Do protagonismo ao equilíbrio: o desafio do STF no pós-crise

Do protagonismo ao equilíbrio: o desafio do STF no pós-crise - Foto: Antônio Cruz - Agência Brasil

Em tempos de incêndio institucional, ninguém questiona o bombeiro que arromba a porta, quebra o telhado e ainda molha o sofá novo da sala. O Supremo Tribunal Federal fez exatamente isso: avançou, ocupou espaço, julgou, condenou e, gostemos ou não, foi decisivo para que a democracia brasileira não virasse cinzas. Foi duro, foi barulhento, mas absolutamente necessário. Até a imprensa internacional — sempre cética com relação ao nosso carnaval político — reconheceu que era legítimo e louvável o STF agir com firmeza contra uma tentativa de golpe e condenar um ex-presidente. Ponto para o Supremo.

O problema é o dia seguinte. Porque, convenhamos, quem gosta de abrir mão de poder? Nem síndico de prédio quer deixar o cargo, imagine ministros da mais alta corte, aplaudidos como guardiões da República e figuras centrais na proteção da Constituição. É aí que mora o perigo: a transição da excepcionalidade para a normalidade. Se no auge da crise era aceitável que Alexandre de Moraes virasse quase um personagem de HQ — meio juiz, meio super-herói — agora o país precisa que ele e seus colegas tirem a capa, guardem os poderes extraordinários e voltem a atuar como magistrados, não como protagonistas ou árbitros de qualquer controvérsia nacional.

E não será simples. O ego institucional não é pequeno. A tentação de continuar decidindo tudo — das redes sociais ao destino de ex-presidentes, passando por medidas que impactam diretamente a vida política do país — é forte. Mas a verdadeira demonstração de responsabilidade democrática não está apenas no julgamento histórico que protegeu a Constituição, e sim na capacidade de recuar depois. O pós-julgamento é, em muitos aspectos, tão ou mais importante do que o próprio veredito. É no silêncio, na moderação e na prudência, e não no ruído e na pressa, que o STF poderá consolidar sua legitimidade e sua imagem de corte imparcial.

A imprensa internacional já nos deu a pista: aplaudiu a firmeza contra o golpismo, mas levantou a sobrancelha diante do excesso de poder. Quem poderá conter a Corte se ela decidir não se conter? O Congresso? A sociedade civil? A história mostra que, sem equilíbrio e responsabilidade, nenhum poder resiste incólume por muito tempo.

O Brasil precisa, mais do que nunca, de pacificação entre seus poderes. O STF cumpriu seu papel ao defender a democracia. Agora, a institucionalidade se medirá na capacidade de devolver espaço ao Legislativo e ao Executivo. Se souber fazer essa transição, o Supremo deixará de ser apenas o bombeiro da emergência para se consolidar como o guardião sereno da democracia. E, cá entre nós, seria ótimo que nossos juízes descobrissem que há vida — e prestígio — também fora dos holofotes, além da adrenalina das crises.

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