/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2024/i/6/6P8MFjSGyQU39MbAne1Q/408192603.jpg)
Por Jean Paul Prates
Nos últimos meses, manchetes têm sugerido que as grandes petrolíferas estariam “voltando aos combustíveis fósseis” e abandonando a transição energética. O argumento se apoia em movimentos como a compra, pela TotalEnergies, de usinas a gás natural na Europa, ou a retomada de projetos exploratórios da ExxonMobil, sempre bem alinhada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Mas tomar esses casos como tendências universais não apenas simplifica demais um setor complexo como também distorce o que está realmente em curso: um ajuste pragmático, não um retrocesso.
Para entender o momento, é preciso distinguir comunicação de estratégia. Depois de anos de entusiasmo público com investimentos em eólica e solar, parte das empresas percebeu que a retórica climática estava produzindo expectativas irreais e, muitas vezes, hostilidade política. Falar menos passou a ser uma forma de proteção — não de desistência. Paradoxalmente, o silêncio atual coincide com uma fase em que vários projetos de baixo carbono avançam de modo mais técnico e menos publicitário.
Outro ponto ignorado por leituras apressadas é que a expansão de renováveis exige “energia firme”, capaz de compensar a intermitência de sol e vento. Na Europa, essa função recai principalmente sobre o gás natural. Ao reforçar ativos gás-elétricos, empresas como a Total não estão renunciando à transição, mas garantindo a estabilidade necessária para ampliá-la. Não por acaso, a companhia segue entre as maiores investidoras globais em solar, eólica offshore e hidrogênio, ao mesmo tempo em que fortalece seu portfólio de GNL. É um movimento de diversificação, não de retorno ao passado.
A narrativa do “abandono da transição” também ignora diferenças regulatórias. Exxon e Chevron, operando em um ambiente político menos amigável ao clima, nunca abraçaram a transição com o mesmo ímpeto das europeias. Já BP, Equinor, ENI, Repsol e Shell continuam investindo bilhões em tecnologias de baixo carbono — ainda que com mais seletividade após a queda das margens na eólica offshore e mudanças nas cadeias globais de suprimento.
Se há um consenso no setor, ele não é o de retroceder, e sim o de abandonar ilusões. A transição energética será mais lenta, mais cara e exigirá coexistência entre gás e fontes renováveis por décadas. Trocar esse equilíbrio por rupturas apressadas geraria instabilidade econômica, risco regulatório e, ironicamente, atraso climático.
O que está acontecendo não é uma guinada ao petróleo, mas uma transição menos ruidosa e mais industrial. Menos slogans; mais engenharia. Menos “marketing verde”; mais portfólios equilibrados. A mudança está longe de terminar — só ficou mais madura.
www.medium.com/@jeanpaulprates