindade, a necessidade de compreensão, verdade, perdão, amor, justiça e liberdade. O Brasil, que se diz cristão, está bemdistanteespecialmente nos dias atuais – dessa realidade.  Recebendo Cristo, não podemos aceitar aquilo que Ele condenou: a discriminação, a fome, a miséria, o abandono dos inocentes, idosos e doentes, a indiferença, a mentira, o egoísmo, o radicalismo e ódio. Junto com o sacrifício da cruz, a comunhão é o gesto supremo de amor de nosso Salvador. Assim sendo, ela convida-nos a partilhar nossa vida e nosso amor. Eis um dos simbolismos do partir o Pão(“fractio panis”) na missa, em que o Filho de Deus dá provas de sua doação para conosco.

A Eucaristia é o sacramento da unidade. Cristo reuniu em seu corpo, gerado no seio de Maria, a humanidade inteira. Desta forma, comungar é também se unir a todos aqueles que aceitam e vivem o pensamento e a doutrina do Senhor. A Eucaristia é o Pão da unidade, daverdadeira igualdade e fraternidade. Cristo revela-se comoirmão de todos: santos e pecadores, pequenos e grandes, fortes e fracos. No sacramento eucarístico Cristo -nos a certeza de que “Deus não faz distinção de pessoas”. (Rm 2, 21). Ali manifesta o plano de seu Pai, alimentando e unindo a todos com o seu amor, na caminhada da esperança e da fé. A Eucaristia é a presença permanente da solidariedade de um Deus, da ternura de um Pai, que nos envia um Irmão, pois Este dialoga com maior proximidadecom os outros filhos. O mistério eucarístico é Deus nos dizendo: eu amo todos, quero alimentá-los, “pois quem comer deste Pão, jamais terá fome” (Jo 6, 35). NaEucaristia Deus espera por nós. É o abraço divino a nósreservado e antecipado, o beijo carinhoso de um Pai discreto e bondoso, que vem silenciosamente para dizer que nos ama e perdoa. A Eucaristia é o sacramento da realidade celestial. Num paradoxo é a perenidade no tempo da encarnação do Filho de Deus, que quis estar unido à humanidade, mostrando que ela tem valor eterno. Não importam nossos pecados e limitações, pois Deus nos perfilhou por ato de misericórdia e clemência, fruto de sua incomensurável gratuidade. A Eucaristia é a resposta para o Brasil de hoje, desnorteado e dividido, abandonando – quem sabe – suas origens e vocação!

A cordialidade brasileira

 

Padre João Medeiros Filho

Por onde anda a cordialidade brasileira? Indaga-se quem a retirou do cenário de nossa pátria. O país está dividido, predominando os diálogos ríspidos e a falta de bom senso. A intuição de muitos permanece em constante estado de alerta. A maioria das pessoas não ouve mais o outro até o final de uma frase. Tampouco se lê com atenção livros, artigos ou mensagens nas redes sociais, até o fim. De imediato, já se começa a brigar. Se houvesse uma análise de interpretação de textos, vários demonstrariam o quanto são superficiais e equivocados em suas observações e comentários. Aquela expressão popular “andar com quatro pedras na mão” está cada vez mais presente. Parece que muita gente carrega os bolsos cheios delas para jogar em Maria, João, José ou você. A população vive pronta para atacar, ao menos verbalmente, marcada por intransigência, radicalismo e ódio. Há um constante mote de uns contra os outros, por motivos, não raro, fúteis, com demonstrações cabais de ignorância e intolerância. Isto vem transformando rapidamente nosso “país abençoado por Deus”, rico e exuberante em sua natureza, em território minado, fértil de contradições e relativismos. A discórdia está se tornando regra, a harmonia esparsa. O equilíbrio e o assentimento foram retirados de seu “habitat” para se instalar a provocação e a desavença.

Percebe-se, de plano, que muitas pessoas estão com a sensibilidade à flor da pele, mesmo que se esforcem para manter a calma. E isto tem motivações diversas: sociais, econômicas, religiosas, especialmente, políticas e ideológicas. Há quem se irrite com o vendedor ambulante (outrora folclórico), anunciando o seu produto pelo megafone. Ouve-se uma música e isso já é motivo de polêmica, pois o autor é de direita ou de esquerda. O telefone toca e o som incomoda. Ultimamente ninguém liga mais, apenas “whatsappa” (que os mestres da língua pátria nos perdoem o barbarismo).

