A catedral de Notre Dame

Padre João Medeiros Filho

A França é denominada pelos católicos “Filha primogênita da Igreja”. Lyon é a sé primacial, criada no século II. Santo Irineu, um dos pilares da Patrística, discípulo de São Policarpo de Esmirna, foi seu primeiro bispo. Paris, enquanto diocese, data do século III. Segundo alguns autores, a região foi catequisada por Saint Denis, martirizado por volta do ano 250. Outros historiadores afirmam ter sido São Vitorino o primeiro prelado. Entretanto, o site oficial da arquidiocese coloca-o, como o sexto bispo, em 346 de nossa era. A sede do bispado, hoje arcebispado é a catedral de Notre Dame (Nossa Senhora). O início de sua construção data de 1136. A circunscrição eclesiástica é pequena em extensão, possuindo uma superfície de 105 Km2 com uma população aproximada de 2,3 milhões de habitantes, dos quais cerca de 60% são católicos.
Em 1964, participamos em Notre Dame da missa de ordenação sacerdotal de padre Jacques Hubert, nosso colega de estudos, na Universidade de Louvain (Bélgica), presidida por Dom Pierre Veuillot (arcebispo coadjutor).
É ingente a importância histórica, arquitetônica, cultural e religiosa do renomado templo. Não daria para descrevê-la num simples artigo. Emociona-nos saber que lá, ao som do canto gregoriano, converteu-se ao cristianismo Paul Claudel. Na noite de Natal de 1886, ouvindo o coral, acompanhado pelos acordes do órgão, chorou copiosamente e pediu a Deus que o iluminasse. O poeta fora à catedral a fim de encontrar ali inspiração artística para as suas obras literárias. Parou do lado direito da catedral, junto à segunda coluna, onde se pôs a observar as pessoas orando. Subitamente sentiu um impulso de fé, acreditando em Deus transcendente, misericordioso, afável e paternal. Veio ao encontro de Claudel o Pai que conhecera, quando criança, e do qual se afastara na sua mocidade. Isto nos explicara, há mais de sessenta anos, nosso mestre Hélio Galvão, que recitava os versos claudelianos: “Onde encontrar paz, senão em Ti, Senhor? Quem enxugará as minhas lágrimas, senão Tu, Senhora Mãe do Amor e do Perdão”?
Em Notre Dame nasceram vários movimentos apostólicos marcantes para a história da Igreja. Quem esquecerá os padres operários, que aceitavam ser trabalhadores das minas, estivadores dos portos, garis anônimos? Em Notre Dame suplicavam a força e o silêncio de Maria, antes de começar sua missão. Esse modelo de vida e espiritualidade abraçou nosso saudoso amigo Michel Quoist, que nos levou ao Cardeal Maurice Feltin para receber a sua bênção. Quem não se recordará da Notre Dame, berço dos célebres sermões quaresmais, tocando os fiéis? No seu púlpito brilhou o Cardeal Emmanuel Suhard com sua sabedoria e eloquência. É do templo sombrio e frio, embalado pelo toque dos sinos seculares, chamando os devotos de Maria Santíssima para a oração, que sentiremos saudades. Sinos que inspiraram Vitor Hugo no Corcunda de Notre Dame. “Paris, são divinos os sons dos seus sinos, os sons de Notre Dame”.
Há quem chegue a pensar em incêndio criminoso, como um bispo brasileiro, ressaltando que já foram incendiadas mais de dez igrejas nos últimos meses, na França. O incêndio é metáfora. Lembra o fogo sobrenatural, destruindo a violência e a injustiça, o ódio e egoísmo, o esquecimento e desrespeito a Deus, que deseja se tornar presente nos templos e nos tempos, porém esquecido dos homens. A Virgem Maria – em plena semana santa – viveu a repetição de seu sofrimento, junto à cruz, ao ver a tristeza de seus filhos parisienses, contemplando sua casa em chamas! É lapidar a frase de Dom Eugênio Sales, quando administrador apostólico de Natal, referindo-se às obras da catedral de Nossa Senhora da Apresentação, assim afirmou: “É preciso construir primeiro a catedral dos homens [das consciências]”. Os franceses para não presenciarem outros desastres e acidentes deverão reconstruir igualmente a catedral do perdão e do amor, da fraternidade, da mansidão e humildade. O Papa Francisco deu o exemplo, ao beijar os pés dos dirigentes do Sudão do Sul. Vale lembrar as palavras do Cura d´Ars: “Deus habita no coração do homem, mas é necessário também um templo sagrado que seja a casa do encontro de todos os seus filhos”. Que todo ser humano seja realmente “o sacrário de Deus”! (1Cor 3,16)

Rememorando a Semana Santa

 

Padre João Medeiros Filho

Acertadamente, chamamos esta semana de santa. Inicia com o Domingo de Ramos, denominado assim desde os primeiros séculos da era cristã. Ramos de palmas foram jogados pelo povo nas ruas, como gesto de aplauso e reverência, quando Jesus adentrou em Jerusalém. Ele fez esse percurso, montado num jumento. Gesto insólito, mas previsto pelo profeta Zacarias: “Exulta de alegria, filha de Sião, solta gritos de júbilo, filha de Jerusalém: eis que vem a ti o teu Rei, justo e vitorioso. Ele é simples e vem montado num jumentinho” (Zc 9, 9). A chegada solene em Jerusalém simboliza a entrada gloriosa no seu Reino, contrastando com cortejos triunfais dos poderosos, que estamos acostumados a presenciar. Cristo demonstrou, assim, despojamento e humildade, como Rei e instaurador de um novo Reino, que não se fundamenta na prepotência, na força e, muito menos, na ostentação. “O meu Reino não é deste mundo” (Jo 18, 36), assegurou o Mestre a Pilatos.

Chegara o momento dos seus últimos ensinamentos, os mais difíceis de serem compreendidos e aceitos, dentre eles, o sofrimento na cruz. Trata-se da Quinta-Feira Santa, data marcante para a história de nossa Redenção. Nesse dia, Jesus instituiu o Sacerdócio e a Eucaristia, na qual está latente o autor dos sacramentos. Ainda na quinta-feira, Ele pronunciou o sermão de despedida: “Pai, é chegada a hora. Glorifica teu Filho, para que teu Filho glorifique a ti” (Jo 17,1). À noite, começa a agonia, no Horto das Oliveiras. Ali está prefigurado todo o drama do sofrimento humano, causado pelos nossos pecados. Jesus já havia falado sobre sua paixão: O Filho do Homem deverá sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e doutores da Lei, deverá padecer e ser morto” (Lc 18, 22). Naquela noite, Ele iria assumi-la radicalmente, agregando à sua cruz todas as dores da humanidade. Depois de preso, flagelaram-no. Aconteceu, também, a coroação de espinhos, a única conhecida na história.

Amanhecia a Sexta-Feira Santa. Cristo foi posto diante de dois tribunais. Primeiramente, o Sinédrio, onde foi incriminado por “heresia” ou heterodoxia, ao se proclamar Filho de Deus. Depois, levaram-no até Pilatos que, diante da insistência do povo, o condenou, entregando-o para ser crucificado. Começava, assim, o caminho do Calvário, que terminou com a sua crucifixão. Cristo ficou pendente na cruz, do meio-dia até às quinze horas, aproximadamente. Seguiu-se a sua morte, na qual Ele manifestou todo o seu poder, entregando-se livremente ao Pai: “Nas tuas mãos, ó Pai, entrego o meu espírito” (Lc 23, 46).

Finalmente, tudo confluiu para o grito exuberante do aleluia, na madrugada do domingo. Jesus quebrou os laços da morte, porque ela não tem poder sobre o plano de Deus. Tornou-nos merecedores da Vida Nova, através do sofrimento e da perfeita doação de si mesmo. E, ressurgindo, no-la dá como garantia e início da felicidade eterna. “Vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Devemos celebrar a Ressurreição com toda a alegria que Jesus traz a seus irmãos, especialmente com sua presença na Eucaristia.

