MEDITAÇÕES PARA A SEMANA SANTA DE 2026

Padre João Medeiros Filho

Reflexões sobre o sofrimento de Cristo I

É preciso completar em nossa carne aquilo que faltou à cruz de Cristo (2Cor 4, 10), eis o pensamento de São Paulo a respeito de nossos sofrimentos. Assim sendo, a Semana Santa não é apenas o memorial da Paixão do Senhor. É também a celebração de nossas lágrimas, aflições, angústias e dificuldades. Vivemos ainda na Semana Santa a dor e a cruz de nossos irmãos. Cristo afirmara: o discípulo não é maior do que o Mestre (Mt 10, 24). Deste modo, estamos sujeitos a percorrer o mesmo caminho de Jesus. É nossa paixão e morte. Somos o Corpo Místico de Cristo, como afirmou Pio XII, por isso atualizamos em nossas vidas o que acontecera com Jesus.

A Semana Santa é um momento privilegiado para nos conscientizar de que Cristo não concebeu a sua existência terrena como busca do poder, corrida ao sucesso ou vontade de domínio sobre os outros. Ao contrário, Ele renunciou os privilégios da sua igualdade com Deus, assumiu a condição de servo tornando-se semelhante aos homens, obedeceu ao projeto do Pai até à morte na cruz. Desta forma deixou aos seus discípulos e à Igreja um ensinamento precioso: se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas se morre, produz muito fruto (Jo 12, 24).

É preciso na Semana Santa refletir sobre o gesto de Cristo em sua caminhada para o Calvário. Ele carrega sobre os ombros a transgressão humana com os efeitos de nossas desobediências, da maneira mais desprezível, as quais manifestam a maldade e a gravidade do delito que nos desfigura (Rm 5,6-10; 1Pd 2,24-25; Is 53). Assim presta a Deus, no seu coração de Filho, a honra e a glória da obediência e do amor perfeitos, reparando o mal que fizemos, trocando o orgulho pela humildade, a violência pelo amor.

Na Semana Santa somos convidados a sepultar o egoísmo, a falta de solidariedade, a indiferença, a injustiça, a inveja, o orgulho, a violência, numa palavra, nossos pecados. É mister haver uma Sexta-Feira Santa para cada um de nós, onde crucificaremos tudo o que é negativo em nós, para haver Domingo de Páscoa. Mas é preciso não esquecer que a paixão e a ressurreição não são atos isolados. Eles foram precedidos da Quinta-feira Santa, que é a celebração da unidade e da fraternidade. Assim só haverá Páscoa, se houver comunhão e partilha, como fizera o Mestre. Existirá Ressurreição, somente se existir amor.

A Semana Santa é a resposta suprema de Cristo (e dos cristãos) ao desafio cotidiano e permanente do mal. É a manifestação do amor infinito de Jesus para conosco. Celebramos também, em 2026, o sofrimento de Cristo na vida de tantos irmãos exterminados por causa de sua luta pela paz, nos corpos de muitos outros agredidos em sua dignidade e excluídos do banquete da vida.

Por outro lado, a vivência desta Semana Santa deve ser nossa gratidão e nosso amor Àquele que se sacrificou por nós, ao Servo de Deus que, segundo o profeta Isaías, não opôs resistência, não se afastou para trás, mas apresentou os ombros aos flageladores e não desviou o rosto dos que o ultrajavam e lhe cuspiam (Is 50, 4-7). Cristo não se acovardou diante do sofrimento e da dor, pois sabia que o Pai não O abandonaria e sua Cruz foi o instrumento escolhido por Deus para resgatar a humanidade. Do mesmo modo, nossa cruz, nossa dor ou sofrimento são a porta de acesso à glória e à alegria de nossa libertação!      

Entretanto, ao celebrar a Semana Santa, é preciso ter diante dos olhos e na mente que não só de tragédias, fracassos, derrotas e tristezas é feita a vida humana. Nós cristãos somos portadores da esperança. Acreditamos que haverá vitória sobre a morte e a maldade. E o autor dessa vitória é Cristo, a quem devemos entregar nossa vida!

Reflexões sobre o sofrimento de Cristo II

Ao celebrarmos a Semana Santa, a semana maior da vida da Igreja, somos convidados a inundar nossa vida, que renasce pelo espírito da Ressurreição, vivendo a certeza da glória definitiva e plantando dentro de nós a semente de um mundo novo.