Há forte sensação de que o inconsciente coletivo está perturbado e perturbador. Muitos estão doentes, atingidos por um bombardeio psicológico. Reina a dialética do bem e do mal, sem mais opções. Ou alguém está comigo ou contra mim, sem variações, e assim ninguém poderá entrar em acordo. Não se pode mais brincar, afirmando-se que a causa desse mal-estar deve ser a água que se bebe. Assemelha-se ao ataque de um vírus, contaminando amigos, familiares, crianças, jovens, autoridades e até religiosos. Vem se perdendo a noção do convívio, da temperança e sobretudo do respeito. Há quem diga que hoje a paz reside apenas em claustros, onde não se cultiva o hábito de ver televisão e as redes sociais.

É impossível ficar indiferente e silente diante da agonia do valor da vida. Onde está o país cordial, que vem sendo soterrado progressivamente? Não há como negar que nos últimos anos, a política nacional, os transtornos, a corrupção, os embates entre os poderes, o menosprezo dos valores e a inversão ética seguiram criando um novo estilo de grupos, rede de amigos que nunca se conheceram. Antes anônimos, tornam-se celebridades influentes na mídia.  O inimigo ficou invisível e se disseminou por todos os lados. Os levianos unem-se e constituem uma ameaça, carregando a hipocrisia, a ignorância, em nome de fatos irrelevantes. Estes alimentam a razão de ser de muitos cidadãos irrefletidos e acovardados diante da vida medíocre, anárquica e antiética que se pretende instalar.

O Brasil de hoje está muito pouco razoável. Encontra-se indefinido, inseguro e travado. O que vai acontecer com ondas sucessivas de desrespeito e afronta?  Caminha-se, sem se aperceber, em meio aos tropeços e irreflexões, para o caos, caso não apareçam líderes. Onde estão os homens de boa vontade de que fala o Evangelho de Jesus Cristo? E as igrejas, os pastores e os dirigentes espirituais? Pairam no ar o desejo, a verdadeira nostalgia e um grito de socorro: os brasileiros cordiais necessitam urgentemente retomar seus postos! Assim ensinou o apóstolo Pedro: “Sede todos cordiais e humildes” (1Pd 3, 8). E enfatizou Paulo: “Antes sede uns para com os outros benignos, cordiais e compassivos” (Ef 4, 32).

“Pé rapado. Sem eira nem beira”

Padre João Medeiros Filho

Pé rapado, sinônimo de pessoa humilde, era uma expressão bastante empregada no passado. Apesar de não se saber quando ela surgiu, verifica-se que, em meados do século XVII, foi citada por Gregório de Mattos Guerra, “o Boca do Inferno”. Este teria dedicado alguns versos a uma mulher soteropolitana que lhe pediu um cruzado para mandar consertar os calçados: “Anica…, lembra-te o tempo que andaste de pé rapado. O mestre Câmara Cascudo, em Locuções Tradicionais do Brasil, afirma que os termos significam “descalço, pé no chão”, uma metonímia para designar a população de origem modesta. Durante a Guerra dos Mascates (1710-1711), a expressão foi utilizada com referência depreciativa às tropas da aristocracia rural. Estas, descalças, combatiam o exército português, cujos membros da cavalaria ostentavam botas e uniforme de combate.