Nesta Semana, toda a caminhada que fazemos com Cristo – das trevas do pecado para a luz da vida renovada – encontra o seu sentido mais profundo. Por isso, ela é santa e requer que todos a celebrem com o máximo de respeito, piedade e amor. Deus ama todos os seus filhos, eis a verdade proclamada e vivida nesta Semana. Às vezes, somos incapazes de imaginar incomensurável doação. Quem dentre nós, está disposto a sacrificar seu filho único para salvar e dar a paz aos outros? É esse amor que vivemos e celebramos, de modo especial no Tríduo Pascal. O gesto de Cristo é oferta divina gratuita, que atinge o ser humano em profundidade, antecipando-se até mesmo à nossa capacidade de amar. Ele ama-nos independentemente de nosso amor, não porque sejamos bons e justos, mas porque Ele assim o quis e deseja nos salvar e comunicar a vida em plenitude. Veio nos libertar daquilo que nos deixa infelizes. Sua Palavra transformará em alegria nosso pranto, em certeza nossa dúvida, em paz nossa angústia! Mistério insondável do amor de Deus!

“O que é a verdade”?

Padre João Medeiros Filho

É bem conhecida a pergunta de Pilatos a Jesus, durante o interrogatório deste: “Quid sit veritas?” (“o que é a verdade”? Jo 18, 28). Há várias interpretações. Dentre elas, incluir-se-ia a dúvida do governador romano da antiga Palestina. Para alguns, tratava-se de uma armadilha a fim de condenar Cristo com seus próprios termos e argumentos. Já para certos teólogos e exegetas, o Filho de Deus queria mostrar que, mesmo diante de fatos e evidências, muitos não aceitam o que é real e verdadeiro. Não será, portanto, o que acontece no Brasil de hoje, povoado de incertezas, contradições e sofismas? Em virtude disto – ante a pletora de informações e a influência exercida pela mídia na cultura e no comportamento humano – faz-se necessária uma maior atenção às desconstruções de conceitos fundamentais para a sociedade. Proliferam veiculações de arranjos semânticos, eufemismos, distorções, meias verdades, mentiras e engodos. Tudo isto tem deixado perplexa e enojada parte da sociedade.

O desinteresse pelo que é verdadeiro chega ao limite do crível e tolerável. O pensamento atual, maquiado por conveniências políticas, partidárias, econômicas, culturais e religiosas, manipula toda e qualquer realidade. Isto faz com que não se saiba mais o que é certo ou errado. Os filtros sociais não estão purificando as mentes, deixando passar o lixo de infâmias, calúnias, erros, desrespeitos e agressões. A sociedade tornou-se surda e míope, incapaz de ver o que é ético. O “nós” foi substituído pelo “eu”. A pátria foi reduzida a “meu” partido, sindicato ou grupo. Parece ser esta a consequência do desprezo da verdade, em que posições e interesses pessoais, políticos e outros agem diretamente contra os fundamentos da veracidade. Esta é confundida com ideologias, tornando-a sinônimo de favorecimento a alguém ou alguns.

Regida pelo relativismo e interesses não éticos, a cultura atual lança-se contra a milenar tradição de ver os fatos sob o viés da retidão humana, isto é, sob o conceito filosófico e moral de verdade. Esta, segundo os aristotélico-tomistas, define-se como a “adequação do pensamento e da realidade”. Muitas são as investidas socioculturais que tendem a construir um itinerário fragmentador desta concepção. No abandono ou relativização de todo e qualquer projeto de autenticidade, funda-se a definição fracionada do correto e verdadeiro. Cada um, com sua experiência, acha-se com o direito de elaborar a sua própria verdade e deseja impô-la, a todo custo, aos outros. Por conta de tal esfacelamento, sente-se dificuldade na arte de conviver e pisa-se no solo pantanoso da mentira e do falso.

O Papa Francisco, no início de seu pontificado, denunciara a “ditadura do relativismo”, que invade escolas, igrejas, instituições públicas e privadas, tribunais e governos, colocando em risco a sadia convivência entre os homens. “Sem verdade não haverá paz. E esta não pode acontecer, se cada um é a medida de si mesmo”, afirmou ainda o Santo Padre, falando ao corpo diplomático acreditado junto ao Vaticano, logo após a sua investidura como Sumo Pontífice.

A verdade é parte imprescindível da lei natural, por sua vez, fundamento moral para edificar a sociedade e elaborar a lei civil. A negativa de sua universalidade e imutabilidade impossibilita a construção de um relacionamento real e duradouro com outrem. Quem se autoproclama medida única da verdade não pode conviver e colaborar com seu semelhante. O obscurecimento da sua percepção, contida na lei natural, ocasiona cisão na liberdade dos indivíduos. São João Paulo II explicava que “enquanto exprime a dignidade do ser humano e estabelece a base dos seus direitos e deveres fundamentais, a lei natural – geradora da verdade – é universal nos seus preceitos, e sua autoridade estende-se a todos os homens” (cf. Veritatis Splendor, nº 51). Assim, iluminados por Aquele que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6), esforcem-se os homens de boa vontade e os cristãos para que seus atos promovam a união entre as pessoas, o reino da justiça e da paz. Convém lembrar a Carta aos Hebreus: “Que ninguém seja tangido pelo vento da vã doutrina ou palavra mentirosa” (Hb 13,9). 

E por que não comem brioches?

Padre João Medeiros Filho

O historiador Luiz Eduardo Brandão Suassuna – mais conhecido nestas plagas potiguares pelo carinhoso epíteto de professor Kokinho – poderá discorrer, de forma abalizada, a respeito da rainha da França Maria Antonieta (1755-1793) e sobre a famosa frase que lhe é atribuída: “Qu’ils mangent de la brioche”. Esta foi citada por Rousseau em seu livro As confissões e teria sido proferida por sua majestade real, num período de fome inclemente ocorrido na França, durante o reinado de seu marido Luís XVI (1754-1793). Informada de que as pessoas estavam sofrendo devido à escassez generalizada de trigo e pão, a soberana respondera ironicamente: “então, que eles comam brioche”, o que causou indignação aos habitantes.

De forma metafórica, enquanto a nação brasileira está faminta e, ao mesmo tempo, reivindicando justiça, retidão e decência, alguns poderosos agem de modo análogo. É também verdade que muitos líderes e governantes parecem não ter conhecimento destas importantes palavras encontradas no Alcorão: “Deus é o maior de todos os juízes e destrói todas as conspirações”.

Estamos cansados de ouvir: “o poder corrompe, a história se repete” e constatar que vários se servem do povo e não a este. Tem-se consciência igualmente dos riscos e consequências de tal situação. Deixa-se com frequência, para um segundo plano, a percepção das armadilhas inerentes à sede inebriante do poder e dos devaneios oriundos da visão turvada do pedantismo e da bazófia. A nação brasileira carece de saúde, habitação, emprego, educação, segurança e dignidade, clamando pelo pão material e espiritual. Não obstante, tantos dirigentes, em todos os níveis dos poderes, destilam sua insensibilidade, agindo de modo insensato e sarcástico, como se mandasse o povo procurar brioches. Triste é o país em que os interesses e conveniências de grupos ou partidos valem mais que o bem da pátria. É deprimente verificar egos inflados, instigando contendas lesivas à nação.

Diante da miséria e desesperança de muitos, da manutenção de tantos privilégios e benesses para uns apaniguados, o povo reclama da postura escarnecedora daqueles que se locupletam e distribuem as migalhas caídas da mesa dos opulentos. Desdenham a verdadeira fome dos compatriotas, que ainda humildemente (até quando?) estendem a mão em busca do que lhes é devido, como se fosse um favor e não um direito. Muitos esqueceram as palavras do Mestre: “Se alguém lhe pedir pão, lhe dará um escorpião? Ou, se lhe pedir peixe, lhe dará, em lugar de peixe, uma serpente?” (Lc 11, 11). Faz pensar igualmente no profeta Isaías: “a bebida que lhes dão tem um sabor amargo” (Is 24, 9). 

