
Padre João Medeiros Filho
Cristo proclamou no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra” (Mt 5, 5). A mansidão é uma das belas virtudes cristãs, que habita no templo da alma de Dom Heitor de Araújo Sales. Ele sempre teve consciência de que o amor de Cristo não se impõe pela força; ele cativa pela serenidade e doçura. A Bíblia narra que Deus se revelou, não em ruídos sonoros ou na chama que arde, mas numa brisa suave (1Rs 19, 12). Nosso homenageado detém e cultiva esse dom divino. “A cada um é dada a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos” (1Cor 12, 8), garante o apóstolo Paulo. Há setenta e um anos, tive o privilégio de conhecer Dom Heitor. Fui seu aluno, sacerdote de sua diocese (em Caicó), colega de magistério na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e seu vizinho, há duas décadas. Sua presença é serena, discreta, prudente. Com palavras edificantes e ponderadas tem o dom de orientar, apaziguar e perdoar.
Poder-se-ia aplicar-lhe os dizeres encontrados no Livro dos Provérbios: “Suas palavras gentis são como um favo de mel, doçura para a alma e saúde para o corpo” (Pr 16, 24). De uma nobreza, ternura e sensibilidade ímpares, transpira delicadeza e compreensão. Trata todos com lhaneza, elegância e igualdade. Ao longo de sua vida, com gestos e palavras, vive o ensinamento de São Gregório Magno: “A mansidão é a riqueza da alma e a exuberância do coração. A arrogância não condiz com a alma de pastor.”
Um dos belos predicados de nosso arcebispo emérito é sua capacidade de ouvir com atenção quem o procura. Segue o Mestre em sua constante atitude de disponibilidade e diálogo. É antológica a postura de Jesus Cristo ouvindo, horas a fio, Maria sob os apelos e reinvindicações de Marta. Memorável é o tempo dedicado pelo Nazareno à Samaritana, junto ao Poço de Jacó (Jo 4, 4-27). Os gestos de atenção de Cristo a Zaqueu, ao jovem rico (Lc 18, 18ss), aos fariseus diante da mulher adúltera (Jo 8, 5ss) mostram a paciência do Mestre para sentir o termômetro da alma. Dialogou muito, por isso compreendeu e perdoou ainda mais. Nosso amigo sempre foi assim. Por tantos talentos e carismas, por saber ser um ouvinte especial, foi escolhido como diretor espiritual do Seminário de São Pedro. Ao longo de sua existência, Dom Heitor palmilha os caminhos de Jesus: “Batei e a porta vos será aberta” (Mt 7, 7). Ele é um ser ungido, vocacionado na arte de ouvir e ponderar. São Clemente de Alexandria dissera: “Os prudentes e sábios dedicam-se mais à escuta, declinando da eloquência.”
Nosso homenageado é um homem do silêncio. Os sábios e místicos sabem cultivá-lo, pois estão em perfeita sintonia com Deus. A experiência monacal escolhe o claustro para favorecer o colóquio com Deus. Dom Heitor, assim como Exupéry, em O Pequeno Príncipe, sente que “no silêncio alguma coisa irradia.” Grande conhecedor dos místicos cristãos, percebeu como Santa Teresa d’Ávila: “O silêncio é a voz de Deus que abafa os barulhos da natureza.” Sabe bem que dele brota o fruto da paz interior. Segundo o poeta amazonense Thiago de Melo, “o silêncio é um campo plantado de verdades, que aos poucos se tornam palavras.”
Nosso caríssimo arcebispo emérito vive plenamente a sua vocação, tocado pela beleza da graça divina, possuído pelo amor ao Evangelho. Prefere os lugares tranquilos para viver. Na década de 1960, escolheu a quietude de Ponta Negra. Em Caicó, quis a sua residência num local afastado do burburinho citadino. Após sua renúncia, foi morar no sossego da antiga Granja de Dom Nivaldo, em Emaús (Parnamirim). Ensina o Livro do Sirácida: “Façamos o elogio dos homens ilustres, através das gerações” (Sr 44,1).