Mas, qual é sua origem? Desde os tempos remotos, na Europa ocidental, havia nas igrejas – que ainda não utilizavam carpetes – um aparelho para os fiéis limpar os pés, rapando o excesso de sujeira, antes de adentrar no templo. Posteriormente, o costume foi adotado do Brasil. Nos países europeus, quando não havia automóveis e as ruas não eram pavimentadas, o chão ficava molhado pela neve derretida. Em alguns casos, havia lama. Os fiéis que possuíam charrete, liteira e cavalos, serviam-se deles para se deslocarem às igrejas, permanecendo com os pés limpos até o pórtico do templo. Aqueles que não dispunham de meio de transporte, ficavam com os sapatos sujos. Antes de entrar nas igrejas, para não enlamear o recinto, limpavam no “rapador” a sola dos calçados. Daí, passaram a ser chamados de pés rapados. Em virtude de sua parca condição financeira, não possuíam carruagens e cavalos. A expressão passou a ser sinônimo de gente de poucos recursos. No Brasil colonial (e até hoje, em certas localidades), as ruas não tinham calçamento. Várias pessoas também andavam sem sapatos, necessitando “rapar os pés”, à porta das igrejas e de outros lugares públicos. Isso acentuava ainda mais os termos, consagrando a conotação de pobreza econômica.

Com um sentido análogo, tem-se a expressão “sem eira nem beira”, de largo emprego em Portugal e no Brasil, até a atualidade, para denominar cidadãos de classe econômica inferior. Alguns relatos dão conta de que os barões e os demais aristocratas olhavam com desdém os mais humildes. À época, quando uma moça se apaixonava por um rapaz pobre, os pais repreendiam-na com tal afirmação: “Fulano não tem eira nem beira”. Segundo alguns pesquisadores, a gênese dessas palavras está na arquitetura do Brasil colonial. No nordeste brasileiro, a expressão reveste-se do mesmo significado, aproximando-se dessa descrição arquitetônica. Consoante tal versão, antigamente as casas dos abastados tinham um telhado formado de: eira (o forro), beira (a platibanda) e tribeira (a cobertura com telhas), a parte mais elevada do telhado. As famílias de menos recursos não tinham condições de arcar com esse tipo de construção, erigindo apenas a tribeira, ficando sem eira nem beira. Para outros autores – que apontam origem diferente, no entanto com idêntica acepção – eira era uma área de terra batida, onde os grãos (trigo, arroz etc.) ficavam ao ar livre para secar. Entendia-se por beira o seu contorno. Na ausência deste, o vento levava os grãos e o proprietário perdia grande parte da colheita.

Tais expressões, embora se originem de nossa cultura e enriqueçam o vocabulário, encontraram reações e alguns opositores. Cabe lembrar a figura de Dom Silvério Gomes Pimenta, arcebispo de Mariana e primeiro eclesiástico a integrar a Academia Brasileira de Letras. Há relatos de que o prelado proibiu o uso das expressões nas paróquias de sua diocese por entendê-las contra o espírito do Evangelho. Em documento pastoral escreveu “O vosso bispo também não tem eira nem beira. Consolai-vos, pois o nosso Mestre e Salvador, de igual modo, foi considerado simplesmente como o filho do carpinteiro” (cf. Mt 13, 55). Lembrava ainda as palavras do apóstolo Tiago, em sua carta: “Meus irmãos, não façam diferença entre as pessoas [todos são irmãos e filhos de Deus]” (Tg 2, 1).

Por que não se entendem?

Padre João Medeiros Filho

Esta pergunta é ouvida frequentemente diante das dificuldades crescentes sentidas pelas pessoas no convívio social. Viver em sociedade sempre foi problemático e difícil. Porém, ultimamente, é um desafio. Tem-se a impressão de que o relacionamento pacífico tornou-se quase inviável. São significativos os dados que indicam o mal-estar causado pela incapacidade de conviver. Verificam-se desentendimentos, agressões, vinganças e até mortes. A violência é prova desse quadro que se vive atualmente. Mas, para aqueles que creem, Cristo assegurou a sua companhia: “Não vos deixarei sozinhos” (Jo 14, 15).

Segundo pesquisadores, os tempos modernos, envolvidos por tecnologias de aproximação – que tantos avanços trouxeram à humanidade – iniciam-se sob a égide da supervalorização do indivíduo. Primeiramente, houve a tomada de consciência da máxima cartesiana: “Cogito, ergo sum” (“Penso, logo existo”)! Em outros termos, o homem deve pensar e colocar-se no centro do universo! Passa a vigorar o antropocentrismo. Inegavelmente, ele trouxe benefícios. No entanto, quando o homem se coloca no centro de tudo, numa postura absolutista, como se fosse Deus, sentirá logo o delírio do poder e da autossuficiência. Tal atitude foi o primeiro pecado do homem, chamado original. Conforme a narração metafórica e mitológica do Gênesis, Adão e Eva aspiravam ser senhores de tudo. Instala-se o individualismo, aguçado pela cultura do consumo e pela globalização. Ele se volta fundamentalmente para o ter e não para o ser. Desta forma, o relacionar-se não se reveste de seu devido valor. O que conta é o possuir. Declara-se a guerra do acumular e do poder contra a ética e a decência.