Há uma pergunta que se costuma fazer às crianças do catecismo: qual o personagem da Bíblia que fracassou e teve o mais trágico dos destinos? A resposta é certeira: Lúcifer, o anjo decaído (cf. Ez 28, 17ss; Is 14, 12ss; Ap 12, 7ss).  E esta afirmativa conduz a outra inevitável questão: mas ele caiu por quê? A explicação, por mais simples que pareça, é contundente: pelo fato dele ser arrogante!  Autoridades impassíveis, que brincam com o destino dos seres humanos e da nação, acabarão por compreender um dia que a insolência e a ilusão da impunidade levam à destruição. Deve-se ter em mente a sentença lapidar creditada a Abraham Lincoln: “Pode-se enganar a muitos por algum tempo; a alguns por muito tempo, mas não é possível enganar a todos por todo o tempo”. A maioria dos brasileiros está consciente de que – embora vários se iludam ou se aproveitem do véu da ignorância dos outros – o logro e o escárnio de muitos não poderão ser perpetuados. Tais líderes e dirigentes não estão percebendo os danos que são causados atualmente ao Brasil. Observa-se que o egoísmo tem falado mais alto. E isto é altamente nocivo e perigoso. Eis um dos conselhos da Sagrada Escritura: “Não é prudente que os reis bebam vinho em demasia. E aqueles que têm a responsabilidade de governar, tampouco devem se entregar a outras formas de embriaguez [tais como: o delírio do dinheiro e do poder]” (Pr 31, 4).

O Papa Francisco renunciará?

Padre João Medeiros Filho

Francisco declarou, na XXXII Jornada Mundial da Juventude, realizada no Panamá, em janeiro passado: “Se não for eu, Pedro vos confirmará na fé na próxima Jornada”. Não foi somente ali que ele sinalizou com o fim do seu ministério petrino. Em vários momentos, elogiou a coragem de Bento XVI, ao dizer adeus à vida estressante de um Sumo Pontífice e às fortes pressões da Cúria Romana. Chegou a citar Celestino V (Pietro Angeleri, monge beneditino que também renunciou), quando desabafou: “a sede de poder sepulta a lucidez e a retidão”. Bergoglio – que completou seis anos de pontificado no dia 13 do corrente mês – defronta-se com os graves problemas, que já recaíam sobre os ombros de seu antecessor. Talvez por isso, o Papa sente urgência em preparar o terreno para o seu sucessor e tem deixado entrever isto em pronunciamentos, viagens e encontros importantes que ocorrem frequentemente no Vaticano. Seu cansaço visível tem sido alvo de comentários recorrentes entre os jornalistas acreditados junto à Santa Sé. A cada evento, perguntam até que ponto o Pontífice (que tem apenas um pulmão) vai suportar esse ritmo de trabalho e a onda de oposição. O fulgor e entusiasmo dos três primeiros anos de seu papado hoje dão lugar à serenidade de um ancião que está consciente de suas limitações. Porém, ele vislumbra ser imprescindível desbravar novos horizontes para o futuro do cristianismo, combalido por conta dos escândalos de vários eclesiásticos em diferentes países.

Francisco lança também sua esperança na diplomacia, indo a lugares onde, até então, somente a correspondência e a presença dos diplomatas conseguiam chegar. É o caso dos Emirados Árabes Unidos, país que visitou em fevereiro último, a convite do Sheikh Mohammed Bin Zayed Al Nahyan. Até essa viagem histórica, o diálogo entre o Vaticano e os Emirados limitava-se à troca de mensagens protocolares. O estabelecimento das relações diplomáticas entre a Santa Sé e essa confederação de monarquias árabes, só veio a acontecer, durante o pontificado de Bento XVI, em 2007. “Alegra-me encontrar-me com um povo que vive o presente com o olhar voltado para futuro”, disse o Papa Francisco em vídeo-mensagem por ocasião de sua viagem àquele país.

É do conhecimento de muitos que a diplomacia vaticana não interfere em questões econômicas ou militares. Em meio às relações multilaterais, a Santa Sé investe na força das ideias e da razão, atuando como mediadora e conciliadora, quando necessário se faz. Francisco e seu experiente Secretário de Estado, o Cardeal Pietro Parolin, o fazem com dedicação e maestria. Nesse contexto, aconteceu essa importante viagem na qual Bergoglio participou também de um encontro inter-religioso internacional sobre a fraternidade humana, em Abu Dhabi. O Papa foi a um país que tem o islamismo como religião de estado e no qual, segundo a lei nacional, converter-se a outro credo é ato de apostasia e, em vários casos, crime. Sendo assim, os cristãos – cerca de novecentos mil distribuídos entre os sete principados, que constituem uma circunscrição eclesiástica (Vicariato Apostólico da Arábia Meridional) com quinze paróquias – não estão autorizados a desenvolver qualquer tipo de evangelização, uma vez que a liberdade de culto se limita à vivência da fé no interior das residências, sendo proibido o proselitismo.

Alguns estudiosos dos assuntos do Vaticano questionam se Francisco, no momento atual, considera sua renúncia uma alternativa viável, tendo em vista a existência de outro papa emérito. Sendo assim, 2019 poderá não ser ainda o ano da despedida de Francisco. No entanto, a Igreja Católica entrará em um novo tempo com a reforma da Cúria Romana, prevista para o primeiro semestre. E dessa mudança nascerá sem dúvida uma nova configuração de estrutura eclesial. Renunciando ou não, ficará uma lição marcante do Papa Francisco: tornar visível uma Igreja mais próxima do Evangelho de Cristo, simples, aconchegante, terna e rica da misericórdia, reavivando em seus irmãos as palavras do Mestre: “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar, mas para salvar” (Jo 3, 17).

O respeito em agonia

Padre João Medeiros Filho

Em artigo anterior (nesta coluna) abordamos, dentre outros aspectos, a falta de respeito, que dificulta o convívio. Para aqueles que o valorizam e consideram-no uma condição para a convivência saudável, torna-se fácil comprovar essa triste realidade: o respeito está em agonia. No contexto da atual sociedade, tal virtude, há muito, deixou de ser um valor na escala axiológica. E, por isso, verifica-se que cada vez menos as pessoas conseguem, em seu cotidiano, obedecer aos seus limites, ter em mente a dignidade do outro, perceber a fragilidade da vida, o equilíbrio da realidade social e da “Casa Comum”, consoante a expressão do Papa Francisco.

Segundo estudiosos, não se trata simplesmente de má vontade ou da ausência de caráter, mas de perda cultural e moral. De fato, estão desaparecendo a capacidade, as condições e as possibilidades de sentir e transmitir o respeito como valor estruturante do conviver. Isso acontece também porque se aceita a influência perversa da pressa. Passa-se a viver num corre-corre insano e desumanizador. Atropelam-se e ignoram-se valores, instituições e pessoas. Nisto reside também o desrespeito. Acolhe-se e registra-se tacitamente, como axioma inquestionável, uma espécie de imperativo categórico da mentalidade capitalista: “Time is money” (tempo é dinheiro). Com isso, de modo frenético, diariamente muitos se entregam, conscientemente ou não, aos vorazes e insaciáveis preceitos de “cronos”, o deus do tempo. Neste embalo também presta-se culto a “mamon”, a divindade do dinheiro, que promete libertar o ser humano das garras sufocantes de “cronos”. Não raro, pensa-se desta forma: quando se acumular bastante dinheiro, ter-se-á tempo para poder gozar plenamente a vida! Deste modo, sacrificam-se a existência e as relações com os outros.

