Almejando um Feliz Ano Novo

Padre João Medeiros Filho

O tempo é um desafio. Não se trata apenas de uma sucessão automática de dias, apesar dos avanços da ciência e suas ingentes conquistas, nas últimas décadas. A sua realidade fugidia é complexa e inexplicável por conceitos meramente cronológicos. Porém, a humildade – que desnuda o coração humano de toda pretensão – é capaz de criar a possibilidade de não o transformar em um aguilhão, ferindo cotidianamente cada um de nós. A simplicidade faz-nos aceitar os enganos das escolhas. O tempo passa inexoravelmente. Hoje, tem-se a sensação de que ele é mais veloz. Há avalanches de propostas, informações e dados veiculados pelas redes sociais, possibilidades e necessidades criadas que nos assaltam. Muitas delas são desprovidas de interioridade. Mestres da espiritualidade, místicos, filósofos ensinam que o tempo é, antes de tudo, uma questão interior. Se concentrarmos tudo na exterioridade, ele não só passa mais rápido, como também se esvai à nossa revelia.

O desejo de um verdadeiro “Feliz Ano Novo” necessita de algo mais profundo. Urge cultivar a sensibilidade humana, desenvolvendo outro estilo de relacionamento social. O profeta Isaías, para despertar a consciência do povo sobre um novo tempo, fala do sentimento e propósito de Deus a serem assumidos por todos. O hagiógrafo afirma que o Onipotente, por amor e solidariedade a seu povo, não descansa enquanto “não surgir na sociedade, como um luzeiro, a justiça, e não se acender nela, como uma tocha, a paz” (Is 62, 1). E isso é a novidade para o profeta. Deste modo, desenha-se o caminho para que nos coloquemos na contramão dosinteresses egoístas, partidários, até mesmo religiosos, àsvezes, mesquinhos e alienantes. Infelizmente, há em diversos países movimentos políticos, ideológicos e culturais, querendo apagar as luzes da Boa Nova (Evangelho), trazidas pelo cristianismo.

Para que haja realmente um Ano Novo é preciso renovar-vos pela transformação espiritual de vossa mente”, aconselhou o apóstolo Paulo (Ef 4, 23). Vamos reduzir a insensibilidade, a violência, o ódio, o radicalismo e regar de ternura nossos sentimentos mais íntimos. Em 2022, empenhemo-nos por acreditar em nós mesmos e emnossa criatividade para superar crises. Inegavelmente,carregamos dentro de nós a força maior da fé, da esperança e do amor. Esforcemo-nos para estender aos outros os nossos braços, como pessoas livres e não reféns do deletério egoísmo. É preciso cuidar daquilo que se fala. Não pronunciemos ou escrevamos difamações e insultos, nem repassemos mentiras e injúrias. O ódio destrói quem o carrega em seu coração e não o odiado. Troquemos a maledicência pela benevolência. Adotemos o costume deexpressar alguns elogios por dia, em vez de desconfianças,críticas e lacrações.

Procuremos não desperdiçar o tempo e nossa vida,hipnotizados pelas redes sociais. Acautelemo-nos para não navegar irresponsavelmente pela internet. Não raro,muitos naufragam no turbilhão de imagens e incontáveis informações que muitas vezes não conseguem absorver. Não deixemos que as seduções da mídia neutralizem ou destruam nossa capacidade de discernir, transformando-nos em consumidores autômatos e compulsivos. A publicidade anuncia felicidade. Entretanto, nada nos oferece, a não ser prazeres fugazes. Tentemos centrar nossas vidas em valores permanentes e não nos efêmeros. Busquemos o silêncio neste mundo ruidoso. Lá encontraremos a nós mesmos e, com certeza, Deus, que é pouco lembrado.

Cuidemos da saúde, sem a obsessão das dietas e a escravidão das balanças e malhações. Os extremos são perigosos e nocivos. Aceitemos as inevitáveis cãs e rugas.Não temamos as marcas do tempo em nosso corpo. Elas são sinal de sabedoria e experiência. Usemos revitalizadores da compreensão, generosidade e compaixão. Não devemos confundir o urgente com o prioritário. Não nos deixemos guiar pelos modismos. Afastemos de nossa mente sentimentos que discriminam epensamentos que excluem. A vida é breve e, de definitivo e certo, só sabemos da chegada implacável da morte. Guardemos um espaço em nosso cotidiano para ir à procura do Transcendente. Deixemos que Ele habite em nossa subjetividade e aprendamos a fechar os olhos para as aparências. Assim, haveremos de concluir que Deus é o eternamente novo”, como expressou Santa Teresa de Calcutá!