A dificuldade para se viver em harmonia com o próximo é também uma consequência desse estado de coisas. O outro é sempre uma ameaça. É competidor e não parceiro, inimigo a ser vencido. Já dizia Jean-Paul Sartre, corifeu e defensor do existencialismo: “o inferno são os outros”. Cresce, nos dias de hoje, a ideia de que ser feliz é amar a si mesmo o suficiente para não precisar de ninguém (o mito da autossuficiência). Abandona-se aquilo que declarou Thomas Merton: “Homem algum é uma ilha”. A sociedade atual favorece a proliferação de narcisistas que, nas palavras de Theodore Rubin, “são pessoas que se tornam o próprio mundo e acabam crendo que são o mundo inteiro”. Assim, o conceito de liberdade – palavra-chave para se compreender a mentalidade hodierna – virou sinônimo da falta de limites.

Não é de se estranhar que os desencontros se agudizem, desde a dificuldade de relacionamento familiar (esposos, pais e filhos) e até entre os países. Um exemplo significativo é a falta de entrosamento entre povos ricos e pobres, começando pela questão ecológica. Problema esse tão grave, que foi objeto da encíclica do Papa Francisco: “Laudato si”. Por que não se entendem? Faltam abertura e diálogo. Isso dificulta o convívio entre pessoas, grupos e nações. Dialogar é característico do ser humano, dotado do poder de comunicação. O verdadeiro diálogo sabe escutar, respeitar e acolher. Não se pode esquecer que Cristo é o diálogo permanente de Deus, manifestado em ternura e bondade. Muitos conflitos foram resolvidos com o convite: vamos pensar juntos? O ser humano não é só indivíduo. “Constitui um elo indispensável da cadeia social”, como afirma o filósofo, ícone do personalismo, Emmanuel Mounier.

O exemplo perfeito de diálogo é dado ao mundo pelo próprio Deus. Na Bíblia, encontram-se os relatos da busca que Ele faz do homem que, por sua vez, também o procura. Trata-se de um maravilhoso encontro entre o céu e a terra: em Jesus Cristo. Nele, Deus encarna o ser humano, não para destruí-lo, mas para aperfeiçoá-lo e salvá-lo num sublime gesto de amor. Da comunhão com Deus, nasce a paz. Sem Ele, o homem pode se considerar único, senhor do mundo e da vida. Consequentemente, torna-se soberano e daí surge a violência como opção. Ela tem por base a ausência de Deus. Este é o referencial para o ser humano, criado à sua imagem e semelhança. O mundo não aprendeu ainda o apelo do salmista: “Como é bom e alegre os irmãos viverem unidos” (Sl 133/132, 1).

Saudades de Aznavour

Padre João Medeiros Filho

No dia 22 de maio, faria 95 anos um dos grandes nomes da canção francesa. Estamos sempre apaixonados pelas pessoas que têm talento”, dissera numa de suas apresentações em Portugal, referindo-se à amiga Amália Rodrigues. Shahnour Vaghinagh Aznavourian era filho deimigrantes armênios, que o introduziram, desde a tenra idade, no mundo do teatro e da música. Segundo seus biógrafos, começou a atuar, aos nove anos e logo cedo adotou o nome artístico de Charles Aznavour. Revelou-se, quando Edith Piaf  o ouviu cantar, considerando-o um romântico, quase lírico. É frequentemente descrito como o Frank Sinatra da França, exaltando principalmente o amor. Compôs inúmeras canções, gravou cerca de cem álbuns,vendeu milhões de discos e participou de sessenta filmes.Interpretava em francês, inglês, italiano, alemão, russo, armênio, espanhol e até português. Isso contribuiu para que se apresentasse no Carnegie Hall e em outras renomadas casas de espetáculos de diversos países.