Nosso povo – sofrido, desgastado, desrespeitado e sem muito alento – costuma, às vezes, reduzir a Semana Santa ao sofrimento da Sexta-Feira da Paixão, contentando-se em contemplar e sepultar o Cristo morto, identificando-se com Ele, chorando sua morte, sem, porém, alegrar-se com o mesmo Cristo, Vivo e Vencedor, na sua gloriosa Ressurreição. Este é um desvio da prática cultual e da vivência de alguns cristãos, pois, sem a Ressurreição, de nada valeria o sofrimento do Filho de Deus por nós. Seria vã a nossa fé, conforme nos ensina São Paulo. Estaríamos ainda acorrentados como escravos ou caminhando errantes pelos desertos do mundo.

Na teologia e na liturgia, conforme crê a Igreja, não se pode separar a cruz, da glória; a morte, da vida; o sofrimento, da plena alegria e da transfiguração final. Nos desígnios de Deus, transformados por Cristo em realidade para nós, o sofrimento torna-se meio de santificação; a morte, porta para a eternidade; a cruz, sinal de nobreza e não mais de ignomínia, como no passado. Isto, porque a luz da Ressurreição dissipou para sempre as trevas da morte e tudo o que se opõe à vida foi também, pela Cruz de Cristo, plenamente vencido. É verdade que temos ainda de sofrer, na precariedade do mundo, os efeitos negativos do mal, sem, no entanto, deixá-los de combater ou aceitá-los passivamente. Somos convidados a amar no sofrimento, como Cristo o fizera; e não a amar o sofrimento em si mesmo, como muitos pensam erroneamente.

Podemos dizer que Cristo hoje padece e morre nas vítimas da violência e no assassinato daqueles que lutam pela paz. Ele é crucificado com o aniquilamento de tantos que deram sua vida pela causa ecológica ou em prol da justiça, pelo fim da corrupção, da impunidade e dos desmandos. Cristo é sim sacrificado em tantos mártires de nossos dias e na vida de tantos que se empenham por um mundo melhor. Cristo assume nesta Semana Santa a dor e o sofrimento de índios, negros, excluídos, marginalizados, doentes e oprimidos. Em nossos irmãos, vítimas da exclusão e da humilhação, Cristo renova a sua paixão. Ele mostra a sua face no rosto sofrido do Papa, que vê algumas nações cada vez mais endurecidas e pouco dispostas à conversão, voltadas para a morte e o extermínio de tantos irmãos de diferentes culturas, raças e línguas.

O cristão não pode parar apenas na morte do Cristo e no seu sacrifício para nos resgatar. Deve buscar no brilho de sua Ressurreição a luz que renova todas as coisas. E que desta forma, nosso coração se torne também novo para o serviço fraterno, para o bem da Igreja e para a glória de Deus.

Os sofrimentos da humanidade atualizam a Paixão de Cristo. Se anteriores a sua cruz, uma paixão antecipada; se depois dela, uma paixão continuada. Cristo, pois, continuará em agonia, misticamente, até o fim dos tempos, pois sofreu, sofre e sofrerá em cada um dos filhos de Deus. Cristo, assumindo a nossa humanidade, tomou um corpo passível de dores e sofrimento, mas seu espírito aniquilou o poder da morte!     

Reflexões sobre o sofrimento de Cristo III

A Semana Santa é um apelo para a descoberta mais profunda de Cristo, vítima de uma sociedade injusta, que mata inocentes e indefesos. Jesus desconcerta-nos mais uma vez, mostrando-nos que o projeto de Deus é diferente. A uma sociedade competitiva, que privilegia a concentração de bens e poder, gerando discriminação e violência, alienando pessoas e marginalizando outras, Cristo acena com o despojamento capaz de trazer a paz para o ser humano. A um mundo que procura desconhecer os laços de nossa fraternidade, Ele aponta a força da solidariedade, que salva vidas e traz esperança, como fizera com todos, sobretudo, com os mais desprezados e despossuídos, simbolizados pelo bom ladrão ao pé da cruz.

Renova-se o mistério da dor e da vida. O Filho de Deus assume a realidade humana com tudo o que ela tem de esperança e desespero. Sua morte é a manifestação da fragilidade de nosso ser; sua Ressurreição, o sinal da dimensão infinita do homem. É nossa história presente na Semana Santa. Não celebramos apenas fatos do passado. Comemoramos tudo o que somos e Cristo encarnou, quando se fez homem e habitou entre nós (Jo 1, 14). Sofrendo, Jesus desmascara a estrutura injusta da humanidade; ressurgindo, proclama a vitória contra o pecado, simbolizado na morte e na angústia humana.