Assim, sem a percepção das consequências, forja-se um jeito doentio de convivência. Não se tem mais tempo para assimilar as experiências vividas, as lições diárias que a vida gratuitamente oferece. Destrói-se o berço natural e indispensável para internalizar o respeito como virtude humana. Não é à toa que etimologicamente o termo provém do latim “respectus” – particípio passado de “respicere” – que significa olhar novamente. Ele nasce da consciência de que as pessoas, os fatos para serem compreendidos ou aceitos precisam de outros olhares e isto necessita de paciência. Exige a reverência de nossa atenção e cuidado. Sem isso não há consideração, tampouco um relacionamento saudável entre as pessoas. A educação, o amor, a amizade e outros valores ou sentimentos construtores da existência não funcionam sem um dedicado cultivo da paciência. Aí, de fato, entende-se que a pressa é inimiga da vida humana e, por conseguinte, desrespeitosa.

Não se tem mais tempo disponível para contemplar coisa alguma. Por isso, infelizmente, elimina-se a capacidade de transmitir a experiência fundante do respeito. Acompanhar a evolução da vida na pequena semente que brota, deleitar-se com o pássaro entoando seu canto matinal, emocionar-se com a pureza de uma criança, seu sorriso e o engatinhar de seus primeiros passos, tudo isso parece passar despercebido. A pressa não leva as pessoas a valorizar o andar inseguro e o olhar profundo de um idoso para a vida. Abandona-se a contemplação poética e orante de deixar-se iluminar pela magia do ocaso e da aurora, ou ainda, ser tomado pela beleza do céu estrelado e do contínuo balanço das ondas do mar… Não se tem mais tempo de avaliar a violência cultural, que está submetendo lentamente muitos à morte interior. A pressa – além de destruir o respeito – está aniquilando o hábito da contemplação, da poesia e da prece.

Vale a pena a leitura e a reflexão de dois textos: o poema-oração de Michel Quoist: “Não tenho tempo, Senhor”, em “Poemas para rezar”, ou ainda a canção do acadêmico pernambucano Oswaldo Lenine: “Paciência”. Ali enfatiza: “Enquanto o tempo acelera e pede pressa, eu me recuso… O mundo vai girando cada vez mais veloz… mas espera de nós paciência”. O apóstolo Pedro já aconselhava os cristãos de seu tempo: “Tratai todos com a devida reverência e respeito, amai os vossos irmãos e a Deus tendes temor” (1Pd 2, 17).

A difícil arte da convivência

Foto: João Gilberto

Padre João Medeiros Filho

Atualmente, é bastante forte e comum a falta de respeito, tanto como a agressividade nas relações entre as pessoas. Há uma dificuldade ou inabilidade em saber conviver. Muitos sequer se apercebem disso. Um passeio pelas ruas das cidades é suficiente para presenciar flagrantes, que evidenciam a impressionante incapacidade de se desfrutar de uma vida social saudável. Parece que se abriu mão dos avanços positivos da civilização e, no tocante ao relacionamento humano, não raro tem-se a impressão de um retorno à idade da pedra. A deterioração das relações sociais chegou ao nível em que uma pessoa polida e urbana torna-se joia rara, suscitando por vezes desconfiança ou escárnio. Noções básicas de polidez e civilidade parecem ter sido esquecidas e abolidas. Gentileza assume ares de fraqueza, exibicionismo ou esnobação. O Papa Francisco afirmou em recente alocução: “As coisas estão se invertendo cada vez mais. O feminismo saudável está se transformando num machismo de saia, relegando a um segundo plano a grandeza da mulher e sindicalizando a dignidade feminina”. Para muitos, mostrar-se gentil denuncia insegurança e necessidade de aprovação social. A noção de coletividade e pertença a um meio – onde os direitos dos demais devem ser observados – virou uma metáfora risível. Ética tornou-se algo ultrapassado e sem espaço no mundo moderno. As pessoas ignoram o seu significado e a sua importância. O egoísmo, a grosseria, a intransigência, a intolerância, a impaciência e a arrogância passaram a dar o tom no dia-a-dia.

Tudo isso tem suas causas. As condições educacionais, o desprezo ou abandono da axiologia, a ausência da prática religiosa (seja qual for), como parâmetro de vida e a influência externa estão destruindo nossas tradições e hospitalidade. A educação tradicional foi substituída por uma perigosa permissividade. O que se vê hoje é a consequência natural dessa transformação conjugada à insanidade pela qual o mundo enveredou. Como pode se comportar um indivíduo criado sem limites e com pouco ou nenhum preparo emocional e psíquico? Chegando à vida adulta, encontrará uma sociedade altamente competitiva, escravizada pelo consumismo desenfreado, pela fome incontida do lucro, pela injustiça, corrupção, violência e por um culto mórbido à aparência, tanto física, quanto social. Vive-se no mundo do desrespeito, do ter, do poder e aparecer. Pode-se verificar isto nas deprimentes sessões do Parlamento Nacional. Ali, as regras comezinhas do conviver são ignoradas. O uso hipócrita das formas oficiais de tratamento, mesuras e rapapés não ofusca a degradação de certos parlamentares. Não se deve confundir autenticidade ou convicção ideológica com insultos, discordância de ideias com agressão ou destruição e bem-estar coletivo com projetos de pessoas ou partidos.

Muitos concordam que a educação permissiva fracassou e o antigo modelo autoritário também se revelou inadequado. Na verdade, o atual sistema educacional tem se mostrado pouco eficiente. A ênfase dada por algumas instituições de ensino é centrada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou o equivalente, como se o futuro do ser humano fosse apenas o mercado de trabalho ou a profissão. A escola prioriza a transmissão de muitas informações e subestima outros valores humanos, levando à fácil ideologização. O ensino superior propõe-se a preparar técnicos, esquecendo o cidadão, o futuro esposo e pai de família. Faltam líderes com exemplo e testemunho de vida. “É preciso humanizar o homem” insistia Jacques Maritain, em sua obra “O humanismo integral”. E Charles Chaplin reiterava: “Sois homens e não máquinas”. É urgente começar implementando noções claras de uma cordial convivência em sociedade. Isto pode soar aos ouvidos de vários como algo estapafúrdio. No entanto, é uma reivindicação imprescindível e inadiável. Não lograram grande êxito os métodos rígidos, excessos e lições de moral alienada. Tampouco cabem a permissividade e o laxismo. Mas é fundamental que reine o respeito entre todos. Porém, necessita-se fazer algo. O cristianismo tem a missão de melhorar ou aperfeiçoar o ser humano. Eis o que nos ensina a Sagrada Escritura: “Ninguém dentre vós agrida, desrespeite, desconsidere e oprima seu próximo. Somente Eu estou acima de vós e sou o vosso Deus” (Lv 25, 17).

QUARESMA E CAMPANHA DA FRATERNIDADE

Foto: João Gilberto

PADRE JOÃO MEDEIROS FILHO

A quaresma é o reviver da caminhada do Povo de Deus em busca da Terra Prometida. É tempo de esperança, expectativa de reencontro, época de sonhos e planos. Como estará a pátria de onde saímos e para a qual pretendemos voltar? Como estão as pessoas que ali deixamos? A viagem é sempre um período de reflexão, planejamentos e, por conseguinte, conversão. Deste modo, quis a Igreja nos proporcionar um espaço interno e temporal, durante o ano, a fim de realizarmos uma viagem ao interior de nós mesmos. E assim, voltando ao que é verdadeiramente nosso, possamos nos deparar com o que ali deixamos, encontrando-o mais amadurecido e mais rico. Às vezes, de volta à casa, depois de meses ou anos, muita coisa não existirá mais. Da mesma maneira, o que é velho, no dizer de São Paulo, deverá desaparecer para dar lugar à novidade de Deus. Esse tempo privilegiado na vida cristã é a Quaresma. Mas, esta não é apenas um período litúrgico. Há uma realidade quaresmal também ao longo de nossas vidas, em que devemos retornar para a terra prometida por Deus, que é antes de tudo nossa paz interior e o encontro com nossa verdade e nossa individualidade.