Veio pela primeira vez ao Brasil a convite do então exarca armênio (bispo de uma diocese de rito oriental) deSão Paulo, onde fez uma apresentação beneficente para as obras sociais daquele bispado, responsável pelos fiéis armênios residentes na América Latina. Ouvi-o certa feitana casa de um colega de estudos da Universidade de Louvain (Bélgica). Depois passei a escutar suas músicas para melhorar meu francês, com forte sotaque nordestino, motivo de risos dos amigos francófonos. Além de sua interpretação tocante, impressionava-me também a letra de suas canções. Quem esquecerá palavras como aquelas que compõem a clássica Hier Encore” (Ainda ontem): “Ignorando o passado, conjugando no futuro, julgavaque queria o melhor, ao criticar o mundo. Além de rugas no rosto e o medo do tédio… [estou sozinho, pois meus]amigos partiram e não voltarão jamais. [Assim] congeleimeus sorrisos e choros. Onde estão agora meus vinte anos? A mensagem de sua poesia encantava a minha alma de jovem, distante da pátria. Como não ficar marcado com suas palavras: “Alimentei tantas esperanças,que bateram asas, deixando-me perdido sem saber aonde ir. Os olhos procuram o Céu, mas o coração está preso na terra”. Frases que emocionam ainda hoje este velho lente de latim, fazendo lembrar uma das odes de Horário:Somos criaturas com os pés fincados na terra, mas os olhos voltados para o Infinito”.

De volta ao Brasil, em 1972, após minha segunda permanência na Bélgica, não perdi o contato com suasbelas canções, graças ao professor Américo de Oliveira Costa, colega de magistério na Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza. Sabendo de meu interesse e conhecimento da língua de Bernanos e Mauriac (não profundo como o dele, mestre da Aliança Francesa), convidava-me para lanchar em sua residência, ao som das canções francesas de: Brel, Aznavour, Juliette Gréco, Brassens, Piaf, Moustaki, Bécaud, Barrière, Barbara Brodi, Mireille Mathieu e outros, que habitavam sua rica discoteca.Apesar de circunspecto, doutor Américo ria de mim, ao cantarolar as músicas com o forte acento (jamais perdido) do interior potiguar. Continuo um sertanejo e, por mais que tenha convivido com outras culturas, não abdiquei das minhas origens simples e interioranas. Confesso que a beleza literária sempre me cativou e amei a Sagrada Escritura primeiramente pela dimensão poética dos Salmos.

A humildade de Charles Aznavour também me servede exemplo. Certa feita, disse a um repórter: “Sou um homem simples, não uma estrela. Gosto de encontrar pessoas que aprendam coisas novas com as outras”. E concluiu citando o salmista: “Não ando à procura de grandezas, nem tenho pretensões ambiciosas(Sl 131/2, 1). Uma de suas faces marcantes era seu espírito humanitário e o amor ao próximo. Procurou seguir o que dissera Jesus Cristo: “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8). Desde o sismo de Spitak, em 1988, ajudava a pátria de seus ancestrais, através da FundaçãoAznavour. Comenta-se que doara milhares de dólares para assistência e desenvolvimento da Armênia. Não falava sobre o assunto e a quem lhe perguntava, respondia com a frase do Evangelho: “Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita” (Mt 6, 3).

Os opositores do Papa Francisco

Padre João Medeiros Filho

Verifica-se, em todas as instâncias da sociedade, uma tentação de querer denegrir, desqualificar ou destruir a quem se faz oposição. Neste contexto, entende-se mais uma carta aberta escrita contra o papa Francisco, publicada há poucos dias, assinada por dezenove sacerdotes esoi-disant teólogos. Desde que foi eleito, não faltam ataques veementes da parte de alguns católicos e eclesiásticos contra o Santo Padre. Na sua mansidão e sabedoria, optou por não responder a seus oponentes.Segundo alguns jornalistas, ele teria dito que não se deve desperdiçar água em terras cobertas por plásticos ouimpermeáveis. Dar ouvidos a pessoas que não fazem o mínimo esforço para compreender as nuances e o contexto dos pronunciamentos – ou já tenham opiniões preconceituosas formadas, acreditando-se detentoras de toda a verdade – é o mesmo que “dar beliscão em chifre de boi”, como afirmava Dom José de Medeiros Delgado, primeiro bispo de Caicó, ao ser injustiçado em um arcebispado nordestino.