Na Semana Santa, nós cristãos revivemos este grande gesto de amor e misericórdia de Deus, manifesto na Paixão do Senhor. Somos também convidados a abraçar com coragem e confiança nossas cruzes, a assumir nossos sofrimentos e a oferecer tudo, como oferenda agradável ao Pai, a fim de que pela nossa participação na Paixão de Cristo, possamos prolongar no tempo e no espaço a sua obra salvífica.

Maria é o grande modelo de vivência da Semana Santa. Sua presença, ao pé da cruz do Filho, permanece como exemplo perfeito e perene de seguimento a Cristo. Se Jesus foi o homem das dores, sua Mãe foi a mulher das dores, pois acompanhou bem de perto cada passo do seu amado Filho. Maria é a primeira entre os poucos discípulos, que foram fiéis a Jesus até o fim. Foi a única chama de fé que permaneceu acesa naquele momento obscuro e de dura prova para os discípulos do Senhor. Foi por causa da firmeza na fé de Maria e sua incomparável fidelidade ao plano do Pai, que Jesus, já pregado na cruz e servindo-se de suas últimas forças humanas, deixa-nos a Virgem Santíssima como Mãe e modelo perfeito de todo discípulo do Senhor.

Maria, ontem, hoje e sempre, convida-nos a renovar nosso sim a Deus, tantas vezes quantas forem necessárias, a estar ao lado de cada irmão que sofre ou se alegra, a abandonarmo-nos a Deus, ensinando-nos a abraçar com firmeza e fé nossas cruzes de cada dia, com os olhos fixos no horizonte da ressurreição.

Não podemos esquecer que a última mensagem de Cristo não foi o silêncio da morte nem seu último gesto o túmulo lacrado. A Semana Santa é o convite da Igreja a acreditar que nossa cruz é também libertadora e se Ele ressuscitou dos mortos, também nós haveremos de ressurgir de tudo aquilo que nos deixa prostrados e abatidos. É preciso ter sempre em mente que Deus levanta-nos igualmente ao alto de nossas cruzes para que possamos divisar melhor o que Ele nos reserva de belo e grandioso, capaz de nos assegurar a paz e a alegria. São Paulo já dizia que Deus confunde os fortes e poderosos com a aparente fraqueza humana. Aquilo que aos olhos do mundo parece nossa derrota, será a nossa vitória, pois é a força divina em nós!

MISSA DA CEIA DO SENHOR

A missa vespertina da Ceia do Senhor inicia a celebração da Páscoa cristã, em que Jesus inaugura a nova e eterna Aliança pelo seu sangue a ser derramado na cruz. Cristo se nos entrega como Pão partilhado na expressão do amor levado ao extremo – loucura para os gentios, no dizer de Paulo (1Cor. 1, 18) – e na manifestação plena do serviço e da humildade ao lavar os pés dos seus discípulos. Para plenificar ainda mais esse legado, o Senhor instituiu a Eucaristia como prova maior de sua doação à humanidade. Não só se fez presença, tornou-se alimento. Não apenas nos libertou, ensinou-nos a libertar os outros e o mundo. Eis a Páscoa nova, diferente e mais importante daquela que os hebreus celebraram, comemorando sua vitória da escravidão do Egito! Jesus reconquista para os que creem a liberdade da condição de filhos de Deus, dignos de seu amor e sua misericórdia. Valemos muito. Assim entendemos o canto do Exultet do Sábado Santo, ao proclamar com imensa alegria: ó pecado bem-vindo que há merecido a graça de um tão grande Salvador.

A Eucaristia é o grande gesto de Cristo, testemunha fiel do amor de Deus para conosco. Ele não tem somente palavras de conforto para cada um de nós, mas entrega sua vida para selar a união do Pai com a humanidade. Não vos deixarei órfãos (Jo 14,18). A presença diária de Jesus em nossa vida é assegurada pelo Pão, que se torna nossa força. Ele estará ao nosso lado, como outrora caminhava com os discípulos de Emaús. Ao se entregar como nosso alimento, Ele quis mostrar que tomar refeição juntos é sinal de partilha e comunhão. Convida-se à mesa quem se ama e a quem se considera. Eis o sentido da atitude do Mestre, expressão de amor que vivemos na Quinta-feira Santa.

