Padre João Medeiros Filho
Cada vez mais assiste-se às barbáries que desfiguram tanto o Brasil. Urge tentar corrigir os descompassos políticos, sociais e familiares que vêm causando insegurança e perda de rumos da sociedade. Isto deve ser prioridade para os cidadãos e instituições. Permanecer indiferente a esse cenário acarreta graves consequências. A assimilação passiva de tais dinâmicas perversas torna o indivíduo acomodado a situações desprezíveis. Comportamentos abomináveis se repetem. Agir com firmeza na luta contra situações desoladoras é um dever imprescindível. Não é justo deixar-se contaminar pelo processo de degradação que devasta a nossa pátria.
Superar a passividade deve ser o ponto de partida para enfrentar este “vale tudo” da atualidade. Muitos agem segundo os próprios interesses, desconsiderando os valores e referências. Vidas são sacrificadas e subjetivismos são impostos à coletividade. A ética e o bem comum são trocados por dinheiro e sede de poder. O desrespeito ao bem coletivo está se tornando regra e a cultura das apropriações indébitas (arquitetadas por diabólicos esquemas de corrupção) virando rotina. A violência, que compromete o direito de ir e vir, leva tantos à morte. Eis algumas das sérias consequências desse abandono social. É preciso acordar. As igrejas não podem calar. “Non possumus non loqui” (Não podemos não falar), afirmara Pedro diante das arbitrariedades (At 4, 20). Cada cidadão deverá assumir o desafio de investir em uma nova mentalidade, marcada por qualificados modos de relacionamento. Sem isso não adianta mudar os membros dos parlamentos nacional e estaduais, pois a governabilidade estará sempre comprometida. Faltará a lucidez indispensável aos entendimentos essenciais para conduzir o Brasil rumo a uma realidade promissora. Não basta apenas investir em circunstâncias e quadros inconsistentes e superficiais, com discursos cheios de pirotecnia eleitoreira, vazios de sentido de responsabilidade e aspirações democráticas. Haverá sempre a briga pelo poder, usando-se de todos os métodos, seguindo o nefasto sofisma: “os fins justificam os meios”. É inadiável para o Brasil uma renovação cultural para se recuperar valores e pilares que sustentam a solidariedade e o compromisso com o bem comum.
Todos são responsáveis pela construção de novos rumos. A tarefa é ingente e requer empenho diário e tempo. A transformação demandará anos para se efetivar. Mas, sem a busca dessa mudança vão continuar os homicídios, roubos, corrupções, inseguranças, destruição da família etc., fruto do egoísmo de alguns. A abominação oriunda de interesses gananciosos, além outras tragédias diárias, não será debelada sem uma postura fundada nos valores éticos e humanistas. Verificam-se ocorrências reveladoras do descompasso moral e emocional dos cidadãos, tanto pela crueldade que as envolvem, quanto pela indiferença com que são percebidas pela sociedade. Há uma diversidade de barbáries que vão moldando a sociedade brasileira. A perversidade humana ultrapassa os limites imagináveis. É triste e preocupante ver se configurando no âmago das crianças e jovens hábitos que os deseducam, destruindo postulados e princípios fundamentais ao exercício da cidadania. Reina a lei do vale tudo e salve-se quem puder!
As reações frente a esse cenário reclamam um envolvimento eficaz que transcenda ideologias, partidarismos e interesses particulares ou de grupos. Por onde começar? O primeiro passo é tomar consciência da dinâmica que envolve o mundo na contemporaneidade. Convive-se também com informações irrelevantes, inverídicas e malévolas que circulam nas redes sociais sem lucidez e vontade altruísta. A pletora de dados e notícias gera confusão e causa ditadura de opinião de falsos comunicadores. Esse fenômeno, que se generaliza, é caracterizado por pessoas e grupos que emitem juízos precipitados, a partir de interpretações equivocadas, alimentando a violência e o caos. Para reverter esse quadro, deve-se cultivar a honestidade intelectual e a serenidade. “Sabemos menos do que pensamos saber”, afirmava Santo Irineu. Não cabe mais impor opiniões em um mundo que se torna cada vez mais complexo. A força do diálogo e o respeito às pessoas são necessários para enfrentar as barbáries. Qualificar-se para dialogar – percebendo os próprios limites – é conduta indispensável e coerente com a moralidade e as autênticas relações fraternas. “Com brandura deve-se corrigir os opositores, é possível que assim voltem à sensatez” (2Tm 2, 25).