No entanto, há algo de positivo na postura de tais críticos: tiraram o véu da hipocrisia. Ao menos não escondem a aversão ao atual Papa. É grande o desespero daqueles que foram apeados do poder, pois se acreditavam seus donos e proprietários de Deus. No Brasil, também quem se proclame defensor da modéstia e propagador dos documentos da Igreja (nem todos, pois o critério de escolha é totalmente ideológico) que, por causa da notoriedade nas redes sociais, não esconde seudescontentamento. Esquece que, consoante pesquisasrecentes, Francisco é o Papa mais respeitado e querido pelos não católicos, nos últimos cem anos.

Há alguns dias, a mídia divulgou a notícia de um religioso brasileiro bastante conhecido. Afirmavarespeitar filialmente o atual pontífice, mas nos bastidores teria desejado que Francisco renunciasse. Logo quem deveria em princípio incentivar os seus seguidores a amar o Pastor! Certamente não é o único. Frequentementecertos “youtubers católicos” proferem críticas levianas ao Pontífice e sequer citam em suas “catequeses virtuais” asencíclicas de Francisco. É hora de perguntar por que eleincomoda tanto? Sua visão de Igreja sem pompa, masservidora, na qual padres, bispos e cardeais não sejampríncipes, talvez venha a irritar muitos. Seu discurso contra as mordomias, em prol do serviço, suas intervenções contra as aparências em favor das transparências desestabilizam vários. Suas pregações contra os prazeres, pela pobreza e pureza inquietam tantos!

Existe ainda uma espécie de idolatria clerical e um endeusamento de certas figuras. Isto demonstra uminfantilismo religioso no qual está imersa parte de umcatolicismo neo-ultramontanista. Levadas por uma estranha nostalgia em relação ao catolicismo das cortesdos séculos passados, tais pessoas tratam com muitanaturalidade a ostentação de certos eclesiásticos. No entanto, deveriam aplaudir a cultura da simplicidade e do despojamento do Evangelho defendida pelo Papa Francisco. É isto o que ele vem demonstrando em suas mensagens, por gestos e pela reforma que deseja (apesar de tanta oposição) promover dentro da Igreja. 

Se conhecessem melhor os apelos de Jesus Cristo, talvez muitos mudassem de opinião. julgamentosinfundados contra Bergoglio, afirmações inverídicas,oriundas dos dezenove signatários da última carta aberta. Ali, já na introdução, acusam Francisco de incorrer emheresia, não proferindo uma condenação formal e explícita do aborto. Essa é uma alegação própria de quem não leu na íntegra os pronunciamentos do pontífice argentino, ao longo dos seus seis anos de pontificado. E são justamente esses adversários, desprovidos de honestidade intelectual,exaltados por alguns católicos. Dizem-se pessoas de reta intenção, agindo deste modo por amor à Igreja. O dia emque alguns desses “fiéis, com seus milhares de seguidores nas redes sociais, promoverem um estudo sério sobre a Laudato si e a Amoris Laetitia – as encíclicas mais rejeitadas pelos ultraconservadores – talvez muitos acreditem nesse amor filial ao papa que dizem nutrir tanto.É preciso sair à procura da verdade. Ela vos libertará” (Jo 8, 32), proclamou o Mestre. É de bom alvitre lembrarsempre as palavras do profeta Jeremias: Buscar-me-eis e me achareis quando me procurardes na seriedade e sinceridade de vossos corações (Jer 29, 13).

O Domingo das Mães

Padre João Medeiros Filho

Durante todo o mês de maio, homenageamos Maria Santíssima. No primeiro domingo, celebramos Nossa Senhora com a invocação de Mãe dos Homens, o mais antigo orago cristão da Virgem de Nazaré. E no segundo, festejamos nossas mães terrenas. Na primavera europeia, no mês em que as flores desabrocham, quis a Igreja comemorar a beleza da existência na pessoa de Maria e de nossas genitoras, “rosas de Deus”, na expressão de Santo Ambrósio. A Patrística greco-latina é rica em textos e comentários a respeito daquelas que nos dão a vida. Irineu, primeiro bispo de Lyon, as compara à “face terrena do Divino”. Ou, de acordo com Clemente de Alexandria, “mimo celeste na terra dos homens”. E João Crisóstomo as denomina “luz de nossos dias, sol de nossas vidas, estrelas de nossas noites e travessias”.