Quem ama, serve. Esta é uma das lições do Filho de Deus, antes de dar a sua vida por nós. Na Quinta-Feira Santa, com um gesto inédito na história humana, Cristo revoluciona o conceito de “importância”. Nobre, grande, é aquele que serve. Estou no meio de vós, como quem serve (Lc 22, 27). Entendemos aqui o significado maior do Lava-Pés. Para os cristãos, Amor é serviço. Na Ceia, Jesus mostrou que quem ocupa o lugar de honra, deve descer ao nível do ser humano para mostrar-lhe a sua dignidade. O Senhor ensina através de exemplos. Eis em que consiste igualmente ser Mestre. Vós me chamais de Mestre e Senhor (Jo 13,13). O Filho de Deus inaugura uma nova ordem pelo gesto insólito do Lava-Pés.

De fato, haveremos de reconhecer que, tanto para presidir como para participar da eucaristia, são indispensáveis uma grande humildade e uma imensa disposição para o serviço fraterno. Desde o início, Jesus sempre mostrou com palavras e gestos que Ele veio para servir e não para ser servido (Mt 20, 28) e é assim que Ele deseja que façam todos os seus colaboradores e seguidores, tanto o simples batizado, como o ministro ordenado. A vida cristã é fundamentalmente serviço e amor, entrega e doação.  

Especialmente hoje, também dia em que Cristo instituiu o sacerdócio, somos convidados a elevar nossas preces a Deus por todos os ministros ordenados, particularmente aqueles que deram a vida pelos seus irmãos nesta arquidiocese de Natal para que não obstante a limitação e fragilidade humana de cada um, possam eles realizar com dignidade a missão para a qual foram escolhidos. Peçamos ao Pai que a força da nossa oração fraterna atraia sobre nossos ministros ordenados a graça e a força do Espírito que os escolheu e consagrou, de modo que todos possam servir dignamente ao Senhor e ao seu povo, não obstante sua miséria humana!  

SEXTA FEIRA-SANTA

A Sexta-Feira Santa é o memorial da solidariedade de Jesus até a morte na cruz No centro da liturgia de hoje está a cruz, erguida como sinal e prova do amor de Cristo, condenado inocente e injustamente, torturado até a morte, colocando sua vida nas mãos do Pai, confiando na justiça e na misericórdia de Deus.

No Domingo de Ramos, Jesus, entrando em Jerusalém, apresenta a sua mensagem religiosa, capaz de transformar a sociedade, tornar as pessoas verdadeiramente irmãs e firmar um culto em espírito e verdade. Na última ceia, partilhando o pão e rendendo graças ao Pai, Cristo mostra-nos em que consiste o milagre da partilha e a força revolucionária do serviço e da solidariedade.

Logo depois, sofre a rejeição e a condenação por causa de seu projeto em favor da vida, dos esquecidos e marginalizados. Enfrenta a morte violenta na cruz para proclamar que o Reino, a liberdade e o pão com fartura só virão dos corações de pessoas solidárias, abnegadas e consagradas. Pessoas estas capazes de viver e mostrar que o pão só tem sentido, quando partilhado.

A liturgia da Sexta-Feira Santa não é uma mera repetição do relato ou da cena evangélica, mas também um sacramental de nossa rejeição, nosso sofrimento, nossa paixão no mundo de hoje, o qual teima em não aceitar os valores pregados por Cristo, sobretudo sua mensagem profunda de paz, verdade e amor. 

Celebramos a Paixão de Jesus, do seu sofrimento assumido como expressão de compaixão pela multidão de sofridos e da nossa compaixão com todos os aflitos em sua busca de libertação.

A Cruz é um desafio e um apelo para que os cristãos assumam o projeto de vida de Jesus e promovam a luta contra a fome e a corrupção, em favor da paz, anunciando a esperança e construindo a fraternidade dos irmãos. Foi este o sentido da Cruz de Cristo.

Na Sexta-feira Santa, a Igreja celebra a Paixão e Morte do Senhor. É um dia de respeito, silêncio e simplicidade, quando é preciso recordar e compreender a dor e o sofrimento de Jesus, como também refletir sobre a profundidade de seu amor por nós, a tal ponto de dar a sua própria vida pela remissão de todos os pecados da humanidade.