Quaresma é tempo de aniquilamento e renascer. A cerimônia de cinzas representa uma destruição interior, o fim de tudo aquilo que nos afasta de Deus e de nós mesmos. É preciso reduzir a pó ou a cinzas nossa mentira individual ou social, nosso fracasso, numa palavra, nossos pecados para que possa nascer o homem novo, que Cristo veio mostrar. As cinzas são simbólicas, significam nossa conversão, a cremação de nossos pecados e o brotar de novos planos. Por isso deve surgir em nós um desejo autêntico de escuta da palavra de Deus. A caminhada, a viagem nos dá a oportunidade de dialogar e ouvir outras pessoas. A Quaresma é esse convite a uma escuta atenta e profunda de Deus. É sua Palavra que ilumina nossa vida, que nos chama à transformação interior e nos dá a verdadeira dimensão da misericórdia divina, do perdão e da graça.

Em geral, ninguém caminha sozinho. A viagem é mutirão e partilha. Assim foi o êxodo do Povo de Deus. Durante a peregrinação, muitos conversam e questionam. Por esse motivo, a Igreja instituiu a Campanha da Fraternidade, que é a reflexão em nossa caminhada anual. Neste ano de 2019, a Igreja do Brasil convida-nos a discutir o problema das políticas públicas. Por que? Há muita coisa a ser pensada. Mas, a Terra Prometida que esperamos, o Mundo Novo, feito de mulheres e homens livres, de pessoas solidárias e fraternas, constrói-se na caminhada e começa antes de tudo na retidão de nossas consciências e na sinceridade de nossos corações. Entenderemos assim o que diz Javé, Deus Todo-Poderoso, ao se definir: Eu sou a Libertação. Ouvi o clamor do meu povo e resolvi descer para libertá-lo da escravidão, da opressão e da morte (Ex 3, 7-8).

O lema bíblico escolhido para iluminar a Campanha da Fraternidade 2019 foi extraído do livro do profeta Isaías: Serás libertado pelo direito e pela justiça (Is 1,27). A Sagrada Escritura utiliza, no Antigo Testamento, a palavra direito para designar a ordem justa da sociedade, em sentido objetivo. Uma vez que nem sempre essa ordem é respeitada na vida real, a referida palavra vem invariavelmente acompanhada de outra justiça, designativa da obrigação moral do direito. Assim, a “justiça” obriga moralmente a pessoa a se preocupar com os mais pobres do povo, representados metaforicamente na Bíblia pela tríade: viúva, órfão e estrangeiro (simbolizando os excluídos e marginalizados), para que haja o direito na sociedade.

Somos convidados a agir como Jesus. Este não é mero observador, mas se envolve na vida do seu povo, participa e incentiva os seus seguidores a participar. Com sua ação, ele vai devolvendo aos pobres e infelizes o que lhes foi tirado. O povo não tinha pão, Cristo partilha o pão; o povo não tinha saúde, Jesus cura os doentes; muitos do povo eram colocados à margem da sociedade, Jesus os traz para o centro.

 

Viva a nossa gastronomia

Padre João Medeiros Filho.

Segundo o relato dos evangelistas, Cristo apreciava os alimentos e bebidas, a ponto de ser acusado por seus adversários decomilão e beberrão” (Mt 11, 19). Pelo sacramento da Eucaristia, Ele transubstanciou o pão e o vinho em seu corpo e sangue. E assim se definiu: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6, 8). O alimento é sagrado. Nesse contexto, ainda é costume entre os cristãos começar as refeições com orações e a benção da mesa. Os mosteiros medievais legaram ao Ocidente receitas de pratos e bebidas. Os monges eram exímios fabricantes de vinhos,licores, cervejas, tortas, bolachas, biscoitos etc., além de desenvolver várias técnicas agrícolas.

No final de janeiro passado, o Brasil participou do Bocuse d´Or, um campeonato mundial bienal de chefs. Recebeu este nome em homenagem a seu organizador. O evento acontece, em Lyon (França), junto com a feira dSalão Internacional de Restaurantes, Hotelaria e Alimentação – SIRHA. Trata-se de uma prestigiada competição do mundo da gastronomia. Nela, a preparação dos pratos acontece diante do público Antes, não se podia acompanhá-la, pois os profissionais atuavam nas cozinhas.A SIRHA tornou-se uma renomada feira internacional do ramo. Hoje organiza também outros concursos, inclusiveCopa do Mundo de Patisserie o Concurso Mundial do Pão.

Com ingredientes do norte e nordeste, destacando-seraízes da floresta amazônica, tucupi preto, puxuri, tapioca hidratada e leite de coco, o Brasil participou desse evento mundial, defendendo nossas tradições e hábitos alimentares. A equipe brasileira contou com a presença de especialistas, como a do chef Luiz Filipe Souza, assessorado por Giovanna Grotti, vencedora da versão latino-americana do Bocuse d´Or 2017. Nossos gastrólogos demonstraram que os sabores brasileiros podem agradar diferentes tipos de paladar. Esse time de estrelas da nossa culinária elaborou receitas inéditas, capazes de encantar outras nações. Enquantoos chefs participavam das provas, dez empresas brasileiras mostravam ali o diferencial dos ingredientes nacionais a cerca de oito mil compradores de diversos países. Nessa feira, as melhores empresas desse tipo de negóciodisputam a atenção do mercado consumidor. As empresas brasileiras estimam que as transações comerciais feitas no Bocuse d´Or 2019 deverão render milhões de dólares anosso país nos próximos meses.

A cada evento os clientes vão conhecendo as diversas formas de usar nossos produtos, e se encantando com os ingredientes que oferecemos”, explicou Fernando Arruda. Este levou para o encontro a tapioca hidratada e o leite de coco, um dos produtos mais requisitados por quem buscava novidades. Sobressaíram igualmente o açaí e as polpas de frutas, oriundas do norte e nordeste. O Mestre da Galileia dizia: “Só em sua própria terra, um profeta não é valorizado” (Mc 6, 4). Muitos compatriotas se deslumbram com comidas e bebidas importadas. Produzimos uvas de exportação e cachaça de excelente qualidade. Renovamos aqui nosso convite para revisitar o inesquecível mestre Cascudo, desta feita em sua obraPrelúdio da Cachaça. Mas, para alguns, comer pratos e ingerir bebidas alienígenas pode parecer chique, esnobe e talvez confira status.

É a primeira vez que o Brasil participa da vertente de negócios da SIRHA com resultados promissores”, afirmou Camila Meyer, representante da Agência Brasileira de Promoção de Exportações – APEX.  Ações como essa servem para mostrar a gastronomia brasileira eprovar que os ingredientes diferenciados podem transformar pratos tradicionais em algo especial aos olhos do mundo. A diversidade de clima e biomas que o Brasil possui faz com que os cozinheiros possam contar com um manancial de produtos característicos. Isso possibilitalevar às mesas de outros povos a riqueza de sabores que temos a oferecer. No estande do Brasil, o chef Guga Rocha preparou um prato de mandioquinha com feijão, castanha de caju, salada de folhas e um toque de vinagre aromatizado com frutas tropicais e nordestinas. PadreVieira, do púlpito da Igreja dos Jesuítas de Salvador, defendia nossa cultura e apresentava matizes de nosso legítimo patriotismo: “Por que buscais tão longe aquilo deque necessitais, se tendes aqui em abundância e melhor? Ninguém se contenta com o tamanho que Deus lhe deu”.

Mártires do descaso

Padre João Medeiros Filho

Quem aprecia autos – ao sabor de Gil Vicente e Ariano Suassuna – talvez pudesse narrar nesse gênero as tragédias de nosso país, dentre elas Brumadinho, metáfora de nossa realidade. Restaurante e escritórios, bem abaixo no caminho da barragem rompida, permanecem “na retina cansada” dos sobreviventes. As sirenes soam descontroladas aos ouvidos dos habitantes de outras cidades. As árvores e as pedras rolam, pois não se sustentam com tanta sujeira material e imaterial a seus pés. Inúmeras construções e planos destruídos, pessoas ceifadas de suas vidas em átimos.

