Sabedoria, dom e virtude

Padre João Medeiros Filho
“A sabedoria é mais preciosa do que as joias e nada a ela se compara” (Pv 8, 11), como se lê no Livro dos Provérbios. As sociedades ocidentais e orientais conhecem lendas, parábolas e ensinamentos que abordam essa temática. Em geral, os dotados de sabedoria são indivíduos maduros, serenos, prudentes, moderados, sóbrios no falar, firmes nas decisões e pacíficos no agir. Mostram-se conhecedores dos problemas existenciais e sociais. Interagem, de forma respeitosa, obrigando o interlocutor a colaborar na busca de respostas. Assim, Cristo é tido por seus adeptos e integrantes de outras crenças como um dos grandes sábios da humanidade. Na Bíblia, há um livro com esse nome, talvez pouco difundido entre os fiéis. Além dele, existem outros textos religiosos em linguagem sapiencial, abrindo espaço para amplos estudos e orientações vivenciais. A Sagrada Escritura revela a vontade divina sobre a sabedoria: “Meu filho, se o teu coração for sábio, o meu coração se alegrará” (Pv 11, 29).
Na literatura bíblica não há definições uniformes a seu respeito, pois ela deverá permear toda a vida e o interior do ser humano. Revelar-se-á no cotidiano e não se apresentará de forma monotemática. “Ela é mais bela que o Sol, supera todas as constelações. Comparada à luz, é mais brilhante, pois à claridade sucede a noite, ao passo que contra a sabedoria o mal não prevalece”. (Sb 7, 30). Uma de suas características principais consiste em saber discernir e apontar o que favorece à vida ou levará à morte. Neste sentido, conta com a experiência pessoal, a comunhão com as conquistas do passado e a interpretação dos fatos recentes. Daí, advêm luzes para orientar as opções e os comportamentos individuais e sociais. Distingue-se de erudição, conhecimento e ciência, independendo de cultura, raça, religião e idade. Aproxima-se do bom senso, equilíbrio e harmonia. Conduz a maneira de se comportar e agir em diversas situações. Reflete o discernimento necessário para quem governa. Administrar exige lucidez para escolher o bem comum e procurar realizá-lo.
Salomão é o protótipo da sabedoria na literatura veterotestamentária. Primava pela sintonia com o bem-estar de seu povo, a equidade e a vontade divina. É antológica a sua prece: “Dá, portanto, a teu servo um coração sábio, que possa distinguir entre o bem e o mal, a fim de que eu possa governar o teu povo com justiça e equidade, pois sem a sabedoria que vem de ti quem pode governar este teu grande povo”? (1Rs 3, 9). Vale citar as palavras atribuídas a São Francisco de Assis (também presentes em prece celta e ensinamento oriental): “Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra”. Pode-se inferir que ser sábio é agir sob a inspiração de Deus, justo e misericordioso, mostrar-se capaz de refletir com objetividade sobre temas existenciais: sofrimento, morte, poder, fragilidade, serviço etc. A sabedoria é dom do Espírito Santo, que transforma o coração do homem, mas, ao mesmo tempo, virtude adquirida e cultivada por meio da ascese e reflexão. É desenvolvida com a humildade, retidão e capacidade de ouvir e discernir.
Sábio é aquele que se habitua a escutar e reexaminar as tradições, as ideias aceitas e veiculadas no presente, relacionando-as com as mudanças indispensáveis para o tempo presente ou que há de vir. Nesse processo, a sabedoria ajuda a corrigir visões de mundo e a reavaliar comportamentos. Faz ver os limites do saber humano e previne contra o perigo de confiar unicamente na racionalidade. Não pode ser tratada como privilégio de alguns, mas responsabilidade de cada um. Uma sociedade é sábia, na medida em que o bem do próximo vem em primeiro lugar em suas escolhas e relações. Não admite, exclusões. “O sábio não é intransigente, radical e preconceituoso”, afirmava o filósofo Duns Scoto. A Sagrada Escritura concebe inspiradamente em poucos versículos a sabedoria e o sábio: “Seis coisas rejeita Deus e uma sétima Ele abomina: olhar arrogante, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que maquina projetos perversos, pés rápidos em buscar o mal, testemunho falso proferindo mentiras, e quem semeia discórdia entre os irmãos” (Pv 6, 16-19).