Lula tem mais motivos para se preocupar com Moro que Bolsonaro

Sergio Moro é um enigma. Quem previa que, ainda juiz federal em 2018, ele aceitaria o convite para ser ministro do vencedor da eleição presidencial, Jair Bolsonaro? Algumas pessoas podem dizer que já desconfiavam que Moro tinha vontade de alçar voos na Esplanada e na política. Certo. Mas disso a cravar que ele toparia ser ministro vai uma distância.

Um prejuízo para Moro foi pedir demissão da carreira de juiz. Outro foi enfrentar o risco reputacional. Muitos petistas disseram que, como juiz da Lava Jato, ele condenou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por simpatia a Bolsonaro.

Mas em 2020 Moro surpreendeu pelo oposto: rompeu com Bolsonaro e passou a ser um ácido crítico do governo. Até recentemente havia incerteza se se ele aceitaria ser candidato em 2022. Na 4ª feira (10.nov.2020) filiou-se ao Podemos e disse que está à disposição para ser candidato ao Planalto.

Agora a dúvida é qual será o efeito de Moro no quadro eleitoral de 2022 caso ele realmente seja candidato. Na pesquisa do PoderData (25-27.out) fica em 3º lugar, com 7% a 8% das intenções de votos, dependendo do cenário.

É difícil imaginar que ele possa tirar muitos votos de Lula em 2022. Quem gosta de Moro rejeita Lula e vice-versa. É mais fácil imaginar alguém que pensava em votar em Bolsonaro e, ao descobrir que o ex-ministro é uma opção, fique com ele.

Mas até isso tende a não ser muito frequente. A razão é que Bolsonaro já teve um desgaste no eleitor de classe média urbana em quase 3 anos de governo. A preferência pelo ex-ministro vai a 11% entre os eleitores que cursaram até o nível médio. Moro tira mais votos de outros nomes e dos que estavam indecisos. Poderá crescer mais nesses segmentos.

Para Lula, Moro traz uma desvantagem que não é a disputa direta por eleitores: sua simples presença traz a lembrança de que Lula foi condenado e preso por corrupção. O STF (Supremo Tribunal Federal) depois considerou Moro parcial e determinou novos julgamentos. Mas será preciso explicar tudo isso ao eleitor. E Moro obviamente se defenderá, o que exigirá tréplica.

Seria bem mais fácil para Lula criticar Moro se o ex-juiz ficasse fora da arena eleitoral. Mas, até mesmo por essa razão, não é o que Moro demonstra querer.

Fonte: Poder 360.