Muitos fecharam os olhos, durante anos, diante de erros bárbaros, omissões e negligências em que o poder público é ausente ou conivente. Foram catástrofesprevistas. Elas continuam e, se os reparos forem procrastinados, atingirão a ponte de Igapó, sobre o Rio Potengi ou a de Niterói sobre a Baía da Guanabara.  Piscamos ainda os olhos, mas centenas de pessoas os cerraram eternamente, cobertos com a lama fétida do descaso e da ganância. Dirigentes revelaram uma cegueira de décadas, perante incongruências e crimes, apesar de permanecerem vivos e de consciência anestesiada. Longe, lenços enxugam as lágrimas de uma gente atônita, sofrida e perambulando na noite do menoscabo social e público. Existem os que tentam consolar as vítimas, procurando explicar o inexplicável. Autoridades e responsáveis abrem sindicâncias intempestivas e inconsequentes, talvez inócuas, decretando luto oficial e bandeiras a meio mastro.

Foi assim em Minas Gerais (Miraí, Mariana e Brumadinho), no Rio Grande do Sul (boate Kiss), em São Paulo (incêndio em Cubatão e no Museu da Língua Portuguesa, dentre tantos), no Rio de Janeiro (o fogodevorou o CT do Flamengo, o Museu Nacional; o desabamento no Morro do Bumba etc…). Não esquecemos ainda o infortúnio de Goiânia (césio 137). Vidas e patrimônio cultural viraram cinzas. Cidades estão pávidas e indefesas ante tanto desleixo. Se não houver providências, pontes e viadutos dissolver-se-ão, como o asfalto com o qual recapeiam ruas e estradas. Resistem crateras abertas, feridas não cicatrizadas, bueiros com bocas escancaradas – quais túmulos – preparadas para sepultar as próximas vítimas. A displicência com que tratam nossas cidades, as avenidas por onde passamos, as estradas pelas quais trafegamos rondam-nos em constante ameaça. fios pendurados ou desencapados, deixados ali por uma empresa, por outra que mexeu, e mais alguma que precisou desligar ou ligar algo. São responsabilidades jogadas de mão em mão, de governo em governo, de uma esfera a outra.

Ouvem-se promessas, às vésperas das eleições. As câmaras municipais dão nomes dos mortos às ruas e avenidas que os vitimaram. Afinal, necessitam de homenagens para não serem totalmente esquecidos. Assembleias legislativas? Olhem a ALERJ: vários integrantes, atrás das grades, por desvios, corrupção, servidores fantasmas, laranjas e “rachadinhas” de salários. Aquelas de outros estados aguardam investigações, se encontrarem alguém disposto a dizer a verdade. Alguns deputados certamente falarão que estão nas suas bases, lutando pelas cidades que representam no parlamento.

Aqui ficamos diante da lama de nossa indignação, recolhendo os rejeitos e escombros de nossa revolta e até, quem sabe, culpando Deus por tantas desgraças. Assiste-se ao espetáculo cotidiano da insanidade e à briga pelo poder no Congresso. Ecoam discursos teatrais, recheados de “excelências” e salamaleques. Oxalá seu pensamento e vontade estivessem voltados para o povo, transformandodiscursos em gestos concretos. É nele que devem fixar a atenção e registrar as solicitações. Não raro, somos deixados ao largo. Teremos de esperar o dia em que a casa cair, o buraco engolir, o prédio incendiar, a ponte desabar, o rio transbordar, o fio eletrocutar, a pedra rolar do morro, a barragem romper? Ah, mas não se pode deixar de pagar o IPTU, o IPVA e outros tributos com vencimento em breve. Deus queira que o dinheiro arrecadado sirva realmente para não chorarmos por tantos desastres. Lembremo-nos das crianças de outrora: “Cadê o dinheiro que tava aqui? O gato comeu”; o fogo queimou, a lama engoliu e o rio carregou. Cabem as palavras do evangelista Mateus, falando dos santos inocentes: “Ouve-se um grito em Ramá, um grande lamento. Raquel chora os seus filhos, que já não vivem” (Mt 2, 18. Jer 31,15).

Férias e veraneio

Padre João Medeiros Filho

As férias (sobretudo escolares) e o veraneio deste ano estão terminando ou já acabaram para alguns. E isso nos leva a refletir. Veranear, hoje em dia, representa mais uma questão de status social ou econômico do que propriamente uma oportunidade de lazer e repouso. Nota-se que não vale qualquer local. E não se fale aqui do caos do trânsito a caminho das praias e do barulho dos vendedores ambulantes e paredões de som. Já no Natal, às vezes, esquece-se o sentido da festa cristã e o pensamento volta-se totalmente para preparar a temporada de verão, seja na praia ou na montanha. Há o mito do veraneio. Não o fazer ou vivê-lo, parece que envergonha ou deprecia uns tantos. “Certas pessoas ficam postando fotos das praias, mas a gente sabe que elas só ficaram por lá dois ou três dias”, brincou o cantor padre Fábio de Melo em seu “twitter”.

Durante a temporada de verão, as redes sociais enchem-se de selfies e mensagens. Parece cômico, porém está se tornando também trágico. Não pelo fato de que as pessoas publiquem imagens e notícias de suas férias por uma ou mais semanas. Mas, pelo que isto representa em relação à necessidade de se construir uma imagem, a qual se encaixe nas expectativas e nos padrões ilusoriamente imaginados e planejados pela sociedade hodierna.

É provável que muitos indivíduos tenham gatilhos que influenciem seu ego. Um elogio costuma fazer alguém sentir-se melhor, enquanto uma crítica pode ser o suficiente para causar desânimo ou até mesmo desencadear depressão. A vontade de aparecer é uma arma de dois gumes. A foto de uma amiga, passando o verão em Fernando de Noronha ou Dubai, a selfie da colega de trabalho, exibindo um corpo “sarado”, impecavelmente dentro dos atuais padrões de beleza ou o carro novo que um vizinho acaba de adquirir poderão atingir a autoestima de alguns. As redes sociais estão aí para comprovar tais fatos. 

Não é raro que pessoas trabalhem sua própria imagem para transmitir a impressão de que sua vida vai muito bem. Muitas vezes, o que se publica está ligado ao que se gostaria de ser, porém distante da realidade. Hoje, há aplicativos para transformar a barriga em “tanquinho” com apenas alguns toques. Isso sem falar em maquiagem, “fotoshop” e outros artifícios. Praticamente, uma plástica virtual. “Vanitas vanitatum et omnia vanitas”, (“vaidade das vaidades, tudo é vaidade”), proclama o Livro Sagrado (Ecl 1, 2). Exibe-se nas redes sociais o sonho ou a utopia de cada um. Entretanto, no cotidiano, não se faz o menor esforço para ser digno e verdadeiro. As “fake news” reforçam e exteriorizam nossa ilusão individual, do nosso faz de conta. Afinal, é bem mais fácil fazer uso de um aplicativo do que ser autêntico e coerente.

Viagens, automóveis e restaurantes de luxo – tudo isto que a sociedade atual valoriza – vêm construindo o perfil de muitos. Até a missão e a arte de informar entraram nessa onda. Isso explica a grande competição por “likes”. Obter mais curtidas confere importância e maior valor. Ninguém quer ser diminuído na mídia. No entanto, é assim que vários acabam se sentindo. Segundo uma pesquisa do “booking.com”, grande parte dos entrevistados assumiu a postura de ter publicado uma foto antiga, de férias anteriores, querendo parecer mais jovem e atraente. 

Acredita-se que o problema não seja somente construir um novo personagem, mas não se aceitar ou estar de bem consigo mesmo. Os sinais da idade, uma reserva menor de dinheiro que obriga a ir para um destino de férias mais barato e simples, não devem ser um problema ou drama. Faz parte do existir e viver humanos. O que diferencia é a forma como se lida com tudo isso. Cristo veio ao mundo para nos ensinar a ser realistas e humildes: “Quem de vós pode, com sua preocupação, acrescentar um só dia à duração de sua vida. Vede os pássaros do céu. Olhai como crescem os lírios. Eu vos digo: nem Salomão em sua glória se vestiu como um só dentre eles”. (Lc 12, 25, 27).

