O vento que pode mover o Brasil

Por Jean Paul Prates

A COP30, em Belém, é uma oportunidade histórica para o Brasil reafirmar sua liderança em energia limpa. Mas o País ainda não aproveitou plenamente seu maior trunfo: o imenso potencial renovável da Margem Equatorial, que se estende do Rio Grande do Norte ao Amapá e reúne condições únicas de vento, mar e infraestrutura para gerar energia em larga escala e desenvolvimento sustentável.

Estudos técnicos a serem divulgados em breve confirmam que essa faixa litorânea pode gerar seis vezes toda a eletricidade consumida no País, a partir de uma capacidade instalada quatro vezes superior à infraestrutura elétrica atual. Trata-se de *uma das maiores fronteiras eólicas offshore do mundo*: energia limpa e estável para mover um novo ciclo de industrialização verde e digital no Norte e Nordeste, atraindo indústrias intensivas em eletricidade, hidrogênio verde e economia digital.

Mesmo assim, a narrativa oficial brasileira na COP30 ainda privilegia o gás natural, os biocombustíveis e um conceito impreciso de “hidrogênio de baixo carbono”. Essa expressão, que pode incluir rotas fósseis como o hidrogênio azul, dilui a credibilidade do discurso. O Brasil precisa afirmar com convicção sua aposta no *hidrogênio verdadeiramente verde*, produzido com energia eólica e solar, certificado e rastreável, para não dar margem a acusações de greenwashing.

O mesmo vale para os biocombustíveis. Embora representem uma conquista tecnológica brasileira, o setor não pode continuar blindado de contrapartidas ambientais e tributárias. A recente reforma manteve intactas as isenções do grande agronegócio — o setor mais privilegiado da economia e, paradoxalmente, um dos que menos contribui fiscalmente. Hoje temos no Brasil um *modelo regressivo que transfere a conta da transição energética para os demais setores produtivos*.

Outro ponto ausente da pauta brasileira é o *armazenamento de energia*. Sem uma política nacional para baterias, hidrogênio e redes inteligentes, o País desperdiça parte da eletricidade renovável que gera e limita a expansão de novas usinas. *Curtailment não é problema técnico: é falha de planejamento*.

Durante minha gestão à frente da *Petrobras*, reposicionamos a companhia como o maior desenvolvedor de projetos de energia offshore do Brasil, sozinha e em parceria com empresas como a Equinor. Essa estratégia integrava o legado da engenharia do petróleo à nova economia do mar. Infelizmente, o futuro desses projetos segue indefinido, em meio à falta de prioridade governamental para o tema.

O Brasil não precisa escolher entre petróleo e renováveis, mas *planejar uma evolução energética coerente*, que una tecnologia, sustentabilidade e justiça fiscal. Temos vento, sol, biomassa e competência industrial. Falta clareza de rumo na política energética para transformar potencial em aprimoramento da entrega.

O vento que sopra do Norte e Nordeste é mais do que um recurso natural. É a chave da reindustrialização limpa, digital e soberana que pode reposicionar o Brasil no mundo.