A cerimônia da Sexta-Feira Santa é dividida em quatro momentos: a) a Paixão Proclamada, com a liturgia da palavra, em que conhecemos os detalhes da dor do Filho de Deus, na história passada; b) a Paixão Invocada, com a solene oração universal, realizada pela Igreja e pelas comunidades do mundo inteiro, que atualizam no tempo o sofrimento de Cristo; c) a Paixão Venerada, com a adoração da Santa Cruz, local onde se concentram as dores de Jesus e encontramos forças para carregar nossa cruz cotidiana; e d) a Paixão Comungada, com a comunhão eucarística, a qual queremos recebê-la durante toda a nossa vida. Receber sim na comunhão o Cristo total, o Crucificado e o Ressuscitado, o Cristo da Verdade e do Perdão, o Cristo da Alegria e o da Justiça.

Na Sexta-Feira Santa, em respeito e homenagem à maior de todas as missas e de todos os sacrifícios imolados sobre a face da terra: a Morte de Cristo, não se celebra a Eucaristia. Nesse dia, celebra-se o amor de Deus, que é vida e tem mais poder do que o pecado e a própria morte. Jesus mostra-nos que a realidade da morte é a passagem para a libertação plena, a Páscoa definitiva. A cruz sangrenta de Jesus, dolorosa e injusta, transforma-se em vitoriosa e resplandecente. A morte de Cristo é o símbolo do fim de uma antiga aliança, do velho homem e início de uma vida nova. Comungamos com o mistério da cruz que nos salva, com o mistério da cruz na qual sofrem muitos de nossos irmãos e com o mistério de nossa própria cruz, que unida à de Cristo, será também redentora.

MEDITAÇÃO SOBRE MARIA AO PÉ DA CRUZ

Nesta semana santa contemplemos a Cruz de Cristo, através do olhar de Maria. É muito conhecida esta estrofe de um hino da Via-Sacra: Stabat Mater dolorosa, iuxta Crucem lacrimosa, dum pendebat Filius (De pé, a mãe dolorosa junto da cruz, lacrimosa, via o filho que pendia).

Silenciosa ao pé da Cruz, com o coração retalhado de dor, Maria é figura da humanidade redimida. O evangelista João narra que, ao pé da Cruz, estavam a Mãe de Jesus, acompanhada de Maria, mulher de Cleófas e Maria de Mágdala (Jo. 19,25). Cristo fora praticamente abandonado por todos. Os discípulos dispersaram-se, restando apenas João. Os que foram curados, desapareceram. A multidão que O aclamara como Messias nas ruas de Jerusalém, terminara pedindo a sua condenação. Apenas Maria e João permaneceram fiéis. Venceram o medo, superaram a dor e não fugiram da Cruz.

Eis a primeira lição de Maria: não ter medo da Cruz, porque o crucificado é a encarnação do Amor. Não devemos temer nossa cruz, porque também nela está suspenso Alguém que nos ama infinitamente. Na Cruz de Cristo está lançado o nosso destino. Ali nascemos para uma vida nova. E Maria, que dera à luz o Verbo, surge como Mãe da nova humanidade. Jesus confirma esta outra maternidade de Maria, ao dizer-lhe, referindo-se a João: Mulher, eis o teu filho (Jo. 19, 27).

Contemplemos Maria Santíssima, no seu olhar terno e sereno, de quem abraça o mundo na pessoa do Seu Filho e aprendamos com ela a obedecer à vontade do Senhor. Este nos atrai para a sua intimidade, quando nos convida a sermos bons e justos. A Cruz de Cristo é um desafio de amor e de fé.

Fixemos nosso olhar na Cruz, através do coração de Maria. Nela está o destino da humanidade pecadora. Sem o sofrimento de Cristo e de Maria, mesmo que padecêssemos todas as dores do mundo, estas não seriam suficientes para merecer nossa redenção. Só corações semelhantes ao de Maria podem acolher o sofrimento como expressão do amor de Deus ofendido, apercebendo-lhe a grandeza de sua misericórdia.

Fitando com devoção Maria, Mãe dolorosa, percebemos a gravidade do pecado, isto é, a atitude da criatura criada à imagem de Deus, exercendo a sua liberdade de agir contra o desígnio amoroso do Pai. Ao tomar sobre eles nossos pecados, Jesus e Sua Mãe, sem nunca ter pecado, não se limitam a sofrer em lugar dos pecadores, sofrem por causa do pecado, desagravando a glória divina ofendida e conduzindo os pecadores aos braços misericordiosos de Deus.