A poesia e Deus

 

Padre João Medeiros Filho

O êxtase poético é o experimento de uma realidade anterior a ti. Ela te observa e te ama. Isto é sagrado. É de Deus. São conhecidas estas palavras inspiradas de Adélia Prado. A escritora mineira é uma das vozes que toca o coração de muitos. As frases supracitadas exprimem a força latente da poesia. Nesta, quando os conceitos não conseguem manifestar o que se sente, a metáfora salva, tornando-se o seu regaço e alcançando, de fato, aquilo que é belo, revelando a essência do real, transpirando deslumbramento e harmonia. Além de toda conceituação lógica ou racional, o poema comunica a experiência daquilo que nos escapa e nossa linguagem cotidiana não dá conta de expressar. Santa Teresa d´Ávila afirmava que “a vivência poética é uma experiência mística, de límpido deslumbramento e encanto. E isso não é ser de outro mundo. É ver este mundo iluminado pela beleza.

O instante poético é uma revelação que nos conduz ao sagrado. Por meio dele, a realidade mostra-se no cotidiano da existência, como uma surpresa que nos seduz e faz ver, além do trivial e do imediato. Tal experiência encontra também expressão na arte. Porém, a poesia paira em toda obra artística, despertando em nós uma sede do transcendente e do infinito.

A poesia reveste-se de uma vitalidade mística. Não porque trate desse tema ou fale sobre Deus, mas por gerar em nós um sentimento transcendental. Encanto e enlevo são duas de suas dimensões religiosas e espirituais. Não se trata de afirmar que ela seja ou deva ser confessional ou esteja a serviço das religiões. Cumpre-lhe servir sempre à beleza, pois é sua manifestação em nosso cotidiano. E quem a percebe, está em comunhão com o sagrado. Ela é uma das faces visíveis de Deus, a qual nos salva de nós mesmos e da dureza da vida. Sabiamente, Dostoievski dissera que “só a beleza nos salvará e a ternura redimirá o mundo”. E, na mesma esteira, Adélia Prado proclama, quase teologicamente: “fora do poema não há salvação”.

Alcançar a transcendência é algo que nos caracteriza, entre outras coisas, como criaturas humanas. Somos seres para além de nós mesmos. Isso torna-nos religiosos, abertos para Aquele que nos ultrapassa e, num sem fim de possibilidades de nomeação, comumente, é chamado Deus. A poesia é liame que nos leva a contemplar o Absoluto e o Eterno. É, portanto, intrínseca e radicalmente algo religioso, seja confessional ou não. Para os que têm fé, a vivência poética extrapola nossas expressões comuns. É o saber e o sabor de Deus. “A borboleta pousada ou é Deus ou é nada”, poetizou Paul Claudel.

A poesia tem uma relação íntima com a espiritualidade. Ambas são nomes do êxtase diante do Inefável, que nos arrebata. Elas se expressam por meio de símbolos, parábolas ou alegorias, isto é, buscando revelar aquilo que a linguagem corriqueira não alcança. O mundo tem fome de beleza e os poetas são diáconos desse pão sagrado, verdadeiros profetas que anunciam a salvação, mesmo entre os escombros do sofrimento, da dor e da morte. Estar atento à revelação do que encanta, é missão do poeta. Ser sempre mais, para além de si mesmo é igualmente sua vocação!

Deus é também Poesia, não obstante sua invisibilidade presencial. Impossível não o sentir. Quem poderá ver o Criador? Este é como o vento. Pode-se senti-lo na pele, ouve-se a sua voz nas folhas das árvores e seu assobio nas gretas das portas. Mas não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Na flauta, o vento se converte em pura melodia. Não há como detê-lo. Entretanto, as religiões tentam enclausurar Deus em lugares que denominam templos e igrejas. E, se Ele está fechado e isolado numa casa, ficará ausente do resto do mundo? Para Mário Quintana, “a poesia purifica a alma e um belo poema sempre leva a Deus”! A lágrima se evapora, o sorriso se abre, a flor desabrocha, enquanto a poesia e a oração aproximam a criatura de seu Criador!

A era da impaciência

 

Padre João Medeiros Filho

Vive-se na sociedade dos apressados, agitados e impacientes. Verificam-se manifestações nesse sentido no trânsito, nas filas, nos atendimentos em geral, nas celebrações religiosas etc. Alguns terapeutas afirmam que 60% dos seus pacientes padecem dessa morbidade. As novas tecnologias estão mudando a maneira de percepção da realidade cronológica e o modo de viver das pessoas. Às vezes, tudo parece se acelerar. Então, a impaciência aumenta. Constata-se que, por conta disso, muitos vivem presos à cronometria e se tornam escravos dos relógios.

Não raro, tem-se a impressão de que o tempo voa, alimentado por um invento que se tornou extensão de nosso corpo: o inseparável telefone celular (smartphone). Este parece sempre disposto a oferecer novidades. Porém, de forma adversa, há ocasiões em que tal instrumento funciona como um algoz. Existem momentos, em que se espera uma resposta, a qual tarda a chegar. Recentemente, a psicóloga australiana A. McLoughlin publicou um estudo, demonstrando que o corpo humano percebe o tempo de maneira diferente, quando se permanece longos períodos conectados a dispositivos elétricos ou eletrônicos. Outra pesquisa, realizada na Universidade de Harvard, comprovou que nos indivíduos de sociedades tecnocêntricas os relógios biológicos e internos manifestam-se com um ritmo célere e descontrolado. Isso pode ser útil para se trabalhar com mais rapidez. No entanto, faz com que as pessoas se sintam pressionadas e nervosas. À medida que a marcha de nossas vidas se acelera, sente-se subjetivamente o tempo disponível diminuir. Isto faz os seres humanos mais impacientes. Alguns cientistas afirmam que a percepção temporal está ligada às nossas emoções. Se tudo está bem, passa mais rápido. Quando se está com dificuldades e problemas, pensa-se que ele fica mais lento. O modo como o cérebro humano o percebe, continua ainda sendo um mundo de incógnitas para os pesquisadores.

É muito conhecida a poesia-oração do padre Michel Quoist, em seu livro Poemas para rezar, quando afirma: “Senhor, os homens passam correndo pela terra: apressados, atropelados, sobrecarregados, enlouquecidos, assoberbados. Correm todos, para não perder tempo, para recuperar o tempo, para ganhar tempo. No entanto, Jesus Cristo já advertia sobre a pressa e a agitação: “Quem de vós com toda a sua preocupação pode acrescentar um só dia à sua vida?” (Mt 6, 27; Lc 12, 25). O apóstolo Paulo dirigindo-se ao bispo Timóteo recomenda: “Ao discípulo do Senhor… convém que seja manso para com todos, saiba ensinar e seja sempre paciente” (2Tm 2, 24).

Mas, a questão atual é saber se a vida está transcorrendo mais rápido do que antes. A pressa, a falta de oportunidade para encontros, conversas, leitura, reflexão e até mesmo oração levam a esse questionamento. Uma conclusão deve ser tirada. O tempo não nos pertence. Por mais que se queira, ele nos vence e poderá tonar-se um grande inimigo dos seres humanos. A impaciência não modifica nem melhora a situação. Nota-se que, quanto mais estímulos e compromissos para as pessoas, ele parece mais apressado. No entanto, é fundamental perguntar: vive-se melhor nos dias atuais? Muitos respondem de forma negativa, pois a sobrecarga de informações revela-se como uma fonte de estresse. Quando este aumenta, afeta a percepção do tempo e da vida. Se alguém não está bem, tudo fica mais demorado e lento. O apóstolo Tiago já alertava para a tentação da ansiedade que domina os seres humanos. “O que será de vossa vida? De fato, não passais de uma neblina que se vê por um instante e logo desaparece” (Tg 4, 14). Por que tanto açodamento?

