Padre João Medeiros Filho
O farisaísmo que Cristo tanto combateu parece estar de volta. Vive-se uma época de incongruências, um dos males dos tempos hodiernos. Após o advento das redes sociais, a retórica ou a narrativa conta mais que a coerência dos fatos e discursos. Criam-se artifícios e engodos para se ganhar “likes”. Deste modo, as opiniões pulverizam-se à revelia da verdade, ao arrepio do bom senso e equilíbrio. Atualmente, verifica-se mais acesso à informação e menos discernimento. Há grande quantidade de falas e enormes distorções, ao interpretá-las. Isso pode ter ocasionado aparentemente mais “liberdade”, entretanto vem gerando acentuadas e verdadeiras prisões ideológicas. Cresce um tipo de maniqueísmo ético e doutrinário, visando a instalar o caos. Até cristãos se deixam levar por esse dualismo que, além de desacreditar a religião, ameaça a sua missão profética.
Os historiadores narram que o cristianismo, em muitos lugares e várias ocasiões, conseguiu libertar a humanidade de inúmeras “babilônias” e “babéis”. Mas parece que o Brasil e o mundo estão se tornando herdeiros de um farisaísmo, camuflado de fanatismo (ou fundamentalismo) político-ideológico e religioso. É um retorno à era na qual a exterioridade ofuscava a verdade interior. Trocam-se pelo prestígio a honestidade, a justiça e a dignidade. Há um regresso à Palestina de outrora, na qual se preferiu Barrabás a Jesus Cristo. Endeusam-se certos políticos, considerando-os como “enviados do céu”, que à sorrelfa se locupletam daquilo que pertence ao povo e à nação. Até a liturgia está se transformando em espaço ideológico ou expressão de um ultramontanismo descabido. Expurga-se a Palavra de Deus. Esta deve ser “lâmpada para os nossos pés e luz para os nossos caminhos” (Sl 119/118, 105). No entanto, permite-se que ela se misture a conveniências individuais ou grupais. A obsessão por essa “estética” social estéril e excludente – que se manifesta como expressão do culto ao ego – prejudica o encanto inegociável da fé, legado divino ao ser humano.
O mundo atual está repleto de contradições. Isto se reflete também entre os católicos. Até alguns anos atrás, desrespeitar o Papa era coisa de incrédulos e ateus ou da mídia anticlerical. Hoje, critica-se abertamente o Pontífice e quem defende suas mensagens ou ideias é “démodé”, devendo ser rechaçado. Durante a pandemia, a mídia empanzinou o povo de tanto falar nela. Alguns fiéis questionaram a orientação pastoral de suspender as celebrações religiosas (mesmo se delas não participassem). Mas, calaram-se diante de decisões das autoridades, determinando o fechamento dos templos, em nome “da ciência de ocasião”. Será que voltaremos à vigência do Padroado? Não se mostra muito preocupado com a liberdade das igrejas quem cede a esse constantinismo, uma tendência que, ao longo da história, instrumentalizou a religião para fins políticos. Não foram os padres e pastores que cerraram as portas das igrejas, mas o poder civil. Há canonistas e juristas que questionam se houve alvedrio do Artigo 5º, Inciso VI da Carta Magna. Vive-se a era de intromissão dos poderes. Um provecto seridoense, bem vivido e muito lúcido, assim comentou: “Seu vigário, são tantas as formas de fariseus modernos”… Hoje, até o simbolismo da Praça de São Pedro, arquitetada por Bernini para ser ícone de uma Igreja que abraça o mundo, paulatinamente está perdendo o seu sentido. Mesmo se naquela época a instituição não gozasse tanto dessa prerrogativa, tal monumento tem a intenção de remeter à essência da mensagem deixada por Jesus.
Surgem novos “doutores da lei” e propagadores dos bons costumes que fecham os olhos para os sofridos, doentes e esquecidos dos poderes (até mesmo o religioso). Aparecem os “defensores da fé” semeando dos altares e púlpitos dúvidas e cizânia entre os seguidores. Nascem movimentos “em favor da vida”, que tratam a existência dos idosos e indefesos, como menos importante, talvez descartável. Há os que se vangloriam de sua “fidelidade” a Roma, contudo, ignoram, em certos momentos e assuntos, os ensinamentos de seu bispo (o Papa). Não faltam os “memorizadores e arautos” de documentos eclesiásticos oficiais (manifestos, declarações etc.) que esquecem o Evangelho. Parece ser esta uma sociedade de contradições! Tem-se a impressão de que desponta um novo farisaísmo. Porém, Cristo já advertia: “Cuidado com os falsos profetas” (Mt 7, 15).