Mais do que justo e merecido é esse preito de gratidão, homenagem que se presta a todas as mães da terra. É importante celebrar o seu amor incondicional e doçura, carinho e compreensão, desvelo e dedicação. E nada melhor para simbolizar tais sentimentos do que a figura daquelas que nos geraram. Participantes do mistério do Criador e da clemência entre os homens, elas encarnam a benevolência divina e a benignidade sobrenatural, orientando nosso destino de criaturas, filhos do Eterno e do Infinito.

Relevem-nos por não conseguir descrever exatamente o quanto elas são especiais. Dotadas de sensores supersensíveis, não raro, chegam a captar o que não foi dito. Têm um olhar mais penetrante do que as sondas ultrassonográficas de última geração. Mapeiam o coração de seus filhos e rastreiam marcas de dor e sofrimento, “apenas ouvindo o seu timbre de voz. Seu toque mede a temperatura de nossa alma”, segundo palavras de nosso amigo padre Gleiber Dantas. Por isso, ultrapassam qualquer ciência, pois são divinas. O próprio Cristo, tendo dispensado os bens terrenos, não se privou do colo materno e do sorriso meigo daquela que Ele nos legou também para conceder a sua bênção. Eis aí o Teu Filho. Eis aí a Tua Mãe (Jo 19, 27), dissera Jesus, no patíbulo da cruz, antes de dar a sua vida pela nossa salvação. Deus sabia que um coração materno pode expressar, de forma perfeita, sua ternura. Assim, o saudoso Papa João Paulo I, iluminado pelo Espírito Santo, afirmara diante da multidão na Praça de São Pedro: “Deus é Mãe”. E há séculos, o bispo e teólogo Cipriano de Cartago, inspirado no profeta Isaías (Is 49, 15), já se referia a Maria Santíssima como rosto temporal de Deus”.

 É esse lado sobrenatural de nossas mães que se pretende proclamar no segundo domingo de maio. É a tradução da meiguice de Deus num ser humano, que nesse dia é celebrado, homenageando quem nos gerou. A grandeza do Criador tornou-se então acessível a todas as criaturas. Sua infinita munificência, capacidade de amar e perdoar se encarnaram numa representação terrena. O Pai celeste quis nos legar um sacramento universal de seu amor e de seu afeto. Por isso, concretizou o seu plano no coração materno.

A celebração do segundo domingo de maio – apenas para destacar um entre todos os dias do ano – é o memorial da sublimidade da vida. Lembrança da suprema beleza eterna, que Deus-Mãe reserva para os seus filhos. Não poderia deixar de existir no calendário uma data, que fosse a consciência explícita de nosso reconhecimento por um ser, que participa do mistério da bondade suprema. As mitologias greco-romanas e orientais apresentam deusas-mães. O cristianismo dá-nos uma Mãe celestial e a terrena a fim de nos acompanhar em todos os momentos e dimensões de nossa caminhada. Mãe é Amor. E Deus o é totalmente, define o evangelista João em uma de suas Cartas (1Jo 4, 8). Rezemos para que Maria venha cobrir com o seu manto sagrado todas aquelas que nos transmitiram o dom da vida e as abençoe. Ela é como uma centelha no coração daquelas que recebem a dádiva eterna, a ternura incomensurável de nosso Deus presente na face da terra!