Hoje, há alguns termos menosprezados neste mundo dos vexados, por exemplo: ter paciência e esperar. Isto gera em vários a incerteza. E esta significa muitas vezes sofrimento. O professor Antônio Bayés de Luna, da Universidade de Barcelona, autor do livro “El reloj emocional”, afirma que “é necessário ensinar o valor da espera e da demora”. A Sagrada Escritura caminha nessa direção e tenta nos transmitir isto, como se depreende do Livro do Eclesiastes: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há um momento oportuno para cada coisa debaixo do céu.” (Ecl 3, 1).

O SER HOMINAL E SUAS INTELIGÊNCIAS: COMPETÊNCIAS DESENVOLVÍVEIS – parte 1

 

Assis Costa
Pedagogo e Jornalista

Howard Gardner e sua equipe de pesquisadores da Universidade de Harvard, afirmam, a partir de 1980, que a inteligência não mais se restringe a duas áreas básicas do conhecimento (a linguística e a lógico – matemática), em cuja constatação científica se demonstra a certeza de que a mente humana não mais oculta à multiplicidade das inteligências.
Inteligência é a “capacidade de compreender e de inventar e ao acolher uma informação atribuir-lhe significado e produzir respostas pertinentes.”, segundo nos auxilia Antunes (2006, V.1, p. 19). E assim, explana essas categorias:
Inteligência Linguística: capacidade de expressar com boa desenvoltura a comunicação verbal e escrita, com domínio, coesão e clareza. Verifica-se tal competência em oradores, professores, escritores, políticos e em assemelhados a esses aspectos;
Inteligência Lógico – matemática: está associada à competência de desenvolver preciso raciocínio, solucionar problemas lógicos, lidar bem com a leitura e compreensão da linguagem algébrica e numérica de alto nível de complexidade, verificada com maior grau em pessoas das áreas de Engenharia, Física, Informática e áreas similares.
Inteligência Corporal – cinestésica: relacionada à agilidade dos movimentos musculares, da força, às habilidades do autocontrole corporal, à destreza na manipulação de objetos. Encontra-se desenvolvida em dançarinos, mímicos, atletas e indivíduos com funções idênticas.
Inteligência Espacial ou viso espacial: faculdade de perceber e administrar distâncias, posicionamentos geográficos, de identificar, transformar o espaço com precisão visual para orientar-se entre objetos. Os navegadores, arquitetos, cirurgiões e pessoas que possuem competência análoga.
Inteligência Pictórica: é a inteligência do espectro, ou seja, mediante a observação do espaço visualizado e explorando a memória ser capaz de reproduzir desenhos, pinturas, artes, grafismos, com caráter de condição complementar, consoante afirma Machado (1996, p.104 apud NOGUEIRA 2009, p.36), que: […] é ainda possível reconhecer três pares que apresentam relações mútuas bastante significativas, com certas características de complementaridade, que são: o par linguístico/lógico-matemático, o intra/interpessoal, o espacial/corporal-cinestésico, restando sem par à competência musical.
Inteligência Musical ou sonora: capacidade de interpretar, escrever, ler partituras e expressar-se pela música, inclusive os intérpretes apenas de ouvido.

O Ser Hominal e a Escola: enfrentamento do analfabetismo emocional.

Francisco de Assis Costa
Pedagogo, Jornalista

Indicadores estatísticos consideráveis registram os feitos do Ser Hominal, através dos avanços da Ciência e Tecnologia, da Civilização, da Ética e das Estruturas Sociais, informando aspectos de desenvolvimento das capacidades cognitivas avantajadas, multiplicadas nos ramos do conhecimento, crescimento notável realçado pelo trabalho e por demasiado esforço humano para atingir resultados surpreendentes.
Na Medicina, os equipamentos de última geração que auxiliam o prolongamento da existência física, humana, proporcionando melhor qualidade de vida aos pacientes portadores de gravíssimos problemas de saúde.
No caso da Engenharia, auxiliada pela Arquitetura, as tragédias têm sido minimizadas, tornando o mundo com mais conforto.
A Farmacologia, mediante aplicação de recursos químicos sofisticados coopera com a diminuição da dor física, regula a recuperação de incontáveis enfermidades, reduzindo o sofrimento.
Doenças ameaçadoras que surgem são pesquisadas por cientistas abnegados e despertos que produzem, em laboratórios, medicamentos de natureza preventiva e curadora destinada a salvar vidas.
Na Agricultura, os alimentos são produzidos por intermédio de recursos preciosos, de alta tecnologia, aperfeiçoando o combate aos seres vivos minúsculos e nocivos sem a aplicação de agrotóxicos, cujo objetivo é atender à necessidade da família com segurança alimentar e nutricional, aumentando a oferta de comida adequada.
As conquistas virtuais, disponibilizadas pela Telecomunicação globalizada, informatizadas e de fácil acesso às mídias, trouxeram inegável aporte prático para a redução das distâncias e a consequente aproximação dos indivíduos, ao propiciar a visão de espaços ampliados em tempo real, em cuja demonstração se confirma elevado raciocínio, pois quando bem aproveitado contribui para o sucesso profissional.
O Ser Hominal, diga-se quanto, ao seu entendimento esperançado, é um ser de bons cometimentos, utilizando capacidades racionais e emocionais.
Contudo, ainda libertando-se da insegurança, do medo, da mágoa, da rebeldia, associados ao sentimento agressivo, alardeiam o horror incontrolável, provenientes de movimentos fanáticos, de terrorismo, motivadores de enorme sofrimento coletivo, caracterizando a vida humana sem significado, arrebatada por criminalidade incontida, onde o perigo se alastra e até cultiva a devastação de famílias, sorrateiramente, em número bem maior do que as epidemias, além de banalizar, com efeito, os mais nobres sentimentos existentes em indivíduos de educação emocional bem conduzida.
Constata-se, entretanto, a caracterização da incapacidade quanto ao domínio das emoções, proveniente do analfabetismo emocional, evidenciados nos transtornos comportamentais, visivelmente percebidos através dos meios de comunicação tornam o mundo imprevisível, constrói cenário de desigualdades, discriminações, cada vez mais, cada vez presentes, estimulando a crença que menospreza os valores, dividem as famílias e os incentivam ao consumo desenfreado exigente, ocasionando a ausência de ambos os pais dos seus lares a procura de um trabalho estereotipado pelo conceito de mais valia, na correria pela sobrevivência.
Surge, então, a Escola propondo a sistematização do conhecimento, de forma ativa, e apropria recursos didáticos atinentes ao progresso evolutivo pessoal e social das pessoas, ao instigar o docente à reflexão para investigar processos relacionados à educação emocional, tornando-se também um indivíduo detentor das competências emocionais, no sentido de ampliar dimensões afetivas, para se desenvolver tanto no campo emocional quanto no comportamental, além do cognitivo, para mediar facilitadores condizentes ao despertar as habilidades dos alunos, visando o domínio gradual de suas emoções, em busca da construção ideal do ensino/aprendizagem, pois aprender ensinando a aprender é uma ação que aprimora e constrói continuamente o conhecimento pela intenção que se pretende codificar o mundo.
Neste comenos, faz-se necessário a identificação de questões conscientes ou inconscientes advindas da tríplice relação entre pais, professores e alunos, formadas no ambiente escolar, no sentido de oportunizar o exercício contínuo para fortalecer o aprimoramento emocional tanto dos docentes quanto dos educandos e seus familiares, reconhecendo estilos de vida renovados, consubstanciado pela prática interativa quanto ao desenvolvimento das habilidades voltadas para os campos emocional, cognitivo e comportamental no que diz respeito ao entendimento das carências emocionais existentes entre os sujeitos envolvidos, bem como permitir criteriosa análise de condutas reais socializadas pela comunidade usuária da escola.
Vislumbra-se, portanto, a existência do Ser Hominal em todos os ambientes: no Lar, na Escola, no Trabalho, configurando sua evolução cognitiva, emotiva e biológica, no tempo e no espaço – Vida.