Recomeça ali, aos pés daquela Cruz, uma outra aliança com Deus. Nasce um povo novo, gerado na Igreja, da qual Maria é Mãe e figura. Depois Jesus disse ao discípulo: eis a tua Mãe (Jo. 19, 27). Contemplando Maria, ao pé da Cruz, aprenderemos com ela a abraçar a nossa cruz, e fazer dela oferta eucarística e hóstia de louvor para a redenção do mundo.

VIGÍLIA PASCAL (SÁBADO SANTO)

Depois de seguir Jesus ao longo do caminho do Calvário e passar com Ele pela cruz, reunimo-nos, em seu nome, na Vigília Pascal para celebrar nossa esperança e a certeza da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. É a noite da ressurreição, da festa da vida. Com a Ressurreição do Senhor, iniciou-se um novo modo de ser para os cristãos e de estar no meio de nós para o próprio Deus. A tradição litúrgica ensina-nos que esta é a mãe e rainha de todas as vigílias. Nela celebramos a esperança e a certeza da Vida, bem como a derrota das forças da morte.

Esses sentimentos dão lugar ao simbolismo litúrgico da Vigília Pascal. O Sábado Santo torna-se assim a festa da luz. Benze-se o fogo novo, imagem de Cristo, que brilha para todos como novidade, luz e vida. Eu sou a luz do mundo (Jo 8, 12). Há igualmente na cerimônia dessa noite a bênção da água. Com Cristo renascemos para uma vida nova. Necessário vos é nascer de novo (Jo 3, 3), disse o Mestre a Nicodemos. Por essa razão, celebra-se o batismo no Sábado Santo.

A Ressurreição simboliza os anseios de uma vida nova, a busca da dimensão verdadeira de nossa existência. É fruto do Amor, que tudo renova e recria. Isto é a Páscoa, que é também esperança e não apenas memorial. É a certeza de um acontecimento. Ele ressuscitou e já não morre mais! Ensinou-nos que o Amor é mais forte que a morte, pois é Vida. E Jesus, sendo Filho de Deus é o Amor em plenitude; é a Força, o Espírito que restaura o mundo. Quem ama, fala muito do amado. É o testemunho. Por isso somos chamados a proclamar o Ressuscitado. Cabe-nos, pois, pregar esse Cristo a uma sociedade marcada por sinais de morte e opressão. No primeiro dia da semana (Jo 20, 1), Madalena foi à procura do corpo do Salvador. Inicia-se a nova criação, nascida da alegria e da vitória. Somos vencedores e não derrotados, esta é a mensagem central de toda a Semana Santa, especialmente do Tríduo Pascal!

Eis também o tempo do grande anúncio para todos com a Palavra e com a Vida! É preciso anunciar que existe a possibilidade de um mundo novo para aqueles que creem em Cristo e vivem Sua mensagem, mesmo talvez sem o saber ou conhecê-lo. A pedra removida do túmulo é uma lembrança de que também a nós cabe remover as pedras, que encobrem a morte, a desilusão, a vingança, a violência, a fome, a impunidade etc. para poder surgir a Vida! Temos a missão de continuar o anúncio da Vida, que vence a morte. O trabalho em nossas comunidades iluminadas por Cristo, Maria e Luzia deve nos impulsionar a uma vida nova de santidade, amor, solidariedade e paz, fruto da Ressurreição!

Precisamos acolher e fazer nossas aquelas palavras do Cristo Ressuscitado às mulheres, que foram visitar o túmulo: Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá me verão. Ou por outra, repetir as palavras do Anjo: Não tenham medo. Sei que vocês estão procurando Jesus que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou como havia dito. Vão depressa anunciar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos e que vai à frente de vocês para a Galileia. A Ressurreição, de fato, é a maior e mais linda novidade de nossa fé. Ela é um dom grandioso oferecido por Deus em Jesus para todos os que receberam a graça do batismo. Por isto, não precisamos perder tempo nem ter medo. Cabe-nos correr – imitando o gesto das mulheres que se dirigiram ao túmulo de Jesus – ao encontro dos muitos discípulos do Senhor, espalhados pelo mundo, e levar-lhes a notícia da Ressurreição, da vitória definitiva de Jesus sobre o pecado e a morte. Devemos correr ao encontro de nossos irmãos desanimados pelo peso de suas cruzes e anunciar-lhes que Jesus está vivo. Como Ele venceu, também nós venceremos. Ele nos precedeu no caminho da vida. É preciso mostrar aos homens e ao mundo, especialmente aos que sofrem, que da cruz renasce a vida, a esperança e a certeza da ressurreição! Não podemos esquecer que toda a obra da criação foi transformada e redimida pela Páscoa de Cristo. A partir daí tudo ganha novo sentido e um valor diferente!