Um grande desafio

Padre João Medeiros Filho

Segundo psicólogos, cientistas sociais e demaisestudiosos do comportamento humano, vive-se hoje um tempo de desinteligência, incultura, deselegância de gestos, arrogância, intransigência e bazófia. Cercam-nos laços de impostura e ausência de estatura cívica. Somos vítimas da rudeza de espírito e indigência moral. Deparamo-nos com sandices imensuráveis e incontáveis violações, em cenário crescente de decadência dasociedade civilizada. Um dos paradoxos dolorosos denossos dias reside no fato de que alguns medíocres pretendem ser detentores da verdade absoluta. Por outro lado, aqueles que pensam estão mergulhados em dúvidas e questionamentos. Como sentimos falta dos ensinamentos de polidez e urbanidade. Indaguem às ex-alunas da secular Escola Doméstica de Natal e aos egressos de tradicionais colégios potiguares, especialmente os religiosos. Há escassez de lições de etiquetas. Fomos da época do“Pequeno manual de civilidade para uso da mocidade”, da coleção F.T.D (orientada pelos irmãos maristas). É preciso saber usar o que se aprendeu na escola de nossos antepassados. Ali havia criatividade, beleza, valores humanos e especialmente baliza ética. Transmitia-se umaeducação generosa. Buscava-se incutir nos jovenscivilidade básica, polidez, elegância, respeito ao outro, solidariedade humana e cristã.

É necessário ler e refletir bastante (Ah! O livro, esse esquecido), ouvir canções com letras ricas em conteúdo, poéticas e de ritmos mais suaves. É imprescindívelabandonar um pouco o smartphone e voltar às rodas de conversas com familiares e amigos (alguns irão dizer: “padre velho cafona, saudosista e caviloso”). É importanteusufruir da natureza para superar a crueldade dos dias sem saída ou solução aparente. Deve-se procurar dialogar com pessoas sensatas, delicadas, do bem e de bem. Não se pode desprezar a suavidade e a tenacidade, a independência e a maleabilidade. Há carência da verdadeira tolerância e do autêntico respeito às diferenças. Falta firmeza, porém sem intransigência, de pessoas autênticas, vivendo outros ritos e expressões. Assim poder-se-á manter a integridade, o fio da lucidez do desafio de conservar-se de pé em meio a um vendaval de modos toscos e ideias rasas.Para vencer as contradições do mundo, só muita espiritualidade eprofundidade interior”, aconselhou recentemente o Papa Francisco.

A sociedade hodierna faz-nos incessantes apelos para que voltemos a pensar com o cabedal ético e axiológico,formado ao longo dos anos. É preciso não esmorecer e capitular. É fundamental saber dizer não ao conluio obscuro, à satânica e soturna cooptação de desvioshumanos e sociais. Aprendamos a não ficar ouvindo osladinos ventríloquos de discursos do oportunismo no campo político, econômico e religioso.

O convívio social nos impele ao exílio forçado, àretirada imposta pelo toque de recolher, oriundo dos partidos, sindicatos, grupos etc. Há que ter fé, paciência, coragem e esperança. Um vasto e surpreendente caminho deve ser percorrido nos territórios de nossa livre expressão. Defendamos veementemente as searas íntimas e exteriores da insubmissão ao que se pretende e tenta impor a nossa sociedade. Tudo passa, tudo se transforma ese desloca nos imensos terrenos da construção das amizades e culturas. Não poderemos esquecer que haverá lugar para a solidariedade, o amor à vida e respeito ao ser humano.

O apóstolo Paulo já advertia o seu discípulo Tito: “Há muitos revoltados, faladores fúteis e impostores. É preciso calar-lhes a boca. Movidos por interesses torpes chegam a dividir famílias inteiras” (Tt 1, 10-11). Talvez, se vivesse entre nós, diria assim: desconfiai da arrogância de algunsou da falsa aparência de outros. Podem estar escondendoalgum veneno letal. Tem-se de examinar, sobretudo, o que é apresentado como normal ou tido como coisa natural, nos dias de hoje. Em tempo de desordem, ódio,divergências, radicalismos e arbitrariedade, em períodos de mentiras  inescrupulosamente divulgadas e de atos desumanos, cumpre-nos o sagrado dever de rejeitar. Mas, nada poderá parecer impossível de mudar. Jesus Cristo, um dia, tranquilizou os seus discípulos: “Confiança, eu venci o mundo” (Jo 16, 33). É ainda válida e bem atual a recomendação do Mestre: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos vorazes.  Por seus frutos os conhecereis” (Mt 7, 15-16).