A PÁSCOA DO SENHOR

Comemorar a Páscoa em 2026 significa, antes de tudo, acreditar que todas as situações de morte – que vemos acontecer e nos escandalizam – têm uma resposta: a vitória da Vida sobre a morte! Sim, em meio a tantas notícias de desemprego, divisões políticas, crimes, violência, desrespeito à vida, fome, corrupção e impunidade, nós cristãos temos a felicidade, a alegria e a graça de poder anunciar o Cristo Ressuscitado.

Celebrar a Ressurreição de Cristo é sentir a presença de Deus, que veio morar conosco e desceu ao nível mais profundo das situações humanas a fim de anunciar e convencer a todos que temos a vida em abundância. Jesus veio trazer a certeza da possibilidade de viver em fraternidade, colaborando uns com os outros, sentindo o próximo como irmão.

Neste tempo de tanta violência e ódio, fartamente noticiados pela mídia, queremos anunciar que o perdão e o amor são possíveis. Aos que creem em Cristo, desejamos lembrar o compromisso de construir um mundo novo, ou seja, a civilização da Vida e do Amor. Como gostaríamos que a Boa Notícia fosse largamente anunciada, levando todos a lutar e viver tempos novos!

Mas, infelizmente, ainda hoje nos deparamos com crianças abandonadas, desnutridas ou prostituídas, filas intermináveis de pessoas à porta dos hospitais, buscando soluções para a saúde, desespero diante da falta de dignidade a que tantos são submetidos, pais aflitos perante as dificuldades de seus filhos sem comida e escola, chefes de família desempregados (pois a sociedade da produção os relega), mães que choram a violação de suas filhas ou a morte violenta e inesperada de seus entes queridos. Diante desse quadro tem-se a tentação de cruzar os braços, acostumar-se com o mal e não lutar pelo bem.

No entanto, a celebração pascal é o grande impulso para dizer aos homens que o mundo tem solução. Ela está no Amor e na fé no Ressuscitado. Sua Morte redentora e sua Ressurreição levam-nos à experiência de acreditar na possibilidade de uma nova vida. Cabe-nos a missão de trabalhar para que essa novidade possa acontecer. Cada geração tem a tarefa de atualizar a Páscoa. Eis o simbolismo dos algarismos que indicam o ano em curso no Círio Pascal! Cada um de nós é chamado a viver a atualidade da Páscoa do Senhor. Ao celebrar liturgicamente a Ressurreição de Cristo, deve renascer em nossos corações o desejo de continuar com afinco o anúncio e a luta pela vida em todas as suas dimensões, porque Cristo a trouxe e Ele está vivo entre nós. A celebração da Páscoa é um convite para transformar as opressões, que pesam sobre os ombros de nossos irmãos, em vida e esperança!

É claro que não temos esperanças ingênuas diante do pluralismo existente e das culturas de morte, espalhadas dentro e fora do ser humano! Conhecemos a realidade do chão que pisamos e somos solidários a tantos que experimentam as dores do mal em suas vidas. Neste tempo em que se duvida de tudo, há questionamentos que atingem até mesmo a existência, a missão e a Ressurreição do Filho de Deus. Mas, a experiência pascal de voltar atrás, como os discípulos de Emaús, leva-nos a anunciar, junto com os apóstolos, esta mensagem: Ele Ressuscitou e disso nós somos testemunhas.

 Celebrar a Páscoa significa não cair no desânimo de lutar pela paz, apesar da fragilidade com que a vemos existir. Consiste em dar continuidade às esperanças, mesmo se ao redor de nós muitos já tenham desistido. É acreditar na Vida porque Cristo que morreu e foi sepultado, está Vivo e Ressuscitado! Páscoa é alegria pela Vida, é compromisso do cristão com todos os seus irmãos de hoje e a esperança de ver no horizonte do mundo atual a luz do Sol da Justiça e a luz do Amor!